Universidade do Futebol

Entrevistas

09/03/2018

Phelipe Leal – treinador da equipe sub-17 do Flamengo

Phelipe Leal tem 30 anos, mas está longe de ser um novato no mundo do futebol. Desde a época em que trabalhava como estagiário, o técnico do time sub-17 do Clube de Regatas do Flamengo já acumulou 11 temporadas trabalhando na área. Por isso, o profissional é um bom retrato de um perfil que tem conquistado espaço nos grandes clubes do país: tem rodagem de campo, mas é formado em educação física e possui licença A da CBF (Confederação Brasileira de Futebol); entende a necessidade de resultados para a cultura imediatista vigente no país, mas sonha com a formação de jovens com senso crítico e com o impacto positivo que isso pode ter na sociedade como um todo.

Leal também é um retrato dos caminhos que nortearam a evolução no campo técnico durante a última década. O treinador acompanha trabalhos desenvolvidos por psicólogos, pedagogos e preparadores físicos, e essa base teórica alicerça uma concepção de jogo extremamente alinhada com o que tem sido feito em equipes profissionais de ponta.

Em bate-papo com a Universidade do Futebol, o técnico do sub-17 rubro-negra explicou alguns desses conceitos e mostrou um pouco do que tem norteado o trabalho com os garotos da equipe carioca.

Veja a seguir os principais trechos da conversa:

Universidade do Futebol – Quais são os principais conteúdos que você oferece a seus jogadores?

Phelipe Leal – Considero como conteúdo essencial no desenvolvimento: a capacidade de cooperar e competir, sempre de forma leal e ética, independentemente das circunstâncias; a resiliência; além de técnicas e táticas individuais, de grupo e coletivas.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são suas responsabilidades como professor/treinador de futebol?

Phelipe Leal – Vejo o treinador como instrumento do clube e acredito que a função tem inúmeras responsabilidades que devem ser compartilhadas. Enquanto líder de processos, considero como as principais responsabilidades a gestão do bom ambiente de trabalho, a transparência e a coerência nas ações e decisões do dia a dia; potencializar as virtudes individuais de todos em prol do todo; seguir o princípio da isonomia e dar condição de igualdade a todos; organizar, alinhar e direcionar o plano estratégico individual e coletivo da equipe de trabalho (atletas e comissão técnica); estimular a construção coletiva.

Universidade do Futebol – Existe algum documento orientador ou alguma diretriz metodológica no clube em que você trabalha?

Phelipe Leal – Existe. O documento orientador norteia todo o processo de formação, deixando claros pontos como a filosofia do clube, os princípios e valores que devem reger as ações do dia a dia e os objetivos, metas e particularidades de cada fase do desenvolvimento. Nele está definida a ideia de jogo central que deve ser construída por todas as categorias, considerando os atletas e suas características para a modelação do jogar e o perfil que o clube busca desenvolver.

Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas de seu trabalho?

Phelipe Leal – Busco fundamentação na filosofia e na pedagogia, assim como tenho procurador na literatura – em especial de Brasil, Portugal, Itália e Alemanha – sobre comportamentos táticos, organização, estruturação e operacionalização do treinamento. Porém, considero mais os casos construídos no Brasil, já que as experiências e vivências práticas contextualizadas com a cultura do nosso povo me aproximam da realidade que o mercado exige.

Universidade do Futebol – Você se inspira em profissionais de outras áreas? Se sim, quais?

Phelipe Leal – Sim. Psicólogos, em especial, o pedagogo Alcides Scaglia, preparadores físicos e analistas de desempenho.

Universidade do Futebol – Existe algum modelo de jogo com o qual você se identifique? É o mesmo que você aplica em seus times?

Phelipe Leal – Eu me identifico com um jogar organizado em todas as fases do jogo, no qual a individualidade potencialize todo o repertório e os recursos dos atletas. Busco desenvolver um jogar ofensivo, com capacidade de criar e de aproveitar espaços de forma consciente, objetiva e equilibrada. Defensivamente, sou apreciador das equipes com comportamentos ativos (agir e não reagir) e harmônicos, com capacidade de reduzir e induzir ações dos adversários, mas, sobretudo, com sinergia para atacar e defender por meio de mudanças imediatas de atitude.

Universidade do Futebol – Em linhas gerais, como você estrutura os treinamentos?

Phelipe Leal – São quatro diretrizes: ativação técnica geral, que contempla dinâmicas voltadas a estimular predominantemente a orientação corporal, o controle orientado, o passe ou a finalização, preferencialmente em ações de tabela ou triangulação; dinâmicas conceituais, que variam de acordo com o dia de aquisição semanal, mas têm relações predominantemente setoriais e/ou intersetoriais; dinâmicas contextuais, que consideram determinado problema ou características dos adversários; e técnico/específico, programa de técnica e tática aplicada com concepções individuais ou setoriais.

Foto: Gregório Fernandes/CBF (Site CBF)

Universidade do Futebol – Qual é a importância do resultado em competições da faixa etária com a qual você trabalha?

Phelipe Leal – Considero o sub-17 como uma categoria de transição para o sub-20 no que diz respeito a cobrança competitiva. Entendo que por ser a categoria com possibilidade da assinatura do primeiro contrato profissional naturalmente as exigências são gradativas e a busca pelo resultado acaba sendo mais latente. Importante ressaltar que o modo como se constrói o resultado deve prevalecer sempre e até ser o principal parâmetro de avaliação do trabalho. Não desconsidero a validade das conquistas, principalmente na sociedade imediatista em que estamos inseridos, mas acredito que o sucesso está no caminho percorrido e não no destino.

Universidade do Futebol – Que peso a instituição em que você trabalha atribui aos resultados?

Phelipe Leal – Trabalho em um clube com mentalidade vencedora, e isso por si só faz com que todos busquem os bons resultados (partidas e desempenho). Contudo, todas as análises de desempenho são feitas sabiamente pelo corpo executivo, considerando virtudes e fraquezas, oportunidades e riscos (equipe, adversário e competição). Sendo assim, direcionamos os possíveis ajustes e os planos de ação necessários para a evolução do processo.

Universidade do Futebol – Qual é o perfil do atleta que você deseja formar?

Phelipe Leal – Espero contribuir para a formação de pessoas com senso crítico para avaliar e distinguir o certo e o errado, com capacidade para cooperar com quem está a seu redor, capazes de respeitar as diferenças e de ter a resiliência necessária para se adaptar sem perder sua essência. Mas acima de tudo, pessoas prontas para se dedicar intensamente na busca, construção e realização de seus objetivos.

Universidade do Futebol – Quais são as maiores dificuldades que você vivencia no exercício de seu trabalho?

Phelipe Leal – A fluidez da comunicação dentro do processo pedagógico, a estrutura e os materiais defasados ou inadequados, a logística e o tempo efetivo para os treinamentos, os recursos tecnológicos no auxílio de controle de carga e a remuneração que impossibilita atuação exclusiva.

Universidade do Futebol – E quais são os pontos que você mais gosta em seu trabalho?

Phelipe Leal – O convívio com jovens e profissionais de realidades e objetivos distintos, que alimentam um sonho diariamente, além da sensação de prazer e da certeza de que o hoje forja o amanhã.

Foto: Gregório Fernandes/CBF (Site CBF)

 

 

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