Universidade do Futebol

Cepif

24/05/2009

Paixão e história nos clubes de futebol

A relação entre os torcedores e um clube de futebol pode parecer, para certas pessoas, algo simples, até mesmo, simplório. Uma ligação baseada na adoração ou no fanatismo que não encontra maior profundidade e que, a princípio, não se explica. Contudo, quando lançamos um olhar mais questionador e interessado sobre tal fenômeno percebemos sua complexidade e os diferentes mecanismos de constituição dessa identificação indivíduo/agremiação.

Um dos elementos importantes da formação do gosto por um clube de futebol está ligado à memória coletiva que se compartilha a partir do momento em que se assume a preferência por algum time em específico. Toda instituição possui sua identidade própria, a qual se baseia em uma série de aspectos que são definidores da agremiação, de sua forma de jogar e de sua torcida. Essas características não são elaboradas de maneira arbitrária e aleatória, mas estão baseadas em um patrimônio comum, compartilhado pela entidade e por todos aqueles que fazem parte de sua história, de seus fundadores, passando por seus grandes ídolos, atuais e do passado, até seus funcionários e aficionados.

Cientes disso, e percebendo, no atual contexto do futebol profissional e de negócios, as potencialidades do fortalecimento de uma identidade institucional, as agremiações cada vez mais investem na difusão de sua trajetória, notadamente através da constituição de memoriais e museus, físicos ou virtuais, e na criação de linhas de produtos históricos. Esse gosto pelo passado das associações também mobiliza inúmeros aficionados que mantêm coleções particulares com temas variados. Em Belo Horizonte, entre os torcedores do Atlético, uma nova experiência nesse campo vem se constituindo, com a criação do Centro Atleticano de Memória que reúne acervo doado tanto por apaixonados pelo Galo como pelo próprio clube, na construção de um espaço que mescla história institucional e paixão futebolística.

Criado em 2006, o Centro Atleticano de Memória – CAM é uma iniciativa de torcedores do Clube Atlético Mineiro – CAM, muitos dos quais já tinham envolvimento com a história da agremiação, devido à sua condição de colecionadores, jornalistas, estudiosos, ex-jogadores, ex-dirigentes ou funcionários da entidade. Apesar de contar com o apoio do Galo, que colocou sob sua responsabilidade importantes peças do seu acervo, como, por exemplo, os troféus, a associação tem caráter e atuação independente. Essa é importante para evitar que as mudanças na direção dos clubes interfiram diretamente na sua existência. Fato exemplificado pela maneira abrupta como o Atlético trocou de presidente no ano passado. Apesar de o novo presidente ter mantido o apoio ao centro, sem os suportes legais e a independência administrativa, esse poderia ser extinto, como outros projetos de memória anteriores, criados de dentro da estrutura da entidade. 

Gerido por direção periodicamente eleita por seus associados, o centro desenvolve projetos voltados para a constituição, catalogação e preservação de acervo documental variado sobre a agremiação, inclusive artefatos que dizem sobre as relações dos torcedores com ela, assim como gera informações variadas sobre a história da instituição. Nessa última tarefa, conta inclusive com a participação de aficionados e estudiosos que ajudam a compor a enciclopédia on-line do Clube Atlético Mineiro, o Galo Digital, acessível no endereço www.galodigital.com.br.  

A condição de organização constituída e dirigida por torcedores de um clube, no caso o Atlético, oferece alguns elementos de reflexão interessantes sobre as diferentes possibilidades de constituição de acervos e, por conseguinte, de discursos de memória sobre uma agremiação e sobre a paixão que se nutre por ela.

Como diversos estudiosos apontam, a memória é construída a partir de uma série de mecanismos e sob hipótese alguma representa um discurso neutro sobre a história. Aspectos como esquecimentos, silêncios, arrefecimentos de conflitos, incorporação de avaliações posteriores são mobilizados constantemente no processo de (re)leitura do passado [1].

Esses mecanismos de constituição de uma visão do passado são mais identificados com os relatos orais, nos quais, talvez, possam ser mais claramente apontados. Contudo, estão presentes em diversos outros discursos históricos, como, por exemplo, o acervo de uma instituição de memória.

Apesar de muitas vezes não pensarmos sobre isso, temos que ter em mente que o que está sob a guarda de qualquer centro de documentação é fruto de escolhas, as quais estão baseadas em um entendimento do que é ou não relevante como registro sobre o passado. Assim, o acervo de uma instituição também é um discurso, o que é preservado, o que é descartado e o que não é incorporado diz muito acerca do entendimento que se tem sobre o que compõe e o que não compõe a história de um grupo social, de uma instituição. Nesse caso, de um clube de futebol e de sua torcida.

Retomando o exposto no início deste texto, o que se vê muitas vezes é uma visão por demais superficial da paixão clubística, a qual é identificada com um fanatismo ou adoração sem maiores explicações. Fruto dessa compreensão enviesada do tema, observamos a construção de uma noção “vulgar” do amor pelo time, que tem implicações diretas na constituição de uma memória sobre o passado da agremiação, ou seja, na escolha do que lembrar e do que esquecer, do que ressaltar e do que ocultar sobre a trajetória da instituição.

Tal visão superficial e, porque não dizer, até mesmo, “pasteurizada” do passado do time, na medida em que ignora as especificidades da trajetória de cada entidade, ignorando passagens que apesar de não tão gloriosas são fundamentais para se compreender o que é o clube e quem são seus torcedores, não é exclusividade das agremiações futebolísticas. É fruto de um problema maior, vinculado a um ramo dos estudos sobre o passado que se pode classificar como História Institucional, o qual por seu compromisso com demandas de mercado, acaba por apresentar, em grande medida, visões laudatórias e destituídas de conflito sobre o passado de empresas, corporações e outros grupos públicos e privados.

Mas quais as relações entre essa visão “pasteurizada” do passado, os mecanismos de construção de discursos sobre a história e o Centro Atleticano de Memória?

Defendemos, aqui, que a criação de centros de documentação dessa natureza, como o CAM, são importantes por possibilitarem a construção de uma visão mais complexa e plural sobre a paixão dos torcedores por uma agremiação e sobre o próprio passado do clube.

Ao reunir acervo oriundo de diferentes coleções, inclusive documentos originários do próprio clube, o Centro Atleticano de Memória torna acessível, aos apaixonados pelo Galo e aos estudiosos da história do futebol, um conjunto de fontes formado por múltiplas visões sobre a agremiação. Ao contrário do que se observa nos memoriais, que apesar de contarem com doações de particulares, normalmente apresentam um discurso “oficial” do passado da instituição, associações como o CAM proporcionam a oportunidade de que outras percepções venham à tona. 

Por exemplo, ao observamos objetos reunidos por torcedores que viveram em um momento de poucas vitórias de um clube, podemos compreender os mecanismos que levaram á identificação daquele e de diversos outros indivíduos com a agremiação, ainda que sem vivenciar as glórias e os títulos. Algo que muitas vezes não é explicitado nas memórias oficiais, que procuram se centrar apenas nas conquistas, ignorando que a paixão de um aficionado pelo time não se baseia em uma relação de utilitária, do tipo: ele ganha, eu torço por ele.

Sendo assim, a construção de um acervo que não parte apenas de uma política do clube, mas que se origina da ação de uma comunidade mais ampla de aficionados, pode ser capaz de reunir uma variedade maior de artefatos, os quais não serão incorporados apenas por evidenciarem glórias da instituição, mas por serem representativos das diferentes formas de torcer e de rememorar o passado da entidade. Percebendo-se, assim, o torcedor como objeto e ator da história de seu clube. 

Isso não significa que ali estará uma visão total sobre a história do time e de seus seguidores, até mesmo porque tal conjunto de documentos sempre terá caráter bastante parcial, haja vista serem frutos de uma relação de paixão.

Contudo, mesmo sendo tal acervo evidência de uma relação passional de indivíduos com uma agremiação futebolística, ele pode ser constituído de forma mais crítica e plural, permitindo que aqueles que o operacionalizarem, seja através de exposições, estudos e outras formas de divulgação, possam ter a oportunidade de fugir dos esgotados esquemas de narração da trajetória do clube e de sua torcida baseados apenas em títulos e conquistas vistas de forma isolada. Toda entidade vivenciou crises, todo torcedor passou por momentos de dificuldades, muitos planos propostos por dirigentes mostraram-se verdadeiros fracassos ou foram abandonados no meio, muitas promessas não vingaram, diversas rivalidades foram construídas, algumas derrotas ecoaram de forma especialmente forte na alma dos aficionados, mas, nem por isso, deixaram de ser importantes para a compreensão da relação e da identidade hoje existente entre os times e seus seguidores.

Ignorar tudo isso é contar uma história pela metade e, pior, construir versões que não se sustentam, que não dão conta do complexo fenômeno que é a constituição da paixão por um clube. Como explicar o crescimento do número de aficionados em momentos de derrotas consecutivas? Como entender as guinadas na história de uma instituição? Como explicar as particularidades de uma torcida ou de uma agremiação? Muitas vezes é se atentando para os planos que não se concretizaram, para opções desesperadas tomadas em momentos de crise, para a criação de vínculos que vão além da vitória que se explica tais processos. 

O esporte, mais do que outras áreas, tem dificuldade de conviver com a derrota, a vitória é sempre o fim último de um clube e é o desejo que move qualquer torcida. Talvez seja por isso que uma história das glórias e dos vencedores ainda esteja tão presente nesse campo. Para muitos torcedores, é provável que, num primeiro momento, seja difícil relembrar algumas dores do passado. Mas é apenas revivendo esses instantes de derrota e de dúvida que se torna possível compreender sua paixão e quem ele é.

*Graduando em História pela UFMG, trabalhador voluntário do Centro Atleticano de Memória e membro do CEPIF (Centro de Pesquisas Interdisciplinares do Futebol). Contato:arthurnegro@gmail.com

**Historiador graduado pela UFMG e mestre em História Social da Cultura pela mesma instituição. Conselheiro do Centro Atleticano de Memória. Coordenador do CEPIF (Centro de Pesquisas Interdisciplinares do Futebol), dedica-se, principalmente, ao estudo do futebol em Belo Horizonte entre os anos de 1904 e 1921. Contato: rrajao@ig.com.br

Bibliografia

GALUPPO, Ricardo. Raça e Amor: a saga do Clube Atlético Mineiro vista da arquibancada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

MATTOS, Cláudia. Cem anos de paixão: uma mitologia carioca no futebol. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

POLLAK, Michel. “Memória, esquecimento, silêncio”. In: Estudos Históricos – Memória. Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p.3-16, 1989.

SANTANA, Jorge. Páginas Heróicas: onde a imagem do Cruzeiro resplandece. São Paulo: DBA, 2003.

ZILLER, Adelchi Leonello. Enciclopédia Atlético de Todos os Tempos. Belo Horizonte: Clube Atlético Mineiro, 1997.

Notas

[1] Cf. POLLAK, Michel. “Memória, esquecimento, silêncio”.

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