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28/07/2011

Por que ele não se esforça?: compreendendo estratégias de defesa da auto-estima

Alguns dias atrás você teve aquela conversa com seu aluno-atleta. Ele disse que realmente se importa com a equipe, disse que jogar no seu time era muito importante para ele. Mas é visível que ele não se esforça 100%. Então é normal o treinador começar a se perguntar: “Por que isso ocorre? Ele estava mentindo sobre a vontade de jogar pela equipe?”.

Claro que a resposta correta vai depender de cada caso. No entanto, antes de avaliar certas situações, especialmente quando parece haver uma distância entre as palavras e as ações de alguns jogadores, é importante conhecer alguns conceitos da psicologia, já que estes podem facilitar a compreensão de certas causas.

É de conhecimento comum que todas as pessoas possuem “auto-estima”. A palavra vem do Latim, “aestimare”, que significa “estimar ou apreciar”. A auto-estima se refere às avaliações positivas e negativas que fazemos de nós mesmos (Coopersmith, 1967). A auto-estima varia de pessoa para pessoa; além disso, é importante notar que a auto-estima é uma percepção que o individuo tem dele mesmo, e que essa percepção varia de acordo com respostas ao sucesso, fracasso, interações sociais e outras experiências de vida (Heatherton & Polivy, 1991). O peso que cada pessoa dá a cada uma dessas experiências de vida também pode variar muito; cada pessoa atribui valores e importâncias diferentes a cada situação (Pelham, 1995; Pelham & Swann, 1989).

Outro aspecto de conhecimento comum é que todas as pessoas necessitam manter a auto-estima em certo nível para se sentirem bem (Brém S., Fein S. & Kassin S., 2005).

Um fator importante para ser considerado no universo esportivo é que a falta de habilidade para realizar certa tarefa pode ser altamente prejudicial para a auto-estima de um atleta (Brém S., Fein S. & Kassin S. 2005). Como consequência, para proteger a própria auto-estima em determinadas situações, jogadores se utilizam de mecanismos de “self-handicapping”, ou seja, apresentam desculpas para justificar o desempenho nos casos de insucesso.

A estratégia é simples: é muito mais fácil admitir que a razão do insucesso esteja relacionada a algo extrínseco e passageiro, como uma dor de cabeça, uma noite mal dormida, uma comida diferente, uma bola estranha ou qualquer outro fator que não seja a real falta de habilidade. Muitas vezes essas desculpas serão apresentadas antes mesmo da competição.

A estratégia pode ser considerada realmente muito boa: enquanto protege a auto-estima em caso de derrota, realça a conquista em caso de vitória. Trata-se de uma estratégia que pode até mesmo melhorar o desempenho, se o atleta se dedicar plenamente à atividade sem se preocupar demais com as consequências em caso de derrota (Deppe & Harackiewicz, 1996).

Por outro lado, não se empenhar ao máximo e predizer a todos que “se espera o próprio fracasso”, estratégia conhecida como “sandbagging” (Gibson & Sachau, 2000), pode ser prejudicial ao desempenho. Enquanto simplesmente ressaltar as qualidades do adversário e admitir possibilidades de fracasso, desde que o atleta se esforce ao máximo, pode ser inócuo; não se esforçar ao máximo para que se tenha como desculpa essa falta de empenho reduz o desempenho.

Essa falta de empenho pode se apresentar de diversas formas. Por exemplo, em um momento de dificuldade, quando um atleta não se sente confiante no grupo; o atleta poderá, mesmo que, inconscientemente, não dar o máximo de si, para que a auto-estima seja preservada. Essa reação causa um efeito difícil de ser compreendido pelos treinadores e mesmo companheiros de equipe, já que o atleta que está precisando melhorar sua “moral” no grupo não está se esforçando plenamente.

Ao invés de simplesmente não se esforçar ao máximo, outras estratégias podem ser utilizadas para preservar a auto-estima, como por exemplo, o uso da comicidade. Talvez muitos leitores já tenham visto ou protagonizado a seguinte situação: ao sair junto com amigos para um karaokê ou um local onde se dança, uma pessoa que inicialmente não tinha a ideia de dançar ou cantar em publico é “coagida” pelos amigos para realizar a tarefa. Para preservar a auto-estima, a pessoa poderá realizar a atividade de forma engraçada, e assim evitar avaliações sobre a própria capacidade.

Apesar do uso da comicidade raramente ocorrer em grupos de alto rendimento, já que se presume que os participantes devam “levar a serio” a atividade, esse tipo de estratégia pode aparecer com mais frequência em competições durante aulas de educação física, equipes de iniciação, ou mesmo eventos e brincadeiras informais.

Consideramos importante também mencionar que não se esforçar ao máximo para preservar a auto-estima pode ocorrer simultaneamente a fatores que influenciam o dia a dia do treinamento, como deixar de correr por não gostar do treinador, de algum dirigente ou companheiro de equipe.

A lógica do processo é que o foco deixe de ser a habilidade do jogador, e passe a ser o fator que esta sendo questionado. Muito perigosa, essa estratégia que pode ser iniciada por apenas um jogador, pode gerar consequências para o grupo, como se espalhar pela equipe, se outros membros da mesma passarem a concordar com o mesmo ponto de vista.

É importante o treinador ter conhecimento destes processos de defesa da auto-estima para que perceba quando os atletas não estão “dando o máximo de si” – não por descaso com a atividade, mas por medo de ter a auto-estima ainda mais prejudicada. O trabalho de um profissional da psicologia do esporte é aconselhável nestes casos.

Contudo, ao menos reconhecer o problema e procurar passar confiança ao atleta pode ser um primeiro passo que pode ser realizado pelo próprio treinador.

Referências bibliográficas

Brém S., Fein S. & Kassin S. (2005) Social Psychology. Boston, MA: Houghton Mifflin

Coopersmith, J. T. (1967). The antecedents of self-esteem. San Francisco: Freenan.

Deppe, R. K., & Harackiewicz, J. M. (1996). Self-handicapping and intrinsic motivation: Buffering intrinsic motivation from the threat of failure. Journal of Personality and Social Psychology, 70, 868-876.

Gibson, B., & Sachau, D. (2000). Sandbagging as a self-presentation strategy: Claiming to be less than you are. Personality and Social Psychology Bulletin, 26, 56-70.

Heatherton, T. F. & Polivy, J. (1991). Development and validation of a scale for measuring state self-esteem. Journal of Personality and Social Psychology, 60, 895-910.

Pelham, B. W. (1995). Self-investment and self-esteem: Evidence for a Jamesian model of self-worth. Journal of Personality and Social Psychology, 69, 1141-1150.

Pelham, B. W., & Swann, W.B., Jr. (1989). From self-esteem Journal of Personality and Social Psychology, 57, 672-680.

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