Universidade do Futebol

GEPEFFS

19/02/2018

A posse de bola pode ser um bom indicador para representar o desempenho de uma equipe no jogo?

Introdução

Em virtude dos resultados ocorridos no Campeonato Brasileiro de 2017, a discussão sobre a validade de se utilizar a posse de bola como referência para avaliação do desempenho de uma equipe durante o jogo, voltou à tona com força total. Isto aconteceu pelo grande número de jogos vencidos pelas equipes com menor porcentagem de posse de bola. Esta tendência contraria a referência anterior apresentada pelas equipes vencedoras do Barcelona e seleção da Espanha nos últimos anos, por exemplo.

A partir desta contradição, este artigo tem o objetivo de avaliar se realmente a posse de bola pode ser um indicador eficiente para avaliar o sucesso das equipes no jogo. Para isso, a discussão será centrada em dois pontos:1- os fatores que influenciam o aumento ou diminuição da porcentagem de posse de bola de uma equipe durante o jogo;2- se toda a posse de bola apresenta o mesmo significado.

Fatores que influenciam a porcentagem de posse de bola

O tempo de posse de bola que uma equipe tem durante o jogo é o resultado da combinação de muitos fatores influenciados pelo confronto entre as equipes que vão além dos estilos de jogo adotados. Dentre estes fatores são destacados o local da partida (se a equipe é mandante ou visitante), resultado parcial do confronto (vitória empate ou derrota) e nível do adversário.

Os estudos que pesquisaram a influência do local da partida sobre o tempo de posse de bola encontraram uma forte tendência de ocorrer aumento quando as equipes estão jogando como mandantes em comparação à situação de visitantes. Este resultado pode ser influenciado pelo maior “conforto” em jogar em casa (torcida, características do campo, e até mesmo condições climáticas em alguns casos) que interferem na estratégia adotada pela equipe.

Com relação ao resultado parcial do confronto, diversos trabalhos concluíram que as equipes apresentaram maior posse de bola quando estavam perdendo e ficavam menos tempo com a bola quando estavam ganhando. Deste modo, na maioria das vezes, as equipes que iniciam perdendo vão apresentar tendência de ter maior posse de bola do que a equipe adversária. Isto pode ser explicado pelo fato de que quando se está em vantagem no placar, existe uma tendência de adoção de uma estratégia de jogo mais conservadora privilegiando a proteção do gol, e quando se está em desvantagem a tendência é adotar estratégia mais arriscada visando a marcação do gol.

Por último a posse de bola pode sofrer a influência do nível técnico do adversário. Foi verificado nos campeonatos europeus, que a porcentagem de posse de bola foi maior no confronto com adversários posicionados nas últimas posições do que com oponentes classificados nos primeiros lugares. Esta tendência pode ser explicada pelo nível técnico das equipes primeiras colocadas, financeiramente mais fortes na maioria das vezes. Elas podem jogar privilegiando a posse de bola o que não ocorre com as equipes classificadas nos últimos lugares.

Baseado nestes três fatores é possível verificar que o tempo de posse de bola de uma equipe durante o jogo pode sofrer grande variação, dependendo das circunstâncias da partida. Diante do exposto, mesmo as equipes mais bem preparadas podem sofrer grande oscilação neste quesito. Esta pode ser uma das razões da grande dificuldade encontrada na literatura quando tenta relacionar a porcentagem da posse de bola com o sucesso das equipes. A esmagadora maioria das pesquisas não conseguiu encontrar influência positiva ou negativa da quantidade de posse de bola com o resultado final do jogo. Mas será que o problema é só esse? Toda posse de bola é igual?

Toda posse de bola tem o mesmo significado?

Durante o confronto a equipe com o controle da bola vai tentar desequilibrar o sistema defensivo da equipe adversária para criação de uma situação para fazer o gol. Por outro lado, a equipe que está sem a bola vai tentar manter o equilíbrio do sistema defensivo. Dentro deste embate, a principal disputa vai acontecer nas regiões que apresentam maior probabilidade de êxito/risco de criação de gol entre as equipes com e sem a posse de bola. A probabilidade de sucesso vai estar relacionada diretamente com a distância e o tempo para realização da finalização. Quanto menor a distância e maior o tempo para realização da ação, maior a probabilidade de gol.

Deste modo, a eficiência da posse de bola para marcação do gol vai estar diretamente vinculada com a região do campo e a organização da equipe adversária para proteção do gol. A posse de bola nas regiões mais próximas e com defesas mais desorganizadas encontrarão maior probabilidade de sucesso do que as posses longe do gol e combatidas por defesas organizadas. Este fato mostra que a utilização da posse de bola sem discriminação da região do campo e organização defensiva da equipe adversária simplifica demasiadamente a complexidade do fenômeno com grande perda de poder descritivo. Por exemplo, uma equipe pode ter mais posse de bola total, mas menos posse de bola em situações com maior probabilidade de gol. Isto inviabiliza a utilização do simples somatório da posse de bola como indicador para representar o sucesso de uma equipe.

Conclusão

A partir dos dois pontos de discussão apresentados no texto, é possível perceber que o tempo de posse de bola é um indicador que apresenta muitas limitações na eficiência da discriminação do sucesso das equipes. Isso acontece porque existem muitos fatores circunstanciais que podem influenciar o tempo de posse de bola. Além disso, a zona do campo de jogo em que acontece a posse de bola e a organização defensiva que confronta exercem muita influência sobre a probabilidade de sucesso da mesma.

Comentários

Deixe uma resposta