Universidade do Futebol

Entrevistas

31/10/2014

Pedro Pereira, analista de desempenho do Fluminense

A análise de desempenho é uma área de atuação que está consolidada há muitos anos no futebol europeu e aos poucos tem se difundido nos clubes brasileiros. A necessidade da contratação de uma mão de obra especializada, somada aos investimentos em tecnologia para o bom funcionamento deste departamento, ainda são entraves para um maior desenvolvimento deste segmento importante no atual cenário do futebol mundial.

Para se ter uma ideia, o trabalho da análise de desempenho na Europa já é muito utilizada, por exemplo, no suporte no processo de tomada de decisão da parte diretiva dos clubes para a contratação de novos jogadores, enquanto que, no Brasil, há muitas agremiações que sequer têm uma equipe profissional nesta área de atuação.

“O grande desafio, e também, o objetivo maior [de quem atua como analista de desempenho], é o de se encontrar o significado "escondido" por trás dos números e usar esse conhecimento para a obtenção de vantagem competitiva sobre os adversários. Isso me faz acreditar que a análise de desempenho pode ter, de fato, grande importância e caráter decisivo para a obtenção do resultado positivo em determinado jogo”, aponta Pedro Pereira, analista de desempenho do Fluminense.

Doutor em Fisiologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com pós-doutoramento na Universidade de Waterloo, no Canadá, Pedro Pereira é ex-atleta de futebol e futsal, e criador e desenvolvedor de uma plataforma computacional que fornece análises de deslocamentos por GPS no futebol, chamada Smart Tracking.

No clube carioca, o departamento de análise de desempenho, aliado ao trabalho dos profissionais da área de fisiologia, também faz o monitoramento global dos jogadores das categorias de base situadas em Xerém. Para ele, este trabalho integrado tem facilitado o processo de transição das jovens promessas para o elenco profissional.

“Temos a rotina de análise de desempenho funcionando também nos jogos da base. Tenho total alinhamento com o professor Guilherme Amaral, nosso analista da base, e padronizamos, em conjunto, a metodologia e as definições usadas nas métricas de desempenho técnico adotadas pelo clube, para que se tenha absoluta consistência entre o que dizem os números na base e no profissional. No âmbito geral, não tenho a menor dúvida em dizer que boa parte do sucesso dos atletas de nossa base, quando da transição e chegada ao profissional, tem origem no excelente trabalho que é conduzido pelo departamento”, completa.

Nesta entrevista, concedida diretamente do Rio de Janeiro, Pedro Pereira ainda fala sobre como vê o desenvolvimento da função de analista de desempenho no futebol brasileiro atualmente. Confira a íntegra:

 

Universidade do Futebol – Como é o seu dia a dia no Fluminense e como funciona a sua integração com a comissão técnica e demais departamentos do clube? Como é o diálogo entre o setor de análise desempenho e a comissão técnica no Fluminense?

Pedro Pereira – O meu trabalho tem foco na análise objetiva dos jogos, ou seja, nas métricas de desempenho físico e técnico que são geradas para todas as ações que os atletas desempenham dentro de campo. As informações que geramos são passadas, jogo após jogo, à comissão técnica e ao departamento de fisiologia.

Além disso, nossa diretoria também recebe todo esse material após cada partida, e é bastante gratificante saber que eles, que trabalham fora do ambiente do campo, têm feito bom uso das informações que fornecemos. A interação tem sido muito boa nesse sentido.

Universidade do Futebol – Atualmente, como está estruturado o departamento de análise de desempenho do Fluminense? E quais as análises realizadas pelo departamento de análise de desempenho do clube?

Pedro Pereira – O trabalho de análise de desempenho baseado na informação objetiva teve o seu ponto de partida no início do ano, e, no futebol profissional, o departamento vem sendo estruturado desde então. No que diz respeito à parte física, utilizamos, essencialmente, o Smart Tracking, que é nossa solução baseada na tecnologia de GPS. Entretanto, já estamos avançando no desenvolvimento de uma nova plataforma baseada na segmentação de imagens, o que nos permitirá, por exemplo, continuamente rastrear também todos os atletas adversários e a bola.

A ideia é expandir a aplicação e o entendimento do que vem sendo feito também para a parte tática, para a análise do jogo sob um ponto de vista mais amplo, permitindo, por exemplo, analisar o comportamento dinâmico de diferentes setores do nosso time, a compactação a cada momento da partida, entre muitas outras possibilidades.

Em relação à parte técnica, nossa solução computacional baseia-se na codificação de todas as ações desempenhadas pelos atletas no jogo em função do local do campo (coordenadas x e y, em metros) no qual cada uma delas aconteceu, o que é algo que, números à parte, permite também uma representação muito visual, intuitiva, e contextualizada daquilo que acontece na partida.

Apesar de ser uma tendência já bastante imersa no trabalho desenvolvido em grandes clubes europeus, penso que esta é uma abordagem sem precedentes no Brasil, pois não vejo ainda por aqui outro clube que disponha de informações com esse nível de abrangência e detalhamento.

No geral, essa é uma característica importante do que vem sendo colocado em prática no Fluminense em termos de análise objetiva, ou seja, o trabalho não é baseado na contratação de soluções externas, já que a tecnologia e as soluções computacionais que utilizamos são fruto do trabalho de desenvolvimento que tenho feito dentro da minha própria empresa.

Universidade do Futebol – A análise de desempenho no Fluminense é utilizada no processo de treino? Se sim, como é feito este trabalho?

Pedro Pereira – Não, a análise de desempenho não é utilizada nos treinamentos por enquanto. Porém, não descarto esta como uma possível perspectiva futura. Em minha opinião, o maior desafio, nesse sentido, é a sistematização de um formato consistente para a aplicação das métricas de desempenho durante os treinos, haja vista a interferência de aspectos tais como duração da sessão, formato, intensidade, número de ações, características da marcação adversária, entre outros.

No Flu, ideia é expandir a aplicação e o entendimento do que vem sendo feito pela análise também para a parte tática

 

Universidade do Futebol – É realizado algum tipo de análise ou monitoramento com os jogadores das categorias de formação do Fluminense para facilitar o processo de transição para o profissional?

Pedro Pereira – Sem dúvida. O departamento de fisiologia e análise de desempenho, em Xerém, que é liderado pelo professor Marcio Assis, fisiologista e coordenador científico, fazem o monitoramento global nas categorias de base através de um modelo de avaliação somativa, no qual são contempladas todas as fases de desenvolvimento do jovem atleta. Nesse sentido, todo o trabalho é norteado por um currículo de formação, o qual foi desenvolvido dentro do próprio departamento, em uma iniciativa pioneira no Brasil.

Além disso, temos a rotina de análise de desempenho funcionando também nos jogos da base. Tenho total alinhamento com o professor Guilherme Amaral, nosso analista da base, e padronizamos, em conjunto, a metodologia e as definições usadas nas métricas de desempenho técnico adotadas pelo clube, para que se tenha absoluta consistência entre o que dizem os números na base e no profissional.

Vale ainda destacar que, se hoje em dia o GPS está presente no futebol profissional na maior parte dos grandes clubes, em termos de Brasil, foi lá em Xerém que toda essa história começou, no início de 2010, o que só foi possível pela visão do Marcio, que abriu a mim as portas para que o projeto fosse colocado em prática. No âmbito geral, não tenho a menor dúvida em dizer que boa parte do sucesso dos atletas de nossa base, quando da transição e chegada ao profissional, tem origem no excelente trabalho que é conduzido pelo departamento.

Sucesso dos atletas da base, no processo de transição ao profissional, tem origem no trabalho que é conduzido pelo departamento de análise de desempenho

 

Universidade do Futebol – Na Europa é muito frequente a utilização de analistas de desempenho ou scouters, para a observação e monitoramento de possíveis contratações. Como vê este cenário no futebol nacional? O Fluminense tem algum projeto nesta direção?

Pedro Pereira – No Brasil, predomina o scouting clássico, enquanto que na Europa esse trabalho já pode ser visto andando lado a lado com a informação gerada, por exemplo, por soluções de big data, visando que se tenha um melhor suporte no processo de tomada de decisão para a contratação de atletas. Apesar de o futebol ser um esporte muito mais caótico e fluido, por exemplo, que o beisebol, e por isso é muito mais difícil de ser, digamos assim, friamente modelado, não tenho a menor dúvida de que, em breve, toda a história do filme “Moneyball” terá desdobramentos reais dentro do futebol. Existem, de fato, grandes evidências de que o próprio Billy Beane já esteja participando efetivamente desse processo, dentro de um gigante da Premier League.

No que diz respeito ao Fluminense, o clube já conta com um departamento de observação e captação bem estruturado. Existe a perspectiva de que o trabalho com a informação objetiva seja também utilizado como ferramenta de suporte para o monitoramento do mercado, já que, nesse sentido, a história recente nos mostra que a capacidade de identificar, em diferentes atletas, qualidades importantes, porém muitas vezes negligenciadas, pode ser o meio mais efetivo de se reduzir a distância entre menores investimentos e grandes resultados.

Universidade do Futebol – O Fluminense possui algum intercâmbio com clubes europeus para a troca de experiências na área de análise de desempenho? Como você vê este tipo de intercâmbio para o desenvolvimento da área no Brasil?

Pedro Pereira – Além de ser algo que já vem acontecendo por iniciativa individual de alguns no clube, no início deste ano foi formalizado pelo nosso gerente de futebol profissional, Marcelo Teixeira, um acordo de intercâmbio com a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, que trouxe até aqui o seu diretor, o professor Antonio Figueiredo, que desenvolve, em âmbito internacional, um belo trabalho de pesquisa na área da ciência do esporte e do futebol.

Juntamente com o corpo científico de Xerém, delineamos algumas perspectivas de colaboração científica, e penso que esta deve ser uma tendência sempre crescente por aqui. Vejo todo tipo de iniciativa em prol do casamento entre ciência e futebol como algo fundamental para que o Brasil retome a dianteira no cenário internacional, e aquilo que chamamos de análise de desempenho, invariavelmente, se inclui neste cenário.

Na Europa, já há algum tempo, é possível que não mais se dissocie o papel do analista de desempenho, do fisiologista, ou do próprio preparador físico, daquele que seria o do cientista do esporte, e nomes como o do grande Thomas Reilly, que fez história nesse sentido, assim como Jens Bangsbo, Valter Di Salvo, e tantos outros, não me deixam mentir. Este é mais um objetivo de nosso grupo científico aqui no Fluminense, ou seja, buscamos projetar o clube internacionalmente também como uma referência em inteligência, ciência e tecnologia aplicadas para o bem do futebol.

 

Clube carioca possui acordo de intercâmbio com a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra

 

Universidade do Futebol – Como a limitação de tempo (jogos quarta e domingo) limita a atuação do setor de análise de desempenho? Quais alternativas você utiliza para superar estas dificuldades?

Pedro Pereira – Codificar ações e processar um grande volume de dados para uma partida, o que, conforme já anteriormente mencionado, no meu caso inclui, além das ações técnicas, todas as métricas de desempenho físico. É algo que exige muita dedicação, entrega, e, em grande parte das vezes, um número razoável de horas de sono perdidas, já que precisamos sempre trabalhar com base do dinamismo que o mundo do futebol requer.

Porém, sem jamais abrir mão do rigor metodológico e da consistência. Com a rotina constante de dois jogos semanais, sem dúvida, tudo isso se torna ainda mais crítico, por mais que exista a busca constante pelo aprimoramento dos algoritmos, e assim, por uma maior automatização da operação. A superação vem sempre pela motivação em fornecer, rodada após rodada, o melhor da nossa parcela de contribuição para que, a cada instante do jogo, os onze protagonistas em campo possam desempenhar o melhor papel possível.

Universidade do Futebol – Como uma análise de desempenho pode contribuir para a inteligência das tomadas de decisão dentro de campo?

Pedro Pereira – A verdade é que, em grande parte das vezes, a informação que serviria para nortear a melhor tomada de decisão dentro do campo passa despercebida antes mesmo que ela possa ser levada em consideração, ou seja, ela é perdida lá atrás, no início do processo. Por mais brilhante, em termos cognitivos, que seja um determinado treinador, cientista ou dirigente, existe um limite para o nível e o volume de informação que pode ser processado através da clássica observação dos jogos.

O grande público muito ouviu, apenas após a nossa derrota, e a subsequente consagração da Alemanha na Copa do Mundo, a respeito da plataforma computacional e do colossal banco de dados que por eles foram utilizados para a competição. Por outro lado, todos aqueles que trabalham com ciência do esporte já imaginavam que uma revolução estava por vir. Uma revolução silenciosa, porém indispensável. Um processo de evolução irreversível, o qual, no entanto, não é possível sem que exista uma importante mudança de filosofia.

Além disso, é fundamental que os atletas sejam também inseridos no processo, que não sejam deixados à margem desta nova realidade, ou seja, que tenham o interesse pela informação e pelo entendimento do jogo sendo sempre estimulados por seus comandantes.

 

"Todos aqueles que trabalham com ciência do esporte já imaginavam que uma revolução estava por vir", avalia Pedro sobre a Copa 2014

 

Universidade do Futebol – Uma análise de desempenho, bem realizada e executada em todas as suas etapas, ganha jogo?

Pedro Pereira – Como já destacado aqui, é fundamental que tenhamos em mente que o protagonismo será sempre dos jogadores, que, juntamente com os torcedores, são os legítimos donos do espetáculo. São os atletas aqueles que, direta ou indiretamente, marcam ou impedem a marcação de gols dentro do campo, jamais podemos nos esquecer disso. Por outro lado, devemos lembrar que o futebol, em sua natureza caótica e de escores baixos, é decidido nos pequenos detalhes, os quais separam os times campeões dos demais, e que, além de troféus e prestígio, fazem com que um clube arrecade ou deixe de arrecadar milhões.

Sendo assim, o grande desafio, e também, o objetivo maior, é o de se encontrar o significado "escondido" por trás dos números e usar esse conhecimento para a obtenção de vantagem competitiva sobre os adversários. Isso me faz acreditar que a análise de desempenho pode ter, de fato, grande importância e caráter decisivo para a obtenção do resultado positivo em determinado jogo.

O que é necessário é o entendimento de que, sem inteligência aplicada, falar pura e simplesmente, por exemplo, em soluções de big data no esporte, nada mais é do que falar de um enorme amontoado de informações descontextualizadas, armazenadas em inúteis tera, peta, exabytes, ou o que for. Da mesma maneira, de nada adianta falar em tecnologia aplicada no futebol sem o entendimento de que ela deve ser sempre encarada com um meio, jamais o fim.

Universidade do Futebol – Como você vê o desenvolvimento da função de analista de desempenho no futebol brasileiro atualmente?

Pedro Pereira – Vejo que, hoje em dia, no Brasil, a função segue muito pautada no trabalho de observação técnica, com foco na análise subjetiva, qualitativa do jogo, especialmente no que diz respeito ao estudo prévio das equipes adversárias. Não tenho dúvida de que esse trabalho é fundamental, porém penso que, idealmente, deveria haver uma maior integração, uma interface mais efetiva desse tipo de informação com os dados quantitativos do jogo.

O trabalho de mineração de dados, caracterizado pelo processamento da informação em grandes volumes, de métricas de desempenho cada vez mais detalhadas, capazes de representar objetivamente os eventos que ocorrem em campo, em toda a sua complexidade, jamais será capaz de substituir a experiência do ser humano. Diferentemente disso, ele deve existir justamente para tornar evidente aquilo que nem os mais treinados olhos são capazes de enxergar.

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