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24/08/2012

Periodização tática: por que a metodologia ainda não se consolidou no país

Creio que, para abordarmos os caminhos da Periodização Tática no Brasil precisamos compreender como aprendemos a pensar, desde o início da fase escolar, passando pelos cursos de pós-graduação até pelo ambiente do meio futebolístico.

Aprendemos desde cedo a analisar tudo para explicar cada fenômeno, bem como dissecar o ser humano em partes isoladas para colocar os “pedacinhos” num mesmo saco e tentar produzir conhecimento. Paralelamente a isto, o futebol brasileiro, com todo seu conservadorismo e prepotência pentacampeã, se nega a aceitar novos paradigmas e se mantém ao economicamente interessante ou politicamente seguro.

Na ânsia de parecerem modernos, muitos profissionais se defendem ao dizer que é possível trabalhar a Periodização Tática e a Tradicional juntas apenas por usarem bola nos treinos físicos ou em pequenos jogos. É importante ressaltar que existem os dois caminhos para desenvolver performance de equipes de futebol.

O que acontece na prática é: não dá pra andar pelas duas ao mesmo tempo; quem mora em Minas Gerais chega a São Paulo pela Fernão Dias, quem mora no Rio chega lá pela Dutra. Não é possível usar as duas estradas ao mesmo tempo. Por isso é importante entender o Cartesianismo e o teoria sistêmica e/ou Holismo.

Descartes tinha visão analítica do universo, ou seja, ele era composto de partes articuladas, como um relógio. Assim, o método cartesiano consiste em dividir o todo em partes e estudá-las separadamente.

A primeira regra é a evidência: jamais aceitar uma coisa como verdadeira que eu não soubesse ser evidentemente como tal. A segunda, a regra da análise: dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas partes quantas possíveis e quantas necessárias para melhor resolvê-las.

Já a terceira, a regra da síntese: conduzir por ordem meus pensamentos, a começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para galgar pouco a pouco, como que por graus, até o conhecimento dos mais complexos.

E finalmente a quarta: fazer em toda parte enumerações tão complexas e revisões tão gerais que “eu tivesse certeza de nada ter omitido”.

No dicionário de filosofia Abbagnano (1995) o reducionismo é apresentado e definido como algo que foi reduzido, transformado, modificado, manipulado, em nome da ciência.

Em modo geral na filosofia, o reducionismo é o nome dado a teorias correlatas que afirmam, grosso modo, que objetos, fenômenos, teorias e significados complexos podem ser sempre reduzidos, a fim de explicá-los, as suas partes constituintes mais simples.

Outros termos também são utilizados para expressar a ideia de especialidade, como o mecanicismo e atomismo. Assim a ênfase nas partes tem sido chamada de mecanicista, reducionista ou atomística. O reducionismo nada mais é do que a redução de algo, ou seja, a transformação, a modificação, a manipulação de algo, a fim de buscar a verdade ou a falsidade.

Ou seja, pela preparação tradicional, baseada pelo fisicismo ou tecnicismo, o treino físico melhora as capacidades físicas exigidas num jogo de futebol, o treino técnico analítico melhora isoladamente os fundamentos técnicos e o treino tático aprimora o sistema de jogo, a tomada de decisão dos jogadores etc. Mesmo quando falam em físico-técnico ou físico-tático, em que sugerem estarem treinando tudo ao mesmo tempo, os adeptos acabam “dissecando” os treinos em variáveis e justificando o jogo como meio de melhorar determinada capacidade.

A palavra sistema denota um conjunto de elementos interdependentes e interagentes ou um grupo de unidades combinadas que formam um todo organizado. Sistema é um conjunto de coisas ou combinações de coisas ou partes, formando um todo complexo ou unitário. (Chiavenato, 2000, p. 545)

O sistema é um conjunto de partes interagentes e interdependentes que, conjuntamente, formam um todo unitário com determinado objetivo e efetuam determinada função (Oliveira, 2002, p. 35). Já o holismo significa que o homem é um ser indivisível, que não pode ser entendido através de uma análise separada de suas diferentes partes.

Com a globalização (integração do mundo; povos e cultura) compartilhamos não somente as oportunidades que ela oferece, mas também os problemas. E para sua compreensão exige a aplicação da teoria sistêmica. Na busca de uma sabedoria sistêmica, que bem podemos interpretar como sendo a procura de uma visão holística.

Esta visão pode ser considerada a forma de perceber a realidade e a abordagem sistêmica, o primeiro nível de operacionalização desta visão. Já o enfoque sistêmico exige dos indivíduos uma nova forma de pensar; de que o conjunto não é mera soma de todas as partes, mas as partes compõem o todo, e é o todo que determina o comportamento das partes. Uma nova visão de mundo, que lhes permitirá perceber com todos os sentidos a unicidade de si mesmo e de tudo que os cerca.

O jogo pela visão sistêmica é o principal motivo do treinamento e não é passível de ser reduzido em partes isoladas descontextualizadas, mas sim sob um específico ponto de vista fractal, ou seja, partes do jogo. Pela PT, saltar mais, correr mais e mais rápido ou mesmo simplesmente executar um passe longo de forma repetitiva no pé do companheiro no outro lado do campo não tem nada a ver com o que se pretende no jogo de futebol.

Pela PT pretendemos o aprimoramento do modelo de jogo, pelo jogo, em sua totalidade, em seus momentos e pela especificidade das tarefas desempenhadas que vão exigir naturalmente de cada variável sem necessariamente ter de se pensar nelas em separado. Pela PT não há jogadores bem ou mal fisicamente, mas sim adaptados ou não com o jogo ou forma de jogar.

Fica evidente a diferença, a necessidade de números, testes, variáveis e quantas informações forem necessárias pelo pensamento cartesiano predominante e pelo conservadorismo do nosso futebol.

São formas diferentes de pensar, não estou falando em certo ou errado, mas sim de concepção, percepção dos fenômenos, do jogo.

E neste momento, o que aparece como aspecto mais importante pra mim, é a maturidade para embates e discussões e compreender o ponto de vista divergente. Aliado a isto, a ética para se comportar no mercado de trabalho, pois desta forma o esporte só tem a crescer.

*Wladimir Braga é preparador físico das categorias de base do Atlético-MG

Para interagir com o autor: wladimirbraga@hotmail.com

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