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04/02/2014

Questão de Bom Senso

O primeiro ato que se tornou um movimento no futebol brasileiro começou em uma manhã qualquer de 1970, em General Severiano, sede do Botafogo, Rio de Janeiro. O meio-campista Afonsinho chegava para treinar quando foi avisado por um funcionário do clube que o então técnico Zagallo, que havia conquistado a Copa do Mundo com a Seleção Brasileira, no México, no mês anterior, havia proibido a sua entrada em campo, enquanto estivesse com “aparência inadequada”. Afonsinho usava cabelo grande e não cortava a barba fazia um ano. “Eu era estudante e estava na moda aquele jeito de usar a barba e o cabelo. Nunca quis provocar ninguém”, disse ele, por telefone, à reportagem de Brasileiros.

A atitude de Zagallo fez com que Afonsinho entrasse na Justiça, exigindo o direito de trabalhar e, enquanto o processo andava, intelectuais e artistas manifestaram apoio ao jogador. A decisão judicial saiu só em 1971, e deu passe-livre ao meio-campista, que foi emprestado para o Olaria, também do Rio, por causa das desavenças com o Botafogo. A partir daquele momento, a briga de Afonsinho deixou de ser só contra o seu time para se tornar a luta de um atleta contra o sistema do futebol brasileiro. Afonsinho não sabia, mas iniciava a rebeldia da classe que, até então, era apontada como alienada e analfabeta. “Só depois de muito tempo fui ter ideia do que aquilo representou para o nosso futebol.”

Foi em outro momento qualquer de setembro de 2013, pouco mais de 43 anos depois daquela manhã tumultuada para Afonsinho, que surgiu o movimento Bom Senso FC: após o empate sem gols entre Coritiba e Internacional, em Curitiba, pela 18ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, o zagueiro Juan, do Inter, 32, atravessou o campo para cumprimentar o meio-campista Alex, 36. Conversaram sobre a partida e, quando já iam se despedindo, Juan reclamou do cansaço pelo excesso de trabalho. Alex concordou e propôs que fizessem algo que pudesse mudar o panorama. “Por sorte, um amigo me procurou contando essa conversa entre eles. Mandei uma mensagem para o Alex, telefonei para ele. Cinco minutos depois, estava instaurado o movimento”, conta o zagueiro Paulo André, que encabeça o grupo. Hoje, o Bom Senso F.C. tem cerca de mil jogadores que o apoiam informalmente, já realizou 18 protestos antes de partidas da competição nacional e reacendeu, pela segunda vez na história, a chama acesa por Afonsinho sobre a discussão da categoria dos atletas para mudanças.

O grupo formulou, inicialmente, cinco propostas de alterações no sistema do futebol brasileiro: adequação de datas no calendário, período delimitado de férias, mais tempo de pré-temporada, punição para clubes que atrasarem salários e representatividade em congressos técnicos. Dessas se formaram duas, que são as reinvindicações atuais do movimento: menos jogos para os clubes das Séries A e B e mais para os das Séries C e D, e o chamado fair play financeiro, que visa punir times que não pagarem seus jogadores dentro do prazo. “É um momento histórico do futebol, que pode trazer benefícios a todos os envolvidos, não só atletas, mas aos clubes, patrocinadores, torcedores e à imprensa, porque é notório que o nosso futebol está vivendo uma crise existencial gigantesca”, afirma Paulo André.

As ideias, no entanto, geram polêmica, principalmente, entre os dirigentes dos principais times nacionais. Brasileiros ouviu 61 dos 101 clubes que disputaram as quatro divisões do País nas duas primeiras semanas de dezembro, em um levantamento inédito que revela que os times, em um primeiro momento, estão dispostos a ouvir o Bom Senso F.C.: 23 clubes se declararam favoráveis ao grupo, 20 disseram ser neutros (nem concordam nem discordam) e outros seis são contrários. Há ainda 15 times que afirmaram não conhecer as propostas do movimento. “Damos total apoio a eles e, inclusive, temos um jogador de grande expressão no nosso grupo que faz parte do Bom Senso. As teses que eles defendem são exatamente as nossas”, diz o diretor de futebol do São Paulo, João Paulo de Jesus Lopes. Santos e Bahia também já declararam apoio oficial aos jogadores.

Além das sete agremiações oposicionistas, há uma única voz pública que é contrária ao Bom Senso: o presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Antônio Roque Citadini, conselheiro vitalício do Corinthians, que já ocupou cargos no clube paulista, sendo até vice-presidente (2001-2004). “É uma coisa muito simpática, todo mundo aplaude e diz: ‘Olha, que bonitinho, os jogadores estão sentando em campo’. Mas é cada salário que senta no campo que dá vontade de chorar”, afirmou Citadini. O ex-dirigente também reclama das parcerias entre jogadores e clubes, como foi o caso do contrato entre Ronaldo Fenômeno com o Corinthians, em 2009, e da obrigação informal dos times de oferecerem tratamento médico aos atletas quando eles se lesionam. “Os jogadores querem sapato largo e água fresca.”

Os clubes também têm suas reinvindicações e aproveitam a onda do Bom Senso para expô-las. Quatro mandatários reclamaram da cultura irresponsável dos atletas brasileiros. Um deles, presidente de um time da primeira divisão nacional que pediu para não ser identificado, revelou caso curioso sobre as atitudes dos jogadores. “Terminou um jogo que perdemos, eles se reuniram no vestiário e ligaram para mim, pedindo para eu tirar o treinador. Os caras perderam três pontos e até ficaram mais perto da zona de rebaixamento para a segunda divisão porque estavam de ‘biquinho’ com o técnico. Isso é o fim do mundo.” Outro, que preside uma equipe da Série C, disse que os boleiros não se preocupam com os clubes que defendem. “Eles não têm responsabilidade. Negociam com outros clubes e vão embora, te deixando na mão. É tudo bonitinho, mas cada um está vendo seu próprio umbigo. Isso, para nós, não ajuda em nada.”Dos dirigentes ouvidos pela reportagem, 27 admitiram que o Bom Senso F.C. está bem intencionado, mas nove disseram que o grupo não está pensando nas equipes consideradas menores, e outros sete clubes citaram os altos salários dos jogadores como um empecilho para as alterações no nosso futebol. “Isso aí vai f* os clubes pequenos. Eles querem que os pequenos joguem mais temporadas, mas os clubes não conseguem nem jogar os três meses dos Estaduais. Se você fizer um levantamento, vai ver que cerca de 80% dos clubes pequenos não veem a hora de acabarem os campeonatos, porque não têm recurso. Para você ter ideia, tem um monte de jogadores me ligando e perguntando se isso vai passar. Eles estão com medo!”, disse Itair Machado, que comandou o Betim, de Minas Gerais, da Série C, até outubro último, quando foi proibido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva de exercer o cargo por ter recorrido de uma punição da FIFA na justiça comum. A Rede Globo, emissora que paga aos clubes pelos direitos de transmissão das partidas e regula as datas do futebol brasileiro, e a Confederação Brasileira de Futebol, entidade que comanda o esporte no País, não foram localizadas pela reportagem. No final de novembro último, o presidente da CBF, José Maria Marin, disse, em entrevista coletiva, que considera a legitimidade do movimento.

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Outros movimentos

O Bom Senso F.C. é, na história, o terceiro movimento social de jogadores do futebol brasileiro, esporte praticado no Brasil desde 1895. Além de Afonsinho, houve também a chamada Democracia Corintiana, liderada por Sócrates, Wladimir e Casagrande no começo dos anos 1980, que buscava mais participação dos atletas e funcionários do Corinthians nas decisões que diziam respeito ao clube. Os dois primeiros movimentos foram impulsionados também pela situação política do País, que vivia debaixo do regime militar. Para o professor de Ciências Sociais da PUC-SP, José Paulo Florenzano, o Bom Senso F.C. é o reflexo imediato dos problemas sociais do seu tempo. “O grupo está profundamente ligado com o contexto de mobilização política atual. Ele é fruto das jornadas de junho no Brasil e, assim como as pessoas que foram às ruas, reflete as reivindicações de uma democracia mais participativa no futebol”.

O zagueiro Paulo André, líder e porta-voz do grupo, chama a atenção da imprensa e dos torcedores desde a sua chegada ao Corinthians, em maio de 2009, pelas distinções entre ele e o comportamento da maior parte dos atletas de futebol. O jogador de 30 anos pinta quadros, é leitor do filósofo francês Jean-Paul Sartre e até escreveu um livro, publicado em março de 2012, sobre as dificuldades da carreira de um jogador. Ele era amigo de Sócrates, o esportista brasileiro mais reconhecido pelo engajamento com causas sociais, morto em 2011, que reconhecia em Paulo André um contestador tal como ele havia sido.

Além do interesse pelas melhorias no esporte, Paulo André está envolvido com outros movimentos, como a discussão de implementar o sistema de voto distrital no Brasil. “Existe uma tradição de luta dentro do universo do futebol. O próprio contexto do Afonsinho, depois o da Democracia Corintiana e agora o do Bom Senso mostra isso. Esses movimentos estão encadeados entre si”, conclui Florenzano. O futuro mostrará se as vitórias de Afonsinho e Sócrates também agraciarão Paulo André no moderno futebol dos anos 2000.

O jogador explica

Paulo André Cren Benini, 30 anos, nasceu em Campinas, interior de São Paulo, e começou a carreira no São Paulo, há 15 anos. De lá para cá, foram sete clubes – um deles, o francês Le Mans, que o contratou em 2006 e onde permaneceu durante três anos, quando foi procurado pelo Corinthians, time que atua até hoje – no ano passado, levou o título do Mundial de Clubes, no Japão. Antes, porém, ele passou pelo carioca Vasco da Gama, onde, segundo ele, dormia com ratos e baratas. Também fez parte do Águas de Lindoia, do São Paulo Futebol Clube, e a situação, de acordo com o jogador, não era das melhores.

Além de jogador, Paulo André é autor do livro O Jogo da Minha Vida (Ed. Leya), em que conta sua trajetória como atleta. Em entrevista exclusiva à Revista Brasileiros, ele conta que gosta de pintura e visitar museus – por isso é chamado de “fresco” por colegas, e vai seguir adiante com o Bom Senso F.C., que já arregimenta mais de mil jogadores do futebol nacional.

Pergunta – Como você começou a jogar futebol?

Paulo André – Quando eu tinha 15 anos, jogava futebol na AABB (Associação Atlética Banco do Brasil, em Campinas) e tênis também. Um dia, soube que um garoto que frequentava essa associação estava no São Paulo. Aí, pensei: “Pô, esse cara não é tão melhor que a gente de bola. Se ele joga no São Paulo, também posso”. Comecei a procurar testes, mas era difícil porque nem sabia como funcionava isso direito. Até que um cara foi assistir a uma partida nossa e me convidou para fazer um teste no São Paulo. Em dez dias, eu estava sendo federado pelo clube para jogar bola. Isso foi em 1998. Eu saí de casa, em Campinas, e fui morar em um alojamento no estádio do Morumbi. Nunca mais voltei pra casa.

Pergunta – Você já jogou em sete clubes, alguns pequenos, como Águas de Lindoia, do interior de São Paulo, e o CSA, de Alagoas…

Paulo André – Ah, a vida é dura. No Vasco da Gama, foi o momento mais difícil da minha juventude. Ali foi o final do meu sonho, terminado pelas dificuldades que passei em vários clubes, não só no Vasco… No CSA foi horrível. Mas, quando fui para o Águas de Lindóia, morei em um sítio com 30 jogadores que dividiam uma bica de água que descia da montanha. Roupa de treino e bola eram raridade. Essa é a realidade do futebol brasileiro: do menino que sai com 14 anos de casa, abandona o convívio com a família, abre mão da possibilidade de estudo e vai tentar a sorte em clubes sem estrutura. Como vivi isso, tenho a certeza de que minha missão é diminuir a exposição dos jovens, conseguir passar para eles que a vida do futebol é uma ilusão. Sonhar é necessário, mas é preciso também conhecer a realidade. Quando pensa em ser jogador, logo vem à cabeça Morumbi, Maracanã, estádio lotado, dinheiro, mulheres, mas ninguém conta a realidade, que é completamente diferente.

Pergunta – Qual foi o seu maior obstáculo profissional?

Paulo André – Quando saí do São Paulo e fui para o CSA, já estava decepcionado com o futebol. Depois de um bom tempo, fui para o Vasco e passei a morar em São Januário, onde fica a sede do clube. Lá tinha ratos, baratas… Peguei dengue. A gente tinha dificuldade para treinar por falta de campo. Mais tarde, fui pra casa. Estava magro, sofrendo. Minha mãe me chamou e disse: “Filho, já deu, né? Chega disso!”. Eu era um moleque de 18 anos e já estava há quatro anos fora de casa, sem ter conquistado nada. Naquele momento, não era mais o sonho, era o orgulho ferido por não ter estudado, não ter participado das festas dos meus amigos. Fiquei dois meses em casa, mas o orgulho não me deixava desistir: acordava cedo e ia treinar sozinho num campinho vazio. Foi quando apareceu o Águas de Lindóia. Cara, sair do Vasco e ir para o Águas, ficar lá um ano… É preciso ser muito louco! Quem convivia comigo desde aquela época, dá valor ao lugar aonde cheguei.

*Vinícius Mendes é jornalista. O material foi publicado originalmente na edição de janeiro de 2014 da Revista Brasileiros

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