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26/03/2012

Periodização Tática e a extinção do preparador físico. Será?

Ao passar dos anos novos métodos de aplicação de treinos surgem e com eles novos conceitos e crenças voltadas para a manipulação de exercícios e linhas de pensamentos relacionadas a visão do desporto ou até mesmo do mundo fitness.

Essas inovações percorrem uma linha tênue entre inovação ou atualização dos conceitos e métodos de aplicação de treino, ou até mesmo exercícios, aparelhos ou acessórios de treinamento.

No futebol, as atualizações e inovações estão sempre atrás do mercado de treinamento desportivo – na maior parte das vezes, quando algo novo é lançado e inserido no mercado, demanda muito tempo para os profissionais que norteiam o futebol aprenderem e buscarem coragem para aplicar esses métodos dentro do desporto.

Ao longo dos anos, diversos métodos de aplicação de treinamento iniciaram uma mudança nos métodos de preparação física dentro do futebol, especialmente dentro da aplicação dos treinos de força e do treinamento funcional.

Contudo, nas últimas décadas, praticamente não havia mudanças dentro dos treinamentos técnicos e táticos, e quando ocorriam as pequenas mudanças pouco se modificava dentro do panorama geral de treino.

Sob esse panorama, apareceu um novo método de aplicação de treinamento dentro do futebol conhecido como Periodização Tática. Formulada pelos portugueses, tendo como grande mentor Vítor Frade e como grande “garoto propaganda” o técnico José Mourinho.

Esse método é complexo e de grande valia e parte do princípio que tudo no jogo se resolve e dentro do sistema de jogo, através do treinamento e da postura tática dos atletas.

São formas fantásticas de organização dos sistemas ofensivos e defensivos com suas devidas transições que, na minha opinião, vieram revolucionar a forma ortodoxa como que o futebol era tratado dentro dos aspectos técnico e tático mundialmente.

Segundo os autores e seus seguidores, todos os componentes que regem o alto rendimento do futebolista moderno são treinados e solucionados com treinamentos complexos e voltados para o sistema de jogo. As características técnicas, cognitivas, de preparação física, entre outras são treinadas exclusivamente dentro do Modelo de jJogo.

Dentro dessa linha de jogo, nenhum treino nem exercício deve ser realizado fora do sistema de jogo, nem de forma complementar. Com isso todos os exercícios são executados dentro da postura tática determinada e traçada previamente pelo técnico e seus assistentes.

A inovação foi solidificada e com isso inúmeros seguidores começaram a aplicar esse método de treino e perceberam que conseguiam êxito dentro dos jogos e competições; por razões claras e óbvias, abriram mão dos treinos técnicos/ táticos gerais e inespecíficos e iniciaram uma aplicação totalitária de forma específica e com isso os resultados apareceram como um “passe de mágica”.

A intensidade do treinamento é algo determinante dentro desse complexo e bem elaborado método de treinamento. Todos os treinos são realizados de forma específica e intensa, com baixa duração do treino.

Através desse método, uma teoria básica do treinamento desportivo foi seguida: “aumenta a intensidade e diminui o volume”.

Isso apesar de simples nos desportes em geral, no futebol era algo de difícil acesso, pois em via de regra quem sempre aplicou os treinos técnicos eram os treinadores, que copiavam os modelos de treino que fizeram na época que atuavam como atletas: volume alto e uma intensidade baixa.

Com isso se tornava um ciclo vicioso, onde todos sempre executavam os mesmo treinos sem inovação e mudanças, pois todos sempre faziam a mesma coisa, sem parar para analisar.

Com essa alta intensidade do treino com bola e a observação dos treinos equivocados e inespecíficos aplicados pelos preparadores desatualizados (corridas longas, intervaladas, entre outras….), os autores desse métodos e obviamente seus seguidores criaram uma nova linha de análise para o treinamento do futebolista moderno.

Segundo os adeptos dessa linha de treino, não existe mais o preparador físico, e sim os assistentes do técnico, que executarão os treinos apenas voltados para os sistemas de jogo, sem nenhuma carga inespecífica de treinamento.

Seria com isso a extinção do preparador físico?

Claro que não! Temos que analisar com calma e com discernimento, sem radicalismo, essa questão.

Poucos defendem a especificidade dentro da preparação física dentro do futebol como eu; penso que todos os treinos, independente da característica da carga (geral ou específica), deve seguir o princípio da especificidade. Treinos inespecíficos devem sim ser abolidos, e não a figura do preparador físico.

Outro detalhe relevante seria a análise da aplicação do sistema de jogo para o aprimoramento completo do condicionamento do futebolista que é defendido pelos seguidores do método.

A aplicação dos treinamentos com bola, com mini campos, jogos amistosos e jogos oficiais já são o suficientes para o ganho e manutenção da resistência específica do atleta de futebol (Sargentim e cols, 2008), já não é novidade há muito tempo.

Mas o ganho e a manutenção da força e impensável dentro desse método. Os autores afirmam (sem nenhuma base científica) que com a aplicação do sistema de jogo o atleta de futebol ganha força específica através das diversas mudanças de direção em virtude do ciclo alongamento encurtamento.

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Com todo o respeito que tenho pelo método, e o admiro muito, essa afirmação é um equívoco – aliás, é uma grande besteira. É impossível sem uma sobrecarga atingir o alto rendimento em qualquer linha de treinamento, em especial no que concerne a força.

O treino específico com bola é, sim, um grande ganho, porém caracterizado como transferência ao treinamento de força prévio realizado antes de entrar no campo de jogo.

Obviamente estamos falando de treino de força específica, com pesos livres, acessórios ou até mesmo o peso corporal; não estamos em nenhum momento citando, nem tampouco, propondo treinos em aparelhos de musculação, que além de não ajudarem, atrapalham o desenvolvimento da reatividade do futebolista.

Os treinos de força citados são atividades realizadas em cadeia cinética fechada, com ou sem saltos, contudo, sempre de forma específica ao desporto.

Um dos princípios básicos do treinamento desportivo é o princípio da sobrecarga, que em conjunto com o princípio da especificidade regem o treinamento moderno independente da modalidade.

Esse dois princípios que são respeitados pelos autores da Periodização Tática em que, através do sistema de jogo, aumenta-se o sobrecarga de treino, o deixando mais intenso e denso, proporcionando ao futebolista uma especificidade total na aplicação do treino com bola.

Contudo, o princípio da sobrecarga não é respeitado na aplicação do treino de força dentro desse método. Apenas adaptar o sistema neuromuscular do futebolista aos sistemas de jogo, por mais intenso que seja, não gera nenhuma sobrecarga para o ganho, nem tampouco manutenção de força; pelo contrário: se não for bem trabalhada, causa perdas significativas de força ao futebolista.

Para se gerar uma sobrecarga dentro do treino de força, deve-se colocar obstáculos para que o futebolista possa desafiá-los e vencê-los, que passam por levantar pesos, saltar, ou até mesmo tracionar obstáculos como o trenó; depois desses exercícios, a transferência para o Modelo de Jogo seria, sim, o complemento para possibilitar ao atleta um ganho de força e posteriormente uma adaptação específica dentro do campo de jogo.

Com esse método bem sincronizado, o ganho de velocidade seria consequência natural, pois a junção de um treino de força bem equilibrado e uma transferência plena para o treino específico possibilitariam ao futebolista um ganho objetivo e imediato de velocidade específica de deslocamento em campo (mudança de direção).

Com isso, posso afirmar que como estão dizendo os autores e seguidores do método que o cargo de preparador físico esta em extinção, é um grande equívoco, pois esse cargo está em adaptação a uma nova forma de se treinar e atuar.

A função do preparador físico moderno cada dia mais será de treinar e possibilitar ao atleta de futebol um ganho equilibrado de força específica para, em campo, com o sistema de jogo através dos métodos específicos, seguir os conceitos da Periodização Tática e conseguir render em alto nível não apenas durante os 90 minutos, e sim ao longo de toda temporada competitiva.

Vale uma reflexão aos seguidores assíduos do método que por muitas vezes não analisam e apenas repercutem aquilo que leem e principalmente observam dentro dos treinamentos as falas das pessoas que defendem a Periodização Tática.

Não é possível um futebolista atuar mais de 50 jogos sem um treino de força que proporcione um equilíbrio muscular e um lastro de rendimento que suporte a temporada competitiva, por isso que clubes que seguem os princípios da Periodização Tática, como Barcelona, Real Madrid e Chelsea (para não citarmos mais) aplicam, sim, protocolos rígidos de treinamento de força para possibilitar o alto rendimento dos seus atletas.

Por mais que as pessoas que ditam a regra sobre o método digam que não, é uma inverdade: os treinos são executados, sim, e de forma completa ao longo da temporada competitiva.

O que certamente está se extinguindo é o preparador físico tradicional que apenas manda correr sem se preocupar com as decorrências específicas do treinamento do desporto. Cada dia mais o preparador físico no futebol é aquele que proporciona um equilíbrio muscular ao atleta de futebol através do ganho de força específica.

É necessária a atualização constante dentro do treinamento desportivo e em especial no futebol. A Periodização Tática veio ao encontro dessa necessidade, contudo afirmar que está acabando o cargo de preparador físico é um erro tão grande quanto a petulância dos criadores do método.

*Sandro Sargentim é preparador físico de futebol e autor do livro “Treinamento de força no futebol”. Além disso, é docente no curso de pós graduação em Treinamento Desportivo – UNiFmu/Gama Filho e Treinamento Funcional – Ceafi e coordenador da pós graduação em Ciências no Futebol – UniFmu.

Leia mais:
Bruno Pivetti, preparador físico do Audax São Paulo e autor do livro “Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios”
 

Comentários

  1. MAURÍCIO CAMARGO disse:

    Pede p esses criadores fazerem um escalte de quantos jogadores são lesionados somente usando esse novo método, nessa mesma linha pega os atletas lesionados liberados pelo DM e coloca eles nesse novo sistema p ver qto tempo ele demorará p uma melhor recuperação física, muscular e um rendimento maior ou igual ao tinha.. Resumindo o prep. Fisico sempre será necessário como principal auxilio em qualquer sistema criado dentro de esporte de rendimento

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