Universidade do Futebol

Entrevistas

04/07/2008

Paulo Calçade

O futebol mudou. Assim como muitas das relações sociais, políticas e econômicas. E viver em meio a um processo transitório condicionado pelas máquinas, tecnologias e velocidades requer mais do que um cuidado; sim, uma reflexão apurada e crítica dentro desse molde.

 

Atividade profissional que consiste em lidar com fatos e divulgação de informações, o jornalismo não poderia estar à margem de tudo isso. Mas o que se observa, em especial na parcela que toma conta do mais popular dos esportes e tem a missão de auxiliar na construção da opinião de um público-torcedor muito fiel, é uma parada no tempo, complementada por uma superficialidade analítica. Paulo Calçade não se enquadra aí.

 

Comentarista dos canais ESPN e da Rádio Eldorado ESPN, Calçade literalmente potencializou sua compreensão inata de futebol, adquirida nos tempos em que ouvia radinho de pilha, com uma formação diferenciada.

 

A desenvoltura e a segurança em apresentar a postura tática de uma equipe ao vivo, contestar ações de um cartola, ou a marcação equivocada de um juiz ganharam suporte com a pós-graduação em futebol feita na Escola de Educação Física e Esporte (USP) e nos cursos de Administração para Profissionais do Esporte na FGV e de arbitragem, na Federação Paulista de Futebol.

 

“Minha graduação é em jornalismo. Tive dificuldades de penetrar nesse mundo mais acadêmico do futebol, mas consegui uma tranqüilidade, acima de tudo, para saber onde pesquisar e tirar minhas principais dúvidas”, explica Calçade, que apresenta um incômodo com o fato de se não enaltecer o que é produzido atualmente dentro dos gramados.

 

“Daqui a 100 anos, vão olhar para o futebol de outro jeito e talvez sejamos mais críticos ainda, pois teremos imagens para provar, algo que não havia há algumas décadas. Apenas observo que o futebol mudou e temos de ter parâmetros”, aponta. “Espera-se muito a chegada do Messias, do grande craque, e se deveria abrir mais os olhos para esse futebol mais complexo, em cujo rendimento há muitas coisas interferindo”.

 

Entre outras abordagens, o apresentador do programa Futebol no Mundo expôs nesta entrevista à Cidade do Futebol sua visão sobre a edição de 2008 da Eurocopa e a admiração que tem pelo treinador português José Mourinho.

 

Cidade do Futebol – Qual deve ser a base para a formação dos jornalistas esportivos: o conhecimento empírico ou a formação acadêmica?

Paulo Calçade – Eu vejo que o jornalista sai da faculdade especializado em poucas coisas. Ele tem uma visão mais geral, da parte técnica, do que é o fazer jornalismo. Quando ele faz a opção por uma área, entendo que ele deve conhecer um pouco mais sobre tal. É inconcebível você ter um jornalista de economia, por exemplo, que não saiba situações e termos específicos de economia. Ele tem de se especializar de alguma maneira.

 

Na área de esporte, geralmente acha-se que sabe muito por gostar, mas o fato de gostar não quer dizer que você efetivamente conheça. O fato de gostar quer dizer que você lê, assiste, ouve sobre esporte. Mas quem está contribuindo para te formar jornalista? É fundamental você buscar conhecimento, e ele pode vir da área acadêmica, dentro de uma faculdade, e pode vir por intermédio de pesquisas externas.

 

Entendo que a área acadêmica não seja o único caminho. Acho que o importante é querer conhecer, trabalhar com mais informação, o que nem sempre acontece. A gente sabe aquilo que o torcedor sabe. Quando você acaba virando um torcedor dentro da área jornalística, especialmente quando vai trabalhar com futebol, complica se você não deixar um pouco ou totalmente esse lado passional.

 

O lado acadêmico, para quem busca mais especificidade, eu acho extraordinário. Foi o lado que eu acabei buscando. Eu fiz uma pós-graduação em futebol na USP e um curso de administração para profissionais de esporte na FGV, de arbitragem na FPF, eu achei que precisava ter um conhecimento um pouco mais aprofundado. Não significa que tenha de acertar sempre, mas com certeza te dá uma segurança muito grande para exercer o trabalho jornalístico.

 

O meu curso era dividido em módulos. Vi muita coisa sobre as partes física, técnica, tática e psicológica, todas componentes do futebol como um todo, e foi extraordinário. Você passa a saber o que é feito, o que há de mais moderno, onde se está errando, exemplos de profissionais da área que ainda realizam trabalhos antiquados e quem está se adaptando à nova realidade…

 

Minha graduação é em jornalismo. Tive dificuldades de penetrar nesse mundo mais acadêmico do futebol, mas consegui uma tranqüilidade, acima de tudo, para saber onde pesquisar e tirar minhas principais dúvidas.

 

Cidade do Futebol – Os comentaristas que tiveram vivência em campo têm mais facilidade para enxergar o jogo?

Paulo Calçade – Nem sempre. Por experiência própria, por ter trabalhado com muitos, nesses anos todos eu percebo que alguns têm muita facilidade, e outros não. Essas diferenças são mais fáceis de enxergar quando esses ex-jogadores tornam-se treinadores. Os que têm sucesso conseguiram levar para dentro de campo e no dia-a-dia nos treinamentos o que construíram jogando

 

E os que foram excepcionais muitas vezes não conseguem traduzir isso em visão de jogo, em leitura tática. Ter sido jogador é ótimo, mas não é garantia para precisão nos comentários.

 

Cidade do Futebol – Como os jornalistas que não foram atletas fazem para compensar essa falta de conhecimento empírico?

Paulo Calçade – Há uma nova safra de jornalistas que se preocupam com essa parte tática, reconhecem que não jogaram, mas sabem que, se estudarem, podem suprir esse fato de não terem participado dentro de campo. A preocupação jornalística é outra, é essencialmente com a informação. Você foi formado para apurar, dizimar dúvidas. E percebo que alguns ex-jogadores ficaram parados no tempo.

 

Quem está se aposentando hoje, tendo mais ou menos uns 18 anos de carreira, iniciou nos anos 90 e foi treinado por gente que jogou nos anos 60. A informação que ele adquiriu foi de gente que jogou um futebol que não existe mais. Fazer a leitura de um tempo é se aprimorar, e tem muita gente que fica preso a isso. “Sou do tempo que o futebol…”.

 

A formação também precisa evoluir e muitos desses ex-jogadores ficaram estagnados. O futebol é diferente de tempos em tempos. As comparações são feitas em termos de críticas, e acho que o futebol hoje é apenas diferente. Está vinculado à nossa época, assim como o de quando Charles Miller chegou aqui com uma bola debaixo do braço, ou quando teve o profissionalismo, em 1933, e a consolidação do futebol brasileiro como esporte de massa. Depois tivemos a luta pelos títulos mundiais, com uma evolução que, a partir dos anos 60, passou a contar com a tecnologia, mais transmissões, o mundo ficou menor e ele é um negócio.

 

Daqui a 100 anos, vão olhar para o futebol de outro jeito e talvez sejamos mais críticos ainda, pois teremos imagens para provar, algo que não havia há algumas décadas. Apenas observo que o futebol mudou e temos de ter parâmetros.

 

Cidade do Futebol – Quais são as formas possíveis de atualização para jornalistas esportivos? É importante conhecer ciências atreladas ao esporte?

Paulo Calçade – Eu entendo que o esporte está fortemente vinculado à ciência, e ela altera diretamente o futebol: isso é um primeiro passo para avançar. A informação nessa área existe e a visão científica é fundamental a todos, para o jornalista, para os treinadores. É muito simples olhar para um automóvel de 2008 e um dos anos 60 e ver que a tecnologia usada para a construção de um e de outro é completamente diferente.

 

A medicina também avança, por exemplo. E o futebol não deve ser excluído desse processo. Eu vejo uma força de excluir o futebol da vida. Ele simplesmente é reflexo da sociedade vigente. O que o alemão, o holandês, o espanhol, o inglês faz no futebol reflete a maneira de como cada um desses povos enxergam a sua própria sociedade. Precisamos estar abertos a isso.

 

E, em nossa sociedade, hoje as coisas são muito rápidas, velozes, e essa velocidade está embutida no jogo, na maneira de pensar a fundo. O futebol está mergulhado nisso tudo.

 

Cidade do Futebol – O futebol se desenvolveu demais na área de preparação e treinamento. A imprensa acompanhou essa evolução ou ainda faz hoje um trabalho parecido com o que fazia no começo do século?

Paulo Calçade – Eu entendo que uma parcela pequena observa esse tipo de coisa. A base da imprensa é do cara que gostava de futebol, se formou em jornalismo e hoje vive nele. Claro que houve aprimoramento, mas não vejo que exista uma preocupação genérica com isso.

 

Existe, sim, uma geração mais antiga, que é onde há diferenças. Antigamente, o jogo era decidido em aspectos mais individuais. Hoje, é mais coletivo. Há a parte técnica, tática, psicológica, as equipes multidisciplinares. Em outros tempos, havia muito a figura única, o jogo decidido individualmente. A análise do jogo estava restrita à análise do gênio, do craque, e não se levando em conta aspectos mais globais. O rendimento era o do atleta.

 

Parte dessa imprensa, que ainda esta aí, trouxe para um futebol mais exigente, que exige um olhar mais complexo, essa questão individual. Bate-se muito nas questões individuais, que não há mais craques, que o jogo está ruim. Mas o futebol é outro, o jogo mudou e, com ele, os jogadores.

 

Espera-se muito a chegada do Messias, do grande craque, e se deveria abrir mais os olhos para esse futebol mais complexo, em cujo rendimento há muitas coisas interferindo.

 

Cidade do Futebol – Como é feita a preparação de um jornalista para comentar eventos esportivos? Que tipo de fonte é consultada?

Paulo Calçade – Outra coisa que mudou muito o trabalho da imprensa foi a internet. Hoje se tem muito mais informação à disposição. Você tem informação de quase todos os cantos do mundo. Talvez seja ela o que existe de mais importante na obtenção de informação. Na questão de livros, o Brasil sofre um pouquinho, mas fora do nosso pais, de parte tática, física, técnica você encontra pela internet. E, acima de tudo, uma boa entrevista. Aquela que te prepara para analisar o jogo de uma forma mais eficaz.

 

Cidade do Futebol – A busca por diferenciais no jornalismo esportivo deve acontecer apenas com estudo e fontes ou com atualização teórica?

Paulo Calçade – Acho que tem coisas que eu aprendi na minha pós é que todos os dias são diferentes. Como um estudante de Medicina, que se formou em 1980, utiliza-se hoje de pouco do que aprendeu. Esses estudos, o fato de perseguir uma atualização mais teórica, te põem dentro das tendências e não te deixam perder o rumo. Que tipo de futebol se estará praticando em 2030?

 

Cidade do Futebol – Durante um curso de realizado neste ano, no Sindicato dos Treinadores do Estado de São Paulo, no qual você participou como palestrante, o Mano Menezes, técnico do Corinthians, comentou que, no dia seguinte a uma partida, a capa do jornal dará destaque provavelmente ao atacante autor do gol, e não ao volante que anulou o craque do time adversário. Como trabalhar na mudança dessa cultura e apresentar a informação de uma maneira mais global?

Paulo Calçade – É o seguinte, eu entendo o que o Mano falou. Estamos num país que a cara do nosso futebol é diferente do espanhol, do inglês, do alemão. Por estrutura histórica, é voltado para a agressividade, para o ataque, para quem faz gol, para esse tipo de mentalidade. E é muito difícil mudar esse peso histórico.

 

Essa maneira de se enxergar o jogo, de buscar o volante, é uma coisa mais no futebol italiano, no inglês. Aqui o nosso negocio é gol, e também acho que a gente precisa entender onde a gente está inserido.

 

Aqui se ataca! Se pegar um italiano e botar para ver um jogo no Brasil, provavelmente ele ficará invocado. O jogo defensivo faz parte da maneira dele enxergar o futebol. Aqui, a ótica é outra. Nesse ponto a gente vai avançar mais lentamente. Você tem consumidores e ele quer ver o time agressivo, mas é algo que tem custo. Não sei, sinceramente, se vale a pena mudar.

 

Cidade do Futebol – Qual análise você faz da edição de 2008 da Eurocopa? Houve alguma mudança em termos táticos, em uma comparação à última Copa do Mundo, por exemplo?

Paulo Calçade – Não vejo nada de mais. As seleções jogam basicamente no 4-4-2 ou no 4-2-3-1, preenchendo o meio com cinco jogadores. O que a gente continua vendo é um futebol que usa muito os lados do campo. Porque geralmente tem uma linha de quatro atrás que não se move. Aqui, jogamos com os dois meias que afunilam e dão espaço aos laterais.

 

Continuamos enxergando as mesmas diferenças de sempre. E, para mim, o que importa é como você faz quando tem a bola e quando não tem a bola. A parte tática, o desenho, a numeração, é muito prático. Mas se você não tem um time que marca, é mais o lado individual de cada jogador colocado dentro do esquema, é mais complicado se ter sucesso.

 

Cidade do Futebol – O que você pensa sobre José Mourinho, que recentemente acertou com a Inter de Milão e dirigirá o atual campeão italiano nas próximas temporadas?

Paulo Calçade – Ele é um cara diferente. Diferente e diferenciado. O Mourinho tem uma concepção acadêmica do futebol de que eu gosto muito, mas não significa que ele vai ser melhor do que os outros. A gente está falando de alguém que não jogou. Ele tem esse mérito, ele viveu o futebol.

 

Formou-se em uma escola de Educação Física. Quando você pega livros dele e lê a concepção de treinamento e jogo, é algo extremante acadêmico, olhando para todos os aspectos positivos que essa expressão acolhe.

 

Aqui, vemos isso de maneira pejorativa e, para mim, é algo fantástico. O time com ou sem bola, o posicionamento, variáveis de treinamento, como ele aproveita as unidades de treinamento, o que ele faz. É muito interessante, e é muito diferente.

 

Ele tem um caminho que não é muito comum. É um jovem de sucesso e eu gosto muito dele. Apenas acho que ele está em um meio de visões acadêmicas que cada vez mais a gente vai encontrar. O Mano, apesar de ter sido zagueiro, no Sul, o Ney Franco, o Paulo Autuori, o próprio Parreira, são caras que não jogaram e fizeram Educação Física.

 

Cidade do Futebol – Qual a real importância dessa formação pedagógica?

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