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24/05/2013

Qual a relação entre a respiração bucal, a postura e o rendimento do atleta?

Discute-se muito no âmbito acadêmico a interrelação entre estrutura anatômica (forma) e função (mastigação, respiração, fonação, deglutição) realizadas pelo sistema estomatognático.

Esse sistema, formado por dentes, mandíbula, músculos, ossos, ligamentos, vasos sangüíneos, complexo neural, articulações têmporo mandibulares, é considerado de extrema sensibilidade e importância para a manutenção de todo o equilíbrio físico-biológico do ser humano e as alterações desse sistema provocam desequilíbrios que se manifestam na conformação dos órgãos (Quintão, 2004).

A relação estática e dinâmica entre as superfícies oclusais dos dentes devem estar em harmonia com esse sistema estomatognático, sendo esta a definição de oclusão (Cardoso, 2010).

A influência dos maus hábitos na determinação das má oclusões depende da associação de três fatores: a duração, frequência e intensidade e sua etiologia é considerada multifatorial, podendo ser determinada por ação muscular agindo no crescimento ósseo, por anormalidade nas demais funções do sistema estomatognático, ou por hábitos deletérios como sucção de dedo ou chupeta e interposição de lábio e língua (Ferreria, 1998).

De acordo com Oliveira et. al. (2008) quando a criança respira pelo nariz ela está proporcionando um adequado desenvolvimento e crescimento de suas estruturas crânio faciais, tendo as funções de mastigação e deglutição sua responsabilidade nesse processo também.

A presença de algum obstáculo obrigaria a criança a respirar pela boca. Como o desenvolvimento correto da dimensão vertical da face depende do equilíbrio dinâmico das estruturas de mastigação e posição da mandíbula durante o repouso e tendo o respirador bucal este equilíbrio comprometido pela nova postura adotada, para facilitar sua respiração, poderão ocorrer alterações esqueléticas e miofuncionais durante o crescimento facial nesses pacientes.

Gaspar (2001) observa que a etiologia da respiração bucal pode ser algum tipo de obstrução nas vias aéreas superiores, como por exemplo um aumento da adenóide e amígdalas, como também por obstrução mecânica no nariz por desvio do septo nasal, hipertrofia dos cornetos, pólipos e tumores.

Quintão (2004) inclui como possível etiologia da respiração bucal a má oclusão ou maus hábitos, levando a um padrão suplente de respiração que, por sua vez, vai gerar uma série de outras alterações importantes na dinâmica corporal.

Quintão (2004) destaca ainda as características recorrentes em respiradores orais, apresentando-se com severidade variável e formando a face adenoideana, com olhos tristes e olheiras profundas, lábios hipotônicos, ressecados e entreabertos quando em repouso, língua hipotensa repousando no assoalho bucal, atresia maxilar com o arco maxilar em formato de "V", dentes protusos e acentuação do crescimento facial vertical.

Também verifica-se a existência de desarmonias oclusais como mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior e incisivos superiores protusos.

A isso se soma a dificuldade de concentração com repercussão na aprendizagem e as alterações posturais cefálico-corporais, como cabeça flétida, ombros com rotação dianteira com exposição da escápula, cifose, lordose e região torácica mal desenvolvida e perda de ventilação pulmonar.

A pessoa fica mais susceptível à infecções como otites médias, sinusites, pneumonias, amigdalites, como também à irritabilidade, falta de atenção, sono agitado e sonolência diurna, apresentando baixo rendimento escolar ou no trabalho (Quintão, 2004).

O mesmo autor discute ainda as conseqüências posturais da respiração bucal nos pacientes, como a protusão da cabeça visando a melhor angulação da faringe e garantir uma melhor respiração, favorecendo a chegada mais rápida do ar aos pulmões. Consequentemente, os grupos musculares tomam uma nova trajetória de função que passa a ser para frente e para baixo.

Com a musculatura do pescoço e da nuca nesta nova orientação é comum ver a coluna cervical assumir uma postura anormal, retificada. Quando a cabeça se anterioriza os ombros rodam internamente, mantendo o peito com um aspecto afundado levando a alterações no ritmo e na capacidade respiratória, pois o diafragma passa a trabalhar numa posição mais baixa e de forma assincrônica, o que ocasiona uma respiração mais rápida e curta, criando uma deficiência de oxigenação (Quintão, 2004).

Sendo que essa respiração rápida e curta ocasiona um cansaço constante a qualquer tipo de atividade física. Soma-se a este fato a agressividade do ar inspirado que pode alterar o sistema de equilíbrio corporal definindo a expressão facial e o condicionamento físico (Quintão, 2004).

Segundo Dias et al. (2005), a respiração bucal provoca alterações em um atleta diminuindo sua capacidade aeróbica significativamente. Em um atleta, a respiração é geralmente mista, no momento do exercício, mas se a respiração bucal for predominante existirá uma queda na resistência aeróbia e nos reflexos, por consequência o rendimento esportivo diminuirá, podendo representar uma queda de 20% da capacidade total do indivíduo.

Alguns autores concordam que para tratar um respirador bucal é necessária uma equipe multidisciplinar que baseie o tratamento em reeducação da musculatura oral, melhorando a postura dos lábios, língua e complexo maxilo-mandibular, adequando assim a mobilidade e motricidade, o vedamento bucal e a oclusão, aumentando a capacidade pulmonar e automatizando a respiração nasal, visto que a respiração nasal é considerada fator de equilíbrio fundamental para a manutenção da organização do sistema ósseo dentário e muscular e a respiração bucal, pelo contrário, é classificada como uma síndrome, necessitando de atenção dos especialistas da área da saúde (Quintão, 2004; Dias, 2005).

Um tratamento multidisciplinar é fundamental para que cada especialidade conheça as demais áreas que trabalham na reabilitação deste paciente e dos objetivos em comum do tratamento, realizando a prevenção conjuntamente e não isoladamente (Ianii, 2005).

 

*Cirurgiã-Dentista, mestranda em Saúde Coletiva – UFSC

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