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05/02/2018

Quebrando as linhas de quatro

No meu último artigo escrevi sobre as linhas de quatro defensivas, alternativa tática na marcação por zona, tão difundida internacionalmente, porém recentemente introduzida no futebol brasileiro, é material de discussão e debate entre treinadores e formadores de opinião no futebol. Quando bem executada, esse tipo de marcação dificulta por extremo a penetração ofensiva e, dependendo da altura das linhas, sua disposição, e as características dos jogadores que as compõem, pode ser também letal na transição para o ataque e na criação de oportunidades de gol através do contra-ataque. Exemplo muito recente desse tipo de marcação por zona eficaz, apresentando organização e fluidez entre os membros das linhas, bem como um altíssimo nível de comunicação e sincronia entre as linhas, nos deu a seleção da Inglaterra no amistoso contra a seleção brasileira em novembro passado. A Inglaterra se posicionou defensivamente num 5-3-2 (ou 5-3-1-1 ou ainda 5-4-1 ocasionalmente), fazendo uma marcação em seu próprio campo, muitas vezes concentrando todos os seus jogadores em frente da sua própria área, dando ao Brasil 2/3 (as vezes ¾) do campo para jogar. Suas linhas estavam absolutamente compactas (dentro delas e entre elas), o que culminou na pior apresentação do Brasil, em termos de performance (tão apregoada e valorizada por nosso competente treinador), na era Tite. Vale lembrar que a Inglaterra jogou sem um grande contingente de jogadores considerados titulares (Harry Keane, Deli Ali e Ibrahim Sterling para citar os mais importantes) enquanto o Brasil jogou com a escalação ideal, titular na maioria dos jogos das eliminatórias.

Se a plástica e qualidade do futebol apresentado pela Inglaterra podem ser discutidas, não se pode questionar sua eficiência visto o resultado de 0x0 em circunstancias tão adversas. Diante dessa situação e exemplo recentes cabe-se a questão: nesse nível de organização, seriam essas linhas defensivas impenetráveis? Evidentemente que não. Assim sendo, como expô-las, como quebrar sua organização, e principalmente, como penetra-las e criar oportunidades de gol? É o que vamos discutir nos próximos parágrafos.

Invariavelmente, por mais organizadas que as linhas defensivas sejam, algum tipo de vulnerabilidade existirá, uma vez que em um campo de 110×75 metros é virtualmente impossível preencher todos os espaços que podem ser atacados pela equipe em posse da bola. Na verdade, o verbo correto a ser utilizado para definir a condição existencial das linhas é “estar” (… por mais organizadas que as linhas estejam) porque as linhas “estão” em constante mudança posicional (dentro delas e entre elas), e é exatamente nesse momento de mudança que os espaços podem ser explorados e consequentemente as linhas estão mais suscetíveis a serem quebradas. Em se tratando desses espaços, existem três possibilidades: (1) espaço atrás das linhas (entre linha de zagueiros/laterais e goleiro), (2) espaço entre a primeira e a segunda linha (linha de meio campistas centrais e de beirada e linha de zagueiros/laterais), e (3) espaço lateral as linhas. Vamos discutir esses espaços separadamente. É importante esclarecer que para efeitos dessa análise estamos assumindo que a equipe em posse da bola tem a sua frente no mínimo duas linhas de defesa (independente do número de jogadores em cada linha), ou seja, a situação apresentada não é de contra ataque e sim de construção de ataque (build-up).

Comecemos analisando o espaço atrás das linhas. Essencialmente o espaço mais cobiçado pela equipe em posse da bola, uma vez que a penetração a essa área possibilita um ataque direto ao gol adversário ou deixa a equipe a um ou dois passes do ataque direto ao gol. Esse espaço difere no seu tamanho dependendo do posicionamento defensivo do adversário. O espaço é maior quando a equipe defensora opta por fazer uma pressão mais alta. Equipes que marcam a saída de bola a partir do momento que o goleiro tem a posse dela, por exemplo. Nesse caso existe uma grande chance (assumindo que a equipe defensora seja taticamente competente e tenha suas linhas compactadas) que a linha de zagueiros/laterais esteja posicionada na linha do meio de campo. Dessa maneira o espaço atrás das linhas é imenso, basicamente compreendendo a metade de todo o campo de jogo. O espaço atrás das linhas se reduz a medida que a equipe defensora recua as suas linhas de marcação.

O outro extremo da marcação alta descrita acima seria uma marcação baixa com as linhas defensivas posicionadas logo a frente da grande área, em alguns casos com as linhas de zagueiros/laterais dentro da grande área (vide Atlético de Madrid de Diego Simeone em jogos da Champions League a alguns anos atrás). Nesse caso, o espaço atrás das linhas defensivas diminui substancialmente e o acesso a ele fica radicalmente dificultado. Seja a marcação alta, baixa ou intermediária, é função do treinador e sua comissão técnica elucidar, educar e convencer seus jogadores da importância da constante busca por adentrar o espaço atrás das linhas defensivas. Esse é um ponto que precisa ser absolutamente enfatizado.

É muito comum no futebol moderno que uma equipe domine a posse de bola sem necessariamente dominar a partida. Espera-se, no entanto, que esse domínio da partida seja refletido não somente no placar (número superior de gols marcados x sofridos) mas também na capacidade de uma equipe de consistentemente criar chances de gol. Nem sempre isso acontece. Na verdade, pode-se argumentar que isso é gradualmente mais raro, em particular no futebol brasileiro. Em muitos casos existe uma alta correlação entre essa posse sem domínio e a incapacidade da equipe em posse de explorar o espaço atrás da linha de zagueiros/laterais. Nesse sentido, um erro prevalente na execução do ataque é um desequilíbrio no número de jogadores se movimentando em direção a bola (movimento no sentido contrário ao gol adversário) versus jogadores se movimentando verticalmente ou diagonalmente na direção do gol adversário. Cabe aqui um comentário rápido com relação ao movimento diagonal.

O movimento diagonal no ataque tende a ser mais eficiente pelo fato de poder gerar desequilíbrio na linha defensiva, uma vez que o marcador ao acompanhar o atacante deixa sua posição na zona vaga, criando um buraco na linha defensiva a ser explorado por um outro jogador ofensivo. Buscando ocupar o espaço atrás da linha de zagueiros/laterais é relevante ressaltar a importância de identificar os cinco canais a serem atacados (ou seis – dependendo do número de jogadores compondo a linha defensiva), sendo um canal o espaço entre cada membro da linha defensiva, e dentre os canais qual é o mais vulnerável e propício a ser atacado. Um ataque equilibrado da ao jogador na posse da bola opções de passe em frente e atrás da linha de zagueiros/laterais. Para ilustrar essa dinâmica vejamos como exemplo o caso do “falso 9”, opção tática usada por Guardiola a frente do brilhante Barcelona de 2009-2012, onde Messi jogava como centro-avante. Messi, como falso 9, tinha liberdade total de movimentação.

Mas geralmente sua posição inicial era entre os zagueiros adversários. Por suas características de armador ele naturalmente gravitava na direção da bola. O espaço gerado por ele, criado pelo movimento dos zagueiros em seu percalço, era então ocupado por Xavi e Iniesta que se projetavam de suas posições de meias em direção ao gol adversário, atacando o espaço atrás da linha de zagueiros/laterais. Guardiola, para surpresa de todos, reeditou o mesmo sistema agora no Manchester City no último clássico, dia 10 de dezembro, contra o Manchester United, usando Sterling como falso nove e tendo De Bruine e principalmente David Silva se projetando verticalmente. Não causou surpresa, porém o resultado positivo da sua opção tática, evidenciado nem tanto no placar da partida (vitória 2×1) mas no absoluto domínio da partida (posse + chances criadas).

A segunda possibilidade na tentativa de desestabilizar as linhas defensivas é a exploração do espaço entre a linha de zagueiros/laterais e a linha de meio campistas centrais e de beirada. Ainda que uma bem sucedida penetração a esse espaço não permita na maioria das vezes um ataque direto ao gol, a capacidade de ocupar esse espaço com o domínio da bola, principalmente se o jogador em posse estiver de frente para o gol adversário, facilita substancialmente a busca pelo espaço atrás da última linha e cria uma série de alternativas de penetração final, principalmente através do passe (originado pela movimentação variada e coordenada dos jogadores ofensivos, na frente e atrás das linhas de zagueiros/laterais, no suporte do jogador com a posse da bola).

É fato que no futebol de alto nível, treinadores e comissões técnicas vem com alto grau de importância a necessidade de proteger esse espaço, ou dificultar ao máximo o acesso a ele através de um bom posicionamento da sua linha defensiva de meio campo (“screening”) e uma coordenação de movimentos entre as duas linhas para que esse espaço não seja exposto. Em suma, esse espaço tende a estar bem protegido, não estando disponível a todo momento. Porém, esse espaço pode ser criado, ou melhor, equipes podem ser induzidas ou influenciadas no posicionamento de suas linhas defensivas de maneira que elas se distanciem e a possibilidade de penetração entre as linhas então ocorra. Muito se discute sobre uma possível desvalorização da posse de bola no futebol moderno. Se desdenha de sua importância. Exemplos como o Leicester City que supreendentemente ganhou a Premier League na Inglaterra na temporada de 2015-2016, basicamente sem dominar a posse de bola na grande maioria de seus jogos, certamente dão margem a esse argumento. Sem discutir o mérito da questão, a posse de bola por si só não significa absolutamente nada.

É comum em treinamentos (jogos de campo reduzido onde o objetivo é unicamente a manutenção da posse de bola) que equipes sejam premiadas com pontos por um número X de passes consecutivos. Definitivamente não é o caso no âmbito de uma partida de futebol. A posse de bola somente faz sentido se for utilizada justamente para desestabilizar as linhas defensivas. No caso da linha de zagueiros/laterais, induzi-la a recuar em direção a seu gol (aumentando sua distância em relação a linha de meio campistas) como resultado da movimentação coordenada de jogadores ofensivos na busca pelo espaço atrás dela. No caso da linha de meio campistas centrais e de beirada, influenciar a movimentação de seus jogadores de uma maneira que a distância entre eles aumente e a penetração através do passe ou drible seja facilitada. Assim, a movimentação lateral/diagonal da bola, em sequências de passes com alto grau de velocidade e precisão, bem como o uso da “parede” (1-2 vertical – “up and down”), são elementos fundamentais para criar a possibilidade do passe vertical (“threading pass”) que encontre um jogador desmarcado entre as linhas.

A última possibilidade de exposição de espaço, dependendo da configuração das linhas defensivas, é o espaço lateral a elas. Esse espaço é possivelmente o menos compreendido e assim o menos explorado por treinadores e comissões técnicas na busca do gol adversário. Para que possamos visualizar a existência desse espaço é preciso entender que as linhas defensivas se movimentam coordenadamente. Alguns até se referem a esse movimento como espalhado, ou seja, uma linha reflete o movimento da outra. Nesse sentido, as linhas devem avançar e recuar num movimento coordenado. Similarmente também devem se movimentar lateralmente ou diagonalmente em movimento coordenado (“shifting”). Por causa dessa natureza de movimentação lateral das linhas, é frequente o surgimento de espaço numa faixa lateral a elas, uma vez que os quatro (ou cinco) jogadores que compõem uma linha não reúnem condições de cobrir (ou defender) a largura do campo sem que violem a distância estabelecida (entre eles) para que a linha desempenhe propriamente sua função, e se assim o fizerem, criarão espaço dentro da linha. Dessa maneira, a exploração desse espaço pode ser atingida através do movimento da bola na direção de uma lateral do campo (induzindo assim as linhas defensivas a se movimentarem nessa mesma direção) seguido de uma invertida rápida de bola, fazendo uso do lançamento diagonal. O jogador recebendo o lançamento diagonal, se executado com precisão (direção/velocidade/peso/técnica), e da mesma forma dominado com precisão, estará possivelmente posicionado entre as linhas defensivas numa situação de 1×1 (ou 2×1) contra o lateral adversário OU até mesmo (dependendo da sua posição final ao receber o lançamento e do grau de deslocamento lateral das linhas defensivas) posicionado atrás das linhas com acesso direto ao gol ou a um passe do acesso direto ao gol. Voltando aqui ao jogo do Brasil contra a seleção inglesa discutido no inicio do artigo, ficou clara a estratégia da equipe inglesa em fazer uma marcação baixa, mostrando um alto grau de eficiência na compactação e movimentação coordenada de suas linhas. O Brasil, em contrapartida, possivelmente pecou na sua estratégia tática ofensiva, ao não identificar e explorar mais contundentemente o espaço lateral às linhas inglesas, concentrando seu ataque nos canais centrais do campo, onde havia uma grande concentração de jogadores ingleses.

Para finalizar deve-se enfatizar que o sucesso em explorar os espaços discutidos acima geralmente requer um elemento de paciência, e está diretamente relacionado a capacidade da equipe em manter a posse de bola por longos períodos de tempo. Posse de bola com objetivo. A capacidade de identificar o exato momento em que o espaço se faz exposto, seja atrás, entre ou lateral às linhas defensivas, e executar o passe (curto ou longo) ou a condução de bola com precisão, é o aspecto final e indispensável para que a penetração aconteça.  Novamente é papel central de treinadores e suas comissões técnicas desenvolver estratégias para que esse objetivo seja atingido, dentro do modelo de jogo de cada equipe, com treinamentos específicos e intencionais que promovam a transição da teoria para a prática e consequentemente tenham como produto final movimentos coordenados de seus jogadores na busca pelo espaço a ser explorado. Nesse sentido, as estratégias tem que ser moldadas para cada tipo de situação (marcação alta, baixa ou intermediária) sempre levando em consideração características especificas das equipes adversárias, suas linhas defensivas e seus jogadores individualmente.

Embora essa seja uma reflexão geral com relação a vulnerabilidade das linhas defensivas (os princípios aqui discutidos se aplicam a qualquer nível de futebol, seja no Brasil, América do Sul, Europa ou qualquer lugar do mundo), fica claro que o futebol brasileiro ainda engatinha no aspecto tático do jogo em comparação a escola europeia (e até Argentina). Dai advém a extrema dificuldade em confrontos com equipes europeias (vide o retrospecto das equipes nacionais em campeonatos mundiais de clube nos últimos dez anos) e em alguns casos sul-americanas. Evidentemente a bem-sucedida aplicação das disposições táticas está diretamente relacionada a capacidade técnica de cada equipe e seus jogadores. Assim, uma equipe recheada de talentos técnicos individuais sempre terá uma vantagem tática, assumindo que o resto das condições sejam iguais. Isso posto, atribuir exclusivamente a parte técnica a diferença na qualidade do futebol praticado no Brasil x Europa é pura ingenuidade e desconhecimento de causa.

*Paulo Neto é um dos diretores técnicos da Pennsylvannia West Soccer Association, braço estadual da Federação Americana de Futebol (United States Soccer Federation). Neto é Bacharelado em Educação Física e Gerenciamento Esportivo (Union College) com Mestrado em Administração (Lincoln Memorial University). Neto possui a Licença “A” da USSF e a Licença “A” da UEFA. Antes de mudar para os EUA, Neto jogou nas categorias de base de Corinthians (pré-infantil aos aspirantes) e Fluminense (juniores e aspirantes).

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