Para que serve o conhecimento sobre a especialização precoce se os procedimentos práticos o ignoram?

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Começo este artigo com uma pergunta: para que serve o conhecimento científico? Incontáveis respostas podem satisfazer essa dúvida, mas prefiro me ater a algumas delas.

Pode-se responder que serve para resolver problemas próprios da vida cotidiana das pessoas. Ou que possibilita ao homem melhor conhecer a si mesmo, ao seu ambiente e sociedade. Ou até que pode contribuir para melhoria da formação humana dos sujeitos. Ou, numa última possibilidade apontada nesse momento, apontar procedimentos que visem à sobrevivência da espécie humana.

Bem, outras inúmeras reflexões podem ser feitas sobre essa pergunta, porém uma coisa me parece clara: o conhecimento científico só tem valor quando é compartilhado com a sociedade e, mais do que isso, contribui para a transformação positiva da mesma. E mais, é importante afirmar que a busca por esse conhecimento parte dos problemas encontrados no cotidiano e a necessidade de resolvê-los.

Porém, assim como uma criança teimosa que coloca o dedo na tomada, mesmo depois de ter tomado vários choques elétricos, o ambiente do futebol, seus gerentes, técnicos, atletas, pais, mídia, etc., têm ignorado alguns alertas que a ciência aponta, e ainda por cima convivem com os problemas dessa rejeição. 

Um dos exemplos de campo da ciência que busca há muitos anos compartilhar seu conhecimento com a sociedade é a pedagogia do esporte.

Nas últimas décadas essa área de pesquisa tem crescido de forma notável. Seja em análises sobre métodos de ensino, ou de procedimentos pedagógicos, relação entre pais e professores, entre jovens atletas e a competição, entre outros. Porém, um tema se faz de bastante repercussão no meio acadêmico. Trata-se da especialização precoce, e esse é um problema já diagnosticado, apontado e insistentemente solucionado pelo campo acadêmico, mas que a criança teimosa do futebol, ignorando esses avisos, ainda insiste no dedo na tomada.

Vargas Neto (2000) conceitua especialização precoce como a atividade esportiva desenvolvida antes da puberdade e caracterizada por uma dedicação aos treinamentos com mais de 10 horas semanais e/ou principalmente por ter uma finalidade competitiva.

Observe que esse tema não diz respeito às práticas esportivas de crianças como um todo, mas sim às atividades que têm como finalidade e ponto central de sua prática a competição, a melhora por rendimento, a vitória. Por isso, tem atrelada a idéia de treinamento numa única modalidade e em suas especificidades.

É importante salientar que a especialização precoce não deve ser confundida com iniciação esportiva. Visto que essa segunda compreende todo um processo de apresentação da prática ao aluno, com base em momentos de desenvolvimento plural e apropriado às suas necessidades, limites e intenções.

Também não cabe à crítica a especialização como um todo. Ela se faz importante, sim, porém num momento posterior à infância e puberdade. Ela faz parte da adolescência e fase adulta, na qual o jovem atleta já experimentou e escolheu modalidades esportivas, e deseja se aprimorar em uma delas competitivamente (PAES, 1992).

A pedagogia do esporte já investigou, e continua trabalhando, sobre esse tema e seus benefícios e malefícios. E o que se encontra é um apontamento muito maior desse segundo item.

Moriondo, De Paula e Marques (2007) apontam três prejuízos principais que a criança especializada precocemente pode sofrer – físicos, psicológicos e sociais.

Quanto ao primeiro, pode-se citar lesões prematuras, alterações hormonais, prejuízo na formação do repertório motor. Aos aspectos psicológicos, têm-se o estresse da competição, as frustrações da derrota, a impossibilidade de corresponder às expectativas de sucesso esportivo de pais e técnicos, o desinteresse pela prática. E quanto a fatores sociais, a perda do direito de brincar durante a infância, as relações de disputa constante com outros jovens, a antecipação de responsabilidades, muitas vezes até financeiras, em relação ao resto da família e da própria vida.

Não são poucos os estudos que apontam os malefícios dessa especialização na infância, e ainda por cima mostram formas mais adequadas de gerenciar e promover a iniciação de jovens no esporte.

Por se tratar de crianças, e sendo esse um conteúdo educativo ao lidar com iniciação esportiva, é preciso planificação e método de ensino, pois as consequências desse processo não se dão somente no âmbito esportivo. Devem-se abandonar as atividades refinadas e modelos de treinamentos de adultos e valorizar atividades simples, lúdicas, que elevem a criança ao entretenimento, alegria, participação e liberdade (SANTANA, 2004).

Porém, o que se tem observado no futebol do século XXI não é bem isso. A cada dia é possível listar mais garotos sendo especializados em funções em campo desde a tenra idade. Garotos e garotas mais altos, primeiro são zagueiros e, se levarem certa vantagem sobre os outros jogadores no início, correm o risco de aprenderem somente a ser… zagueiros. E se quando ele for mais velho, seus colegas forem mais altos? E se ele não quiser mais jogar futebol? E se, aos 16 anos, seu técnico precisar de um jogador polivalente, versátil? Ele será apenas um zagueiro (nada contra os zagueiros).

Porém, esse é o menor dos problemas. O que mais se observa são crianças expostas, cada dia mais cedo, às pressões do ambiente competitivo, dos treinamentos diários, das expectativas exageradas dos pais, técnicos e dirigentes, e, quanto mais a pedagogia do esporte avisa, mais o futebol faz isso com as crianças e… põe o dedo na tomada.

Nesse processo, perdem-se vários talentos que, na pressa por virarem grandes jogadores, profissionais, ídolos, acabam sendo desperdiçados, pois, quando se inicia aos 9 anos de idade uma prática, aos 16 já somam-se 7 anos de caminhada e estresse. Muitos acabam por abandonar o jogo na hora em que se deve dedicar-se integralmente a ele, na tentativa da profissionalização.

Pode-se citar como exemplo o estudo de Santana, França e Reis (2007) que cita que entre os jogadores das equipes que disputaram as semifinais do campeonato paranaense Sub-20 de 2007, 66% se federaram apenas após os 12 anos e apenas 34% antes disso. Ou seja, não é o início adiantado que garante a formação, mas o início adequado e o acesso à competição no momento certo. Então, por que se especializa precocemente?

E o que mais me incomoda é o fato de que o ambiente do futebol sabe de tudo isso e ignora. Com o passar do tempo, são mais e mais garotos que assinam contratos ainda crianças e mergulham no ambiente competitivo antes da hora.

Isso ocorre porque, entre outros motivos, o futebol virou um grande negócio e comercializar jovens jogadores, o grande pote de outro. E isso vem estimulando a profissionalização precoce de jovens. Parece que o interesse não é mais preparar o jogador para um futuro brilhante, mas sim aproveitar o presente, suas maravilhosas habilidades com a bola aos 10, 11 anos e acertar um contrato profissional. Muitas vezes até no exterior.

Claro que, em alguns casos, isso é bem sucedido. Veja o caso do craque argentino Lionel Messi, que foi em sua fase púbere para o Barcelona, da Espanha, e lá se formou. Porém, tal realidade é exceção. E pior, acaba por fundamentar outras ações do mesmo tipo, na tentativa de achar outros “Messis”. Mas o que se observa é que acabam se perdendo inúmeros jovens jogadores nesse caminho.

Em sua maioria, quem se especializa precocemente tem maiores chances de abandonar o esporte do que de se manter no campo competitivo ou se profissionalizar (PAES, 1992; SANTANA, 1996; DE ROSE, 2002; MORIONDO; DE PAULA; MARQUES, 2007).

Tem-se, então, outra forma de especialização precoce nos dias de hoje:
a profissionalização precoce. Ocorre quando, além de o jovem atleta já estar especializado em tal modalidade, assina contratos com clubes, empresas ou empresários aos 10, 11, 12, 13, 14 anos e, com isso, acaba sendo exposto a obrigações de treinamento e rendimento atlético muito cedo.

Nesse sentido, pode-se observar que algumas leis, em tese, protegem tais atletas, como a proibição de atuação no futebol profissional na Itália com menos de 18 anos, como a possibilidade de apenas assinar contrato profissional no Brasil com 16 anos. Porém, na prática, isso não tem garantido que todos os atletas passem por todas as etapas de sua formação atlética e humana.

Por exemplo, cito o caso do garoto Maurício Baldivieso, jovem boliviano de apenas 12 anos que estreou na liga profissional de seu país. Além da visível desvantagem física em relação a atletas adultos, será que um menino está pronto para suportar as pressões do ambiente profissional? Como esse caso é recente, não podemos prever o que vai acontecer com ele, porém, algo me chamou a atenção nessa história. O garoto foi questionado se tinha chorado em campo após uma falta sofrida e ele disse que não faria isso. Mas, e se tivesse chorado? Era apenas um menino de 12 anos. Mas já tem incorporada a forma de agir e pensar de um adulto, o que desrespeita sua idade e estágio de crescimento.

O caso tomou repercussão mundial, causando polêmica. Mas se há quem acredite que esse seja o caminho e, pior, essas pessoas ainda se encontram em situação de possibilidade de executar esse ato, é preocupante.

Outro exemplo é a reportagem “O Pato do Vasco”, publicada na revista Placar do mês de agosto de 2009, a qual aponta que os 10 jogadores de linha titulares da seleção brasileira sub-20 jogam no exterior, e alguns foram para fora do país antes de completarem 18 anos. Segundo a reportagem, alguns deles vão para o exterior sozinhos, sem nem saber a língua de origem do país em que vão morar.

Tem-se também, publicado na mesma reportagem, o caso de acampamentos de equipes europeias no Brasil, na busca por jovens talentos da categoria sub-10, havendo a possibilidade de esses garotos jogarem no exterior.

Nota-se, então, que o futebol apresenta dois fenômenos perigosos nos dias de hoje. A especialização precoce, na qual pais, técnicos e dirigentes limitam as possibilidades de aprendizagem e ação das crianças no ambiente esportivo, e a profissionalização precoce, decorrente da especialização, na qual jovens são expostos a contratos e obrigações de adultos, antes mesmo de saírem das categorias de base.

Além dos perigos que essas práticas podem causar aos jovens, ainda desprestigiam o futebol brasileiro, que vê suas crianças serem formadas por outras escolas, desvalorizando sua estrutura de formação.

Claro que criticar tudo isso é fácil, mas e a solução? Bem, não acho que seria prudente de minha parte dar uma afirmação definitiva, mas eu gostaria de apontar alguns caminhos em que acredito.

Os garotos são especializados precocemente devido, principalmente, à necessidade de resultados de equipes em categorias de base, às expectativas de pais (SANTANA, 1996) e à necessidade de manutenção do emprego de técnicos. Bem, é preciso então mudar os processos das categorias de base. Transformar regras e formas de disputa.

Não defendo o fim da competição, mas sua re-significação (MARQUES; GUTIERREZ; ALMEIDA, 2008). Talvez a promoção de festivais ao invés de competições antes dos 11 anos seja uma alternativa. Outra opção é a alteração de regras, como a realizada pela Federação Paulista de Futebol de Salão, na qual as categorias sub-13 e inferiores estão sujeitas a modificações que valorizam a aprendizagem do jogo, como a impossibilidade do lançamento do goleiro direto para a outra metade da quadra.

Além disso, é preciso formação adequada aos profissionais do esporte de formação, no sentido de adequar seus procedimentos pedagógicos à faixa etária com a qual trabalham.

Quanto ao problema da profissionalização precoce, o problema é financeiro. Jogadores buscam ganhar dinheiro e ascensão o mais cedo possível e empresários visam ao lucro nesses jovens da mesma maneira. Talvez um caminho fosse transformações nas leis do esporte, como a impossibilidade de um garoto de 12 anos jogar na categoria profissional, ou que limitassem o êxodo, contratação e negociação de atletas antes dos 18 anos, por exemplo.

Claro que são questões complexas e de difícil resolução, visto que interesses existem em várias direções sobre essa esfera. Porém, vale o apontamento. A pedagogia do esporte está avisando e o futebol não está ouvindo. Outras modalidades, como a ginástica artística, já perceberam e mudaram suas regras. E o nosso futebol?

Quanto à especialização precoce, a ciência é categórica: precisa ser transformada. Quanto à profissionalização precoce, cabem mais estudos, mas por ser herdeira da primeira, aponta para perigos tanto aos atletas, quanto ao futebol.

Cabe então aos envolvidos com o futebol não colocar o dedo na tomada novamente e buscar soluções para um problema antigo e que, mesmo com avanços da ciência, teima em não ser resolvido, pois a ponte entre conhecimento e prática não está funcionando.

 
Bibliografia
DE ROSE JR, Dante. Esporte e atividades física na infância e adolescência. Uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
MARQUES, Renato Francisco Rodrigues; GUTIERREZ, Gustavo Luis; ALMEIDA, Marco Antonio Bettine de. O esporte contemporâneo e o modelo de concepção das formas de manifestação do esporte.  Revista Conexões. Campinas, UNICAMPV. 6, n.2, 2008a. Disponível em: <http://polaris.bc.unicamp.br/seer/fef/viewarticle.php?id=347&layout=abstract.> Acesso em: 06 out 2008.
 
MORIONDO, Leonardo P.; DE PAULA, Edmilton G. de; MARQUES, Renato Francisco Rodrigues. Investigação sobre a ocorrência de especialização precoce no processo de iniciação esportiva em atletas profissionais da equipe Rede de atletismo de Bragança Paulista. Anais do II Congresso de Ciências do Desporto da UNICAMP. Limeira, 2007.
 
PAES, Roberto Rodrigues. Aprendizagem e competição precoce: o caso do basquetebol. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992.
 
REVISTA PLACAR. O Pato do Vasco. Placar. n. 1333, p.64-69. Agosto, 2009.
 
SANTANA, Wilton Carlos de. Futsal: Metodologia da participação. Londrina: Lido, 1996. p. 29-48.
 
______. Futsal: Apontamentos pedagógicos na iniciação e na especialização. Campinas: Autores Associados, 2004.
 
SANTANA, Wilton Carlos; FRANÇA, Vinicius Santos; REIS, Heloisa Helena Baldy. Perfil do processo de iniciação ao futsal de jogadores juvenis Paranaenses. Revista Motriz, 13 (3), p. 181-187, 2007.
  
 
*Renato Francisco Rodrigues Marques é doutorando em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas e docente da Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Pauli
sta e da Faculdade de Jaguariúna.

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