Universidade do Futebol

Gief

14/08/2007

Pequenas lembranças, grandes acontecimentos

Agora em julho relembramos e vivemos dois momentos antagônicos para o futebol brasileiro: os 25 anos da tão comentada “Tragédia do Sarriá” e a vitória, até certo ponto, inesperada de nossa seleção brasileira na Copa América, na Venezuela.

Esses momentos são antagônicos porque em 1982 éramos os grandes favoritos para a conquista do Mundial da Espanha e, no entanto, esbarramos na agilidade de Paolo Rossi em dominar e acertar três vezes o fundo do gol brasileiro. Na Copa América, a seleção com as renovações que não agradam a grande parte de especialistas e torcedores estava fadada às criticas e comparações e o pior, a ser considerada apenas coadjuvante numa competição em que, até a decisão, a seleção argentina deu show com os pés e era a grande favorita.

Não tenho referências afetivas de 1982, pois não era nascida. Apenas vi cenas e li textos daquele dia considerado por Alberto Helena Júnior, grande jornalista, o fim do futebol-arte. Essa discussão entre futebol-arte e futebol-força, ou de resultados, é extensa, por isso não a faço completamente neste texto. Mas ela serve de pano de fundo para comentar sobre como nossas referências no futebol são criadas e recriadas em cada momento.

“As experiências não se transmitem. Cada um faz do seu jeito”, já dizia Tostão em uma crônica. E essas experiências podem ser construídas em três níveis:o real, o simbólico e o imaginário. O real, segundo o famoso psicanalista Lacan, é o mundo da natureza, dos instintos e dos desejos irracionais. E que, para o homem evoluir, ele precisou reprimir seus instintos e criar o mundo do simbólico, da civilização e da cultura. Esse é o mundo em que vivemos na maior parte dos tempos.

Símbolo é o que idealizamos e o que representamos. E se fizermos uma comparação com o futebol, nossas escolhas pelos times e por um sistema tático pode demonstrar o quanto, durante os 90 minutos de jogo, a nossa vida se transforma. Somos o “outro” e vice-versa. Mas não há como viver todo o tempo simbolizando e representando. Sorte nossa que existe o mundo imaginário para contrapor. Mas às vezes, os mundos simbólico e imaginário travam um duelo dentro de nossos sentimentos.

Vejamos…

Lendo nesses últimos dias alguns artigos, deparei-me com esta afirmação de Armando Nogueira: “É uma refinada bobagem dizer que o futebol bonito, bem jogado, é incompatível com a vitória. E que, pra ser campeão, é preciso jogar o futebol avarento que se viu agora na Copa do Mundo”. Bom, você pode dizer que isso é um tanto quanto óbvio. Muitos treinadores já disseram que o que importa é ganhar, é o resultado. Mas pasmem: essa afirmação é de uma coluna de Armando no jornal O Estado de S. Paulo em 1994, na época do tetracampeonato. E o que isso significa? Que não adianta mesmo o brasileiro se chatear com as escolhas de nossos técnicos. Foi assim em 94, foi assim em 2006 e está sendo assim com Dunga, capitão justamente do tetracampeonato.

É o velho anti-jogo que acaba não valorizando o “jogar bonito”, que visa apenas o resultado final. Um futebol-força que valoriza o preparo físico do jogador que chega, muitas vezes, a virar uma batalha campal, cheia de atritos, faltas. O jogo torna-se monótono, como vimos em muitos jogos da Copa do Mundo, na Copa América, como vemos durante o Brasileirão deste ano.

Sabe o que mais me preocupa na “nova” fase do jogar futebol brasileiro? Que jornalistas e torcedores elejam os mais belos gols da rodada, aqueles feitos de fora da grande área, como do Hernanes, no jogo contra o Cruzeiro. Como se esse tipo de gol, bonito sim, fosse ‘arte´. Longe disso. Mas gol é sempre gol, não é? Gol significa estar à frente do placar ou esboçar uma reação em cima do adversário, não é? Gol é a alegria de nós torcedores, não é?

E o gol se transforma num momento mágico. Como escreve Eduardo Galeano, autor do livro “Futebol ao Sol e à sombra”: “O gol é o orgasmo do futebol. E como o orgasmo, o gol é cada vez menos freqüente na vida moderna. (…) O entusiasmo que se desencadeia cada vez que a bola sacode a rede pode parecer mistério ou loucura (…). O gol, mesmo que seja um golzinho, é sempre goooooooooooolllll na garganta dos locutores”.

Ah! As lembranças, o nosso imaginário coletivo… Elas têm a capacidade de “fazer história”. E essa memória, afetiva ou “sentida”, me relembra uma aula na época da faculdade, na qual minha professora falava da importância da memória com centro de tradição. Ela dizia que, para uma coisa se tornar parte de nossa cultura ela deverá ser transmitida de geração a geração e que a paixão do brasileiro pelo futebol-arte só foi possível pois as histórias do esporte foram contadas e recontadas através dos tempos, seja por um pai ao filho, do avô ao neto ou mesmo por meio da impressa.

Talvez esteja aí uma primeira possível resposta para o nosso “não-aceitamento” que o futebol moderno seja mais de força do que arte. Não é o que temos como referência, não é o que nos acostumamos a ver.

Enfim, posso não ter muitas referências vividas de alguns momentos importantes do nosso futebol, mas as tenho “sentidas” e revividas ao longo de meus 24 anos. Que possamos, sempre, ter boas histórias pra contar. E que cheguemos aos 80 e poucos anos olhando para o passado não com saudosismos, mas sim ver que tudo valeu a pena.

* Julyane Stanzioni é jornalista e mestrando em Antropologia na PUC-SP

Comentários

Deixe uma resposta