Paulo Meneses, preparador físico do Chorrillo FC, do Panamá

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Em um período de seis meses, o preparador físico Paulo Meneses vivenciou duas realidades bem distintas de estágios de desenvolvimento que o futebol tem atualmente no mundo.

Entre 2013 e 2014, fez parte de uma das principais escolas de formação do mundo hoje em dia. Trabalhou na comissão técnica de Vicente Del Bosque na preparação da seleção espanhola para a Copa das Confederações e Copa do Mundo que foram realizadas no Brasil.

Pouco tempo depois, aceitou talvez o seu maior desafio na carreira: assumir o modesto Chorrillo FC, do Panamá, e tentar ajudar a desenvolver o futebol daquele país que o principal esporte da população é o beisebol.

“Pelo que estou a notar, há muito trabalho para fazer. E mudar mentalidades é o mais difícil no futebol. Eles têm uma cultura muito enraizada na crença em que a Preparação Física é que está no centro do Rendimento do Futebol. Então, creio que têm muitos anos ainda para percorrer (evoluir e crescer) para se aproximarem ao nível do futebol que temos na Europa”, compara o profissional.

“Eu cheguei ao Panamá na altura que começavam a preparação do Torneio Pré-Mundial sub-20, que acabaram por conseguir classificação direta. Creio que são estes tipos de méritos que fazem com que a modalidade de futebol cresça no país, que as pessoas comecem a ir mais aos estádios, que se interessem mais pelo esporte e que assim, possa rivalizar com outros desportos que têm muito sucesso no Panamá. Mas, este país tem muitas dificuldades a nível social. A maior parte dos jogadores é dos bairros. São jogadores de futebol de rua, o que é bom porque são competitivos e técnicos, mas perdem em termos de regras e algum comportamento profissional de um atleta de futebol que a este nível já deveria ter. Depois, a nível tático, vejo que há muito trabalho para fazer com este tipo de jogadores, porque creio que não existe um trabalho de formação neste sentido”, avalia.

Para superar estas adversidades, Paulo Meneses aposta nos teus conhecimentos adquiridos na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa, onde estudou José Mourinho, Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira (ex-Porto), Leonardo Jardim (Mônaco), entre outros. E para colocar suas ideias na prática, recorre à metodologia de treino da Periodização Tática.

“Neste momento, na Europa, há uma contradição muito grande em relação a todas as atividades que são realizadas fora do contexto do futebol. Ou seja, tudo o que não seja especifico dos esforços do jogo de futebol, parece que não tem assim tanta transferência para potenciar o rendimento dos nossos jogadores. Agora, temos é que saber onde estamos, que condições temos para realizar o que pretendemos, e ter a coisa mais importante no futebol (e na vida): poder de adaptação. E ter também uma segunda coisa fundamental: ser flexível”, completa.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Paulo Meneses ainda conta como executa seus treinamentos e como vê as atividades utilizadas fora do campo, como musculação, sessões de treinamento funcional, yoga, massagem, entre outras. Confira: 

Universidade do Futebol – Conte-nos um pouco sobre sua formação e trajetória profissional.

Paulo Meneses – Considero que a formação é continua e diária. Só consigo estar assim na vida (valores sociais e humanos)… e também no futebol (conhecimento, valores sociais e humanos), saber mais todos os dias, aprender algo novo, fazer algo extraordinário todos os dias. Por mim, pela minha equipe, pelos meus atletas.

Mas, em relação à sua pergunta, eu fui jogador federado durante 14 anos em Portugal, dos quais, nove atuei como atleta profissional desta modalidade. Fiz Licenciatura em Educação Física ainda quando era jogador. Posteriormente, deixei de jogar e fui estudar Ciências do Desporto – Treino Desportivo em Futebol na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa. Esta universidade é onde estudou José Mourinho, Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira (ex-Porto), Leonardo Jardim (Mônaco), etc.

Depois, fui terminar esta Licenciatura em Madrid no INEF. Foi lá que conheci Javier Miñano, da seleção espanhola de futebol, como professor. Na ocasião, ele convidou-me para ficar na capital espanhola para colaborar com ele.

Neste período, realizei um estudo e análise de diferentes conteúdos de Planificação e Treino na etapa de preparação da Copa das Confederações 2013 e da Copa do Mundo de 2014 realizados no Brasil e que teve a participação da seleção espanhola. Fui treinador e atuei na organização do Campus Javier Miñano entre 2013 e 2014, e ajudei no apoio da docência das aulas de Futebol – Alto Rendimento, na Facultad de Ciencias de la Actividad Física y del Deporte de Madrid – INEF. Colaborei ainda com Antolín Gonzalo no Scouting da Seleção Espanhola de Futebol e na observação de adversários da fase pré-Mundial e durante a Copa, assim como a análise de jogadores espanhóis possíveis de serem convocados. Escrevi vários artigos sobre a Periodização Tática para a Revista AB Fútbol, da Espanha.

Também na Espanha, estive no Alcorcón por duas temporadas, com várias equipes e vários cargos no clube: nas equipes B, sub-18, sub-17, sub-15, como coordenador de metodologia de treino do clube, baseada na Periodização Táctica. Treinei também o Moratalaz ED, de Madrid, e fui responsável pelo treino das posições específicas (centrais, laterais, etc) e dos setores (defensivo, meio de campo, etc).

Antes, em Portugal, fui treinador de uma equipe sub-12 da Academia de Talentos do Sporting Club de Portugal, escola onde foram formados jogadores como Cristiano Ronaldo, Nani, etc. Trabalhei também como técnico e jogador da equipe de futebol da Faculdade de Motricidade Humana, além de atuar no Scouting do União de Leiria, que disputava a 1ª Divisão Portuguesa em 2011.

Há que ter em conta nas quatro componentes do rendimento no Futebol: Tática, Psicológica, Técnica e Física. E eu, acrescentaria mais algumas componentes porque considero muito importantes por terem um efeito (indireto) no rendimento do jogador, como, por exemplo, a parte social, a gestão de vestiário, etc, aponta 

Universidade do Futebol – Nos últimos três anos, você viveu em Madrid, onde colaborou com Javier Miñano, preparador físico da seleção espanhola de futebol. Conte-nos como era feita a periodização dos treinamentos e como cada conceito era trabalhado com os jogadores.

Paulo Meneses – Consultei o Javier Miñano, mas ele me disse que este tema é de caráter confidencial e os únicos que estão autorizados a responder ou revelar estas informações são os integrantes do próprio corpo técnico da seleção espanhola.

Universidade do Futebol – E no Chorrillo FC? Como você realiza a periodização e o planejamento da sua equipe? Quais metas você estipula para os jogadores e como as cobra ao longo da temporada?

Paulo Meneses – Neste momento, o tema da planificação em Futebol de Alto Rendimento entendida na Europa funciona da seguinte forma: planifica-se microciclo a microciclo (semana a semana). Planifica-se um microciclo quando termina o jogo do fim de semana, segundo o adversário seguinte. A maioria dos treinadores planifica o dia seguinte, quando termina a avaliação do treino do próprio dia. Ou seja, acabo o treino hoje, reunião com os colaboradores, sacam-se conclusões da sessão de hoje (o que correu bem, o que correu menos bem, situação da equipe ou de algum jogador individualmente, etc) para depois se poder passar à planificação da sessão do dia seguinte. No que diz respeito à Periodização propriamente dita, há muitas equipes técnicas que seguem um pouco o microciclo padrão da Periodização Tática, na qual apresento no seguinte quadro:

Isto não quer dizer que eu siga ou que todas as equipes técnicas sigam este quadro rigorosamente porque há de ter em conta a realidade na qual estamos a trabalhar, para assim podermos ajustar-nos e adaptar-nos. Mas, de fato, este quadro ajuda-nos a seguir uma coerência de exercício para exercício, de dia para dia, dentro de uma lógica semanal e também em termos dos conteúdos diários selecionados.

Em relação à segunda parte da pergunta, em primeiro lugar eu acho que devemos ir ao encontro das metas e objetivos que o próprio jogador tem para a sua carreira, que tem para a temporada, e ir além da relação treinador – jogador, ou seja, eu defendo que se pode sair a ganhar (treinador e jogador) se houver por parte do treinador um conhecimento do jogador mais profundo (o nível social, por exemplo). Aqui está claro que temos que “entrar no mundo” do jogador para poder sacar um perfil psicológico de cada jogador e assim ter uma relação adequada e adaptada a cada tipo de personalidade e caráter, com o objetivo de poder sacar o máximo rendimento de cada um.

Numa entrevista, Iker Casillas referindo-se a Mourinho, dava o exemplo: “na primeira conversa que Mourinho tem contigo, em 15 minutos de conversa, 14 minutos são para te conhecer como pessoa, o teu caráter, a tua personalidade, etc.” Eu penso que, somente com a minha presença aqui já representa um estímulo extra para os jogadores porque todos têm a ambição e o sonho de poder jogar na Europa, ou têm a vontade de serem (melhor) preparados para jogar em ligas mais importantes (Colômbia, México, etc). No entanto, pensei que só a minha presença aqui não chega – para mim, havia (e há constantemente todos os dias) a necessidade de dar “corpo” e objetividade à mensagem “Europa”.

Então, tinha bem presente que o primeiro contato com o grupo era fundamental para criar impacto. Decidi que seria bom na primeira coversa incentivá-los, desafiá-los, entrar no seu “mundo social” e nas suas cabeças para despertá-los para as oportunidades que se podem abrir com a minha presença, porque eu tenho a opinião de que é muito importante um líder guiar o grupo para o caminho a seguir (através da Descoberta Guiada).

Vou contar um exemplo prático da primeira conversa que tive com o plantel do Chorrillo. Eu disse: “Eu vim para o Chorrillo para ganhar e para ajudar… ajudar o clube a crescer, a equipe a tornar-se mais profissional e cada um de vocês a crescer como futebolista e para ganhar a liga. Eu quero ser melhor treinador cada dia com vocês, quero evoluir constantemente, quero crescer como treinador trabalhando com vocês. Quero melhorar as estatísticas desta equipe e dos jogadores individualmente, e vocês vão-me ajudar nisso. Quero que vocês sejam os melhores da liga nas suas posições e que isso contribua para levar mais jogadores à seleção! Quantos jogadores estão aqui da seleção? Três Jogadores? É muito pouco, vamos elevar esse número para o dobro! E os que já foram à seleção e agora já não vão? Quatro Jogadores? Pois vamos trabalhar para que vocês possam ir de novo. Vocês querem jogar na Europa ou em ligas mais competitivas? Querem ganhar mais dinheiro e ajudar as vossas famílias a sair desta realidade? Querem ganhar dinheiro para comprar uma casa para a família? Pois já não basta serem jogadores profissionais, há a necessidade de tornarem-se em atletas profissionais, e foi para isso que eu vim. Eu vou tentar ajudar a fazer essa mudança, mas não vai ser fácil porque o caminho é muito longo e duro. Há que trabalhar muito e fazer muitos sacrifícios – dentro e fora do gramado. Eu vou ser muito exigente e muito chato com vocês. Mas ao final das contas, têm que ser vocês os primeiros a querer sair daqui e trabalhar duro para isso. Sei que vocês têm muita qualidade, mas isso não é suficiente para ganhar os jogos. Temos que demonstrá-la todos os dias nos treinos e em cada jogada, em cada exercício, disputar cada bola como se fosse a bola mais importante da nossa carreira… para podermos preparar-nos da melhor forma”.

Ou seja, o que vemos aqui no meu discurso, em minha opinião, é uma forma de “entrar nas suas cabeças”, ir ao encontro dos seus sentimentos, ambições (profissionais e sociais), entrar no “seu mundo” para poder mobilizá-los, para conseguir um autocompromisso da sua parte – no fundo é motivar, desafiar para que haja superação diária. Mourinho tem este discurso sobre o seu trabalho de motivação, na qual eu me identifico a 100%, e tento colocar em prática com os meus jogadores. Ele diz: “Eu acho que a melhor maneira de motivar – pelo menos a que eu encontro de uma forma mais consistente, que deixe menos dúvidas, de mais fácil entendimento e de uma maior durabilidade – é motivar os outros com as minhas próprias motivações. Acho que as minhas próprias motivações são o melhor motor das motivações dos outros que eu lidero. Ou seja, eu quero ganhar, eu quero vencer, eu quero ser o melhor, eu quero ganhar os prêmios coletivos, mas também individuais, eu quero somar títulos atrás de títulos, eu quero conseguir o melhor contrato, eu quero ganhar mais dinheiro, eu quero preparar melhor o futuro da minha família, eu quero ser historicamente reconhecido como o melhor ou um dos melhores, eu quero deixar uma marca por onde passo, eu quero q
ue os adeptos dos clubes por onde passei se recordem de mim como alguém importante; estas são umas das minhas – muitas – motivações, e que, de uma forma natural, eu passo, cada dia e cada hora, na maneira como falo, como ajo, como me comporto, como gesticulo, até na maneira como pressiono todos aqueles que comigo trabalham. Portanto, a minha motivação é aquilo que eu considerar ser o motor da motivação dos outros, até porque a minha motivação tem diretamente a ver com os outros e com as suas motivações. Por exemplo, quero que o departamento médico tenha também a ambição de ser melhor todos os dias, de bater recordes nas recuperações dos atletas. Eu acho que, no fundo, a motivação do líder é aquilo que perdura. No meu caso pessoal, esta motivação intrínseca é como respirar. Faz parte de nós, e no dia em que eu deixe de respirar é porque morri. Ora, na minha profissão é isso que me acontecerá. No dia em que não tiver motivação é porque estou morto profissionalmente. Por outras palavras, no dia em que me faltar a motivação é hora de acabar e de deixar o futebol”.

Ou seja, o que se nota neste discurso de Mourinho não é mais que uma atitude constante, diária um pouco baseada na Inteligência Emocional – que é um dos temas que eu gostaria de desenvolver numa outra oportunidade. Para mim, não passa tanto por “cobrar”, num primeiro momento, mas sim convencer os jogadores a se comprometerem com um objetivo coletivo e individual (ou com um objetivo individual que depois aporta algo positivo para o coletivo). Vou além: eu considero (e tento colocar em prática), que motivando os atletas a comprometerem-se e a exigirem-se diariamente com os objetivos e com as metas, penso que é muito mais proveitoso e mais eficaz para o atleta.

Também é importante termos o conhecimento que devemos colocar desafios constantes de superação ao longo da temporada para que eles sigam focados nos objetivos individual e coletivo. A palavra “cobrar” é bem empregue para algum jogador que não tenha a intenção ou a vontade suficiente para ser profissional diariamente, que lhe custe comprometer-se, que não trabalhe duro ou que não se cuide fora do gramado. No entanto, e como se pode analisar, eu gosto mais de convencer, motivar, desafiar os atletas constantemente.

Para isso, é necessário haver uma “Planificação de estímulos psicológicos”. Ou seja, tenho uma tabela onde aponto as conversas (ou outro tipo de estímulo) que tenho temporariamente com cada jogador. Assim, consigo levar uma “planificação” organizada para dar os estímulos em tempos concretos e na altura certa, segundo o que vou sentindo e analisando da relação que tenho com os jogadores. Depois, tenho um “diário” no qual aponto os conteúdos de cada estímulo, aqui já entramos numa área do tipo de estímulo / qualidade do estímulo que vou dando ao jogador.

Para isso, é necessário conhecer o jogador como pessoa (caráter e personalidade) para saber se nesse momento “y”, para esse jogador “x”, tenho que seguir motivando e convencendo ou se tenho que cobrar. Então, segundo o que eu apresento aqui relacionado com os estímulos psicológicos, leva-nos a pensar que o treino mental (visualização mental) está muito presente no meu trabalho. Este tema, tal como muitos outros, gostaria de podê-los desenvolver numa outra oportunidade, porque penso que são fundamentais. Claro, que tudo isto, juntando a todo o trabalho que dá a metodologia de treino descrita nesta entrevista, dá muito trabalho, mas se assim não for não conseguimos fazer a diferença em relação aos outros treinadores e equipes.

Penso que todo este processo de treino através desta metodologia de treino, acaba por ser uma mais valia para o jogador poder desenvolver as suas competências e habilidades (em termos táticos, técnicos, Físicos e psicológicos, tomada de decisão). Podemos chegar à conclusão, pela experiência que tenho e pelos feedbacks dos jogadores, esta metodologia é uma motivação extra para o jogador que o leva a desafiar-se a si mesmo continuamente, autopropondo metas e objetivos todos os dias, em todos os exercícios. Deixo aqui um exemplo de alguns itens de metas / objetivos a conseguir (propostos por mim, ou autopropostos pelos atletas), metas de superação diariamente, rendimento diário nos treinos e/ou jogos:

Zagueiros:
Ofensivo: Quantos passes filtrados com sucesso vou fazer para os volantes? Defensivo: Quantos duelos aéreos vou ganhar?

Volantes:
Ofensivo: Quantos passes certos vou realizar?
Defensivo: Quantos roubos de bola vou fazer?

Pontas:
Ofensivo: Quantos dribles executo com sucesso?
Defensivo: Quantas vezes ajudo o meu lateral num exercício / jogo?

Laterais:
Ofensivo: Quantas vezes ajudo no ataque, incorporando-me no processo ofensivo?
Defensivo: quantas vezes evito cruzamentos ou evito que me driblem?

Atacantes:
Ofensivo: Quantos gols marco por treino / quantas jogadas dou seguimento (jogo de equipe)?
Defensivo: Quantas bolas roubo no campo do adversário?

Isto são alguns exemplos do que se pode fazer diariamente em cada exercício ou em curto prazo, estipulando metas / objetivos para os atletas. Assim conseguimos que eles se comprometam com a equipe, comentando, falando em que querem ajudar segundo as suas posições / funções individuais e coletivas dentro da equipe. No âmbito do treino, claro que cada exercício tem um objetivo tático coletivo claro para conseguir, e segundo esse objetivo coletivo, podemos focar alguns objetivos individuais para aumentar e melhorar o resultado individual, setorial, grupal; o crescimento do atleta (em termos qualitativos – o mais importante) e quiçá quantitativos; além da produtividade dia a dia. Cada exercício de treino, cada segundo do treino para aproveitar para melhorar e crescer como atleta.

Notamos que em termos de conteúdo das perguntas / sugestões, há algo de treino mental através da visualização. Porque entendo que é muito importante o atleta saber utilizar isso como treino / ação prévia ao que vai se passar no treino ou no jogo (ou ao que quer que se passe na realidade quando esteja em ação). Então, o treino mental também é um dos temas que poderíamos abordar futuramente, numa outra altura.

Há também o controle do peso. Rigor máximo para o controle semanal do peso de cada atleta. Além disso, realizei um documento com uma dieta de atleta profissional, no qual está especificada uma variedade do que devem comer e beber em cada dia da semana. Há também as metas físicas, que é passar de ser jogador profissional para passar a ser atleta profissional. Ou seja, temos um plantel com jogadores que são muito parecidos aos jogadores do Barcelona em alguns aspectos. Muito bons tecnicamente, rápidos, não muito fortes. Então, um dos objetivos que a direção do clube colocou foi um trabalho específico para desenvolver a parte superior do corpo (tronco, braços, abdominais, etc) c
om o objetivo de melhorar o seu rendimento e assim estarem preparados para poderem competir em ligas mais competitivas.

O Panamá tem muitas dificuldades a nível social. A maior parte dos jogadores é dos bairros. São jogadores de futebol de rua, o que é bom porque são competitivos e técnicos, mas perdem em termos de regras e algum comportamento profissional de um atleta de futebol que a este nível já deveria ter. Depois, a nível tático, vejo que há muito trabalho para fazer com este tipo de jogadores, porque creio que não existe um trabalho de formação neste sentido, afirma 

Universidade do Futebol – Muitos preparadores físicos se utilizam de atividades para além do campo, como musculação, sessões de treinamento funcional, yoga, massagem, etc. Qual sua opinião sobre estes trabalhos? Quais você realiza?

Paulo Meneses – Neste momento, na Europa, há uma contradição muito grande em relação a todas as atividades que são realizadas fora do contexto do futebol. Ou seja, tudo o que não seja especifico dos esforços do jogo de futebol, parece que não tem assim tanta transferência para potenciar o rendimento dos nossos jogadores. Agora, temos é que saber onde estamos, que condições temos para realizar o que pretendemos, e ter a coisa mais importante no futebol (e na vida): poder de adaptação, e ter também uma segunda coisa fundamental: ser flexível. Vou-lhe dar dois exemplos distintos no que toca à musculação.

Primeiro, Mourinho não realiza atividades na academia com as suas equipes, realiza sim um trabalho baseado na Periodização Tática no campo, exercícios direcionados fundamentalmente para a organização tática da equipe – exercícios sempre com intensidade máxima – para que também atinjam os níveis físicos pretendidos.

Em segundo, por outro lado, outros treinadores, também reconhecidos pelo seu trabalho e com méritos por ganharem troféus com as suas equipes, são o oposto: utilizam a academia (porque eles acreditam nisso e passam esse mesmo sentimento para os seus jogadores).

Há um aspecto muito importante que também há de ter em conta. Se o jogador está habituado a realizar a musculação e gosta disso, vai te pedir para ir lá malhar, e tu aceitas adaptando-te ao contexto e à “cultura” dele. No entanto, se possível, deixaria em aberto para que o jogador decida se quer ou não quer.

Então, eu vejo isso mais como uma ferramenta (para quem acredita na academia), como uma crença, como um efeito placebo e não tanto como uma causa – efeito prático com melhoras diretas no rendimento, no qual entenda-se como um termo que engloba muitas variáveis – e não este aspecto como muitos leitores possam pensar: que o atleta que realiza musculação, vai estar mais forte e logo o seu rendimento vai estar melhor.

Pois há que ter em conta nas quatro componentes do rendimento no Futebol: Tática, Psicológica, Técnica e Física. E eu, acrescentaria mais algumas componentes porque considero muito importantes por terem um efeito (indireto) no rendimento do jogador, como, por exemplo, a parte social, a gestão de vestiário, etc…

Aqui no Chorrillo FC, alguns jogadores já me perguntaram se poderiam fazer musculação e me demonstraram que gostavam e queriam fazer academia. Para esses jogadores, preparei-lhes um plano para esse efeito. Como tinha referido, é muito importante ir ao encontro do bem-estar dos jogadores e ao que eles gostam de fazer e, sobretudo no que acreditam realmente que lhes pode servir e que os faz sentir bem para melhorar o seu rendimento.

No que diz respeito ao treino funcional, vejo-o mais adequado à tipologia de esforços que o futebol requer. Porque, pode-se tentar reproduzir os movimentos reais que o futebol tem na sua prática no que diz respeito às velocidades em que se realizam, vencendo uma força externa.

Aqui no Chorrillo FC, montei uma academia funcional numa sala ao lado do vestiário no qual temos as nossas sessões de ginásio funcional.

A Yoga, como eu considero que é um trabalho da mente, espiritual, então, talvez seja uma componente da parte da psicologia. Conhecendo as suas aplicações na NBA por parte do treinador Phil Jackson, me parecem interessantes e importantes, sempre quando bem aplicadas e, sobretudo, quando o grupo de jogadores que temos, acreditam nesse tipo de trabalho. Mas, eu prefiro fazer o treino mental com os jogadores.

A massagem é muito importante como uma técnica de recuperação / ativação, mas também considero que tem efeitos mentais positivos, podendo se realizar antes ou depois do treino / jogo. Quer seja, para ativar o jogador antes de um treino, ou para relaxar depois de um treino. Não somente o efeito que tem a nível físico, mas também a sensação mental que o jogador tem depois da massagem.

Também existe a massagem para fins como recuperar alguma lesão ou evitar uma lesão (contraturas musculares, por exemplo). Aqui no Chorrillo FC temos várias formas de realizar as massagens. A equipe médica que tem o fisioterapeuta / massagista que se ocupa do âmbito da recuperação de lesões; a outra é quando se necessita uma ativação antes e relaxação depois dos treinos / jogos dos jogadores. Temos banhos com água quente para pernas dois dias antes dos jogos e logo seguido de massagem; e depois existe uma outra (extra). Quando há algum jogador que está muito fatigado (carregado muscularmente), eu me disponho a dar-lhe uma massagem fora das horas de treino para poder relaxar e recuperar melhor e mais rápido para a sessão seguinte ou para o jogo.

As sessões estão planificadas para durarem 90 minutos. Treinar durante 90 minutos, tem uma razão lógica: se no futebol tem que se trabalhar fundamentalmente a concentração, então, há a necessidade de adaptar o organismo a estar concentrado durante os 90 minutos, com as 4 componentes do rendimento sempre presentes em todos os exercícios: tática, psicologia, técnica e física, explica

Universidade do Futebol – Como está desenvolvido o futebol panamenho? Quais as possibilidades de desenvolvimento do país na modalidade?

Paulo Meneses – Eu cheguei aqui há pouco tempo, no dia 7 de dezembro de 2014. Mas pelo que estou a notar, há muito trabalho para fazer. E mudar mentalidades, é o mais difícil no futebol. Eles têm uma cultura muito enraizada na crença em que a Preparação Física é que está no centro do Rendimento do Futebol.

Então, creio que têm muitos anos ainda para
percorrer (evoluir e crescer) para se aproximarem ao nível do futebol que temos

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alexander oliveira
alexander oliveira
4 anos atrás

Ola me chamo alexandee e atualmente jogo na varzea em florianopolis Santa Catarina paiz brasil….estou procurando una oportunidade de mostrar o meu talento tenho 27 anos mas ainda em plena forma fisica …muito abilidoso e tbm otimoos passes atuo como armador…meu email e alexanderxmem@gmail.com aguardo ansioso por algum tetorno…desde ja muito obrigado…

José Carlos Gomes
José Carlos Gomes
3 anos atrás

Xareu, parabéns pelo percurso e pelo livro…Victor Frade já faz falta.
Abraço, Zé Gomes

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