Universidade do Futebol

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21/06/2013

Por que futebol e não teatro?

"O que fazem vinte e dois marmanjos de calças curtas correndo atrás de uma bola?’: a pergunta clássica é, de fato, uma amostra do quanto o jogo pode ser visto como uma atividade perfeitamente estúpida por quem o olha completamente de foram como uma dança compulsiva e sem música. (…) Mas, a afirmação da consciência crítica (…) tem dificuldade de entender que mais do que o campo deserto da vida vazia, o futebol é o campo de jogo em que se confronta o vazio da vida, isto é, a necessidade premente de procurar-lhe sentido. Procurar aqui, na acepção ativa que inclui também encontrar, emprestar, e inventar sentido – ali onde ele falta como dado, mas sobra como disposição a fazê-lo acontecer" (WISNIK, 2008. P. 45)

Por mais incômodo que seja para alguns, não dá mais para ignorar que a relação estabelecida entre o torcedor brasileiro e o espetáculo do futebol transcende as fronteiras do esporte e do aparentemente simples exercício de torcer por um time.

A esta conclusão se tem chegado sempre com uma espécie de lamento, sobretudo por parte de intelectuais do universo da cultura, que insistem em definir como "excessivo" o envolvimento do povo brasileiro com o universo do futebol em detrimento de um suposto engajamento mais efetivo com os eventos ditos culturais.

Em resumo, a insistente defesa de que brasileiro ‘não tem cultura’ porque adora futebol e pouco vai ao teatro talvez mereça, por fim, uma resposta construída nos mesmos termos de quem formula o preconceituoso e inconsistente diagnóstico.

Esse estranhamento em relação ao comportamento do público não é de todo novo, nem de exclusividade nacional. Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo e diretor alemão sinalizou no começo do século passado que o teatro perdia cada vez mais adesão da população que buscava em outras formas de subjetivação a satisfação de suas demandas estéticas.

Em Brecht, A Estética do Teatro (1992), o autor Gerd Bornheim dedica um de seus capítulos a uma discussão semelhante. Estimulado pelo interesse do encenador alemão pelo comportamento dos espectadores das lutas de boxe, o pesquisador brasileiro tenta trazer a discussão para nossa realidade, fazendo ele mesmo um paralelo com o futebol, que causaria a mesma comoção que o boxe na Alemanha da primeira metade do Século XX. Com o sugestivo título "A linguagem do esporte", o capítulo é aberto por uma polêmica constatação:

A urgência está toda aqui: descobrir para o teatro uma nova forma. Do jeito que as coisas vão, o teatro está destinado ao fracasso: foge-lhe a criatividade, a tradição torna-o maçante, o público desaparece. É isso mesmo: o público desaparece – e vai aonde? A grande atração da época, que corresponderia hoje ao sucesso do nosso futebol, era a luta de boxe. Pois o público acorre a este novo endereço, e concentra-se em torno da arena de esportes. A fuga do público para tais paragens mostra-se incontornável? Tudo indica que sim. (BORNHEIM, 1992, p. 71)

Bornheim segue debatendo sobre formas de fazer teatro e o envolvimento deste evento com o público, ao passo que a proposta aqui é seguirmos na direção inversa. A incômoda constatação de que o povo brasileiro assiste, acompanha e vive maciçamente o futebol enquanto espetáculo pode ser uma boa oportunidade de refletirmos sobre a insistente pergunta "por que o brasileiro vai tão pouco ao teatro e tanto ao estádio de futebol?"

Ora, não estaria a impossibilidade de resposta justamente vinculada à imperfeição da pergunta? Não seria mais profícuo perguntar-se que espetáculo é esse para o qual acorrem milhões de brasileiros? Que tipo de espetáculo tem sido construído ao longo de apenas um século e que tanta adesão tem conseguido em toda e qualquer parte do Brasil, indistintamente, por diferentes meios, mas com igual eficiência? Ou ainda, e talvez a melhor pergunta: que novo modo de espetáculo é esse que mais do que assistido, tem sido construído pelo povo brasileiro?

O conceito de espetáculo tem sido minuciosamente pesquisado e muitas têm sido as abordagens possíveis, sobretudo do ponto de vista da etnocenologia que compreende, grosso modo, o caráter espetacular de atividades cotidianas. Também merecem estudos específicos os conceitos de teatralidade, drama e dramaturgia.

O que interessa na abordagem do espetáculo do futebol, numa tentativa de compreendê-lo enquanto evento estético, vinculado diretamente ao universo da cena, é ampliar o entendimento do conceito de espetáculo para buscarmos compreender de alguma forma o comportamento cultural do povo brasileiro em relação aos eventos de natureza espetacular.

O futebol, como os demais esportes compõe-se de duas naturezas: a natureza prática daquele que o realiza, ou seja, o esporte como atividade específica realizada integralmente pelo atleta e uma segunda natureza, a que nos interessa aqui, que é de caráter espetacular: o esporte enquanto evento estético que se dá à recepção. E de todos os esportes, o futebol é, sem sombra de dúvidas, aquele onde essa segunda natureza seja tão, ou talvez mais importante que a primeira, estando esta subordinada àquela. Já me explico.

Se a relação entre o futebol e o torcedor nasce da audiência de pequenos jogos, realizados entre times de estudantes, na Inglaterra no final do Século XIX, e times ligados a indústrias no futebol brasileiro, a relação entre jogar e assistir a uma partida vai tomando dimensões tais que chegamos ao final do século XX com uma verdadeira indústria do futebol não apenas do ponto de vista do esporte em si, mas de sua espetacularidade e ouso dizer que aquilo que se investe no futebol enquanto esporte está diretamente relacionado com sua dimensão espetacular.

Os altos investimentos no futebol visam diretamente o seu potencial cultural através da relação do torcedor com este evento. Como o futebol brasileiro, enquanto evento espetacular se constitui de modo a atingir plateias tão heterogêneas, alcançando com a mesma intensidade espaços geográficos, culturais e sociais, tão distintos?

Diante da evidente dificuldade em se admitir uma vontade estética própria do futebol, talvez fosse o caso de se começar tentando assisti-lo (e compreendê-lo) mais como um espetáculo do que apenas como esporte. Ajuda, talvez, observar na experiência espetacular do futebol suas pulsões criadoras de sentido, logo estéticas, que encontramos também na experiência artística. A mudança talvez deva ser feito no olhar de quem olha (e critica) e não na prática de quem realiza.

Sobre este aspecto, está em fase de editoração o livro Futebol x Teatro: rito, dramaturgia e cena do espetáculo futebolístico , produzido por mim durante o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. Nesta obra são levantados e discutidos os aspectos cênicos e dramatúrgicos do futebol a partir de conceitos próprios do universo do teatro.

Buscando compreender este fenômeno, sempre do ponto de vista estético, é possível observar que a relação entre o torcedor e o futebol se dá em diferentes dimensões do ponto de vista da construção de uma dramaturgia própria do futebol, ou seja, um universo artístico que se estruture sobre elementos próprios. A primeira delas define-se como uma dimensão original, que seria o espetáculo em si, ou seja, a partida de futebol. A dimensão seguinte seria toda a irradiação promovida pelos desdobramentos da partida.

O futebol alimenta-se justamente do diálogo entre essas duas dimensões. Numa partida de futebol, o palco não é apenas o campo, mas todo o estádio. Neste caso, a relação entre os elementos cênicos é subvertida e, só para ficar em um exemplo, se no teatro quem encontra o cenário montado é a plateia, no futebol acontece o contrário, o jogador, um dos atores do espetáculo do futebol, é quem se depara com o cenário montado pelas torcidas organizadas ou pelo torcedor avulso que decora a arquibancada. Inúmeras são os elementos cênicos e dramatúrgicos deste espetáculo que podem facilmente configurá-lo como um evento espetacular, logo estético.

E deste ponto voltamos à provocação do título: por que futebol e não teatro? Talvez seja urgente deixarmos de julgar o comportamento cultural do nosso povo a partir de critérios que só fazem sentido para quem julga e passarmos a compreender este intrincado envolvimento entre o torcedor e seu time a partir dos olhos de quem comunga desta experiência, buscando razões nela própria para alcançar essa compreensão.

Não se trata de travar em campo uma competição entre teatro e futebol, até porque teríamos grande dificuldade em definir quem vem a campo usando o nome teatro. Trata-se, acredito, de ampliar os horizontes conceituais, identificando na experiência concreta do futebol a importância cultural e estética que ele tem para o povo brasileiro, sem com isso lamentar o que quer que se tenha desejado para o Brasil em outros termos (termos estes quase sempre de caráter tão colonialista.) reconhecendo na originalidade do comportamento cultural e simbólico do povo brasileiro a relevância que essa originalidade inegavelmente tem.

Leia mais sobre o tema no bate-papo com Bruno Camarão na sessão Entrevistas em: http://www.universidadedofutebol.com.br/Entrevista/10850/Adriana-Silva-Amorim-mestre-em-Artes-Cenicas

Referências bibliográficas:

01. AMORIM, Adriana Silva. Teatro X Futebol: Por uma Dramaturgia do Espetáculo Futebolístico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, 2009.

02. BORNHEIM, Gerd. Brecht. A estética do Teatro. – Rio de Janeiro: Graal: 1992.

03. DESGRANGES, Flávio. A Pedagogia do espectador – São Paulo: Hucitec, 2003.

04. PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. 3. Ed – São Paulo : Perspectiva, 2008.

05. WISNIK, José Miguel. Veneno Remédio: o futebol e o Brasil – São Paulo: Companhia das Letras, 2008

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