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10/02/2018

Parando de querer ensinar, é que se ensina melhor

O treinador não só transfere informações, ele está no intermédio das relações do meio com os jogadores e deles com as tarefas

No início do meu entendimento do que era o ensino, achava que quem treinava os jogadores era o treinador. Nessa perspectiva centrada na figura de quem ensina, o treinador transfere o que tem de conhecimento enquanto o jogador recebe e executa.

No entanto, hoje entendo que o treinador pode ser muito mais do que uma pessoa que “repassa os ensinamentos sobre algo”.

A palavra ensinar significa isso e também: doutrinar, por uma marca, assinalar.

Vamos concordar que é muito pouco pensar no ensino como: a) algo de única via (treinador -> jogador); b) é também contraproducente pensar que o treinador sozinho tem a função de acumular conhecimento para transferi-lo, enquanto o aluno tem o papel de receber informações novas; c) além do mais, é depreciativo pensar que não existe informação anterior na memória dos jogadores e nem capacidade criativa que possa complementar as ideias do treinador, e; d) precisamos considerar que há outras fontes de informação e formas de aprender no processo de aprendizagem.

Em uma visão holística do contexto de ensino, o treinador é o mediador da estrutura: jogador, tarefa e ambiente.

 

Portanto, deve compreender o desenvolvimento de todos os jogadores como um processo biopsicossocial individualizado (Bronfenbrenner, 2005) e deve entender o grau de expertise dos seus jogadores para manipular melhor as tarefas de treino.

O treinador deve acreditar que seus jogadores aprendem também sozinhos, de forma incidental, enquanto jogam e quando interagem com as tarefas de treino propostas por ele. Tanto é possível, que algumas vezes os jogadores transcendem a própria imaginação do treinador e criam soluções inesperadas, que lhes dão vantagem nas situações jogadas. Outro ponto a considerar é o respeito a história e cultura de jogo para o desenho das tarefas de treino.

Além disso, o ambiente de treino também influencia o aprendizado. Sendo o treinador mais influente no ambiente interno, de convívio no dia a dia (ambiente das relações sociais), do que no ambiente externo, por exemplo, na qualidade da superfície na qual se joga (um constrangimento físico), ou na cultura de jogar (constrangimento sociocultural).

Ainda sobre essa perspectiva de ensino-vivência-aprendizagem-treinamento, o treinador compartilha a responsabilidade de ter que ensinar, ao mesmo tempo que se aprimora na elaboração das tarefas de treino e na sua atuação como construtor das relações sociais. Em contrapartida, o jogador ganha autonomia, ao mesmo tempo que ganha mais responsabilidades na construção do próprio aprendizado. Dessa forma, quanto mais o treinador diminui o tempo em que gasta querendo ensinar, mais ele abre possibilidades para os jogadores aprenderem.

Entretanto, não se para de ser diretivo de uma hora para outra, por isso “parando de ensinar”, não significa parar por completo, essa dicotomia de pensamento, do oito ao oitenta, dificilmente dará equilíbrio ao ambiente de aprendizagem.

Sendo assim, faço as seguintes considerações:

1) é melhor diminuir gradativamente o número de informações “ensinadas”, preferir fazer perguntas ao invés de dar respostas, deixando o jogador decifrar o que o treinador está querendo;

2) quando possível, fale menos. O jogador deve ter interesse em saber o que o treinador vai falar e quais perguntas vai fazer, mas quando o treinador fala muito, ou repete muito as mesmas informações ou não fala de uma forma que desperte a curiosidade, é bem provável que o interesse dos jogadores diminua;

3) esteja aberto a receber mais informações. É importante para os jogadores saberem que o treinador os ouve quando querem perguntar, justificar algo, criticar algo ou solucionar um problema com uma ideia original;

4) é importante que o treinador saiba se posicionar no processo, como mediador da construção das ideias que os jogadores tenham do jogo. Mesmo que pareça um processo mais lento na visão do treinador, é mais claro para os jogadores quando descobrem os porquês da sua prática, pois, o que precisamos aprender por nosso conta deixa na memória as decisões que tomamos no caminho e deixa o conteúdo da aprendizagem mais significativo.

No final das contas, o treinador é também um tomador de decisões, pois gerencia vários processos, está no intermédio das relações e das interações do meio com os jogadores e deles com as tarefas. Cada segundo do treino carrega uma quantidade enorme de informações, por isso tomar decisões é um desafio constante que os treinadores enfrentam. Modificar as tarefas, saber o que, como e quando falar com os jogadores, perceber quando deve prolongar ou interromper o exercício, são situações corriqueiras de um treinador. Isso nos dá uma ideia de quão complexo é mediar o processo de ensino, possibilitar as melhores vivências, fazer parte, portanto, do processo de aprendizagem e aperfeiçoamento através do treinamento. Não é fácil ser treinador/professor, não existe receita fechada para ensinar. Hoje acredito que, sendo menos dirigente dos jogadores e mais dirigente de todo o processo, é que nos tornamos melhores treinadores.

 

Referências Bibliográficas

BRONFENBRENNER, U. Making human beings human: Bioecological perspectives on human development.   Sage, 2005.  ISBN 0761927123.

CHOW, J. Y.  et al. The role of nonlinear pedagogy in physical education. Review of Educational Research, v. 77, n. 3, p. 251-278,  2007. ISSN 0034-6543.

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