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Eu tenho preguiça de pensar,
preguiça de raciocinar;
e eu tenho preguiça de ter que me esforçar,
preguiça de trabalhar.

Eu tenho uma preguiça gigantesca.
Mas, se for pra jogar bola…

Me chama que eu vou!
(Roger Rocha Moreira, “Preguiça”)

Os interessados pela democracia e pela República sabem que, para que essas funcionem, é primordial a manutenção do espaço público, da coisa pública, que é de todos. Neste espaço, ascendência, posses, etnias ou bodas pouco ou nada importam. É o famoso Estado Democrático de Direito que promove, ao menos em tese, a aparição de tudo e de todos, resguardando aos indivíduos que, seja por qual motivo for, não se enquadram no perfil padrão (aquilo que o ranço reacionário do senso comum dita como sendo “bom”, “justo” ou “adequado”) o direito de existirem e desenvolverem suas potencialidades.

No atual momento histórico em que vivemos, de importância inconteste da mídia e dos meios de comunicação, percebemos uma espécie de transmutação deste espaço público: das praças para os palcos, dos endereços de logradouros para os endereços eletrônicos, do ar livre para a tela. A mídia acaba por ser o real espaço público atual (FRANÇA, 2000).

E é nesses espaços públicos “virtuais” (pra ir de acordo com um termo mais em voga) em que podemos perceber, hoje, os rumos da vida contemporânea. Se fosse o caso de um ser extraterrestre aparecer em nosso mundo esculhambado, e esse ser tivesse a curiosidade de saber como vivem os seres deste lugar, bastaria que ele ligasse a televisão para perceber, em poucos minutos, quais são os desejos, as necessidades e as vontades (ou a falta de tudo isso) que aparece como imperativo aos seres humanos e conduz, enfim, nossa existência ao estado em que ela se encontra.

Em seu primeiro contato com a humanidade por intermédio da televisão, o tal do alienígena concluiria que estamos divididos em dois gêneros, o masculino e o feminino. E que há uma proposta de vida clara, estanque e incompatível para reger a vida de cada um: enquanto às mulheres são investidas atrações da ordem do doméstico, do estético, e daquilo que exija pouco ou nenhum esforço intelectual, cabe aos homens estarem inteirados da situação política, econômica ou social do lugar em que vivem, além de apresentarem-se e fazerem jus à condição de macho provedor de sua família.

Delega-se, então, ao homem, o poder sobre o estado das coisas, enquanto que à mulher é incumbido o trabalho de prezar pela estética (deste poder masculino ou de qualquer outra coisa que restrinja a mulher ao superficial), além de, claro, lançar mão de toda a sua graciosidade e todo seu encantamento para satisfazer os desejos do homem que, depois de um dia cansativo permeado por tantas decisões importantes, deve ter como recompensa mais do que justa sua plena satisfação no plano erótico-afetivo.

Mas não é só de decisões importantes e dos prazeres carnais propiciados por uma bela fêmea que vive um homem, perceberia o nosso alienígena caso, por acaso, viesse parar aqui no Brasil em sua incursão pela Terra. Além de poder, mulher, carro e dinheiro, homem que é homem gosta de futebol. E muito. E isso nós, brasileiros, com muito orgulho, com muito amor, sabemos ainda mais (DaMATTA, 1982).

No tedioso intervalo entre as festas de final de ano e o glorioso Carnaval, que nos separa, aqui em Pindorama, do universo das “festas” para o universo da “coisa séria”, esse apreço incontestável pelo futebol pode ser ainda mais perceptível. As férias escolares estavam a todo vapor, a alta temporada do verão também, as reprises tomavam conta da televisão, e nem o noticiário político conseguira trazer algo que realmente mobilizasse nossa atenção ao tratar de um assunto que definitivamente fosse do interesse de quem mora aqui do lado debaixo do equador – tanto que, no começo deste ano, o que tomou conta das manchetes dos jornais brasileiros foi como andam as prévias das eleições presidenciais lá do lado de cima, nos EUA.

A temporada para os clubes de futebol mal começara, os campeonatos estaduais estavam em suas primeiras rodadas, e tanto nas declarações dos jogadores quanto em suas atuações propriamente ditas, percebia-se certo clima de ressaca do ano passado. Contudo, isso não foi suficiente para que se falasse (ou se mostrasse) menos futebol. Seja em qual estação for, futebol sempre estará na ordem do dia.

Os cadernos esportivos dos jornais de grande circulação continuavam dando o espaço de sempre para falar de “futebol” – mesmo que isso significasse falar dos hábitos de leitura do treinador bola da vez, ou da visita o craque boa pinta da Europa aos subdesenvolvidos e subnutridos. Sub-informados. Beckham foi embora e não levou consigo o afã dos brasileiros por futebol, que pendula entre a euforia que o futebol causa em nosso país (numa quase histeria adolescente) e o excesso por se falar demais do mesmo.

Enquanto isso, dados de entidades internacionais medidoras da qualidade de vida pelo mundo, do naipe da ONU, jogam em nossa cara diariamente a nossa sub-existência: nossos estudantes não sabem estudar, nossos governantes governam pra si mesmos, falta assistência médica e saneamento básico (básico!) para metade da população, a desigualdade social é a maior do mundo (isso mesmo, pois como bem disse Clóvis Rossi, Serra Leoa é a boca do inferno, não um país), e as celebridades insistem em banalizar a vida, e acabam sendo respaldados por todos aqueles que, sem educação, sem saúde, sem qualidade de vida e sem dinheiro, possuem um referencial parco de vida, cujo vislumbre máximo a algum grau digno de suas existências fundamenta-se na precariedade que lhes apresentam o universo de celebridades, ou desse futebol pastiche de começo de ano. Isso pra não entrar na seara dos canais por assinatura, que apresentam futebol de vários ângulos, várias nacionalidades, para todos os gostos, em todos os horários, com discussões sobre a cor da maçã antes, durante e depois das partidas. Um verdadeiro deleite pra garantir o gozo de qualquer tele-tonto.

E o estandarte do sanatório geral do Carnaval já passou, o ano vai engrenar, e os debates, as discussões e as polêmicas tendo como pano de fundo algo ocorrido no palco do futebol vão tomar corpo. Atingirão status de problema nacional; seguir-se-ão manchetes de jornais, enquetes na internet, entrevistas no “Fantástico”; o congresso vai realizar uma sessão extraordinária pra debater o assunto, que pode ser o jogador negro insultado por um termo pejorativo que aluda ao racismo, um outro que todo mundo sabe que é viado, mas insiste em se trancafiar no armário, o irrisório espaço dado às mulheres no futebol… Pouco importa. A real é que muito se dirá sobre o tal assunto, e as principais vias pelas quais toda essa baixaria preconceituosa poderia ter fim (melhor distribuição de renda e melhora na qualidade da educação que é dada à população), ficarão à míngua. É assim que as discussões irão do grau máximo estridente da sociedade de espetáculo para, quinze minutos depois, embrulharem o peixe do dia seguinte.

Antes que os nervosinhos de plantão se animem, não estou aqui propondo algo como “abaixo ao futebol”. Todos os dribles, as pedaladas, as arrancadas, todos os gols, todos os lances referentes ao futebol me são de tal modo atraentes que, não raro, me comovem tal qual uma obra de arte; e será que não o são? Bom, essa é outra conversa; a questão que coloco por ora é que, assim como penso que Picasso é um mestre, penso também que uma vida restrita a Picasso seria de uma pobreza ímpar. Afinal de contas, se vivemos nesse demasiado grau de complexidade pós-moderna (HALL, 2006), por quê restringirmo-nos a duas ou três possibilidades de experimentação da vida? Que dirá uma!

O futebol é uma das graças que fazem nossa vida valer a pena. Mas até quando daremos excessiva atenção a q
uestões menores do futebol, como se isso fosse determinar os rumos de nossas vidas, e faremos vistas grossas àquilo que, de fato, determina nossas vidas? Transformar o Brasil (esse verdadeiro caldeirão de gente diferente que pena em compartilhar do mesmo espaço) em um país digno de se viver demanda muito esforço. Resta saber quantos são os interessados nesse esforço, árduo, diário e a longo prazo. Esforço este que pode contemplar o apreço ao futebol, mas que também precisa dar vazão a outras questões, de outra ordem, que pouco ou nada tenham a ver com o esporte. Ou isso, ou então vamos todos contentes ver a reprise do jogo da segundona na televisão – sem choro e sem reclamar do resto.

* Paulo Nascimento é membro do Gief. Atualmente, desenvolve pesquisas no âmbito da sociologia do esporte. Gosta de futebol, principalmente de jogos de mata-mata e daqueles que, afinal, valem para alguma coisa além de vender jornal no da seguinte.

Bibliografia

DaMATTA, Roberto. Universo do futebol: Esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.
FRANÇA, Jean Marcel C.: A captura do Lalau. In: FOLHA DE S.PAULO, Caderno “TV Folha”. São Paulo: 17 de dezembro de 2000. Acessado em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/cadernos/cid201220002.htm . Último acesso: 30 de janeiro de 2008.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Stuart Hall/ tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro – 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
MOREIRA, Roger Rocha. Preguiça. In: Ultraje a rigor – 18 anos sem tirar! São Paulo: Deck disc, 1999.

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