Universidade do Futebol

Entrevistas

23/01/2015

Osmar Moreira Júnior, professor da UFSCar

Apesar dos bons resultados já obtidos em Olimpíadas, Pan-Americanos e Mundiais, o futebol feminino no Brasil ainda conta com uma série de problemas e conflitos que deixam as jogadoras entre o cenário do profissionalismo e amadorismo.

As condições estruturais, desde aspectos como baixos salários ou mesmo o não pagamento por parte dos clubes, a instabilidade profissional durante toda a carreira, até as questões históricas, como o preconceito e a desigualdade de gênero nas escolas de iniciação ao futebol, ainda são os grandes entraves para o desenvolvimento da modalidade no país.

E, para o professor Osmar Moreira Júnior, docente da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), no interior paulista, esta realidade só mudará quando as próprias mulheres passarem a protagonizar a transformação neste esporte, ocupando espaços de tomada de decisão em esferas que vão desde jogadoras com atuação política, representantes sindicais, treinadoras, até a participação em cargos executivos em clubes, federações e em meios de comunicação.

Com sua tese de doutorado sendo realizada sob a perspectiva de jogadoras que querem seguir o caminho do profissionalismo no futebol brasileiro, Moreira Junior tem a exata ideia das ações que poderiam ser realizadas para que as mulheres tivessem mais oportunidades para atuar diretamente no futebol.

“O espaço destinado para as mulheres nos clubes está nitidamente demarcado pelas construções sociais de gênero, restringindo-se a funções tidas como femininas, como as de assistente social ou psicóloga. Mesmo em equipes de futebol de mulheres, em geral, são os homens quem dirigem e cuidam dos treinamentos. Não consigo vislumbrar grandes possibilidades de mudanças a curto ou médio prazo, mas acredito que seja necessária a adoção de políticas de ações afirmativas pautadas pela equidade de gênero, dentre as quais a criação de cursos de formação e qualificação profissional em gestão e treinamento esportivo exclusivo para mulheres ou com cotas bem distribuídas nesses cursos, bem como uma reserva de mercado para gestoras e treinadoras formadas por esses cursos”, aponta o professor.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, Osmar Moreira Júnior ainda fala sobre quais são os principais erros cometidos no processo de detecção, seleção e captação de talentos no futebol feminino, e a importância do movimento Bom Senso F.C. para cobrar melhorias junto à CBF. Confira a íntegra: 

 

Universidade do Futebol – Fale sobre a sua formação e como se deu o seu contato e interesse pelo futebol feminino.

Osmar Moreira Júnior – Sou graduado em Educação Física pela Unesp de Rio Claro e, em meu último ano de curso, quando da realização de minha monografia de conclusão, sob a orientação da professora Suraya Darido, optei por pesquisar o ensino do futebol para meninas de 5ª série do Ensino Fundamental em uma época (1991) em que as turmas de Educação Física eram separadas por sexo e o futebol, para as meninas no espaço escolar, era um grande tabu.

A pesquisa nos permitiu identificar que apesar das meninas se sensibilizarem pela prática da modalidade, envolvendo-se efetivamente nas aulas, continuavam com um discurso de que não se sentiriam à vontade para jogar o futebol ou futsal fora do ambiente escolar. No meu mestrado (2000-2003), também na Unesp, estudei as relações de gênero nas aulas de Educação Física em aulas com o conteúdo futebol/futsal. No período do mestrado, passei a desenvolver um trabalho voluntário como treinador e “gestor” de uma equipe de futebol e futsal de meninas, que participava de competições em nível municipal (Rio Claro-SP) e regional.

A equipe chamada de Minerva Futebol Feminino manteve atividades de 2000 a 2008, contando com um número expressivo de meninas nesse período e conquistando uma série de resultados positivos do ponto de vista esportivo e da formação de um protagonismo juvenil de boa parte das participantes. Por fim, entre os anos de 2010 e 2013, realizei meu doutorado na Unicamp, sob a orientação da professora Heloisa Reis, estudando o futebol como projeto profissional de mulheres.

As condições estruturais observadas e narradas pelas jogadoras vão desde aspectos como baixos salários ou mesmo ausência desses vencimentos até as dificuldades enfrentadas para tratar de contusões devido à ausência de algum tipo de cobertura médica que proporcionasse maior agilidade de tratamento, lista o professor

Universidade do Futebol – Sua tese de doutorado foi realizada sob a perspectiva de jogadoras que querem seguir o caminho do profissionalismo no futebol. Você poderia nos falar um pouco mais sobre seus resultados e reflexões?

Osmar Moreira Júnior – Em minha tese, pesquisei três clubes que participaram do Campeonato Paulista de Futebol Feminino de 2011. Nesses clubes, acompanhei algumas rotinas e entrevistei gestores, treinadores e treinadoras, e fiz entrevistas em grupos focais com jogadoras. A ideia era compreender um pouco quais as condições objetivas e subjetivas vivenciadas por essas jogadoras, para interpretar as aproximações e distanciamentos de um "modelo de profissionalismo".

Os resultados da pesquisa indicaram uma série de conflitos que instituem o campo de atuação daquelas jogadoras em uma fronteira marginal entre o profissionalismo e o amadorismo (termo retirado da legislação esportiva, mas ainda corrente). As condições estruturais observadas e narradas pelas jogadoras vão desde aspectos como baixos salários ou mesmo ausência desses vencimentos até as dificuldades enfrentadas para tratar de contusões devido à ausência de algum tipo de cobertura médica que proporcionasse maior agilidade de tratamento.

Em contrapartida, as jogadoras afirmaram-se como profissionais, argumentando que se dedicavam quase exclusivamente ao futebol (salvo as demandas de estudos de parte delas), cumprindo rotinas como treinamentos, jogos, repouso funcional e outras atividades similares àquelas que jogadores profissionais homens cumprem em seu dia a dia. Porém, elas ainda ressentem-se do fato de não possuírem contratos e principalmente carteira de trabalho assinada, relatando que essa lacuna configura-se no principal motivo para a pressão que sofrem por parte dos familiares para abandonarem o futebol e dedicarem-se a outra atividade que socialmente seria reconhecida como trabalho.

Algumas das entrevistadas apontaram que uma das demandas necessárias para uma maior valorização do futebol feminino estaria ligada à criação de uma legislação que obrigasse a formalização do vínculo das jogadoras por contrato e carteira de trabalho. Destaco aqui uma passagem da entrevista da tese em que a fala das jogadoras faz menção a essa percepção (os nomes das jogadoras são fictícios):

PESQUISADOR: […] Na opinião de vocês, o que poderia ser feito para o futebol feminino ser mais valorizado, mais transmitido, mais bem remunerado no Brasil?

[…]

PATRÍCIA: Ah, eu vejo esse negócio de profissionalizar mesmo. Ter uma lei que tenha que ter… sabe, que a gente tenha carteira assinada… porque, daí, assim, consequentemente vai ter mais gente vindo pro futebol feminino… não só gente que é amador, vamos dizer assim.

AMANDA: E pra ter essa… pra… pra ter uma lei, daí as pessoas que é…. empresário, que tem aquela renda pra investir, pra poder ser patrocinador, vai ser… vai ter que patrocinar, porque… assim, não tendo a lei é difícil vir aquelas pessoas que querem patrocinar, que querem ajudar, é difícil.

O curioso é que, conforme pudemos constatar na tese, por meio de uma análise da legislação esportiva brasileira, tal situação já é legalizada. Ocorre que a Lei Pelé (lei nº 9.615/1998 alterada pela lei nº 12.395/2011) determina que o futebol obrigatoriamente deve seguir um regime profissional nas situações em que os atletas estão submetidos às exigências que descrevi anteriormente, fazendo jus à remuneração pactuada em contrato especial de trabalho desportivo, de natureza acessória ao respectivo vínculo empregatício.

A interpretação que fazemos é de que houve uma tentativa legal de salvaguardar os direitos dos futebolistas homens, mas tal mecanismo abre precedente para que as mulheres tenham seus vínculos com os clubes reconhecidos como profissionais, na medida em que a legislação não faz distinção de gênero, até porque tal distinção iria ferir a Constituição Federal que dispõem em seu artigo 5º, inciso I que: “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.

A partir dessas investigações, pudemos concluir que, recorrendo à legislação esportiva que atua de forma solidária com a legislação trabalhista, nenhum dos clubes pesquisados cumpre com as diretrizes legais, tendo em vista que submetem as atletas de suas equipes às exigências previstas como deveres de atletas profissionais na Lei Pelé, mas não oferecem a contrapartida que seria a remuneração pactuada por um contrato de trabalho esportivo.

Retomando a afirmação de uma de nossas entrevistadas, que assume considerar-se profissional do futebol e cotejando-a com a organização macro e microestrutural apresentada, podemos inferir que o estatuto de profissional de futebol pode ser aplicado a essas atletas, pautado nas definições do campo teórico e nas legislações vigentes.

Tomando como referência o texto da Lei Pelé, que estabelece que atleta profissional é aquele que tem remuneração pactuada por contrato especial de trabalho esportivo, nossa pesquisa percebe um paradoxo, pois as futebolistas participantes da pesquisa não deveriam considerar-se profissionais do futebol, pois não desfrutam desse direito. Em contrapartida, de fato, elas são profissionais, por possuírem respaldo legal e cumprirem com as exigências previstas nessa legislação.

Portanto, assim como explicitado nos discursos dessas atletas, acreditamos que é preciso cunhar uma representação alternativa para o estatuto do qual estão investidas e, nesse sentido, reconhecemos que elas são, sim, profissionais do futebol (embora não tenham tal estatuto reconhecido e efetivado), pois são detentoras de um capital simbólico referendado por seus pares no campo esportivo, como uma expertise forjada a partir da dedicação ao aprimoramento tático-técnico e a consequente e concorrente abnegação em relação a qualquer outro campo de atuação profissional concomitante.

Algumas das entrevistadas apontaram que uma das demandas necessárias para uma maior valorização do futebol feminino estaria ligada à criação de uma legislação que obrigasse a formalização do vínculo das jogadoras por contrato e carteira de trabalho. O curioso é que, conforme pudemos constatar na tese, por meio de uma análise da legislação esportiva brasileira, tal situação já é legalizada, aponta Osmar Moreira Júnior

Universidade do Futebol – Que tipos de barreiras existem ainda no futebol feminino para chegarmos a um patamar minimamente ideal?

Osmar Moreira Júnior – Sei que vai soar como senso comum, mas a maior barreira ainda é a do preconceito. Embora tenhamos avançado bastante nos últimos anos, ainda não se leva a sério o futebol praticado pelas mulheres. Temos uma representação alternativa para essa prática. É como se fosse um jogo “café com leite”, no qual elas estariam garantindo espaço a partir de concessões dos homens que seriam os detentores do legítimo futebol, do futebol para valer.

Juntamente com essa perspectiva, acredito que uma postura de vitimização do futebol de mulheres também se configura em um entrave para o seu desenvolvimento. É recorrente o discurso de falta de apoio e tal discurso contribui para que a modalidade continue “sobrevivendo de migalhas”.

É importante que as mulheres passem a protagonizar a transformação desse cenário, ocupando espaços de tomada de decisão em esferas que vão desde jogadoras com atuação política, representantes sindicais, treinadoras, até a participação em cargos executivos em clubes, federações e em meios de comunicação.

Esse reordenamento de papéis das mulheres vem acompanhado de seu empoderamento pelo esporte, instituindo uma relação na qual essas mulheres se apropriem de seus corpos para si, rompendo com os pilares daquilo que o sociólogo francês chamou de dominação masculina.

É importante que as mulheres passem a protagonizar a transformação desse cenário, ocupando espaços de tomada de decisão em esferas que vão desde jogadoras com atuação política, representantes sindicais, treinadoras, até a participação em cargos executivos em clubes, federações e em meios de comunicação, afirma o docente da UFSCar

Universidade do Futebol – Em sua opinião, como é tratada a questão do gênero nas escolas de iniciação ao futebol? Quais os reflexos disto no interesse das meninas em jogar futebol?

Osmar Moreira Júnior – Não tenho dados empíricos para me aprofundar no tema, mas tenho a percepção de que as escolas de futebol configuram-se – assim como os outros espaços do futebol – em uma reserva masculina, ficando as meninas incumbidas de se adequarem às normatizações desses espaços, assumindo o ônus de terem sua feminilidade contestada, por exemplo.

Nesse sentido, entendo que poucas são as meninas que se lançam a desafiarem as fronteiras simbólicas de gênero que operam nos espaços ligados ao futebol. Poderíamos ter muito mais meninas e mulheres praticando o futebol se elas fossem tratadas com respeito nesses espaços.

Universidade do Futebol – Como se manifesta o preconceito em relação às meninas que jogam ou desejam jogar futebol? Como isto interfere no modo que as pessoas percebem este esporte?

Osmar Moreira Júnior – O preconceito se manifesta de diferentes formas, indo desde situações veladas até as explícitas. Conheço algumas histórias de meninas que adoravam jogar futebol e suas famílias não as proibiam, mas faziam uma oposição silenciosa, por meio de ações como não comprar equipamento esportivo (tênis, chuteira ou bola, por exemplo), ou não acompanhá-las em seus jogos, em contraposição ao apoio aos seus irmãos.

Em outros casos, temos as proibições declaradas dos familiares ou atitudes de professores que realizam campeonatos escolares de futebol para os meninos e de queimada ou voleibol para as meninas, sem ao menos consultá-las sobre seus interesses. Assim, desde cedo as pessoas crescem com a impressão de que o futebol é um campo de interesse apenas dos homens, deslegitimando a participação das mulheres nesse campo.

Tenho a percepção de que as escolas de futebol configuram-se – assim como os outros espaços do futebol – em uma reserva masculina, ficando as meninas incumbidas de se adequarem às normatizações desses espaços, assumindo o ônus de terem sua feminilidade contestada, por exemplo, analisa

Universidade do Futebol – Qual a relação dessas meninas com os pais? Existe alguma resistência por parte deles na carreira da menina que deseja ser ou é jogadora?

Osmar Moreira Júnior – Acho que já tratei um pouco disso na questão anterior, mas para ampliar um pouco mais a discussão, as jogadoras que entrevistei relataram as mais diversas relações com seus familiares, mas um aspecto recorrente dizia respeito à preocupação desses familiares com relação à prática do futebol por mulheres não ser reconhecida como uma profissão e delas terem um vínculo precário com os clubes.

Quanto mais velhas as jogadores, mais essa preocupação se acentua, demonstrando que, na transição da adolescência para a idade adulta, a expectativa de inserção dessas mulheres no mercado de trabalho implica em uma rejeição familiar do futebol, tido por eles como uma atividade mais próxima da esfera do lazer do que do trabalho.

Quanto mais velhas as jogadores, mais essa preocupação se acentua, demonstrando que, na transição da adolescência para a idade adulta, a expectativa de inserção dessas mulheres no mercado de trabalho implica em uma rejeição familiar do futebol, tido por eles como uma atividade mais próxima da esfera do lazer do que do trabalho, aponta o especialista

Universidade do Futebol – Como a área acadêmico-científica vem se desenvolvendo em relação à produção de conhecimentos e formação de profissionais voltados para futebol feminino? Como isto pode ajudar a desenvolver a modalidade?

Osmar Moreira Júnior – O espaço ocupado pelo futebol de mulheres na academia é bastante limitado. Assim como no campo esportivo, as mulheres também ocupam um espaço periférico no campo acadêmico, no qual existe um desprestígio em cascata, na medida em que o tema é abordado pelas ciências humanas, nos subcampos do esporte/futebol e dos estudos de gênero, que são dotados de pouca representatividade e recursos financeiros na academia e, consequentemente, são raros os programas de pós-graduação e pesquisadores que se dedicam ao tema.

A academia deve ter um papel estratégico no desenvolvimento da modalidade, identificando as mazelas que assolam as múltiplas esferas de participação das mulheres no universo do futebol, bem como apontando caminhos para superar os desafios postos para a consolidação de políticas de equidade de gênero ligadas ao esporte e em especial ao futebol.

O preconceito se manifesta de diferentes formas, indo desde situações veladas até as explícitas. Conheço algumas histórias de meninas que adoravam jogar futebol e suas famílias não as proibiam, mas faziam uma oposição silenciosa, por meio de ações como não comprar equipamento esportivo (tênis, chuteira ou bola, por exemplo), ou não acompanhá-las em seus jogos, em contraposição ao apoio aos seus irmãos, afirma

Universidade do Futebol – Costuma-se falar muito em jogadoras de futebol, mas o fato é que, infelizmente, também há poucas mulheres trabalhando nas outras áreas do futebol, sobretudo de caráter mais técnico (professoras, treinadoras, preparadoras físicas, etc.). No seu entendimento a que se deve este cenário? O que poderia ser feito para que as mulheres tivessem mais oportunidades para atuar diretamente no futebol?

Osmar Moreira Júnior – Também já tangenciei esse assunto em outra questão, mas cabe novamente enfatizar a importância das mulheres ocuparem as esferas de tomada de decisão no universo futebolístico. Existe, sim, um teto de vidro para a atuação das mulheres no futebol e, mais do que isso, uma blindagem para que elas não acessem determinados cargos como treinadoras e dirigentes. Um clube da elite do futebol brasileiro jamais aceitaria que uma mulher participasse de sua diretoria de forma mais efetiva ou que fosse a treinadora ou mesmo preparadora física de seu elenco principal, ou mesmo das categorias de base.

O espaço destinado para as mulheres nesses clubes está nitidamente demarcado pelas construções sociais de gênero, restringindo-se a funções tidas como femininas, como as de assistente social ou psicóloga. Mesmo em equipes de futebol de mulheres, em geral, são os homens quem dirigem e cuidam dos treinamentos. Não consigo vislumbrar grandes possibilidades de mudanças a curto ou médio prazo, mas acredito que seja necessária a adoção de políticas de ações afirmativas pautadas pela equidade de gênero, dentre as quais a criação de cursos de formação e qualificação profissional em gestão e treinamento esportivo exclusivo para mulheres ou com cotas bem distribuídas nesses cursos, bem como uma reserva de mercado para gestoras e treinadoras formadas por esses cursos.

Em geral, as meninas passam a jogar futebol mais tarde do que os meninos e mesmo quando iniciam mais cedo, tem a desvantagem de não treinar sistematicamente ou competir em altos níveis de exigência antes (e mesmo após) a idade adulta, relata Osmar Moreira Júnior

Universidade do Futebol – No vôlei, por exemplo, há adaptações na altura da rede para a modalidade feminina. Você acha que no futebol, mudanças em tamanho do gol e/ou das dimensões do campo também seriam importantes? Como estas mudanças poderiam alterar a atratividade do jogo?

Osmar Moreira Júnior – Vejo como inviáveis tais adequações no futebol. Na verdade, com relação às dimensões do gramado, acredito que sejam desnecessárias, pois se eventualmente possamos identificar que falta preparo físico para que as jogadoras consigam distribuir-se de forma mais organizada pelo campo de jogo, mantendo o volume de jogo durante os 90 minutos da partida, isso se deve muito mais às desigualdades de condições de treinamento encontradas entre as equipes de homens e de mulheres, do que propriamente a algum tipo de limitação biológica.

Já no caso das metas, até concordo com a dificuldade que se tem de encontrar mulheres acima de 1,80 metros que consigam preencher de maneira mais efetiva as dimensões de uma trave oficial, contudo, qualquer tipo de adequação acaba inviabilizando a utilização dos campos espalhados pelo país e pelo mundo afora. Penso também que tal prejuízo em termos de biótipo das goleiras possa ser minimizado com o aprimoramento técnico das mesmas.

Acredito que o processo de detecção, seleção e captação de talentos no país é inviável, justamente pelo fato dos clubes não manterem divisões de base. Sem uma estrutura de treinamentos sistematizados nessas categorias e um circuito de competições organizado, nosso processo de formação de talentos continuará refém do acaso, dependendo de peneiras que muito mais deformam do que formam. Aliás, nada formam, diz

Universidade do Futebol – Qual é a sua avaliação, de maneira geral, sobre o nível de formação das jogadoras no futebol brasileiro? E quais são os principais erros cometidos no processo de detecção, seleção e captação de talentos?

Osmar Moreira Júnior – O nível de formação é precário. Poucos são os clubes que mantém categorias de base e mais raros ainda aqueles que possuem um trabalho de boa qualidade nessas divisões. Em geral, as meninas passam a jogar futebol mais tarde do que os meninos e mesmo quando iniciam mais cedo, tem a desvantagem de não treinar sistematicamente ou competir em altos níveis de exigência antes (e mesmo após) a idade adulta.

Acredito que o processo de detecção, seleção e captação de talentos no país é inviável, justamente pelo fato dos clubes não manterem divisões de base. Sem uma estrutura de treinamentos sistematizados nessas categorias e um circuito de competições organizado, nosso processo de formação de talentos continuará refém do acaso, dependendo de peneiras que muito mais deformam do que formam. Aliás, nada formam.

O espaço destinado para as mulheres nesses clubes está nitidamente demarcado pelas construções sociais de gênero, restringindo-se a funções tidas como femininas, como as de assistente social ou psicóloga. Mesmo em equipes de futebol de mulheres, em geral, são os homens quem dirigem e cuidam dos treinamentos, explica

Universidade do Futebol – Recentemente, alguns jogadores do futebol masculino (e que também vem tendo apoio de algumas jogadoras do futebol feminino) lançaram o Bom Senso F.C., um movimento que reivindica algumas mudanças na estrutura da modalidade. O que você pensa sobre isso?

Osmar Moreira Júnior – Penso que o Bom Senso é o maior movimento de engajamento político de jogadores de futebol pós-Democracia Corintiana, com o diferencial de não ter sido gestado em um clube, mas sim por uma legião de jogadores de distintos clubes. Penso que é o caminho para que as jogadoras passem a protagonizar as transformações necessárias, mas acredito que a participação delas nesse processo ainda é bastante tímida até pela política ditatorial imposta pela CBF, que sempre se mostrou pronta para retaliar qualquer manifestação de descontentamento em relação à sua gestão.

Vivendo de migalhas da CBF, é nítido que as jogadoras não queiram se expor, temendo perder até as migalhas. Porém, acredito que uma organização com caráter sindical ou por meio de um maior engajamento no Bom Senso F. C., seja fundamental para superar o estado de vítimas e promover o empoderamento das mulheres futebolistas. Uma adesão por parte de jogadoras com capital futebolístico incontestável, como Marta, Formiga, Rosana, Érika e Cristiane, seria fantástico para desestabilizar os pilares da ditadura imposta ao futebol de mulheres pela CBF. Ou será que a entidade seria capaz de retaliar não convocando a espinha dorsal de nossa seleç&atild

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