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30/12/2012

Os (possíveis) motivos pela queda de rendimento do futebol brasileiro

Ao longo das últimas décadas, o futebol brasileiro sempre esteve no primeiro escalão do futebol mundial. Antes mesmo da criação do ranking da Fifa, o Brasil era considerado a primeira ou a segunda força do futebol no mundo.

Esse cenário foi propulsionado depois da criação do ranking elaborado pela máxima entidade do futebol mundial. Além das inúmeras conquistas das décadas de 90 e início dos anos 2000, o Brasil sempre foi o líder no ranking, ratificando a sua posição como "o país do futebol".

Os atletas brasileiros sempre foram os mais procurados, e os principais clubes do mundo sempre contavam com os brasileiros como protagonistas nas conquistas. Esse efeito era notório quando a eleição dos melhores atletas do mundo acontecia. Na maior parte das vezes, um brasileiro era eleito (por vezes nos três primeiros postos estavam presentes dois brasileiros).

Contudo ao longo dos últimos anos esse cenário perdeu força e o futebol brasileiro não esta causando a mesma impressão que se habituou a causar nas últimas décadas.

Nas duas Copas do Mundo passadas não chegamos nem ao menos nas semifinais, nenhum atleta brasileiro está presente entre os melhores do mundo desde 2007 com o Kaká (obviamente estou citando apenas o futebol masculino), e no ranking da Fifa o Brasil despencou para a 13ª posição (atualizada no mês de novembro de 2012); nos principais clubes do mundo, nenhum atleta protagonista é brasileiro e na indicação da Bola de Ouro da Fifa, dos 23 melhores do mundo de 2012, apenas um é brasileiro (Neymar).

Após esse cenário, perguntas devem ser feitas por cada um de nós: qual a causa dessa queda assustadora de rendimento nos últimos dez anos?

1. Porque há dez anos éramos campeões do mundo e hoje estamos em 13° lugar?
2. De 1994 até 2007 elegemos por oito vezes o melhor futebolista do ano (Romário, Rivaldo, Kaká, Ronaldinho duas vezes e Ronaldo três vezes) e desde 2007 não elegemos mais ninguém?

Devemos levantar suposições e com elas refletir e agir para que não percamos o controle sobre nosso principal esporte, que sempre nos deu muito orgulho e felicidades.

Bom, vamos parar de lamentar e vamos procurar explicações para esse lamentável fenômeno.

Invariavelmente sempre achamos que o problema está na deficiência na aplicação dos treinos aplicados pelos nossos técnicos e preparadores físicos. Sempre encontro pessoas afirmando que estamos treinando os nossos atletas de forma equivocada e desatualizada e por isso o futebol brasileiro esta perdendo espaço para os demais países no mundo.

Concordo com esta tese em partes, pois em primeiro lugar não temos uma linha padrão de treinamento no futebol (aliás nenhum país do mundo tem) já com esse dado fica muito difícil definir se estamos atrasados ou não pois não sabemos aonde estamos e com isso não tem como comparar com ninguém.

Segundo ponto, desde a década de 80 e 90 já ouvia que estávamos atrasados em relação aos holandeses, italianos, alemães entre outros dentro do sistema de treinamento. Mesmo assim sempre revelávamos e ganhávamos constantemente. Essa característica (síndrome do cachorro vira lata) já esta presente na nossa cultura futebolística desde os anos 80 (pelo menos só posso dizer desse período pra cá). Sempre achamos que treinávamos abaixo dos europeus e na hora das competições rendíamos iguais ou melhores que todos eles.

Vale um relato pessoal: na década de 90 eu vi diversas fitas (não existia DVD) de treinamento holandês e/ou alemão no futebol, e sinceramente não via diferenças significativas dos treinos aplicados por nós aqui no Brasil, mas, tudo bem, vamos em frente.

Por isso quando afirmarmos que estamos perdendo tudo e não estamos revelando ninguém apenas pelo fato de possivelmente treinarmos abaixo do nível dos europeus, é recordar a mesma sensação que tínhamos décadas atrás, porém com resultados melhores. Com isso, não devemos nos focar apenas nessa questão e sim procurar mais explicações plausíveis e menos desculpas que já as mesmas estão presentes há mais de trinta anos sem conotação plena com verdade.

Uma questão que poucos se atentam, mas que é sim de grande importância no futebol, é a de como os clubes são geridos dentro dos seus diversos departamentos de futebol.

Nesse caso sim somos extremamente atrasados e retrógrados quando comparados aos europeus, asiáticos, americanos, e tantos outros.

Ao viajar esse mundo todo com o futebol eu sempre me deparei com uma lacuna gigantesca com o sistema de organização dos brasileiros quando comparado com o restante do mundo. A forma como o futebol é tratado com respeito e profissionalismo, por dirigentes profissionais e pautados em objetivos claros e seguros de suas finanças e possibilidades me assusta quando me deparo novamente com nossa situação do futebol brasileiro.

Na maior parte dos casos estamos nas mãos de torcedores com cargo que não enxergam o futebol dentro de um sistema organizacional, com planejamento e objetivos claros e respeitando tempo para poder atingir essas metas pré-estabelecidas.

É comum ver os times de grande torcida, com grande poder financeiro, tropeçando nos seus próprios problemas, pois os mesmos não têm o mínimo de organização por parte dos seus dirigentes.

Os problemas nesses casos são múltiplos, desde a escolha incorreta dos profissionais que se adaptem a metodologia do clube (que na maior parte das vezes não existe), até uma falta de sensibilidade na sequência do trabalho dos profissionais escolhidos.

Quando vamos apontar o foco para as categorias de base, percebemos que o caos esta instalado definitivamente.

Os departamentos não têm a menor compreensão do que seja linha única de trabalho, linhas pedagógicas recorrentes a cada faixa etária são ignoradas e o único objetivo que se estabelece é ganhar títulos dentro de cada categoria.

Nesses departamentos, por não haver uma fiscalização maior por parte da imprensa, o cenário é triste. Profissionais são contratados em troca de interesses pessoais (seja financeiro ou por trocas de favores pessoais de dirigentes), atletas são contratados por interesse de empresários, técnicos e funcionários do clube, e o que seria o principal departamento de formação de atletas, está nas mãos de incompetentes que ou não entendem de futebol ou de pessoas que entendem, mas que advogam em beneficio próprio e não dos seus clubes.

Obviamente que existem exceções e percebemos isso claramente na quantidade de atletas revelados por aquelas agremiações que trabalham de forma equilibrada e gerida por profissionais que respeitam o clube em que trabalham.

Outra hipótese que pode explicar a perda do rendimento do futebol brasileiro é a baixa qualidade desta geração de futebolistas brasileiros, porém eu não consigo definir se é apenas uma coincidência ou se essa geração é vitima das hipóteses anteriores levantadas anteriormente.

O detalhe que quero salientar é que por muitas vezes nos questionamos e buscamos métodos modernos de treinamento, achamos que estamos defasados e que toda a culpa da queda de rendimento está na baixa qualidade dos nossos treinos. Devemos sim cada dia mais procurar evoluir na nossa área e nos manter atualizados, mas não me parece que estamos tão defasados para gerar essa diferença de rendimento dos últimos dez anos.

Contudo me parece que devemos propor uma reformulação imediata para a forma como nossos clubes são geridos. Gestão é tudo. Da forma como estamos indo, por mais que evoluímos dentro de campo, pouco conseguiremos fazer para melhorar o cenário futebolístico no Brasil.

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