Universidade do Futebol

Eduardo Barros

07/04/2012

Por que nós paramos na primeira página?

A intenção era muito positiva e, segundo estudiosos do comportamento humano, qualquer ação sempre terá uma intenção com esta característica. No entanto, os efeitos da investida do gerente de futebol do Flamengo, Manoel Jairo Santos, com a carta de orientação de conduta para os jogadores da equipe rubro-negra, não foram tão positivos como poderiam.

A solicitação por escrito de repouso, descanso e força de vontade para cumprir as tarefas propostas pela comissão técnica foi motivo de chacota entre os próprios jogadores e por grande parcela da mídia. A carta foi ignorada inclusive pelo treinador Joel Santana.

Na grande maioria dos veículos de informação, a discussão resumiu-se à banalização do ocorrido e ao caminho escolhido pelo gerente flamenguista, classificado como equivocado, para conseguir acessar os jogadores. Então, o resultado final do fato na perspectiva dos atletas foram alguns aviões de papel feitos com a carta e um comentário em comparação ao Barcelona, que não precisa de nada semelhante para ser o melhor time do mundo (mas também quase não tem jogadores brasileiros).

Será que algum jogador do Flamengo levou a sério as recomendações contidas na carta?

Será que no ano de 2012 o Flamengo figurará menos nas páginas policiais (lembram?) e sociais e surgirá nas páginas esportivas como campeão?

Será que haverá outras tentativas de conscientização profissional, realizadas pelos dirigentes, que se tornarão públicas?

Será que o Flamengo revelará dois ou três craques para o futebol nacional e, posteriormente, mundial?
Teremos estas respostas ao longo do ano!

Enquanto isso, para quem não trabalha no Flamengo e precisa lidar com problemas equivalentes (guardando as devidas proporções) em seu grupo de trabalho, ofereça um ambiente de discussões que levem à consciência profissional.

Há alguns meses, o executivo da Universidade do Futebol, Eduardo Tega, afirmou em seu blog que o diferencial das equipes que investem em formação deve ser a capacitação dos seus atletas. Na publicação, levou o leitor a compreensão de que o maior nível de conhecimento e consciência dos jogadores permitirão questionamentos e reflexões constantes dos métodos de trabalho aplicados por quaisquer que sejam seus treinadores.

E num cenário que esteja estabelecido um real ambiente de aprendizagem, o conhecimento e consciência adquiridos instigarão questionamentos e reflexões inclusive para assuntos extracampo, locais em que os atletas passam a maior parte de suas vidas.

Se bem orientados, os milhares de atletas, alojados ou não, que temos espalhados pelo país podem utilizar melhor seu tempo livre; com domínio do conhecimento do seu corpo, os jovens atletas têm condições de identificar um determinado tipo de lesão que sofreram e quais devem ser os procedimentos para a reabilitação; ciente de algumas questões nutricionais, os atletas podem diferenciar o porquê tomam Whey protein, creatina ou BCAA; podem também aprender sobre implicações legais de ter um filho e seu dever em assumi-lo, bem como os efeitos do excesso de álcool no organismo.

Estas propostas de capacitações são apenas alguns exemplos de um leque infinito de possibilidades que pode conter como temas: carreira, idiomas, informática, drogas, empresários, contrato profissional, livros, história do clube, adaptação em diferentes ambientes, sexo, fama, biografias, assédio, media training, entre outros.

É sabido que a grande maioria dos clubes brasileiros não tem condições de oferecer este tipo de capacitação, porém, entre ser omisso e não fazer absolutamente nada ou tentar por em prática o melhor possível diante das circunstâncias, existe uma diferença considerável.

Que iniciemos ou aperfeiçoemos os procedimentos de capacitação o quanto antes, pois, na atualidade, a cadeia produtiva do jogador de futebol brasileiro está proporcionando um produto final de qualidade questionável. A demanda existe, porém, é uma pena não conseguirmos atendê-la.

Que nos próximos fatos semelhantes ao do ocorrido na equipe carioca, tenhamos (todos os profissionais direta ou indiretamente relacionados ao futebol) capacidade de aprofundarmos a discussão, sairmos da primeira página e irmos além dos comentários e posicionamentos superficiais. Temos condições de sermos críticos quanto aos problemas e esmiuçá-los apresentando respostas.

Infelizmente, para nossa tristeza, dedicamos pouco tempo para questões que realmente importam e muito tempo para acontecimentos como o do vídeo “para nossa alegria”.

Felizmente, já existem clubes como o Audax-SP, que tem procurado capacitar seus atletas das mais diferentes formas e já estão bem longe da primeira página. Dar para cada jogador do clube um exemplar de um livro recém-publicado sobre a trajetória futebolística e realidade do futebol brasileiro escritas por um grande jogador, é um excelente exemplo.

Enfim, inevitavelmente, para que os clubes brasileiros consigam ter as exigências competitivas do futebol moderno atendidas e suportem uma alta intensidade de jogo durante os 90 minutos, o nível de capacitação dos jogadores deverá ser o de excelência. Se existe uma solução para isto: a Faculdade do Atleta! Utópica por enquanto, mas necessária se quisermos voltar a ditar o ritmo do futebol mundial. Para isso, temos que avançar as páginas…

Obs: O Flamengo não suportou o final do jogo e sofreu a derrota para o Emelec-QUE. Mera coincidência ou faltou aquilo que o Jairo cobrou?

Por motivos profissionais, retorno à coluna no dia 21/04/2012.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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