Universidade do Futebol

Entrevistas

11/05/2012

Pablo Echegoyen, autor do livro “Perfil Del Futbolista Uruguayo”

Ao não encontrar dados ou estudos referentes à situação sócio-econômica dos jogadores de futebol profissionais do Uruguai, Pablo Echegoyen quis tomar conhecimento de modo mais profundo sobre esta realidade. Docente de Economia e de Estudos Econômicos e Sociais de Bacharelado de Educação Secundária, o pesquisador realizou uma pesquisa científica que acabou virando um livro: “Perfil Del Futbolista Uruguayo”.

O alvo era obter diferentes referenciais que permitissem ilustrar a situação dos desportistas naquele espectro. A metodologia utilizada baseou-se em duas técnicas: investigação documental, realizada no sindicato que representa a categoria, e um questionário com os próprios jogadores profissionais locais.

Do estudo, que pode ser visualizado na íntegra aqui, destacam-se alguns resultados. O salário de um futebolista profissional da primeira divisão nacional, por exemplo, é o dobro de um que atua na divisão de acesso. E o Uruguai, ao lado da Bolívia, é o país de remuneração mais baixa da América Latina.

“Foi possível diagnosticar que os atletas estão conectados ao mundo e se interessam por outros temas além do futebol, e a maioria tem conexão à Internet. Eles estão muito dedicados ao seu trabalho como futebolistas, mas não dedicam tanto tempo a outra atividade, nem têm os estudos terminados”, afirmou Echegoyen, nesta entrevista por e-mail concedida à Universidade do Futebol.

O pesquisador, que se dedicou mais de cinco meses a esta tarefa, tomou como norte sete clubes daqueles denominados “em desenvolvimento”. São eles: Central Español, Rampla Juniors, Racing, Defensor Sporting, Wanderers, River Plate e Cerro, todos da primeira divisão nacional.

O questionário foi entregue diretamente às mãos dos jogadores, a fim de se obter uma informação mais fidedigna acerca de média de idade, tempo como profissional, moradia, facilidades (eletrodomésticos), veículos, família, estudos, outro trabalho, recreação e comentários livres.

A meta de universo estatístico são 450 jogadores profissionais de futebol na Série A uruguaia. O total de equipes da primeira divisão é 12. Dessas, foram escolhidos, aleatoriamente, 70 atletas no total, 10 por equipe.

“Os jogadores saem do Uruguai claramente por uma questão econômica, já que em qualquer lugar do mundo eles são mais bem pagos. Por conta disso, o alvo é sempre emigrar, sobretudo os futebolistas profissionais querem ir para onde possam visualizar uma diferença econômica, como na Europa”, sintetizou Echegoyen, que também falou sobre a nostalgia daquele povo e a retomada de um estilo de jogo a partir do trabalho de Óscar Tabárez.

Entrevista de Pablo Echegoyen a um programa de TV do Uruguai

 

Universidade do FutebolComo surgiu a ideia da obra?

Pablo Echegoyen – A ideia da obra surgiu para fazer um trabalho de investigação sobre os futebolistas profissionais uruguaios, porque em termos sociais e econômicos não se sabe muito deles.

Temos até conhecimento daqueles que atuam nos grandes centros da Europa, mas não sobre aqueles que atuam efetivamente em seu país natal.

À ocasião eu dava aulas em uma escola pública de uma disciplina chamada “Estudos Econômicos e Sociais”, e ensinava aos alunos sobre temas desta natureza. E lá surgiu o interesse para desenvolver o estudo.

Confira o livro na biblioteca da Universidade do Futebol

 

Universidade do FutebolQuantos pesquisadores participaram do projeto juntamente com você e por que a fundamentação do trabalho se deu a partir de aspectos sócio-econômicos?

Pablo Echegoyen – Na realidade, o único pesquisador que participou do projeto fui eu, apesar de ter contado com a colaboração de vários dirigentes, médicos e gerentes de diversos clubes de futebol profissional do Uruguai.

O trabalho é realizado a partir dos aspectos sócio-econômicos, pois era a base que eu pretendia investigar e se trata de um aspecto que praticamente não é conhecido no meu país.

Logo me dei conta que, ao tentar comparar com o resto da América Latina, também não se conhecia esses aspectos nas demais nações do continente.

Apenas recebi uma mensagem do Chile, onde se havia o interesse de fazer um trabalho parecido por lá.

Trabalho de pesquisa de Pablo encontrou barreiras por conta da falta de referenciais em outros países da América Latina

 

 

Universidade do FutebolPoderia falar um pouco sobre a metodologia do estudo?

Pablo Echegoyen – A metodologia empregada se consistiu, primeiro, em investigar documentos anteriores, algo que foi muito difícil, já que não se encontram dados destes aspectos nem no Uruguai, nem em outros países vizinhos. A única proposta que encontrei foi um estudo realizado com futebolistas juvenis.

Na sequência, usei a técnica de levantamento com alguns futebolistas para obter informações dos próprios. Também pedi apoio para o estudo a um reconhecido jornalista esportivo uruguaio, o qual comparava a situação dos jogadores antes de iniciar a carreira profissional com o atual momento.

Por fim, fiz diversas entrevistas, entre elas com a organização que representa os atletas profissionais e com um coordenador de um clube que trabalha diariamente com eles.

Universidade do FutebolEm relação aos resultados via questionários aos atletas: o que você destacaria em termos de dados para traçar um perfil do jogador de futebol do Uruguai?

Pablo Echegoyen – Do estudo, pode-se ressaltar alguns resultados. O salário de um futebolista profissional da primeira divisão nacional é o dobro de um que atua na divisão de acesso, mas ainda sim é a remuneração mais baixa da América Latina.

Foi possível diagnosticar que os atletas estão conectados ao mundo e se interessam por outros temas além do futebol, e a maioria tem conexão à Internet. Eles estão muito dedicados ao seu trabalho como futebolistas, mas não dedicam tanto tempo a outra atividade, nem têm os estudos terminados.

Além disso, são muito companheiros entre si e sempre pensam em melhorar, especialmente para ajudar as próprias famílias.

"Eles estão muito dedicados ao seu trabalho como futebolistas, mas não dedicam tanto tempo a outra atividade, nem têm os estudos terminados", revela estudo

 

Universidade do FutebolDe acordo com o seu estudo, são muito poucos os futebolistas que estudam – cerca de 20%. Entretanto, muitos gostariam de continuar no ambiente escolar-acadêmico. Faltam políticas educativas governamentais? Como os clubes e a Asociación Uruguaya de Fútbol (AUF) poderiam contribuir neste sentido?

Pablo Echegoyen – Existem políticas educativas voltadas aos futebolistas, mas àqueles que atuam ainda nas categorias de base, e não aos profissionais. Mas é de se supor que estes têm tanto tempo para participar de outras atividades, visto que os treinamentos, ainda que intensos, não requerem extensos horários.

Alguns deles tentam até dar início a uma graduação, mas não terminam de consolidá-la. Os clubes e a AUF estão fornecendo sua própria alternativa, pois possuem convênios com centros educativos, e as práticas da modalidade devem ser fora dos horários dos estudos, o que ajuda e muito.

Mas, sobretudo aos futebolistas do interior do Uruguai, por conta das distâncias, aliar treino e escola acaba sendo algo muito sacrificador.

Desde os centros educativos se procura oferecer ajuda – e eu como docente participo desse processo –, mas às vezes é difícil conciliar treinamentos, partidas e horas de estudo.

 



Confira entrevista com Gustavo Bueno, treinador das equipes sub-16 e sub-17 do Nacional, do Uruguai

 

Universidade do FutebolO levantamento realizado já tem três anos. Ele passou por uma atualização? E por que clubes como Peñarol, Nacional e Danúbio, por exemplo, não foram contemplados?

Pablo Echegoyen – Não houve uma atualização dos dados revelados até o momento. Mas são ainda os únicos referenciais que existem no Uruguai e não se encontram outros do tipo no resto da América Latina, e nem na Europa.

A razão pela qual equipes como Peñarol e Nacional não foram contemplados no estudo foi porque estas representações têm um potencial muito maior que os outros rivais do Uruguai, seja em relação à quantidade de torcedores, quanto no quesito econômico e de infraestrutura.

Se tivéssemos incluído ambos, os dados passariam a ser outros, inflados, sem revelar a realidade dos clubes em desenvolvimento.

No caso do Club Danúbio, tentamos incluí-lo, mas ele declinou no momento de participar desta experiência. Mas a situação deste clube certamente é similar à dos demais que foram investigados.

Alvo da pesquisa foram clubes "em desenvolvimento", como Wanderers, Cerro e River; "gigantes" iriam desvirtuar realidade

 

 

Universidade do FutebolUma antropóloga brasileira desenvolveu um estudo sobre a emigração de jogadores brasileiros. A conclusão foi que eles enxergam a saída do país natal como um movimento de “circulação”, com as fronteiras entre os países sendo até descartadas, valorizando mais os limites dos clubes. Como é essa relação jogador-clube e vice-versa no Uruguai?

Pablo Echegoyen – Os jogadores saem do Uruguai claramente por uma questão econômica, já que em qualquer lugar do mundo eles são mais bem pagos.

Por conta disso, o alvo é sempre emigrar, sobretudo os futebolistas profissionais querem ir para onde possam visualizar uma diferença econômica, como na Europa.

A relação entre jogador e clube, e vice-versa, é cordial. E aqui falta mencionar mais um sujeito que é o “contratista” (agente ou empresário), pessoa que irá colocar o futebolista nos mercados do exterior. Ele é a ligação entre deixar o país ou ficar.

Os clubes argumentam que gastam muito dinheiro com a formação do atleta durante anos e logo um “contratista” o leva pagando baixas quantias. Trata-se de um debate atual, em que as agremiações cobram que deveriam receber mais pelos direitos de desenvolvimento de um jovem talento.
 

 

Confira entrevista da antropóloga Carmen Silvia Rial à Universidade do Futebol sobre o tema

 

Universidade do Futebol Você também conversou com familiares desses atletas, empresários e frequentou os locais preferidos desses profissionais? Qual foi a relevância dessa parte da pesquisa para as suas conclusões em relação à emigração?

Pablo Echegoyen – O uruguaio, de modo geral, é muito nostálgico. Tem nostalgia, e lhe custa muito se desgarrar do próprio país. Mas ele sabe, no caso do jogador de futebol profissional, que sua carreira é muito curta e o dinheiro deve ser conquistado o mais rápido possível. Todos os entrevistados foram muito contundentes em relação a isso e à necessidade de “superação econômica”.

Muitas vezes levam suas noivas ou familiares próximos para acompanhá-los. É algo muito comum. Assim como também muitos voltam logo da Europa ou de outro lugar no exterior quando estão mais próximos do fim da carreira.

"O uruguaio, de modo geral, é muito nostálgico. Tem nostalgia, e lhe custa muito se desgarrar do próprio país", avalia Pablo

 

Universidade do FutebolOs jogadores que saem muito jovens do Brasil, antes mesmo de construírem um nome, acabam muitas vezes sofrendo uma perda da identificação com o “estilo brasileiro”. Situação semelhante ocorre no Uruguai? Ou o próprio povo uruguaio está condicionado a buscar uma consolidação profissional no estrangeiro?

Pablo Echegoyen – Essa é uma questão interessante. Os futebolistas uruguaios estão condicionados a se consolidar no exterior, e isso faz com que percam o estilo de jogo.

É mais difícil para os treinadores da seleção nacional tratarem de manter uma filosofia própria, quando recebem atletas, que são uruguaios, mas atuam em diveras partes do mundo.

Passamos por isso durante anos – diria décadas –, mas nos últimos tempos podemos ver que a equipe nacional principal retomou um estilo próprio, enraizado, o qual esteve presente na última Copa do Mundo e no título da Copa América passada.
 

 

Universidade do FutebolQual a sua avaliação sobre a chamada “Revolução Charrua” por que passou o futebol uruguaio em meados dos anos 2000? O que pensa sobre o trabalho coordenado por Oscar Tabárez envolvendo também as categorias de base, e a integração com profissionais do gabarito de Gabriel Gutierrez?

Pablo Echegoyen – O treinador uruguaio “Maestro” Washington Tabárez já havia dirigido a nossa seleção na Copa do Mundo da Itália, de 1990, sem muito êxito. Mas logo depois teve uma passagem pelo Boca Juniors, da Argentino, e pela Europa – no Milan –, o que lhe rendeu muita experiência, com a qual voltou ao desembarcar na “Celeste” novamente.

Além da sabedoria, os jogadores uruguaios tiveram uma mentalização e uma união de grupo, somado ao estilo de jogo que levou a essa “Revolução Charrua”, comandada por Tabárez.

É importante destacar também que durante muitos anos o Uruguai sequer figurava entre as principais colocações do futebol profissional mundial.

Além da sabedoria, jogadores uruguaios tiveram mentalização e união de grupo, somado ao estilo de jogo proposto pelo "Maestro" Tabárez

 

Universidade do FutebolPablo Forlán, Pedro Rocha, Darío Pereyra, Diego Lugano e, mais recentemente, Loco Abreu, são alguns dos uruguaios que fizeram muito sucesso no Brasil. Você conseguiria identificar um padrão comportamental comum entre eles e a razão de todos terem obtido êxito num país vizinho?

Pablo Echegoyen – Não existem estudos a respeito e, pessoalmente, não tenho uma explicação precisa. Acrescentaria a essa lista de destaque de uruguaios que atuaram no Brasil Hugo de León, no Grêmio, e Rodolfo Rodríguez, no Santos.

Poderíamos talvez dizer que a particularidade que têm todos esses jogadores é que, de modo geral, são defensores, e o Brasil não se caracterizava por atletas muito bons nesse setor naqueles tempos, algo superado nos últimos anos. Em relação a atacantes, o Brasil sempre teve muitos e muito bons, em todas as épocas.

Suponho que os clubes brasileiros viram que no Uruguai havia bons zagueiros e, por isso, levaram aqueles. Outra coisa é que os jogadores em questão eram referências em suas equipes no país natal, ou capitães, ou protagonistas de grandes conquistas.

Para Pablo, necessidade do Brasil em suprir carência de sistema defensivo fez com que equipes buscassem grandes jogadores no Uruguai

 

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