Universidade do Futebol

Gepeef

15/03/2011

Pedagogia do Esporte e sua relação com a Psicologia do Esporte*

As áreas de conhecimento da pedagogia do esporte e da Psicologia do esporte sempre foram trabalhadas juntas mesmo que o profissional de Educação Física não percebesse. Sempre que uma comissão técnica, um grupo interdisciplinar ou apenas um professor de Educação Física desenvolve um trabalho com um grupo de alunos os conhecimentos gerados estão imbuídos de uma ação pedagógica, porém nem sempre com responsabilidade, pois essa não pode negar o contexto e as responsabilidades sociais com tal grupo de alunos.

Nesse mesmo sentido os conhecimentos da Psicologia do esporte também estão sempre presentes em quase todas as atividades realizadas no dia a dia, o que dirá numa prática esportiva. No entanto, o que falta a alguns profissionais de Educação Física é ter consciência de quais são esses conhecimentos e como podemos organizá-los em nosso planejamento para obtermos o melhor de cada aluno. Isso não significa formar um atleta, mesmo que isso possa acontecer, mas ter um planejamento que se preocupe com o bem estar não só físico, mas também psíquico do seu aluno.

O profissional que se preocupa com isso e está sempre avaliando seu grupo e alterando seu planejamento quando necessário está a frente de muitos outros e, muito provavelmente, realizando um excelente trabalho.

Pedagogia e Pedagogia do Esporte

A pedagogia não se refere única e exclusivamente ao modo como se ensina. Nas palavras de Libâneo (1994; 2002 apud SCAGLIA e SOUZA, 2004), a área do conhecimento e o objeto de investigação da pedagogia superam as perspectivas metodológicas e procedimentais, porém não as excluem. Com isso, pretende-se indicar que a pedagogia é uma teoria que se estrutura a partir de uma ação, portanto, elaborada em função de exigências práticas, interessadas na execução da ação e suas conseqüências.

Portanto, pedagogia constitui-se como teoria prática e prática teórica, designando ao professor as responsabilidades de um pedagogo, as quais podem se resumir em dar-lhe um tratamento, uma direção pedagógica (intencional, consciente, organizada), transformando os conhecimentos produzidos pelos homens em meio as suas constantes interações em matéria de ensino.

Psicologia do Esporte

A disciplina Psicologia do Esporte começou a ser incluída na grade curricular de alguns cursos de Psicologia na década de 90 [1990], porém atualmente essa disciplina é muito mais presente nas grades curriculares dos cursos de graduação em Educação Física (RODRIGUES, 2006, RÚBIO, 2000b). Atualmente, por conta da Resolução CFP nº 014/2000 FP, atualmente a Psicologia do Esporte é uma especialidade da Psicologia. No entanto, os temas básicos dessa área são tratados em diversos livros e adotados nas disciplinas ministradas nos cursos de Educação Física, o que possibilita não apenas aos psicólogos especialistas, mas também aos professores de Educação Física entender a contribuição dessa área (RODRIGUES, 2006; SILVA, 2007).

Levando em consideração as competências definidas pela International Society of Sport Psycholog (ISSP); Associação Americana de Psicologia e o Comitê de Reconhecimento de Especialidades e Proficiências do Psicólogo (APA/CRSPPP); Associação para o Avanço da Psicologia do Esporte Aplicada (AAASP) e dos CFP e CRP (Conselho Regional de Psicologia) – Brasil, Rodrigues (2006) apresenta os pontos comuns e as diferenças definidas pelas mesmas. Seguem abaixo dois desses pontos:

1. Saber sobre instrumentos de mensuração como questionários, entrevistas aprofundadas, observação;

2. Ensinar aos atletas, metas específicas de controle mental, emocional, comportamento, aspectos psico-sociais no esporte e atividade física.

No entanto, Rodrigues (2006) alerta que as competências anteriormente dispostas podem e devem sofrer modificações ao longo do tempo, já que tanto o conhecimento quanto os indivíduos são dinâmicos, ou seja, estão em constante processo de mudança.

Psicologia do Esporte e sua relação com a Pedagogia do Esporte

Mesmo sabendo que é função do psicólogo especialista em Psicologia Esportiva exercer todas essas e mais algumas funções nesta área, algumas o próprio profissional de Educação Física pode exercer sem qualquer prejuízo aos seus alunos. Como exemplos têm algumas funções acima listadas que serão discutidas abaixo, uma vez que esses temas são discutidos nas disciplinas dos cursos de Educação Física, e não se restringe à disciplina Psicologia Esportiva, mas se encontram inclusive em disciplinas como Metodologia da pesquisa, Didática em Educação Física e Psicologia da educação.

Para tanto, cabe ao profissional da Educação Física compreender a função de um psicólogo esportivo para não invadir uma área de conhecimento que não seja a sua, e assim saber o limite entre as áreas. Para isso é necessário que além da formação acadêmica, o profissional de Educação Física saiba quais suas funções as quais são discutidas durante sua formação e estão descritas no seu código de Ética. Num trecho deste, em seu art. 8º., o Estatuto do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF, 2010) dispõe que: “Compete exclusivamente ao Profissional de Educação Física, coordenar, planejar, programar, prescrever, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, orientar, ensinar, conduzir, treinar, administrar, implantar, implementar, ministrar, analisar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como, prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas, desportivas e similares.” (grifo da autora).

Relacionando o que diz o Estatuto do CONFEF (2010) em seu art. 8º. – acima descrito -, com o que diz a Resolução CFP nº 014/2000 FP sobre a especialidade do Psicólogo esportivo, podem-se destacar algumas atividades que o profissional de Educação Física pode realizar sem agir como “falso Psicólogo”, mas como educador. Seguem dois exemplos destacados do trabalho de RODRIGUES (2006) referentes às competências do especialista em Psicologia esportiva seguidos de sugestão de ações por parte dos profissionais de Educação Física.

1. Saber sobre instrumentos de mensuração como questionários, entrevistas aprofundadas, observação;

– O profissional de Educação Física cursa disciplinas na sua formação que o possibilita saber organizar, aplicar e compreender os resultados de questionários, entrevistas aprofundadas ou não e de sua própria observação. É claro que o “olhar” de um psicólogo esportivo é diferenciado do olhar de um profissional de Educação Física, mas isso não significa que este último não possa avaliar seu grupo e perceber quais suas principais características e necessidades psicológicas. Talvez ele não dê conta de trabalhar com as mesmas, mas esse é outro passo. O simples fato de avaliar, perceber necessidades e alterar seu próprio planejamento de aula ou treino já pode auxiliar a importantes mudanças no comportamento dos seus alunos em conseqüência de uma melhor percepção do professor.

2. Ensinar aos atletas, metas específicas de controle mental, emocional, comportamento, aspectos psico-sociais no esporte e atividade física;

– O profissional de Educação Física, por meio da própria atividade física, de exercícios bem planejados, aplicados e executados consegue auxiliar seus alunos a terem e manterem um melhor controle dos seus estados emocionais, dos seus pensamentos e, conseqüentemente, do seu comportamento. Exercícios que interagem respiração bem executada com interação social, por exemplo, pode auxiliar as pessoas a se sentirem muito bem, mesmo num treino exaustivo. Algumas técnicas de treinamento mental também podem ser executadas durante o próprio exercício aplicado pelo professor, assunto este tratado por vasta literatura que não se restringe a área da Psicologia. No entanto, é preciso saber das possíveis conseqüências dessa prática.

Como destacado no código de Ética pelo CONFEF (2010) e pelos exemplos citados, o profissional de Educação Física tem formação acadêmica que o possibilita planejar, ensinar e avaliar o seu trabalho tanto sozinho quanto junto a uma equipe interdisciplinar – o que pode ser muito melhor para todos. Além disso, os conhecimentos da Pedagogia do Esporte e da Psicologia esportiva estão cada dia mais fáceis de serem acessados tanto por meio de livros e pela internet. O material é abundante e por conta dessa facilidade de acesso não há mais desculpa para o profissional de Educação Física não exercer sua ação pedagógica com respeito à formação social de seus alunos.

Considerações finais

Em momento algum a especialidade de psicólogo esportivo reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) ao profissional de Psicologia é colocada em questão. Este é o profissional, reconhecido pelo seu próprio conselho, mais capaz de atender as exigências psicológicas das pessoas que praticam atividade física seja para lazer, reabilitação, escolar ou de competição.

No entanto, o que o texto discute é que o profissional de Educação Física, por conta da sua formação e atuação direta com os próprios alunos, tem condições de avaliar as características e necessidades psicológicas de seu grupo e fazer uso dessa avaliação para alterar seu próprio planejamento – o qual deve estar em constante avaliação – e, se for o caso, se perceber que não dará conta da situação avaliada, deve buscar a ajuda de um especialista em Psicologia esportiva.

Caso o profissional de Educação Física trabalhe numa equipe interdisciplinar que tenha um especialista em Psicologia do esporte, fica muito mais fácil ele planejar seu trabalho a partir do momento em que entende quais as competências de cada um e como um pode ajudar ao outro. Isso até soa simplista, mas é muito comum profissionais de diferentes áreas não entenderem o papel de seus colegas de trabalho, por isso tanto a boa formação de cada um como um planejamento, aplicação e avaliação interdisciplinar são fundamentais nesse caso.

Relacionando o conceito de pedagogia de Libâneo (1994; 2002 apud SCAGLIA e SOUZA, 2004) com a função do profissional de Educação Física, sendo esta uma área educacional, a qual deve agir de forma intencional, consciente e organizada, pode-se concluir que para se ensinar qualquer conteúdo não basta ser um super especialista, ou seja, ter um conhecimento muito aprofundado sobre uma matéria específica. É preciso que sua ação seja pedagógica.

*Resumo de um capítulo de livro:

BANDEIRA, T. L. Pedagogia do esporte e sua relação com a psicologia do esporte. In: REIS, F. P. G.; ARRUDA, I. E. A. Educação Física escolar e pedagogia do esporte em diferentes perspectivas. Taubaté, SP: Cabral, 2010.

Referências

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994 apud SCAGLIA, A. J.; SOUZA, A. Pedagogia do esporte. In: Comissão de Especialistas – ME. Dimensões pedagógicas do esporte. Brasília: UNB/Cad, 2004.

______. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo: Cortez, 2002 apud SCAGLIA, A. J.; SOUZA, A. Pedagogia do esporte. In: Comissão de Especialistas – ME. Dimensões pedagógicas do esporte. Brasília: UNB/Cad, 2004.

CONFEF. ESTATUTO DO CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Rio de Janeiro 08 de maio de 2008. Disponível em:
(www.confef.org.br/extra/resolucoes/conteudo.asp?cd_resol=213). Acesso em: 08 mar. 2010.

RODRIGUES, M. C. P. Psicologia do esporte: discussões sobre o cenário brasileiro. 2006. 195 f. Tese (Doutorado em Educação Física) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2006.

RÚBIO, K. O trajeto da Psicologia do esporte e a formação de um campo profissional. In: RÚBIO, K. (Org.) Psicologia do esporte: interfaces, pesquisa e intervenção. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000b.

SCAGLIA, A. J.; SOUZA, A. Pedagogia do esporte. In: Comissão de Especialistas – ME. Dimensões pedagógicas do esporte. Brasília: UNB/Cad, 2004.

SILVA, M. F. F. A Psicologia do esporte no contexto do sistema de conselhos. Revista Brasileira de Psicologia do Esporte, dez. 2007, vol.1, no.1, p.01-11. Disponível em:
< http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-91452007000100012&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 20 nov. 2010.

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