Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

28/01/2018

A pedagogia do esporte e sua contribuição para formação de treinadores

A pedagogia do esporte, em minha opinião pessoal, é o que de mais significativo se produziu na grande área da Educação Física neste começo de século. Entre as ciências que estudam o esporte, a contribuição da pedagogia, enquanto ciência da educação, tem nos possibilitado participar ativamente da discussão e produção de conhecimento relativas a formação de treinadores.

Quando Maria Amélia Santoro Franco em seu livro “A pedagogia como ciência da Educação”, chama atenção para o fato de que a prática educativa, como sendo práxis pedagógica caracteriza o fazer científico da pedagogia, vislumbro o deslocar de local e objeto dessa prática educativa, ao pensar no ensino e treinamento de esporte desenvolvidos pelos professores de educação física, ou mesmo cientistas do esporte.

Infelizmente ainda não são todos que conseguem acompanhar minha reflexão. Para tanto, quero levantar, inicialmente, alguns questionamentos, e, na sequência, por meio de suas respostas a emergência e sustentação da afirmação levantada no início desta crônica.

São apenas dois os questionamentos. Vamos a eles:

– Quantos currículos de cursos de educação física apresentam em sua matriz a disciplina pedagogia do esporte?

– Ou ainda, quantos possuem uma disciplina que aborda explicitamente as funções e conhecimentos de um treinador desportivo?

Desde o final dos anos da década de 1990, eu e os professores Roberto Paes, Riller Revertido e a professora Larissa Galatti, temos procurado conceituar e delimitar a Pedagogia do Esporte. Como todo conceito, ele é a síntese de muitas informações e conhecimentos, além de sofrer ajustes ao longo dos tempos em decorrência das ponderações e colaborações da comunidade científica que se assomam à produção de evidencias advindas das pesquisas.

Em 2014, publicamos no Journal of Physical Education sua última versão, em que defendemos a pedagogia do esporte como disciplina da Educação Física/Ciências do Esporte, que tem por objeto de estudo o processo de ensino, aprendizagem, vivência e treinamento do esporte; e por objetivo desenvolver/explicar/ descrever/propor/aplicar/investigar a organização do método, a sistematização dos conteúdos, a aplicação/desenvolvimento das aulas/treinos e a avaliação do todo.

De imediato, esse conceito é basilar para desconstruir alguns mitos e equívocos, muitos deles absurdos, que perduram em nossa área, como por exemplo: a pedagogia produz conhecimento apenas para docência com as crianças e na escola; não existe pedagogia no treinamento (tanto é constatação que a disciplina treinamento desportivo tem um viés majoritariamente bio-fisiológico); na graduação a pedagogia está apenas nos cursos de licenciatura e não no bacharelado, e na pós-graduação apenas na área de humanidades e não na biodinâmica… entre outros problemas menores.

Também é possível, a partir desse conceito identificar o motivo pelo qual cada vez mais matrizes de curso de educação física têm incorporado essa disciplina. O que não acontecia, ou melhor, não aconteceu com a geração anterior. Tenho andado muito pelo Brasil divulgando as pesquisas que temos desenvolvido no LEPE (Laboratório de Estudos em Pedagogia do Esporte) – FCA/UNICAMP, e quase sempre pergunto: quem teve em seu curso uma disciplina chamada Pedagogia do Esporte? Obviamente, poucas pessoas levantam a mão e sempre tendem a ser as mais jovens.

Para a maioria, disciplinas relativas ao esporte em suas respectivas formações aparecem apenas as modalidades fragmentadas e fragmentárias – que esquartejam o esporte para ensinar, valendo-se de uma metodologia analítica e tecnicista). Infelizmente, não se valendo das novas tendências em Pedagogia do Esporte, não se encontram disciplinas que aglutinam conhecimentos para discutir as bases metodológicas para o ensino dos esportes, quer individuais, coletivos, de combate, de rebater, de se expressar, de marcas, aquáticos, combinados… muito menos disciplinas que abordam a didática do professor/treinador de esportes, enquanto o profissional que desempenha sua práxis pedagógica.

Como é possível ainda existirem cursos de Educação Física em que os conhecimentos relativos ao desenvolvimento da função de treinador desportivo não estão presentes. Parecem não fazer parte da formação do profissional de Educação Física. Como se não fossemos competentes para assumir tal responsabilidade.

Mas, paradoxalmente, e o que é mais grave, nosso conselho profissional exige a formação em educação física para ser treinador (o que não está errado), mas o curso não o habilita (com conhecimentos específicos) para tal (o que está equivocado!). Por infeliz constatação, é como exigir a formação em medicina para o curandeiro.

Segundo nossas investigações preliminares (em andamento), a professora Larissa Galatti foi a primeira a ministrar, apenas em 2015, a disciplina “Treinador Desportivo”, no recente curso de Ciências do Esporte, na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da UNICAMP (campus Limeira), para os alunos de graduação.

Podemos então questionar: onde se formam nossos treinadores? Ou então essa formação não está no rol dos conhecimentos da Educação Física? Não é preciso formação? Seria como um curandeiro? Ou a formação do treinador é apenas empírica? Basta estar no meio, ou ser um ex-atleta para o conhecimento informal se propagar e, por osmose reversa, ser transferido.

Tenho plena consciência, formada por bom-senso acrescido de muitas leituras (há uma grande produção de conhecimentos sobre a formação de treinadores, para que saibam os mais desavisados e alguns formados, ou que é pior, formandos em Educação Física e Esportes), que não será apenas o conhecimento formal adquirido na Universidade (nos cursos de formação profissional em EF) que garante o desenvolvimento de todas as competências para o desempenho da função de treinador, principalmente no alto nível.

Porém, da mesma forma, devido à literatura especializada, tenho absoluta certeza que a pedagogia do esporte, por meio de seus estudos aplicados e aplicáveis sobre a práxis do treinador/professor de esportes (os quais evidenciam que a teoria não prática não é outra), será possível viabilizar que todo esse conhecimento adquirido em ambiente formal sirva de esteio, possibilitando conjecturar e coadunar os demais conhecimentos advindos dos contextos não formais (cursos, workshops, etc.) e informais (em meios às experiências vividas – empíricos).

Portanto, cabe à pedagogia, por meio do pedagogo do esporte, o papel de religar os saberes, de possibilitar que didática e metodologia sejam alvos de estudos e investigações, garantindo maior assertividade ao profissional que, ao mesmo tempo faz a gestão dos seus próprios recursos e geri os recursos de seus comandados ao protagonizar a condução do processo de ensino e treinamento em qualquer modalidade, principalmente no futebol.

Comentários

  1. Heitor Rodrigues disse:

    Parabéns pela reflexão Alcides Scaglia. Registro que aqui na UFG (Universidade Federal de Goiás) experimentamos pela primeira vez, em 2017, uma disciplina optativa intitulada “O treinador esportivo: formação e atuação profissional”.

  2. Roberto Rodrigues Paes disse:

    Caro Alcides,parabéns pelo texto e reflexões.
    Saudações esportivas

  3. Sérgio Burihan disse:

    Parabéns pela coragem de ser fiel aos princípios pedagógicos ! estamos muito bem representados em suas palavras! máximo respeito!

  4. Parabéns amigo Alcides.
    Estamos firmes por aqui…Uefs/Ba
    Núcleo de Futebol Competente.

  5. Sanderson Henrique disse:

    Parabéns pelo excelente texto sobre Pedagogia do Esporte, tem grande importância pra mim, pois sou acadêmico de Educação Física ( UFAM ), Manaus.

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