Universidade do Futebol

Nupescec

20/09/2007

Peripécias Indígenas

Ídolos

O jogo estava marcado, mas uma tribo ficou presa na estrada. Sem ter adversário para a primeira partida, os Kayapó entraram em campo para mostrar um pouco da sua cultura. Os índios chegaram calados, vestindo seus adornos e exibindo pinturas por todo o corpo. O chefe da tribo, que era também o treinador do time, chegou com uma bermuda jeans, descamisado, com o corpo todo pintado. A impressão inicial foi de que ele estava seguindo o protocolo; se estivesse na sua tribo, ele não teria vestido aquela bermuda. Em respeito aos “civilizados”, adotou o traje como sendo “oficial” para o evento.

Os índios se espalharam pelo campo. Apresentaram algumas danças, entoaram seus cantos, e ali ficaram para verem e serem vistos. Além das pessoas que estavam trabalhando, havia em campo alguns moradores da cidade que foram assistir ao jogo daquele dia. Enquanto tentávamos entrevistar os índios para a nossa pesquisa, uma das crianças nos pediu uma caneta emprestada. Sem compreender o motivo, entregamos o objeto para a menina, que imediatamente virou para o nosso entrevistado e lançou a pergunta: “Me dá um autógrafo?”. Isso bastou para que dezenas de crianças viessem rodear o índio, com canetas e pedaços de papel na mão, esperando ansiosamente a preciosa assinatura. O índio rabiscava os papeizinhos rapidamente, sem entender direito o que estava acontecendo. Quando terminou de escrever pela última vez o seu nome, a criançada inventou de colecionar autógrafos, e atacou mais três índios. Dessa vez o espanto foi nosso, quando percebemos o orgulho deles em dar aqueles autógrafos. Estávamos mesmo diante de grandes ídolos?

Uma chegada triunfal

Os Kayapó esperaram o time adversário em vão. A tribo Gavião não chegou no primeiro dia.

Mais tarde, a história dessa viagem virou lenda. O ônibus vinha de Porto Seguro e quebrou quando passava por Governador Valadares-MG. Os índios tiveram que esperar uma providência: ou consertavam o ônibus ou mandavam outro ônibus para concluir a viagem. Resolveram consertar o ônibus para levar os jogadores o mais rápido possível até Juiz de Fora, porque eles estavam atrasados um dia para o campeonato.

A notícia de que eles já estavam a caminho aliviou os organizadores, que começaram logo a mudar a tabela para encaixar os jogos com a tribo. Mas os Gavião não estavam com sorte. Durante a viagem, o ônibus atropelou uma moto. A polícia apareceu e todos foram encaminhados para delegacia para esclarecer os fatos. Nos bastidores do campeonato todos tentavam imaginar a cena: quase trinta índios diante do delegado acusados de atropelar uma moto.

Finalmente, liberados da cadeia eles conseguiram chegar a tempo de jogar nos últimos dias. A história virou a lenda do campeonato e os índios deviam ter ganhado um troféu pela disposição de enfrentar tanta aventura.

Índios consumistas

No segundo dia da competição estava marcada uma partida para as cinco horas da tarde. Os organizadores e os jogadores estavam esperando o time adversário para iniciarem o jogo. Depois de uma hora, eles começaram a ficar preocupados com tanta demora. A dúvida sobre o que teria acontecido com a tribo Kanela era maior porque já tinha chegado a notícia de que eles não estavam mais no alojamento há muito tempo. Mas, se não estavam em campo, por onde andavam?

Foi então que aconteceu o inesperado. Sete táxis chegaram e trinta índios desceram dos carros carregados de sacolas de compra, exibindo os nomes de lojas do centro da cidade. Com total naturalidade, os índios pagaram os motoristas e se dirigiram ao campo para enfim começar a partida. Perplexos, os organizadores resolveram cancelar o jogo daquele dia e dispensar todos os atletas. Era preciso um tempo para assimilar a cena que tinham acabado de presenciar.

Como punição pelo impulso consumista, a tribo Kanela teve que jogar três vezes no dia seguinte. Mesmo eliminados da competição, devem ter ficado muito satisfeitos com o tour que fizeram em terras mineiras.

Impressões e devaneios

Talvez a pergunta mais recorrente durante os quatro dias do campeonato tenha sido esta: “Somos todos cidadãos de um mesmo Brasil?” Se já nos deparamos com essa dúvida em dias comuns, isso fica maior quando estamos diante de pessoas tão “diferentes” de nós. O impacto de conhecer cidadãos do seu país, que não falam a mesma língua que a sua, gera a incerteza de compartilharmos sentimentos patriotas. É claro que existem inúmeros modos de falar o português, mas com boa vontade todos são compreensíveis. Porém, o idioma utilizado por algumas tribos brasileiras é outro, nada semelhante àquele que usamos. O saldo positivo depois do choque de se ver inserido em uma sociedade muito mais diversa é saber que os índios tentam preservar sua cultura, continuando a usar a língua materna.

Curumim

Outro momento pitoresco aconteceu durante a manhã do sábado, terceiro e penúltimo dia da competição. A tribo Yawalapiti estava jogando, seus reservas estavam no banco torcendo, observando atentamente a partida e as instruções do treinador. Um deles estava acompanhado da mulher e do filho, um indiozinho de três anos. Ele não falava e não entendia nada de português, mas olhava curioso para aqueles estudantes que faziam tantas perguntas. O curumim era uma graça, pequenininho e gordinho, com o olhar curioso próprio de toda criança. E ficou ao lado do pai brincando com seus óculos escuros. A observação curiosa vinha da comparação entre a criança índio e as outras crianças “homem-branco” que estavam acompanhadas de seus pais para conhecerem o futebol indígena. Impossível imaginar a convivência entre mundos tão distintos, culturas extremamente diferentes.

Índios modernos

A lembrança final trouxe à memória o primeiro jogo. Não propriamente os lances futebolísticos, mas a chegada e a entrada em campo da tribo Xacriabá. Todos os jogadores estavam usando “Ray-Bans” e o treinador ouvia tranquilamente seu i-pod. Só faltou ele tirar do bolso um celular para se comunicar com algum auxiliar-técnico estrategicamente posicionado no topo da arquibancada, aderindo assim à moda dos grandes treinadores brasileiros.

Na memória

A imagem escolhida como a mais bonita foi a confraternização entre duas tribos. Primeiro, entraram em campo de mãos dadas, assim como fazem as estrelas do futebol mundial. Após a partida, cada tribo fez uma dança. Duas rodas separadas, duas cirandas em lados opostos. Um elo invisível entre aqueles que permitem a sobrevivência da cultura de nossos ancestrais, da nossa história.

* Débora Nobre Monteiro é membro do O Núcleo de Pesquisa em Comunicação, Esporte e Cultura da UFJF

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