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20/05/2019

Perder não pode ser normal

O Flamengo havia sido superado pelo o Atlético-MG em Belo Horizonte, em jogo válido pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro, a despeito de ter ficado com um homem a mais ainda no primeiro tempo – Elias, meio-campista da equipe alvinegra, foi expulso. No ínterim entre o desfecho da partida e o início da entrevista coletiva de Abel Braga, técnico dos cariocas, chamou atenção uma previsão feita por Mauro Cezar Pereira, comentarista dos canais “ESPN”. “Ele vai dizer daqui a pouco que perder para o Atlético-MG é normal”, vaticinou o jornalista.

Nesta segunda-feira (20), torcedores do Flamengo picharam muros da Gávea, sede do clube, que fica na Zona Sul do Rio de Janeiro, e do Centro de Treinamentos Ninho do Urubu, na Zona Oeste. “Fora Abel” e “perder não é normal” estavam entre as frases escolhidas pelos adeptos rubro-negros ao externar revolta.

Perder não pode ser normal para clubes do porte do Flamengo, mas derrotas não podem criar ambientes de tensão em instituições desse porte. O Campeonato Brasileiro não tem um vencedor invicto desde o Internacional de 1979, e o próprio Flamengo acumulou nove reveses na campanha da taça de 2009 – ao lado do Corinthians de 2011, recorde de placares adversos para campeões nacionais em pontos corridos com 20 times. Na atual temporada, os cariocas já perderam dois jogos em cinco rodadas, para Internacional e Atlético-MG, ambos como visitantes.

O Flamengo passou por uma mudança de status desde a ascensão do grupo político que atualmente comanda o clube. Naquela época, o presidente Eduardo Bandeira de Melo adotou discurso de austeridade e planejou sanar pendências financeiras antes de investir na formação de uma equipe forte. A torcida passou anos ouvindo que era uma política de médio/longo prazo e se acostumou a metáforas como guardar dinheiro para comprar um carro importado em vez de passar a vida em consórcios de veículos populares.

Quando o Flamengo passou a investir em contratações de peso, portanto, havia entre os torcedores uma expectativa de que o time seria como um carro importado em uma corrida de veículos populares. A sensação ganhou corpo à medida que desembarcaram na Gávea nomes como Diego, Guerrero e Éverton Ribeiro. Tornou-se ainda mais forte neste ano, quando o time rubro-negro conseguiu reforços como Bruno Henrique, Gabigol e Arrascaeta.

Além da expectativa exacerbada, decisões tomadas pela cúpula rubro-negra reforçaram a sensação de que o time sempre estava aquém de seu potencial. No ano passado, por exemplo, o Flamengo demitiu Mauricio Barbieri, que havia acumulado 14 vitórias em 26 rodadas do Brasileiro, e contratou Dorival Júnior, que obteve sete triunfos nas 12 partidas restantes da competição nacional e fechou a temporada na segunda posição.

As mudanças de treinadores tornaram-se marca do Flamengo desde a ascensão do grupo político que atualmente comanda o clube. Foram 19 trocas de 2013 para cá (considerando interinos) e cinco técnicos diferentes apenas entre 2017 e 2018. Abel Braga, veterano e vitorioso, foi contratado nesse contexto.

A ideia da diretoria do Flamengo com Abel era ter à frente da equipe um nome capaz de frequentar a mesma prateleira de seus principais jogadores. Alguém que pudesse acalmar o ambiente como Luiz Felipe Scolari fez no Palmeiras.

A questão é que o Flamengo de Abel, assim como o Palmeiras de Felipão, convive com uma pressão que vai além dos resultados positivos. São times caros, cercados de expectativa, que precisam entregar desempenho e traduzir em campo o nível de confiança que seus torcedores demonstram quando acompanham as chegadas de reforços. Com a diferença fundamental de que os paulistas são os atuais campeões nacionais – os cariocas não conquistam nada além de seu Estado desde 2013.

Existe pressão por resultado e por desempenho, portanto, e no caso do Flamengo isso é ampliado pela estiagem de títulos nacionais ou internacionais. E aí entra o processo de comunicação: a fatídica nota oficial que o clube emitiu neste ano, na qual valorizou o título conquistado na Florida Cup, só contribuiu com a animosidade. Entre as pichações desta segunda-feira havia reclamações sobre a “Copa Mickey” em alusão ao torneio de pré-temporada.

Mais uma vez, é importante considerar esse contexto para entender o tamanho da declaração de Abel Braga. O treinador considerou normais as derrotas para Internacional e Atlético-MG, mas fez isso num cenário em que tudo é anormal para o Flamengo. Sobretudo porque o desempenho da equipe, mais do que os resultados, tem sido preocupante para os torcedores.

Abel tem apenas cinco meses de trabalho, mas ainda não mostrou um rumo. Não começou a estruturar uma equipe pragmática e tampouco mostrou ser capaz de construir um time que possa desempenhar mais. Existe uma crise de identidade no Flamengo de 2019, e essa crise é agravada por todo o contexto. A frase que tem sido usada frequentemente para definir isso, cuja autoria eu infelizmente desconheço, é que “o Flamengo não tem projeto; tem pressa”.

O clube carioca é, portanto, um exemplo de como a comunicação não pode ser dissociada do contexto. Há uma bagagem construída ao longo das últimas temporadas, e nesse cenário até uma avaliação simples (perder para o Atlético-MG fora de casa é realmente normal, afinal) pode ser estopim para uma crise.

Por isso é tão importante que um plano de comunicação tenha objetivos claros e saiba transmitir isso ao público. Saber o que se quer atingir e estabelecer um cronograma para isso é tão ou mais importante do que o resultado.

Perder para o Atlético-MG pode até ser normal. O que não é normal é o Flamengo chegar a maio de 2019 sem saber o que pode entregar a seus torcedores neste ano.

 

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