Universidade do Futebol

Entrevistas

29/08/2014

Peterson Dourado, do Centro de Referência Esportiva Rio Grande

O que o clube de futebol mais antigo do país pode oferecer para o desenvolvimento do esporte brasileiro? Na sede do Sport Club Rio Grande, fundado em 19 de julho de 1900 e atual campeão da terceira divisão daquele Estado, um núcleo de professores busca estabelecer a educação física escolar de uma maneira especial.

Lá nas dependências do “Vovô”, boxe, natação, taekwondo e futebol, claro, são temáticas de aulas oferecidas pelo Centro de Referência Esportiva Rio Grande. O projeto social é desenvolvido pela Fundação Sócio-Cultural Esportiva do Rio Grande – FUNSERG – e patrocinado pela Petrobras e segue a metodologia da manifestação do esporte educacional. O objetivo maior: educar para a cidadania, sem desprezar o gesto esportivo.

“O atendimento aos alunos visa um desenvolvimento de três pilares: o ‘Saber’, o ‘Fazer’ e o ‘Ser e Conviver’. A ideia da interdisciplinaridade, pela atuação dos profissionais de diferentes áreas, contribui fundamentalmente para a formação integral do aluno”, avalia Peterson Dourado, contratado para trabalhar especificamente com o futebol.

O quadro de profissionais é composto por 26 pessoas, entre equipe de coordenação, administrativa, professores e estagiários, comunicador social, psicóloga, assistente social, pedagoga, enfermeiro e serviços gerais.

No Centro de Referência Esportiva Rio Grande são desenvolvidas seis modalidades, sendo que o basquete e o vôlei têm como ambiente físico o ginásio do Clube de Regatas do Rio Grande. Cerca de 600 crianças e adolescentes de escolas públicas com idades entre 7 e 17 anos de idade são atendidos, com aulas realizadas duas vezes na semana no contra turno escolar.

Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, Dourado fala sobre como o Esporte Educacional pode ser uma manifestação inclusiva e uma ferramenta para a reflexão crítica de seus praticantes e qual é o nível dos jogadores brasileiros.

“Em minha opinião, os clubes deveriam selecionar possíveis talentos pensando na utilização do mesmo dentro do clube sem apressar sua ‘formação’ e muito menos negociá-lo com outra equipe sem oportunizar sua participação na equipe profissional ou categoria de base antecessora ao time principal”, acresenta.


Ideia da interdisciplinaridade pela atuação dos profissionais de diferentes áreas contribui fundamentalmente para a formação integral do aluno

Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre a sua formação acadêmica e como se deu a sua relação profissional no futebol.

Peterson Dourado – Minha formação acadêmica iniciou em 2007 quando comecei a cursar Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande. No mesmo ano tive a oportunidade de começar a trabalhar na escolinha de futebol e na categoria de base do Sport Club Rio Grande primeiramente como auxiliar técnico e depois como treinador passando pela categoria sub-11 até a categoria sub-17.

Paralelamente ao curso de licenciatura, fui realizando cursos de formação complementar na área futebolística, participei do curso de treinadores profissionais do Estado do Rio Grande do Sul.

Já em 2012, conclui o curso de especialização em Educação Física Escolar na Universidade Federal do Rio Grande, me desliguei do Sport Club Rio Grande não trabalhando mais como treinador na categoria de base, e no ano seguinte, fui contratado para trabalhar na modalidade futebol no Centro de Referência Esportiva Rio Grande – RS que é um projeto social que trabalha com crianças e adolescentes com idades entre 7 e 17 anos divididas em seis modalidades esportivas (basquete, boxe, futebol, natação, taekwondo e vôlei) através da metodologia do esporte educacional seguindo os princípios do Instituto Esporte Educação.


  Especial: a importância da formação do treinador de futebol

 

Universidade do Futebol – Você é professor da modalidade futebol no Centro de Referência Esportiva Rio Grande. Como é a estrutura deste projeto? Quantas pessoas atuam ao seu lado?

Peterson Dourado – O projeto, que é realizado pela Fundação Sócio Cultural Esportiva do Rio Grande – FUNSERG, através do Programa Esporte & Cidadania e, conta com o patrocínio da Petrobras, iniciou suas atividades em fevereiro de 2013.

Atualmente, no núcleo localizado no Centro Esportivo do Sport Club Rio Grande, são 3 campos em que funciona a modalidade de futebol, parque aquático (piscina térmica e ao ar livre), utilizadas pela modalidade de natação, salão e espaço verde, onde acontecem as práticas de boxe e taekwondo.

Já no núcleo do Clube de Regatas, dispomos de ginásio poliesportivo, em que acontecem as aulas de basquete e voleibol.

O quadro de profissionais é composto por 26 pessoas, entre equipe de coordenação, administrativa, professores e estagiários, comunicador social, psicóloga, assistente social, pedagoga, enfermeiro e serviços gerais.

Como o atendimento aos alunos visa um desenvolvimento de três pilares, o Saber, Fazer e o Ser e Conviver, a ideia da interdisciplinaridade, pela atuação dos profissionais de diferentes áreas, contribui fundamentalmente para a formação integral do aluno.

Universidade do Futebol – O Esporte Educacional pode ser uma manifestação inclusiva e uma ferramenta para a reflexão crítica de seus praticantes? Como?

Peterson Dourado – Com certeza! O Instituto Esporte Educação traz como princípios do Esporte Educacional a inclusão de todos, o respeito à diversidade, a construção coletiva, a educação integral e a busca da autonomia.

A partir disso, busco possibilitar aos alunos uma reflexão crítica sobre questões sociais, raciais, de gênero, através de jogos onde meninos e meninas atuem juntos, onde alunos com certo tipo de deficiência tenham a possibilidade de realizar as mesmas atividades de todo o grupo e sendo valorizados por sua participação.

Ainda ocorre a quebra de alguns paradigmas em relação a utilização de espaços e materiais alternativos para a prática , ocorrendo a valorização dos espaços da comunidade e cuidados com o meio ambiente, por exemplo.

Busco também instigar a ideia de construção coletiva através de situações-problema dentro do jogo, onde cada aluno pode contribuir para alcançar o objetivo do grupo.

Jogos Reduzidos e Adaptados no Futebol: quer fazer uma aula de demonstração? Clique aqui e acesse agora mesmo!

 

Universidade do Futebol – Pode-se dizer que o método tecnicista ainda está fortemente arraigado no inconsciente coletivo dos profissionais de futebol? Há uma grande dificuldade em compreender como é possível ensinar e aperfeiçoar a técnica dentro do contexto de jogo, ou como se teoriza, ensinar a técnica por meio da ação tática?

Peterson Dourado – Sim. Acredito que devido a essa dificuldade em ensinar a técnica por meio da ação tática é que faz o método tecnicista estar presente no coletivo dos profissionais de futebol. Porém ressalto que além da intenção ou não do profissional em ensinar a técnica por meio da ação tática, temos de considerar a capacidade cognitiva e motora dos jogadores, pois em alguns casos, a ação tática não é tão trabalhada devido a não compreensão e dificuldade de execução por parte dos atletas.

E, ainda, a não busca de qualificação profissional e acomodação das pessoas ligadas ao futebol resultam em repetição de métodos e não a busca por novos conceitos, técnicas.

Universidade do Futebol – Em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? É possível se falar em escolas regionais de futebol?

Peterson Dourado – Um pouco, pois a cultura que o indivíduo criou ou faz parte sempre vai estar presente no seu comportamento, entretanto ela vai modificando com o tempo, mas considero que ela possa influenciar também se tratando de futebol.

O indivíduo envolvido no meio futebolístico vai adquirindo novas culturas ao longo do tempo e, através disso, não descarto a criação de escolas regionais de futebol, mesmo tendo em mente que essas escolas regionais de futebol deverão estar interligadas a outras para busca de novas aprendizagens e troca de saberes.


Dourado acredita em "escolas regionais de futebol": "indivíduo envolvido no meio futebolístico vai adquirindo novas culturas ao longo do tempo"

 

Universidade do Futebol – Qual o diagnóstico que você faz hoje da Educação Física e das Ciências do Esporte no Brasil?

Peterson Dourado – Observo que ambas estão em evolução. A Educação Física expandindo mercado para seus profissionais que, além do ensino escolar, estão sendo requisitados e, cada vez mais valorizados, por pessoas preocupadas com cuidados com a saúde e bem estar do corpo. Já nas Ciências do Esporte vejo a especialização de seus profissionais, aumentando o leque de especificidades acarretando um benefício da sua área de trabalho.

Universidade do Futebol – Como você vê, dentro do âmbito escolar e das próprias escolinhas de futebol, a possibilidade de instrumentalizar o futebol para integrar novos conhecimentos?

Peterson Dourado – Acredito que no âmbito escolar, aos poucos, isso já esteja acontecendo devido a proximidade de professores de diversas áreas trabalhando de forma interdisciplinar. Penso que nas escolinhas de futebol isso também é muito importante mas breca, muitas vezes, na falta de qualificação profissional ou na pressão dos pais por resultados especificamente dentro das quatro linhas sem considerar outros valores, outros conhecimentos além do lado técnico do futebol.

Por exemplo, na escola os professores de Educação Física, Língua Portuguesa e Língua Estrangeira podem trabalhar em conjunto, por meio do futebol, auxiliando os alunos a se expressarem corretamente no momento de uma entrevista antes ou depois do jogo.

Nas escolinhas, muitas vezes, os alunos e os pais querem apenas realizar treinamentos técnicos, não dando grande importância para treinamento físico, tático, quiçá novos conhecimentos.

No Centro de Referência Esportiva, buscamos trabalhar a educação integral do aluno trazendo questões do dia a dia e temas transversais para as atividades e, dessa forma, vamos integrando novos conhecimentos através da modalidade esportiva.

Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana

 

Universidade do Futebol – De que maneira jogos recreativos e/ou esportes relacionados ao futebol (como o futevôlei e o futsal, por exemplo) podem auxiliar na preparação física do futebol profissional?

Peterson Dourado – Podem auxiliar trabalhando aspectos específicos como, por exemplo, no futevôlei a exigência de se movimentar na areia que, apesar de não ter grande impacto para os pés e coluna, exige bastante esforço dos membros inferiores durante o deslocamento e saltos; no futsal, a necessidade da mudança de direção constantemente; algum jogo recreativo dentro na piscina pode servir como recuperação da parte física.

Considero ainda que isso possa trazer aos jogadores uma motivação pois em muitos casos a preparação física se restringe a exercícios/atividades repetitivas e monótonas, desperdiçando a oportunidade de trabalhar outras áreas como a parte técnica e a parte psicológica.

Universidade do Futebol – Qual é a sua avaliação sobre o nível do jogador de futebol brasileiro atualmente?

Peterson Dourado – De uma forma geral, avalio o nível do jogador de futebol como razoável. Identifico nos jogadores brasileiros a possibilidade de decisão de uma partida através da capacidade técnica com dribles desconcertantes e chutes incríveis. Porém vejo os atletas brasileiros com dificuldade de evolução tática, não sendo capazes de adequar-se a muitos esquemas e, ainda, vejo um desleixo em relação a parte física com falta de atenção na questão alimentar, consumo de álcool, não cuidado com sono, etc.

Em contrapartida, percebo jogadores de clubes estrangeiros, principalmente da Europa, em evolução técnica, com disciplina e comprometimento tático e físico.

Universidade do Futebol – E quais são os maiores erros cometidos no processo de seleção, detecção e prospecção de talentos pelos principais clubes formadores do país?

Peterson Dourado – Considero erro quando o jogador é valorizado apenas pela capacidade física, principalmente nas categorias mais jovens, sem considerar o aspecto técnico ou tático (cognitivo). Quando é selecionado um menino para a categoria de base de um clube, pois esse tem estatura avantajada em relação aos outros e é extremamente veloz apesar de não pensar o jogo de forma coletiva.

Vejo como erro quando os principais clubes formadores pensam no momento atual, em resultado em curto prazo, pensando em ter o retorno investido nesse atleta rapidamente, seja esse retorno dentro de campo ou através de uma negociação com outro clube.

Em minha opinião, os clubes deveriam selecionar possíveis talentos pensando na utilização do mesmo dentro do clube sem apressar sua “formação” e muito menos negociá-lo com outra equipe sem oportunizar sua participação na equipe profissional ou categoria de base antecessora ao time principal.

Leia mais:
Hely Maia, coordenador técnico da base do Goiás
André Figueiredo, gerente técnico da base do Atlético-MG
Marcelo Lima, coordenador técnico das categorias de base do São Paulo
Carlos Rogério Thiengo, analista de desempenho das categorias de base do São Paulo

João Aroso, treinador adjunto da seleção portuguesa de futebol

Nelson Caldeira, treinador adjunto do SC Braga

Vinícius Eutrópio, treinador de futebol

Michel Huff, preparador físico do FC Metalist

Paulo Cesar do Nascimento, treinador dos times sub-11 e sub-13 do Avaí
Sérgio Odilon, treinador da equipe sub-15 do Corinthians 
Marquinhos Santos, treinador da seleção brasileira sub-15
Augusto Moura de Oliveira, treinador da seleção feminina do Haiti  

Ricardo Perlingeiro, treinador das categorias de base da AS Roma

Diogo Giacomini, treinador do sub-17 do Atlético-MG

Wladimir Braga, preparador físico do sub-17 do Atlético-MG

Comentários

Deixe uma resposta