Universidade do Futebol

Entrevistas

08/03/2013

Pedro Boesel, gestor financeiro

Uma lista com os nomes de Garrincha, Baltazar, Canhoteiro ou Ademar Pantera, poderia ser de qualquer seleção brasileira ou dos melhores jogadores da história de clubes como Botafogo, Corinthians, São Paulo ou Palmeiras.

No entanto, eles também fazem parte de uma relação que representa uma boa parte dos profissionais que atuaram no futebol brasileiro: dos ex-atletas que viveram na extrema pobreza após a aposentadoria dos gramados.

E, para evitar este cenário, é que muitos jogadores em atividade no país chegam a anunciar o desligamento do esporte e, logo em seguida, voltam atrás na decisão e retornam à prática da carreira.

"A grande maioria dos jogadores para, tenta se aventurar em outra profissão, até mesmo dentro do futebol, mas, por falta de estudo ou experiência, acaba não dando certo. E, como ele precisa de dinheiro, acaba voltando [a jogar]. Outro viés, do jogador realizado profissionalmente e financeiramente, é em relação ao desafio. Eles sentem falta da competição, do espírito de competividade, a paixão, o amor pelo futebol. Estes dois fatores são os principais que levam o atleta a aposentar e retornar", aponta Pedro Boesel, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Sobrinho do ex-piloto de F-1 Raul Boesel, o gestor financeiro é piloto de Stock Car e sócio da XP Sports, braço da XP Investimentos, do Rio de Janeiro, considerado o maior shopping de investimentos na América Latina.

Com uma cartela de 100 mil clientes no Brasil, "sendo a maioria jogadores de futebol", Pedro Boesel afirma conviver de perto com as barreiras de se implantar um projeto juntamente com os clubes para planejar a aposentadoria dos atletas.

Para ele, a falta de educação básica e financeira dos profissionais e o despreparo para lidar com o deslumbramento da carreira, são os grandes desafios a serem superados para mudar o panorama do atual cenário.

"Cerca de 30% dos jogadores em atividade estão quebrados financeiramente, 52% deles estarão falidos quando terminarem a carreira, e 73% vão à ruína financeira em até cinco anos após a aposentadoria. Então, isso não é caso isolado. É a realidade, é a grande maioria. Mas, isso só acontece porque tem gente que se prepara e a grande parte que não se programa", analisa.

Na busca pela popularização da importância de um planejamento financeiro, Boesel conta com um garoto-propaganda de peso: o técnico Carlos Alberto Parreira, tetracampeão mundial em 1994. O atual coordenador-técnico da seleção brasileira foi o primeiro cliente da XP Sports e, desde então, aconselha os candidatos a futuros craques a se preocuparem com a aposentadoria.

"Se o atleta, hoje em dia, se preparar e se planejar, ele vive com uma renda superior a R$ 45 mil por mês após se aposentar, poupando cerca de R$ 3 mil mensais durante a carreira. Então, é fácil. Desde que haja disciplina de poupança, pois isso é difícil de o jogador ter. O atleta compra carro para o pai, realiza muitas festas, paga pensão para três mulheres, e daí não sobra. Se não tiver planejamento, não chega a lugar nenhum", avisa.

Neste encontro, Pedro Boesel ainda falou sobre a hora certa que um jogador deve pendurar as chuteiras e por que não concorda totalmente com a medida aprovada pelo governo federal de conceder auxílio financeiro a jogadores campeões mundiais pela seleção brasileira. Confira:

Universidade do Futebol – Há uma hora certa para parar de jogar? Quais são os principais sinais, na sua avaliação, além da questão técnica de campo, que indicam que um atleta profissional deve iniciar o processo de transição para outra função?

Pedro Boesel – Eu acho que o jogador de futebol, na sua essência, tem de entender que a carreira dele é curta. Então, a hora de parar vai ser somente aquela hora que ele estiver em uma situação financeiramente confortável. Porque aquela é a profissão dele, a gente trabalha sempre que possível com o que gostamos, que é caso de todos eles. Mas, ninguém trabalha de graça, todo mundo trabalha em cima de uma remuneração. Vivemos em um mundo capitalista e precisamos de dinheiro.

Então, não dá para cravar ‘ah, vou parar com 25 anos’. Se o jogador não tiver atingido o sucesso financeiro, se não chegar a este patamar, não é a hora de parar. O momento de se aposentar é quando ele alcançar a independência financeira de 50 anos. Porque o atleta de futebol vai ganhar dinheiro de seis a oito anos na sua carreira e esse período precisa ser potencializado, já que ele vai viver mais 50 anos depois que parar de jogar.

E muito provavelmente, quando ele estiver no final da carreira, nos seus últimos anos, o valor dele de mercado vai diminuir cada vez mais, pois o esporte de alto rendimento não permite e não aceita atletas mais velhos, apesar de parecer estranho dizer que alguém é velho com 35 anos.

Então, a hora de parar, para quem não atingiu a independência financeira, é até o momento de ninguém o querer mais, esta que é a verdade. E, quem conseguir acumular receita ao longo da carreira, deve parar a hora que entender que aquilo já não traz mais satisfação pessoal ou desafios e partir para a próxima.

Pedro Boesel tem buscado conscientizar sobre a importância do planejamento financeiro tanto atletas profissionais quanto jovens das categorias de base oriundos de comunidades carentes

 

Universidade do Futebol – E, para você, o que significa exatamente ter esta independência financeira?

Pedro Boesel – Independência financeira é o jogador poder parar de jogar futebol e não ter de se preocupar com a vida financeira dele pelos próximos 20 ou 30 anos. Se ele não quiser fazer nada, ele poder optar por isso. Eu sempre costumo dizer: o atleta sempre se dedicou a vida inteira para aquilo. Então, ele não está preparado para o mundo fora do futebol. É isso que ele precisa entender.

Portanto, ele tem de se programar ao máximo, potencializar o quanto puder a sua carreira, ter disciplina, para ele poder acumular patrimônios. E assim, quando se aposentar, esses patrimônios investidos proporcionem uma renda suficiente para ele manter a qualidade e o padrão de vida. Essa é a essência do escopo do nosso trabalho.

Universidade do Futebol – Por que ainda vemos muitos atletas no Brasil com dificuldades de se aposentar? Muitos chegar a anunciar oficialmente a aposentadoria e depois retornam às atividades…

Pedro Boesel – Eu acho que tem dois lados para este assunto. O primeiro é a necessidade. A grande maioria dos jogadores para, tenta se aventurar em outra profissão, até mesmo dentro do futebol, mas, por falta de estudo ou experiência, acaba não dando certo. E, como ele precisa de dinheiro, acaba voltando [a jogar]. Isso eu tenho certeza que acontece muito, porque eu vejo amigos, jogadores, enfim, todos passando por esta situação.

Isso é um lado da moeda. O outro viés, do jogador realizado profissionalmente e financeiramente, é em relação ao desafio. Eles sentem falta da competição, do espírito de competividade, a paixão, o amor pelo futebol. Estes dois fatores são os principais que levam o atleta a aposentar e retornar. A necessidade financeira ou a motivação. Ou, às vezes, até as duas juntas.

Existe até uma terceira causa de aposentadorias, que são as contusões. Conhecendo um pouco mais o futebol, a dor é uma constante na vida do atleta e isso, quanto mais velho, é pior. Mas, sei de várias histórias de muitos jogadores que esconderam a dor do treinador e do fisioterapeuta porque tinham de pagar as contas, não podiam deixar de jogar senão seriam substituídos. Então, realmente, o atleta pode se aposentar também por causa de lesão.

Para piloto da Stock car, o momento de se aposentar é quando o atleta alcançar a independência financeira de 50 anos

 

Universidade do Futebol – Então, Pedro, se o jogador de futebol chega ao final de carreira com necessidades financeiras, pode-se concluir que houve graves erros na gestão dos seus recursos monetários ao longo da sua vida profissional?

Pedro Boesel – Sem dúvida. Hoje em dia, há uma estatística sobre isso e ela é muito ruim. Cerca de 30% dos jogadores em atividade estão quebrados financeiramente, 52% deles estarão falidos quando terminarem a carreira, e 73% vão à ruína financeira em até cinco anos após a aposentadoria.

Então, isso não é caso isolado. É a realidade, é a grande maioria. De um elenco com 30 atletas no profissional, sabe-se que 21 ou 22 não vão dar certo financeiramente nos próximos cinco anos e que somente oito daquele grupo vão ter uma carreira bem-sucedida do ponto de vista das finanças. Mas, isso só acontece porque tem gente que se prepara e a grande maioria que não se programa para a aposentadoria.

 

Universidade do Futebol – Qual o principal erro que vocês veem dentro desta abordagem de os atletas não se programarem para encerrar a carreira profissional?

Pedro Boesel – Eu acho que são vários fatores. O mais importante deles é a educação. Educação financeira é um tema que a gente não tem na escola, não tem na faculdade, não tem em casa; o brasileiro não tem cultura e não entende absolutamente nada de investimentos. Nunca procurou entender, até porque a gente sempre viveu um cenário de altas taxas de juros. Se bem que nem precisaria saber muito, já que qualquer produto rendia 1% ao mês e que era bom o suficiente para um investimento.

Então, se considerarmos a média da população, que já não entende nada e não tem educação financeira, o que dirá o atleta. Ele, muitas vezes, apesar de não ser uma regra, sai de comunidades mais pobres, só teve acesso ao ensino público, que é fraco, e alguns até abdicam da escola para se dedicar ao esporte. Com isso, esta pessoa não entende nada disso e nunca ouviu na vida palavras como taxa Selic, renda fixa ou CDB. Às vezes, ele não tem culpa, é o sistema, digamos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o atleta de alta performance é formado obrigatoriamente na universidade. Ele ganha bolsa, tem o draft, no qual os times escolhem os talentos. Aqui no Brasil não existe nada isso. Então, a educação seria um caminho.

Em segundo lugar, o jogador sai de uma classe social mais baixa e começa a conviver com salários astronômicos ou muito acima da média. Imagina um garoto de 18 anos, que veio da favela ou de uma comunidade carente, e passa a ganhar R$ 50 mil por mês. Além disso, começa a conviver com jogadores consagrados no esporte.

Na época do Flamengo, jogadores das categorias de base, que venceram a Copinha e subiram para o principal, pegavam dois ônibus para chegar ao treino e viam o Ronaldinho Gaúcho, campeão do mundo e que chegava com um carro diferente a cada dia, com um monte de segurança.

Então, é difícil até culpar este jovem atleta, porque é muito deslumbramento, é muita tentação e, como ele não tem uma orientação para se planejar, acaba cometendo besteira. Já quer comprar o melhor carro, uma casa grande, financia e paga juros altíssimos, não entende de taxa e faz qualquer financiamento. E, um erro após o outro, culmina neste despreparo e na falta de uma vida saudável financeiramente.

Há também a questão da imaturidade, o atleta quando começa no futebol é um moleque ainda, não tem experiência de vida e não tem uma visão de médio prazo. Ele quer gastar os R$ 50 mil para ter igual o colega ali do lado dele. Esse é o problema. E há também a falta de tempo. O tempo é o maior aliado dos investimentos. O maior fenômeno que existe é o juros composto e, para isso, precisa de tempo. Mas, o atleta tem o tempo contra ele. São muitas variáveis que dificultam o caminho do jogador para atingir a sua independência financeira.

Educação financeira é um tema que a gente não tem na escola, não tem na faculdade, não tem em casa; o brasileiro não tem cultura e não entende absolutamente nada de investimentos, diz Boesel

 

Universidade do Futebol – E, dentro deste cenário todo, como conscientizá-los da importância da sua vida pós-carreira profissional?

Pedro Boesel – É difícil, é uma quebra de paradigma, uma quebra de cultura. Nos Estados Unidos, isso levou anos para acontecer. Acho que o caminho seria os atletas de alta performance virem de uma universidade. As próprias faculdades deveriam se profissionalizar dentro do esporte, serem fomentadoras de atletas de alto rendimento, fariam com que eles fossem pessoas mais educadas culturalmente, com conhecimentos. A educação financeira é um dos caminhos.

Outra coisa que ajudará neste sentido é o atual cenário econômico, porque a população brasileira e, de quebra, os jogadores, estão convivendo com uma realidade muito diferente do que víamos há dois anos em relação aos juros. O brasileiro deixava o dinheiro no banco e ganhava 1%. Hoje, ele abre o extrato dele e vê que está rendendo só 0,5% ao mês. Então, ele está abrindo a cabeça para a importância disso, buscando alternativas para rentabilizar mais o seu capital, porque o dinheiro não está rendendo como antes.

Isso faz com que o atleta comece a olhar para outras oportunidades, se conscientizar que ele precisa ser disciplinado, ter orçamento controlado, ter a consciência de poupar, pensando na frente e não no consumismo imediato. Isso tende a facilitar a percepção do atleta de que isso é importante para sua vida.

Universidade do Futebol – E qual o papel dos clubes neste cenário? Eles deveriam ter uma participação nesta responsabilidade de educação financeira para os jogadores?

Pedro Boesel – Eu acho que sim, sem dúvida. O clube deveria prestar essa função para a sociedade e para os atletas. Mas, acreditar nisso, eu não acredito. A gente já tentou falar com os clubes para a gente desenvolver este trabalho, não somente com o profissional, mas também em categorias de base, para realmente levar a educação financeira para os jovens. Porém, sempre enfrentamos barreiras. Não tivemos sucesso em um único clube.

A gente tem sucesso no Comitê Olímpico Brasileiro, em um projeto conjunto de educação financeira voltada para treinadores e atletas olímpicos. Agora, nos clubes, tem tanta coisa para eles melhorarem em termos de gestão, de profissionalização, que isso acaba ficando para quinto plano. Então, sinceramente, não vejo, em curto e médio prazo, os clubes com esta preocupação.

Atualmente, os dirigentes só estão preocupados em rentabilizar, gerar receitas, explorar o atleta para reverter lucros para ele, e o empresário, muitas vezes, preocupado somente com o dinheiro que vai ganhar na transação. Existem exceções, no entanto, não vejo o mercado preocupado com o cidadão, vejo preocupado com o produto. E isso é muito ruim para o indivíduo que é atleta, pois os meios que convive não têm essa preocupação com ele.

Para piloto, 100% dos atletas que começarem com um planejamento quando entrarem no profissional, seja pela Série A ou B, viverão de renda facilmente se aposentando aos 34 anos

 

Universidade do Futebol – Como é possível fazer uma programação financeira pensando em uma aposentadoria após 10 ou 15 anos de carreira?

Pedro Boesel – A receita principal é começar cedo. O atleta tem de se preocupar com isso desde cedo. Tempo é tudo no que tange investimentos. O problema é que os jogadores aqui no Brasil começam a pensar nisso quando ele fica sem clube aos 34 anos. Esquece, assim é caso praticamente perdido.

Então, o que a gente indica é começar cedo, o quanto antes melhor, é mais fácil. Diria hoje que 100% dos atletas que começarem com um planejamento quando entrarem no profissional, com seus 17 ou 18 anos, seja pela Série A ou B, vive de renda facilmente se aposentando aos 34 anos. Independentemente de quanto ele ganha.

A gente sabe que o esporte está se desenvolvendo, com salários cada vez maiores. Mas, o que importa não é o quanto ele ganha, mas sim o quanto ele poupa. Se um profissional ganha 50 e gasta 47, ele vai poupar três. Se outro ganhar 10 e gastar cinco, ele vai ter mais dinheiro lá na frente do que o outro que tinha um salário maior. E a gente trabalha com este conceito, ganhar dinheiro é diferente de acumular riqueza.

Se o atleta, hoje em dia, se preparar e se planejar, ele vive com uma renda superior a R$ 45 mil por mês após se aposentar, poupando cerca de R$ 3 mil mensais durante a carreira. Então, é fácil. Desde que haja disciplina de poupança, pois isso é difícil de o jogador ter. O atleta compra carro para o pai, realiza muitas festas, paga pensão para três mulheres, e daí não sobra. Se não tiver planejamento, não chega a lugar nenhum.

Universidade do Futebol – O jogador de futebol bem-sucedido, conta, geralmente, com um staff grande (assessor, empresário, etc). Já temos no Brasil profissionais qualificados no mercado para incluir nesta equipe um profissional de finanças pessoais?

Pedro Boesel – Não, não temos. Tenho visto muita gente se dizendo ou se passando por um profissional de investimentos, pessoa financeira, e até muitos empresários se dizendo a pessoa responsável pelas finanças do jogador. Mas isso não é verdade.

O profissional de investimentos é credenciado junto à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ou Ancord (Associação do Mercado de Capitais), é qualificado, com certificações. Mas, não é o caso. Então, uma pessoa com este perfil não está vinculada a uma instituição financeira, não é qualificada, e não pode fazer planejamento financeiro. Ele pode até fazer, mas não é preparado, e teoricamente não poderia nem atuar por causa da legislação que não permite. Deste jeito, ele vai acabar fazendo besteira.

Então, vejo muita gente se passando por isso, mas profissionais mesmo, há pouca gente. Existem, no mercado, diversos gestores de investimentos ou de recursos, fundos, bancos, mas focados para o esporte não há quase ninguém. Com isso, o atleta acaba ficando cercado de pessoas pouco preparadas.

Necessidade financeira ou motivação são dois dos principais fatores apontados pelo especialista para atletas como Rivaldo e Rogério Ceni, acima dos 40 anos, continuarem em atividade

 

Universidade do Futebol – Pode-se apontar o que é mais aconselhável para um atleta de futebol após pendurar as chuteiras: seguir na área ou mudar radicalmente de segmento? Por que ?

Pedro Boesel – Mais uma vez, a gente entra na questão da educação. Porque se o atleta fizesse uma universidade, poderia ter sido jogador e se formado em administração, economia, engenharia, e terminada a carreira no esporte, teria capacitação e diploma para buscar uma vaga no mercado. Como a gente não tem isso, um jogador após se aposentar é um profissional completamente incapaz e desqualificado para o mercado. Nenhuma empresa vai contratar um ex-jogador de futebol. Porque o estereótipo de um atleta é uma pessoa sem educação e sem qualificação.

Portanto, a recomendação atual é ficar no futebol, pois é o que ele se profissionalizou, é a especialização dele, é o que ele sabe e ama fazer. O problema é a questão do funil, já que a continuidade da carreira é como se fosse um funil. Temos elencos com 30 jogadores que se aposentam, mas apenas um se torna treinador. Então, quando ele parar, vai ter de competir com outros 29, pois só há uma vaga.

E para outras funções também. Quantos empresários ou dirigentes temos em cada clube? Este número é pequeno se comparado com a quantidade de jogadores que se aposentam por ano. E para exercer estes outros cargos exige um preparo. Então, vai sobrar o mais qualificado, o mais preparado. É mais fácil ele conseguir uma colocação dentro do futebol, mas, mesmo assim, é difícil. O mercado é restrito. Por isso, é preciso ter fôlego financeiro para suportar este tempo sem conseguir outro trabalho.

Universidade do Futebol – Testes vocacionais ou avaliação do perfil comportamental podem ajudar um ex-jogador a identificar a profissão que melhor se adaptará ao estilo e que estejam de acordo com as características pessoais dele para o restante da vida?

Pedro Boesel – Claro, sem dúvida. Testes são válidos. Entender as capacidades e as qualidades que o jogador tem, ou o que há de positivo para ajudar em uma eventual colocação no mercado. Se colocar em uma empresa séria, em uma indústria, precisa estar qualificado, porque você vai olhar para o lado e vai um concorrente que estudou muitos anos para estar ali. Então, verificar quais são as facilidades, a identificação e as qualidades do profissional, ajuda, mas não resolve.

Com uma cartela de 100 mil clientes no Brasil, sendo a maioria jogadores de futebol, Pedro Boesel atende ainda lutadores de MMA, pilotos de Stock Car, jornalistas, técnicos e preparadores físicos

 

Universidade do Futebol – De que maneira você definiria o comportamento do mundo corporativo, de modo geral, nos dias atuais? Que paralelo você traçaria entre ele e o ambiente esportivo?

Pedro Boesel – São bem semelhantes. No mundo corporativo atual, você necessita de uma liderança muito grande, assim como no esporte. Se você tiver bons líderes, eles serão capazes de conduzi-lo ao caminho vencedor. Dentro do mundo dos negócios, a busca pelo sucesso é constante. Você precisa vencer, precisa produzir, é cobrado por resultados. No futebol, idem. O profissional que não produz, não gera resultado, é demitido. No futebol, talvez isso seja muito mais dinâmico. Um treinador que perder um clássico e dois jogos para times médios seguidos, está na rua no dia seguinte.

No mundo dos negócios, talvez não seja tão rápido assim. Mas, dentro de um determinado período, se o executivo não trouxer resultado, vai embora. O mundo dos negócios atual é muito em cima de meritocracia, de resultado, de dedicação, de empenho, de planejamento. No futebol, idem. Se você analisar os times que dão certos, que conquistam títulos, são os que se planejam, que têm uma liderança positiva, que têm bons profissionais, que têm um investimento por trás.

Um clube, se não tiver um líder dentro de campo, um bom treinador, que seja exemplo e tenha o grupo na mão, não ganha título. A mesma coisa ocorre na empresa. Se não tiver profissionais qualificados, motivados, um líder que agregue todo mundo, que tenha visão, uma organização que se planeje, não tem resultado. São muito semelhantes estes dois cenários. Inclusive, os clubes deveriam agir como empresas. Ter metas.

O mundo dos negócios, hoje em dia, é muito baseado em planejamento, orçamento e meta. Já um clube, não tem orçamento, porque não há dirigentes preocupados em dar resultado financeiro, o orçamento é maior que a receita. Planejamento de médio prazo, quase nenhum tem também. O clube precisa se comportar ou ser como uma empresa, inclusive, com bonificação e premiação por metas atingidas. Eu vejo muito algumas pessoas já tentando transformar o clube em uma empresa. O futebol vai ganhar bastante se isso se dissipar.

Universidade do Futebol – Mas, Pedro, mas qual deve ser a essência de um clube? Conquistar mais títulos ou dar resultados financeiros a cada temporada?

Pedro Boesel – Concordo que a essência de um clube é ganhar título. E para isso, às vezes, ele não trabalha com orçamento, não se planeja, porque precisa ganhar troféu neste ano, por exemplo. Entendo. No entanto, um clube só vai ganhar título se houver planejamento, se trabalhar com orçamento, com metas e se tiver boa liderança. Não tem receita.

Se você montar um elenco e atrasar o salário, perderá o grupo, jogadores ficarão desmotivados, enfim. Então, na essência, eles não se comportam como uma empresa e chegam até a afirmar publicamente que não precisam dar resultados financeiros. Mas, eles não enxergam que só dá resultado quem tem o comportamento de empresa.

Por isso que você vê que o líder de receita dos últimos anos é o Corinthians, que conquistou muitos títulos recentemente, mas que estourou somente depois que o seu departamento de marketing explodiu com a chegada do Ronaldo. Isso tudo graças aos bons executivos que lá trabalham. Então, os times vencedores, cada vez mais, serão aqueles que trabalharem melhor como empresa.

Sobrinho do ex-piloto de F-1, Raul Boesel, o gestor financeiro é piloto de Stock Car e sócio da XP Sports, braço da XP Investimentos, do Rio de Janeiro, considerado o maior shopping de investimentos na América Latina

 

Universidade do Futebol – O que você acha da possibilidade de os clubes brasileiros abrirem capital na Bolsa de Valores?

Pedro Boesel – Eu acho que, hoje em dia, nenhum clube consegue levantar capital. Porque um clube vai para a bolsa abrir capital, tornando-se uma empresa, para arrecadar fundos para novos sócios. Mas, eu não vejo um único investidor no Brasil atualmente que queira ser dono ou sócio de um Flamengo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Vasco ou do Santos. Porque não dá resultado. Eu vo

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