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25/10/2013

Protetores bucais esportivos: mitos e verdades

Os protetores bucais esportivos (um dispositivo intraoral de proteção) vêm ganhando espaço nos últimos anos como a maneira mais eficaz e mais barata para prevenção contra o trauma alvéolo-dentário decorrente da atividade física. Isso é uma verdade.

Com esse importante papel preventivo da odontologia no trauma alvéolo-dentário, é imprescindível que cirurgiões-dentistas do esporte saibam o que são, como funcionam, suas vantagens, desvantagens e características, visando diminuir as chances dos traumas ocorrerem e preservando a integridade do atleta, seu bem-estar e bom rendimento. Acontece que alguns resultados de pesquisas científicas são mal interpretados dentro da comunidade odontológica bem como a esportiva, e pode levar a enganos. Este artigo tem o objetivo de esclarecer alguns desses erros de interpretação.

É uma grande verdade que protetores bucais protegem dentes e tecidos moles adjacentes de lesões traumáticas decorrentes de esportes, porém é um mito dizer que todos os tipos de protetores bucais protegem essas estruturas da mesma maneira.

Protetores bucais universais, de tamanho único e protetores pré-fabricados estilo “ferve e morde” (tipo I e tipo II) contribuem muito pouco ou nada para a proteção de dentes e mucosa, sendo que, em alguns casos, podem prejudicar. Como esses protetores raramente possuem uma adaptação e retenção adequadas, para manter o protetor no lugar os atletas têm que morder o protetor bucal, o que prejudica a fala, a respiração, diminui a resistência e pode levar a fadiga muscular na face, pelo apertamento constante.

O que nos leva para o segundo mito: protetor bucal atrapalha a fala, respiração e deglutição.

Na verdade, esses protetores com tamanho único e os pré-fabricados (vendidos em lojas de artigos desportivos), justamente por razões já explicitadas acima inviabilizam essas atividades da forma ideal. Esses tipos de protetores também perdem muitos pontos no quesito conforto.

Por muitos anos sendo expostos apenas a essas modalidades de protetores bucais, até mesmo por falta de orientação, os atletas acreditam que sempre enfrentarão essas dificuldades, o que não é realidade e vem sendo provado por pesquisas científicas (que utilizam protetores bucais personalizados) sistematicamente.

A sensibilização dos atletas é mais importante e deve ser realizada pelos treinadores e pais, pela sua influência nos atletas (GARDINER; RANALLI, 2000), mas também pelos profissionais da saúde que acompanham esses jogadores.

É verdade que o protetor bucal customizado é mais eficiente uma vez que dissipa melhor as forças recebidas, adapta-se com precisão a arcada do atleta, possibilitando uma respiração sem interferências e uma comunicação com o mínimo de dificuldade, dependendo da adaptação e a frequência que o atleta utiliza o protetor.

Não pode ser propriamente classificado como um mito, mas também não pode ser declarado como uma verdade absoluta atualmente, a proteção contra lesões de concussão cerebral e na coluna cervical. Ainda não foram realizados estudos experimentais randomizados e controlados que evidenciem ou refutem a ideia de que um protetor bucal possa reduzir o risco de acontecer uma concussão cerebral, embora possamos encontrar na literatura estudos que corroboram com essa ideia (HICKEY et al., 1967; WINTERS, 2001; MURAKAMI et al., 2008) e estudos que não admitem a relação entre elas. (15, 16, 21). Porém os resultados continuam inconclusivos (CUSIMANO et al., 2010) e como essa ausência de provas não significa que elas não existam, pesquisas nesse sentido devem continuar sendo realizadas (TAKEDA et al., 2005).

Alguns profissionais e leigos (e vários sites odontológicos e esportivos, que são geralmente fonte de informação para muitos atletas) insistem em afirmar que além de todas as suas outras vantagens, protetores bucais protegem contra herniação da coluna. Existe pouca pesquisa atualmente que priorize a relação entre protetor bucal e a coluna vertebral, no sentido de proteção indireta contra injúrias, e essa relação não deve ser enfatizada ou afirmada.

A necessidade de pesquisas nesse âmbito é mandatória para o esclarecimento da vantagens e desvantagens do uso do dispositivo intra oral, principalmente em relação às suas características: customizados ou pré-fabricados.

Estimular a prática de esporte de forma segura e sempre preservar pela integridade do atleta é responsabilidade do cirurgião-dentista do esporte entre tantas outras, e nesse contexto, o protetor bucal é uma das nossas melhores e mais eficazes armas.

*Cirurgiã-Dentista formada pela UFSC, Especialista em Odontologia do Esporte, Mestranda em Odontologia em Saúde Coletiva pela UFSC.

Contato: ana@clarapadilha.com.br

Bibliografia

CUSIMANO, M. D.; NASSIRI, F.; CHANG, Y. The effectiveness of interventions to reduce neurological injuries in rugby union: a systematic review. Neurosurgery, v. 67, n. 5, p. 1404–18; discussion 1418, 2010. Disponível em: . Acesso em: 14/6/2013.

GARDINER, D. M.; RANALLI, D. N. Attitudinal factors influencing mouthguard utilization. Dental clinics of North America, v. 44, n. 1, p. 53–65, 2000. Disponível em: . Acesso em: 23/6/2013.

HICKEY, J. C.; MORRIS, A. L.; CARLSON, L. D.; SEWARD, T. E. The relation of mouth protectors to cranial pressure and deformation. Journal of the American Dental Association (1939), v. 74, n. 4, p. 735–40, 1967. Disponível em: . Acesso em: 1/7/2013.

MCCRORY, P. Do mouthguards prevent concussion? British journal of sports medicine, v. 35, n. 2, p. 81–2, 2001. Disponível em: .

MIHALIK, J. P.; MCCAFFREY, M. A; RIVERA, E. M.; et al. Effectiveness of mouthguards in reducing neurocognitive deficits following sports-related cerebral concussion. Dental traumatology?: official publication of International Association for Dental Traumatology, v. 23, n. 1, p. 14–20, 2007. Disponível em: . Acesso em: 5/6/2013.

MURAKAMI, S.; MAEDA, Y.; GHANEM, A.; UCHIYAMA, Y.; KREIBORG, S. Influence of mouthguard on temporomandibular joint. Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports, v. 18, p. 591–5, 2008.

TAKEDA, T.; ISHIGAMI, K.; HOSHINA, S.; et al. Can mouthguards prevent mandibular bone fractures and concussions? A laboratory study with an artificial skull model. Dental traumatology?: official publication of International Association for Dental Traumatology, v. 21, n. 3, p. 134–40, 2005. Disponível em: . Acesso em: 11/7/2013.

WINTERS, J. E. Commentary?: Role of Properly Fitted. Journal of Athletic Training, v. 36, n. 3, p. 339–341, 2001.

WISNIEWSKI, J. F.; GUSKIEWICZ, K.; TROPE, M.; SIGURDSSON, A. Incidence of cerebral concussions associated with type of mouthguard used in college football. Dental traumatology?: official publication of International Association for Dental Traumatology, v. 20, n. 3, p. 143–9, 2004. Disponível em: .

 

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