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06/09/2012

Protetores bucais individualizados: por que utilizá-los?

O trauma é recorrente nas práticas desportivas, principalmente dos esportes de contato. A National Youth Sports Foundation (NYSSF), uma fundação sem fins lucrativos dos EUA que se dedica a reduzir o número e a gravidade das lesões de jovens em atividades desportivas, afirma que cerca de cinco milhões de dentes foram perdidos em 2006 durante práticas do esporte. Já de acordo com a American Dental Association (2008), 200 mil traumas podem ser evitados com o uso de protetores bucais.

Barberini (2002) em um estudo realizado no Brasil sobre esportes de contato, nos quais atletas de várias modalidades esportivas (boxe, handebol, basquete, kung fu, jiu-jítsu, kickboxing, karatê e futebol) foram entrevistados, concluiu-se que 73% sofreram lesões orofaciais, sendo que 60% em tecidos moles, 16% correspondendo a traumatismos dentários, 9% a fraturas maxilares e mandibulares e 15% a lesões combinadas.

Levin (2003) realizou um estudo sobre o uso de protetores bucais durante atividades esportivas em Israel e relatou que os traumas acontecem mais frequentemente no basquete, futebol, hóquei e boxe, sendo que 70% dos entrevistados não possuíam conhecimento do protetor bucal.

Segundo o autor, esses traumas, além das lesões físicas, também apresentaram outras consequências como a interrupção repentina de um jogo, algumas vezes de um time inteiro. Levin (2003) também destaca que uma lesão de recuperação a curto ou longo prazo pode representar uma preocupação econômica para seus clubes e patrocinadores, além do comprometimento psicológico do atleta e de seus colegas.

Canto (1999) concorda com Levin (2003) neste aspecto, ressaltando que o uso de protetores vai além da garantia de saúde dos atletas uma vez que garante uma economia significativa em relação a tratamentos odontológicos para os clubes esportivos.

Já Andreasen (2000) lembra que, com o aumento da competitividade e do número de participantes, a tendência é que aconteça um aumento substancial de acidentes traumáticos no esporte. O mesmo autor afirma que todas as atividades esportivas estão associadas com riscos de lesões orofaciais devido a quedas, colisões e contato com superfícies duras, destacando-se os esportes de maior contato.

Segundo a NYSSF, os atletas que praticam esportes de contato têm cerca de 10% a mais possibilidade de sofrer lesões orofaciais durante uma competição esportiva, sendo de 33% a 56% durante toda a sua carreira.

Ainda de acordo com o autor, o pico da incidência do trauma em meninos situa-se entre nove e dez anos, por motivo de brincadeiras ou atividades esportivas, também afirmando que as lesões mais comuns na dentição surgem de quedas, seguidas por acidentes de trânsito, atos de violência e prática de esportes.

Para Montovani (2006), a etiologia do trauma facial é heterogênea e o predomínio maior ou menor de um fator etiológico se relaciona com algumas características da população estudada como idade, sexo, classificação social, local, urbana e residencial.

Em certas regiões do país e em países europeus, o uso da bicicleta como lazer, esporte ou meio de transporte, é muito difundido, o que aumenta a possibilidade de acidentes.

Em crianças e idosos, as fraturas faciais estão associadas com quedas dentro de casa ou com jogos e brincadeiras infantis. Em adultos jovens, até a quarta década, as causas mais comuns, além dos acidentes automobilísticos, são as agressões e traumas decorrentes de práticas esportivas.

Este autor realizou um estudo sobre a etiologia e incidência das fraturas faciais em adultos e crianças, avaliando 513 casos diagnosticados com fratura facial, atendidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu pela Disciplina de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, durante um período de 13 anos (1991 a 2004).

Dos 513 casos, apenas 5,3% foram relacionados ao esporte e 72,3% foram diagnosticados como fratura simples. Das fraturas classificadas como simples, somente 9% envolviam a prática de atividades esportivas, encontrando como fraturas mais comuns as nasais e zigomáticas, sendo a maioria delas resultado de esportes coletivos, principalmente o futebol.

Ele relata ainda que algumas das lesões faciais poderiam ser consideradas verdadeiras agressões, pois eram descritos socos, pontapés, cotoveladas, cabeçadas, etc., quase sempre intencionais.

Os resultados deste estudo podem ser comparados com outro, realizado na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com 164 pacientes diagnosticados com trauma facial. Destes, 5,4% tiveram como etiologia atividades desportivas, sendo que homens e mulheres apresentaram a mesma incidência (5,5%). Nos homens, a idade média dos acometidos por trauma foi 17 anos, enquanto nas mulheres, 22 (Wulkan, 2005).

A literatura destaca o papel preventivo da odontologia no trauma buco-dental, diminuindo as chances de ocorrerem e preservando o bem-estar e bom rendimento do profissional. (Canto, 1999; Andrade, 2010).

Os tipos de protetores bucais podem ser divididos em protetores prontos, feitos de látex ou cloreto de polivinil, de baixo custo e tamanho padrão.

Possuem a desvantagem de impedir a fala e a respiração, já que só são mantidos no lugar pela oclusão, também não existindo evidências de que eles redistribuam o impacto. Os protetores feitos em boca, que se constituem de uma moldeira externa razoavelmente rígida e um material de preenchimento macio e resiliente, possuem melhor adaptação.

Os individualizados são considerados os melhores tipos de protetor, feitos sob medida por um cirurgião-dentista, porém são muito mais caros do que os anteriores, mas não atrapalham a fala, a respiração e são confortáveis (Andreasen, 2000).

Sizo e Silva (2009) destacam ainda a existência de um quarto tipo de protetor, semelhante ao terceiro modelo, confeccionado em várias camadas, que pode ser feito por um cirurgião-dentista também, com a diferença do exemplo anterior porque é feito com um equipamento pressurizado.

Segundo os autores há falta de conhecimento das universidades e clubes esportivos quanto à odontologia direcionada ao esporte, perdendo também o profissional cirurgião-dentista a oportunidade de reivindicar seu espaço para orientar seus pacientes e indicar o uso de tais protetores.

A Associação Atlética do Colegiado Nacional dos Estados Unidos começou a exigir o uso dos protetores na década de 70, sendo a partir desta data que os times profissionais manifestaram interesse por seu uso, espalhando-se para outros países, com o intuito de reduzir injúrias provocadas pelo futebol e boxe.

Para a Academia Americana de Odontologia Esporte (2009), o uso deste aparelho diminui em até 80% os riscos de trauma dental.

Bibliografia

ANDRADE, R. et al, Prevalence of dental trauma in Pan American games athletes, Dental Traumatology, Rio de Janeiro, vol. 26, 248-253, 2010

ANDREASEN, J.O et al, Manual de Traumatismo Dental, Porto Alegre: Artmed, 2000.

BARBERINI A. F.; AUN C.E.; CALDEIRA C. L. Incidência de injúrias orofaciais e utilização de protetores bucais em diversos esportes de contato. Revista de Odontologia – Unicid, v. 14, n° 1, jan/abr, 2002.

CANTO, G. L.; OLIVEIRA, J.; HAYASAKI, S. M.; CARDOSO, M. Protetores bucais: uma necessidade dos novos tempos. Revista Dental Press. Ortodontia e OrtopediaFacial, v. 4, n° 6, p. 20-26, nov/dez, 1999

LEVIN, L., FRIEDLANDER, D., GEIGER, S., Dental and oral trauma and mouthguard use during sports activities in Israel, Dental Traumatology, Tel Aviv, vol. 19, p. 237-242, fevereiro, 2003

MONTOVANI, J. et al, Etiologia e incidência das fraturas faciais em adultos e crianças: experiência em 513 casos, Rev. Bras. Otorrinolaringolia, vol.72, nº.2, São Paulo, março/abril, 2006. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-72992006000200014&script=sci_arttext> Acesso em 14/09/2020.

NYSSF – National Youth Sports Safety Foundation, Página Oficial. Disponível em:

SIZO, S. R. ; SILVA, E. S. ; ROCHA, M. P. C. ; KLAUTAU, E.B. . Avaliação do conhecimento em odontologia e educação física acerca dos protetores bucais. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v.15, p. 282-286, 2009.

WULKAN, M., PARREIRA, J., BOTTER, D. Epidemiologia do Trauma Facial, Revista Assoc Med Bras, vol 51, nº 5, 2005

*Ana Clara Loch Padilha é cirurgiã-dentista

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