Universidade do Futebol

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22/09/2015

Por uma Pedagogia do Futebol Brasileiro: uma visão sobre o modelo de ensino no treinamento

Sobre ontologia e o método, penso-os, respectivamente, como: respeito à natureza e integralidade de uma causa ou um ser (ontologia) e caminho prospectivo (o método). Deve-se, então, partir do primeiro para construir o segundo. Portanto…

Redescobrir a forma de jogar é um passo fundamental para descobrir a forma de ensinar o futebol. Nunca soubemos ensinar porque sempre copiamos ou deixávamos florescer livremente o talento, à seleção natural do ‘futebol de rua’ (que nem em todas as regiões era jogado na rua).

Admiramos os resultados que já tivemos no futebol, mas de fato nunca chegamos perto de entender e explicar o que fizemos para que desse certo. O que sabemos, na maioria das vezes, não passam de especulações. E, por alguma circunstância (talvez por sentimento de inferioridade), por nunca poder mostrar documentado nosso trabalho, fomos buscar modelos a seguir em outros países. "Por não saber explicar o que fiz e faço, importo o que eles (principalmente Europa) fazem. Estão mais evoluídos, estão mais organizados.” Discurso de muitos. Às vezes, um discurso que ronda camadas subconscientes da mente.

O ciclo repete-se outra vez, observem o fenômeno da Periodização Tática, que por sinal tem conceitos brilhantes e que nos fizeram dar um passo adiante no entendimento do treino no futebol. No entanto, será que ela foi pensada por Vitor Frade para ser aplicada “à risca”(!) no futebol brasileiro? Será que os “vícios e virtudes” do jogador português são os mesmos do jogador brasileiro?

Penso que essa necessidade de autoafirmação usufruindo de ideias alheias não é a reformulação que precisamos (embora, sublinho mais uma vez, a PT foi/é de grande valia para nós). O pensamento dos teóricos que reverenciamos nasceu livre e aprendeu a ‘jogar com a vida’ de acordo com os problemas que enfrentaram nos seus devidos contextos. Os modelos teóricos são pensados e construídos a partir de problemas emergentes destes contextos. Sendo assim, décadas copiando modelos são décadas resolvendo problemas alheios e, consequentemente, não resolvendo os nossos problemas. Além disso, criamos outros novos quando se diz respeito à formação de jogadores e treinadores, a gestão esportiva e a política.

Reunir cabeças pensantes é a necessidade do momento. Porém, não sugiro fóruns nos quais profissionais ficam testando conhecimentos de outros colegas. Já entrei em alguns destes fóruns e achei perda de tempo. Parecia haver gente "remando" para lados opostos e tentando chegar no mesmo destino.

Filosofar mais é preciso, precisamos redescobrir os fundamentos, a linguagem, a razão de existir, a estética, a ética, os valores morais e a(s) finalidade(s) do futebol. Precisamos nos conscientizar mais, investigar melhor os problemas, produzir conhecimento, compartilhar mais informações (a Universidade do Futebol é um meio onde isso já é possível) e atualizar aquilo que produzimos frequentemente, pois "verdades" são temporárias em sistemas que sofrem constantes evoluções, como o futebol, sendo este parte de sistemas maiores que também evoluem, como a Educação e a Cultura.

Conheci tantos sonhadores (professores, jogadores, ex-jogadores, jornalistas, etc.) e tantos sistemáticos (pesquisadores, treinadores, sociólogos, gestores, etc.) que me fizeram enxergar o futebol de tantas maneiras. Todos eles falam quase sempre das mesmas coisas, ao mesmo tempo e no mesmo espaço, no entanto não se (re)conhecem e não percebem que o que falta para o "um" é o "outro". Alguém que ajude a reescrever a história, alguém que avalie o que foi e o que é feito, alguém que sistematize as informações e as documente, alguém que pense nos problemas, alguém que os investiguem com rigor científico, alguém que pense no futuro, em planejamento estratégico a curto, médio e longo prazo. Pessoas que utilizem desde um microscópio para estudar coisas micro, até pessoas que utilizam ‘satélites’ para tratar de problemas de ordem macro. Essa seria uma grande equipe!

Quando? Onde? Como? Eu não sei bem ao certo. Os porquês nem preciso dizer. Se pudesse arriscar responderia: Quando? Agora! Onde? Uma plataforma única, mas multicêntrica, em rede e integrada, formada por: Universidade do Futebol, universidades, clubes ou por iniciativa de grupos de profissionais conectados a uma destas estruturas. Como? Co-criação! Produto Final: uma Pedagogia do Futebol Brasileiro.

E que não esqueçamos do papel fundamental do futsal, que deve ser tratado tanto de maneira independente quanto complementar ao futebol! 

Comentários

  1. Carlos disse:

    O mais importante nesse processo é perceber a necessidade de mudança, e não só detectar, mas se empenhar em buscar a mudança e a retomada do lugar que por muitos anos foi nosso. A Universidade do futebol me orgulha muito em buscar esse crescimento, essa retomada.
    Estou pronto a buscar também essa qualificação para melhor servir ao futebol

  2. Sérgio de Oliveira Ramos disse:

    Os temas abordados na Universidade do Futebol alcançam um nível de profundidade que deve ser compartilhado por todos e principalmente nos motivar a interagir com a produção de ideias e propostas que contribuam para uma gestão proficiente no nosso futebol.

  3. Ricardo disse:

    O futsal é importante neste processo até quando? E como ?

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