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30/03/2014

Planejar o treinamento e o jogo no futebol: uma análise a partir da abordagem sistêmica

O futebol como um fenômeno cultural de imensa repercussão nos diferentes âmbitos sociais sensibiliza uma gama de apreciações referentes a um dos seus subsistemas, o jogo. Neste sentido, a percepção das propriedades de interações do jogo enquanto conjuntos ou totalidades viabilizam a organização e sistematização dos conhecimentos inerentes ao ambiente (GARGANTA, GRÉHAIGNE, 1999).

Dentre a diversidade de análises atribuídas ao jogo, a superficialidade dos comentários, prende-se aos acontecimentos “fragmentados” de todo o processo. Em muitas conversas nas ruas, bate papos nos bares e nas redes sociais, o resultado do jogo é quase sempre atribuído aos “acontecimentos” (o juiz não assinalou aquele pênalti, o atacante errou aquele gol dentro da área, o técnico não soube escalar a equipe, o goleiro tomou aquele gol…). Nesta perspectiva, apreciações referentes aos “acontecimentos” do campeonato brasileiro de futebol 2014, no qual instituíram o rebaixamento de algumas equipes da “elite” do futebol nacional evidenciaram a desvinculação das partes com a totalidade do processo.

As análises pertinentes à queda ou permanência na primeira divisão do futebol brasileiro voltaram-se exclusivamente a erros e acertos instituídos na última rodada da competição, creditando o sucesso ou insucesso das equipes aos tribunais. O resultado dentro de campo mostrou-se condicionado a normas externas ao campo de jogo, sendo que o subsistema, futebol, sofreu influência de valores instituídos por uma unidade maior, no caso o sistema esportivo. Nesta interatividade sistêmica, o resultado de uma partida não pode ser explicado somente por acontecimentos inerentes ao referido jogo, mas a partir de todo um processo, no qual enfatizamos: o planejamento, o treinamento e o jogo.

Compreendendo o futebol além do conhecimento conferido pelo senso comum, a análise do processo na perspectiva sistêmica propicia o estabelecimento de conjunções entre o planejamento, o treinamento e o jogo, conferindo um circuito que constantemente toma novas formas através das relações de desordem, ordem e organização (MORIN, 2002).

O planejamento concebe uma ideia inicial, permeando a atuação do treinador e configurando um propósito de ordem ao processo. A visualização do plano através do treinamento problematiza a proposta inicial a partir das relações estabelecidas e proporciona ao treinador a busca por novas estratégias para potencializar o desempenho competitivo. Neste sentido, a atuação competitiva contextualizada a partir do plano e do treino visa o controle do maior número de variáveis possíveis, mas a imprevisibilidade do jogo instituirá desordem ao sistema, sendo que a interação entre os elementos ativos, estruturais e normativos do jogo irá gerar informações que estabelecerão nova proposta organizacional.

Portanto, compreender o jogo como um sistema complexo, que configura-se a partir da sistematização entre o planejamento e o treinamento, amplia o entendimento das relações do todo e entre as partes. O planejamento a partir do modelo sistêmico institui propriedades pertencentes ao todo, mas que surgem através das relações organizacionais das partes (CAPRA, 1996). As interações não lineares entre unidades menores institui a organização de padrões de comportamentos, que as equipes de futebol desenvolverão durante toda a temporada (DAVIDS, ARAÚJO, SHUTTLEWORTH, 2005). Neste sentido, a compreensão do processo na perspectiva sistêmica não condicionará o sucesso da atuação competitiva, mas instituirá tendências aos “acontecimentos” estabelecidos no jogo.


*Mestrando no Programa de pós-Graduação em Educação Física, Membro do Laboratório de Pedagogia do Esporte – Universidade Federal de Santa Catarina

BIBLIOGRAFIA

CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Cultrix, São Paulo, 1996.

DAVIDS, K.; ARAÚJO, D.; SHUTTLEWORTH, R. Applications of dynamical systems theory to football. Science and football V. London, 2005.

GARGANTA, J.; GRÉHAIGNE, J. F. Abordagem sistêmica do jogo de futebol: moda ou necessidade. Revista Movimento, n. 10, Porto Alegre, 1999.

MORIN, E. O método I: a natureza da natureza. Sulina, Porto Alegre, 2002.

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