Geaf

15/08/2007

Preparação física e treinamento tático

O futebol, como esporte coletivo, durante muitos anos utilizou os conhecimentos do atletismo como ferramenta de aprimoramento do componente físico. A concepção de treinamento deste esporte fragmentou-se em setores distintos como treinamento tático, técnico, físico, psicológico dentre outros. Havia um corpo multidisciplinar, mas não uma relação interdisciplinar.

Ainda hoje, existe esta forma de pensamento (por alguns profissionais) em que cada área faz a sua parte para o rendimento atlético aparecer. Os modelos propostos de periodização, também, não se aplicam à estrutura permanente do calendário de jogos. Enfim, o componente tático, com isso, fica prejudicado justamente por investir muito tempo com atividades sem fundamento prático e sem eficácia para a performance total de uma equipe.

José Mourinho, em “Por que Tantas Vitórias”, colocou em xeque este conceito de trabalho acabando com o chamado “pico de rendimento”, segundo ele inexistente no futebol. No livro Fisiologia do Esporte e Exercício, dos autores Wilmore e Costill, consta que “as adaptações fisiológicas em resposta ao treinamento físico são altamente específicas à natureza da atividade do treinamento, além disso, quanto mais específico for o programa de treinamento em determinado esporte ou atividade, maior a melhora do desempenho nesse esporte ou atividade”.

Neste sentido, estas considerações sugerem que o perfil dos profissionais que atuam na função de técnico e preparador físico seja revisto. O rendimento tático deve ser visto como a síntese de todo o trabalho, deste modo, cada membro da comissão passa a atuar num mesmo contexto permitindo maior eficácia no trabalho.

Para deixar as coisas mais claras, devemos questionar qual a real função de cada método utilizado para o aprimoramento das capacidades físicas, qual a utilidade de separarmos o físico do tático sendo que o rendimento pretendido é no jogo. E ainda, devemos questionar se no futebol existe período preparatório com esse calendário de jogos. Para responder cada uma destas perguntas não é preciso de uma avaliação física, mas sim de uma avaliação profissional e ainda pessoal.

Será que o preparador é o único responsável pela performance física ou será que a eficiência tática determina este rendimento?!

Com isso os chamados treinos funcionais tornam não instrumentos principais e sim auxiliares para o desempenho, o treinamento tático, então, passa a orientar a carga de treinamento. O preparador físico, neste nível, se identifica como um pedagogo ou um motricista do esporte ajudando na estrutura tática global, trabalhando sobre a execução de funções e manobras mais específicas ou individuais sem (importante esclarecer) esquecer os conceitos e as capacidades envolvidas em cada exercício controlando volume e intensidade de treino.

Este conceito de treino sugeriu ser um equívoco separar o treino tático do físico, mas de forma alguma aboliu os treinos funcionais, que sem dúvida podem fazer parte do programa de treino (principalmente o treino de força que será abordado posteriormente). Na verdade, esta proposta defende que é melhor executar exercícios em forma de jogo do que corridas contínuas ou intervaladas para a aquisição de resistência, por exemplo. A avaliação, portanto, é mais qualitativa do que quantitativa, pois é a assimilação do modelo de jogo proposto que interessa e a adaptação física, vai ocorrer especificamente à atividade realizada dentro da estrutura tática proposta pela comissão técnica.

O desafio passa a ser como organizar toda a estrutura de treinamento planejando as etapas a serem seguidas pela comissão considerando todos os itens referentes ao rendimento da equipe. Se considerarmos, por exemplo, três aspectos físicos: resistência, força e velocidade, e todos os objetivos táticos a serem alcançados como podemos organizar os conteúdos de trabalho?

Destina-se a cada comissão técnica estabelecer suas metas e caminho para atingi-las. O mais importante nesta jornada é nunca perder de foco o modelo de jogo e assim organizar cada treinamento de acordo como ele. Não esquecer, assim, que cada parte forma um modelo único.

Não existe, portanto, uma receita única para a obtenção do sucesso, pois a cada momento novas informações surgem para contribuir com esta modalidade, mas o questionamento das ações acaba sendo um comportamento exigido para a obtenção da excelência do desporto competitivo. O amadurecimento a cada ano de trabalho é o maior prêmio para que segue esta atitude.

Com isso, é de extrema importância que os modelos de treinamento sejam alvo de mais discussão e que uma abordagem partindo de uma perspectiva mais ampla se torne um novo caminho para os profissionais de hoje.

*Membro do Geaf – Grupo de Estudos Aplicados sobre Futebol

Bibliografia

MOURINHO, José. Por que tantas vitórias? Oliveira, Amieiro, Resende, Barreto-Gradiva, 2006
Wilmore & Costill. Fisiologia do esporte e do exercício. Editora Manole, 2001

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