Universidade do Futebol

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24/08/2013

Quero ser um professor

Trabalho no futebol alemão há mais de 10 anos e confirmo a tendência do desenvolvimento do futebol germânico.

A final da Champions League comprova esse desenvolvimento, assim como a melhora do desempenho da seleção alemã. Depois do fiasco dos alemães na Copa de 98 e Eurocopa de 2000, ocorreu uma reestruturação nos conceitos dos métodos técnicos e táticos para as categorias de base:

Resumindo: primeiro estudou-se a fundo conceitos de treinamentos técnicos e táticos; e segundo, os treinadores passaram a ter que estudar o futebol e fazer carteiras de treinador, a fim de estarem aptos a ensinar os jogadores de elite das categorias de base. Os clubes seguem portanto uma determinada linha.

Em 2002, quando o projeto da DFB (Federação Alemã) começou a ser posta em prática, o objetivo era ter jogadores prontos em 10 anos, isto é, em 2012. Jogadores estes (que na época tinha entre 10 e 12 anos) que teriam passado por todas as etapas de desenvolvimento técnico e tático das categorias de base. Exemplos dessa safra são o Mario Goetze (Bayern de Munique), Andre Schuerle (Bayer Leverkusen), Draxler (Schalke 04), Guendogan, Reuss (ambos Borussia Dortmund) e uma sério de tantos outros!!!

Ser ex-profissional ou somente professor de Educação Física não completa a ficha do treinador por aqui !! O futebol também precisa ser analisado e estudado, assim como qualquer outro estudo superior.

Com relação à seleção canarinho, vendo com olhos de quem acompanha de perto a concorrência para a Copa do Mundo no Brasil em 2014, convocaria, principalmente, para o setor defensivo jogadores que atuam na Europa.

A compreensão e disciplina tática de como os atacantes na Europa atuam, a intensidade e a rapidez de raciocínio são detalhes a serem levados em consideração. Não que os jogadores brasileiros sejam burros. Mas, o futebol brasileiro, baseado em sua origem, continua ainda muito cadenciado, fato esse que simplesmente permite a defesa adversária se recompor.

A tendência mundial é um futebol mais dinâmico e explorador de contra-ataques. Quem perder menos tempo para fazer um contra-ataque terá mais chances de tirar vantagem de uma situação onde a zaga oponente esteja desorganizada. Exemplo de desenvolvimento positivo no Brasil é o Atlético Mineiro.

Outro ponto importante é a capacidade de recomposição defensiva. Defender somente com a linha de quarto e dois volantes é muito pouco hoje em dia. Daí a importância de jogadores mais dinâmicos com capacidade de fazer tanto a recomposição defensiva quanto a ligação rápida para o ataque.

Nós, brasileiros, temos a tendência de esperar que o talento individual decida, o que às vezes acontece. Porém, a seleção brasileira não pode depender de um ou dois jogadores como ocorreu nas duas Copas passadas nas quais os jogadores que deveriam decidir não estavam bem.

Um reestruturação dos métodos e conceitos do futebol brasileiro precisa ser revisto o quanto antes! Bom, para que isso aconteça é preciso ocorrer uma tragédia muito grande: perder a Copa em casa! Sou brasileiro e desejo que o Brasil mostre para todo mundo que o Brasil não é somente número 19 no ranking da Fifa. Porém, se for para o bem do futebol brasileiro, levo em conta perder esse Mundial em casa para que repensemos nossos métodos!

Fico feliz, em contrapartida, com o desempenho da seleção brasileira na Copa das Confederações. Atuação impecável como contra a Espanha na final, com marcação avançada forçando o erro do adversário. Os ponteiros brasileiros forçando os laterais da Espanha a fazer a abertura de jogo pelo meio, onde a seleção provocou a retomada de bola com número superior de jogadores atacando o jogador espanhol com a bola.

Mas, para que essa tática funcione é preciso uma altíssima intensidade, fato raro de ser visto no futebol brasileiro. Quando me refiro a intensidade, também me refiro a intensidade de treinamentos! Juninho Pernambucano mencionou pela passagem no Vasco da Gama que jogadores que investem somente com 40% de intensidade nos treinamentos não terão uma preparação adequada para um jogo, no qual a intensidade deve ser de 100%.

Outro fator determinante na vitória sobre a Espanha foi a defesa compactada no campo defensivo em fases de posse de bola da Espanha, onde todos os jogadores participavam da marcação, iniciando pelo centroavante Fred. Marcação essa que não é muito praticada no Brasil. Além disso, fazendo uma ligação rápida e vertical para o ataque após a retomada de bola. Tática essa que explora a defesa adversária com laterais abertos e uma possível desorganização do setor defensivo.

Porém, não nos deixemos ofuscar com este rendimento. Foi somente o primeiro passo para uma mudança de mentalidade! Belo trabalho Felipão e Parreira, que, pelo visto, estão acompanhando de perto o desenvolvimento do futebol pelo mundo. Espero que os clubes sigam o mesmo desenvolvimento.


* Treinador, coordenador de categorias de base a analista de vídeo e desempenho

Comentários

  1. paulo henrique delfino disse:

    Concordo c juninho!! Nosso futebol e cadenciado,acredito q muitos jogadores na hora do treino dao 40% de sua capacidade,assim prejudicando o desenvolvimento em campo. Mas na base este trabalho e intenso: E preciso mudar principalmente a transiçao,base para profissional. Meu nome paulo

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