Universidade do Futebol

Artigos

17/03/2009

Psicologia intercultural auxilia atletas expatriados

Muito já foi falado sobre o fenômeno da globalização como fator fundamental para diminuir a distância entre os povos, facilitando que as pessoas alarguem suas fronteiras. Friedmann em seu maravilhoso livro “O Mundo é Plano”[1] chama a atenção, porém, para três momentos distintos desse fenômeno: a primeira onda da globalização quando os países começaram a se perguntar “como poderiam colaborar uns com os outros?”; a segunda, onde as empresas fizeram o mesmo questionamento e finalmente, onde os indivíduos entraram no grande mercado global buscando seu lugar. Diz Friedmann: “a força dinâmica vigente é a recém descoberta capacidade dos indivíduos de colaborarem e concorrerem no âmbito mundial (…). Agora o que os indivíduos podem e devem indagar é: “como é que eu me insiro na concorrência global e nas oportunidades que surgem a cada dia e como eu posso, por minha própria conta, colaborar com outras pessoas, em âmbito mundial?
 
Essa tendência é observada através de quase três milhões de brasileiros que vivem no exterior por diferentes motivos, como buscar melhores condições de vida, estudar o idioma, trabalhar em empresas estrangeiras, buscar melhores postos de trabalho, entre outros. Nessa mesma linha, uma nova gama de trabalhadores expatriados começa a surgir com força total: os jogadores de futebol. Conforme informações recolhidas de Rodrigo Viga Gaier[2]: o êxodo de jogadores brasileiros para o exterior já supera em 10% o número total de atletas que deixaram o país em 2007; em 2006, esse número foi de 915 atletas.
 
A situação destes atletas, no entanto, não pode ser comparada com a dos demais brasileiros que exercem no exterior, trabalhos ilegais ou subempregos rejeitados pela população local. O caso dos jogadores de futebol se assemelha ao de intelectuais ou expats[3] que ocupam posições de destaques. São emigrantes que formam uma categoria à parte: a de especialistas. Além de especialistas, representam uma fonte de divisas importante para nosso país – pela enorme quantidade de dinheiro envolvida em seus passes que são vendidos, revendidos ou recomprados. Para a professora Carmen Rial, do Departamento de Antropologia da UFSC, “a importância destes emigrantes não está tanto nas divisas que têm aportado ao país com a venda de seus passes e posteriormente com as remessas, e sim no enorme impacto que causam no imaginário nacional e global. Seu prestígio no sistema futebolístico e da manutenção de suas identidades como sendo brasileiros, influenciam tanto na constituição de um imaginário global sobre o Brasil, como na construção de uma identidade brasileira nacional”.
 
Dada a tamanha relevância desse tipo de profissional, surpreende o fato que as expatriações deles aconteçam ainda de forma “artesanal”.
 
A migração envolve todas as pessoas que estão em contato com o jogador: seus pais, filhos, esposas, namoradas e amigos. O esforço dedicado para que ele tenha sucesso e para que “se adapte, aproveite, e seja feliz” (ensejo verbalizado por todas as pessoas que ficam) é imensurável. No entanto, para muitos, viver no exterior acaba tornando-se um fardo, uma obrigação a cumprir, um desafio para além de suas forças. A volta, ou o retorno prematuro destes jogadores, além de enormes prejuízos financeiros, traz muito sofrimento, não só para eles, mas para todos aqueles que estiveram esperando. Sentimentos de derrota, fracasso, menos-valia, vergonha, culpa entre tantos outros, permeiam o imaginário dessas pessoas quando percebem que não estão conseguindo realizar seu propósito.
 
Os jogadores expatriados trazem todo o suporte cultural e étnico para o novo mundo onde irão se integrar. Porém, é pelo menos a cultura de três personagens que se encontram e que tornam esse processo de aculturação ainda mais dramático: a cultura brasileira, a cultura do Clube onde irão jogar e a do país onde irão viver.
 
As medidas tomadas pelos Clubes no sentido de padronizar o comportamento e a performance dos jogadores não conseguem dar conta do movimento cultural que ocorre simultaneamente pois os membros dessas equipes ressignificam os vários e diversificados aspectos do meio intercultural em que estão inseridos, mas ainda conservam – pois são traços muito enraizados – suas característica sócio-culturais, originando uma cultura ímpar. Com um agravante: A maioria dos jogadores, por exemplo, é proveniente de uma faixa da população de classe média baixa – e a diferença ” entre mundos” é gritante. Como adaptar-se? Como aprender o idioma? Como seguir regras e símbolos até então irreconhecíveis? Como tornar realidade as expectativas pregressas ao embarque e condizentes ao retorno ao Brasil?
 
Assim que esse mosaico de culturas convivendo em uma mesma equipe pode ter conseqüências que dificultam, ou até mesmo, inviabilizam, o desenvolvimento harmônico desses brasileiros. Adler (2001)[4] descreve essas atitudes como “bairrismo, estreiteza de horizontes”[5], significa que a pessoa vê o mundo apenas a partir de sua perspectiva, não reconhecem diferentes formas de vida e de trabalhar, e não admitem que diferenças culturais podem ser enriquecedoras.               
 
Ribeiro[6] cita em sua pesquisa que em 2006, dos 882 atletas que foram transferidos houve um contingente em torno de 50% desse total em retornos prematuros. Priscila Silva[7] em seus artigos indica “um retorno de 105 jogadores em um ano em que 248 foram transferidos, ou seja, 30% do total”.
 
Portanto, ocupar-se de tais sentimentos, buscar quais fatores podem levar o atleta a uma integração saudável e enriquecedora com o país hospedeiro, quais fatores podem protegê-lo de possíveis stress aculturativos ou problemas de adaptação deveria estar entre as preocupações e cuidados no processo de expatriação. 
 
Auxiliar, compreender e preparar as pessoas para esse fenômenos migratórios é tarefa da chamada Psicologia Intercultural. A Psicologia Intercultural é uma área nova da ciência. È uma ciência bastante estudada e aplicada na Europa, Canadá e EUA e muito gradualmente emergindo no Brasil. Seu objeto de estudo é a relação entre cultura e o comportamento dos povos e, conseqüentemente, os complexos fenômenos migratórios vivenciados por aqueles que migram. Como são os brasileiros? Como se comportam os espanhóis? Como perdoam os árabes? Quais crenças religiosas se baseiam os chineses? E o mais importante: Como educar-me para tanta diversidade?
 
Por isso a Psicologia Intercultural se reúne á Pedagogia Intercultural para criar uma eficiente ferramenta na preparação desses atletas internacionais: o Treinamento Intercultural.
 
Entre os objetivos do Treinamento Intercultural estão o desenvolvimento de habilidade e competências para:
 
Viver e trabalhar eficazmente com a diferença, a ambiguidade e o desconhecido; compreender a influência de sua própria cultura em seu comportamento; compreender o comportamento e a cultura do outro; buscar novas estratégias de interação para o encontro intercultural; acessar a criatividade e a inteligência frente às situações inesperadas; tornar-se consciente de seu potencial para a adaptação e para a acolhida das diferenças; adaptar-se aos diferentes contextos de forma emocional, cognitiva e social.
 
Esses objetivos têm sido foco de diversas pesquisas e modelos experimentais dentro da IACCP (International Association for Cross Cultural Psychology), assim como de empresas multinacionais ou universidades que vêm trabalhando com Treinamento Intercultural (AABB, Alston, Xerox Company, Citybank, Harvard University) entre outros. Pesquisas que observaram sujeitos em situações culturalmente diversas atentam para pelo menos 49 axiomas descrevendo as respostas nas relações interpessoais e intergrupais desses indivíduos, assim como seus respectivos sentimentos como ansiedade, insegurança, medo, despreparo, solidão, saudades, sentimentos de inferioridade/superioridade, graus de preconceito, estereotipia ou racismo, entre outros.
 
Nosso trabalho, portanto, como psicólogos culturalista é ampliar nossa visão de mundo. È auxiliar esses jogadores de futebol nas suas inserções ao redor do mundo de forma mais eficaz, segura e inteligente possível. Em minha opinião a pessoa bem educada interculturalmente saberá ter o espírito aberto para experimentar o “novo”, o “desconhecido”. Tornar-se cidadão do mundo é um processo no qual um grupo de pessoas torna-se consciente de seu potencial para mudanças e melhorias, e como brasileiros, creio que poderemos protagonizar o cenário mundial tão logo aprendermos a não mais trair nosso legado histórico, a não renunciarmos as inovações presentes e demonstrarmos curiosidade e criatividade para organizar um futuro melhor.

(*)Andréa Sebben é psicóloga graduada na Universidad Complutense de Madrid, Espanha, e na PUCRS – Porto Alegre. É mestre em psicologia social (UFSC), membro da IACCP – International Association for Cross-Cultural Psychology e da Educational Advisory Council of American Fields Service International (EUA) e autora dos livros “Os nortes da bússola: manual de convivência e negociação com culturas estrangeiras”; Intercâmbio cultural: um guia para ser cidadão do mundo; Intercâmbio cultural: para entender e se apaixonar”.



[1] O Mundo é Plano, Thomas Friedmann (2005). Ed. Objetiva.
[2] da agência Reuters em 05.07.2007
[3] Expats: nome utilizado dentro do mercado do relocation para expatriados brasileiros no exterior ou estrangeiros no Brasil em altos cargos
[4] ADLER, N. J. International Dimensions of Organizational Behavior. Belmont: Wadswoth,   2001
[5] O termo utilizado pelo autor é: Porachialism, a tradução é do dicionário virtual Babylon
[6] Carlos Henrique de Vasconcelos Ribeiro, coordenador técnico de Educação Física da Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro), doutor em Educação Física e Cultura pela Universidade Gama Filho e Universidade de Stirling, Escócia
[7] Priscila Mendes da Silva Cardoso, aluna de Educação Física no 7º período da Unisuam (Centro Universitário Augusto Motta)

Comentários

Deixe uma resposta