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30/01/2017

Questão de postura

A ascensão ligeira de Gabriel Jesus tem a ver com o aproveitamento dos atributos, de entender o que pode oferecer às equipes que ele defende

A edição 1129 da revista “Exame”, lançada em janeiro de 2017, tem uma reportagem sobre aplicação de teorias de gestão e conceitos científicos para resolução de dilemas existenciais. O texto cita uma pesquisa feita por Angela Lee Duckworth, que tem ocupado frequentemente um lugar entre os mais vendidos dos Estados Unidos. O trabalho dela, chamado de “Garra”, acompanhou grupos de crianças e adultos durante quase uma década para tentar identificar características comuns aos mais bem-sucedidos. A principal conclusão: “Esforço é mais relevante do que talento”.

Na edição anterior, a mesma revista “Exame” fala sobre processos seletivos em multinacionais. Em 2014, a fabricante de papel e celulose Suzano recebeu 6 mil inscrições em seu processo de trainee. Ainda assim, preencheu apenas 26 de 30 vagas.

Em 2015, 1,3 milhão de jovens se inscreveram em 94 processos seletivos de 53 companhias. Nesse grupo, apenas 0,3% atendiam aos requisitos básicos estipulados pelas empresas para seus programas de trainee.

É extremamente difícil cobrar de um jovem atributos que definam a vida ou a carreira. Afinal, existe um processo de maturação em curso, que depende de uma série de fatores externos e pode tomar direções absolutamente contrárias. Empresas já entenderam isso – e começaram a adaptar suas seleções a essa realidade.

O esporte ainda entende mal a necessidade de maturação. Jogadores de futebol são observados, avaliados e rotulados desde cedo – e é extremamente difícil que consigam construir ao longo da carreira uma imagem que contradiga isso.

Por isso, uma das características mais importantes para atletas é a autossuficiência. São muitos os garotos que reúnem qualidades ou talentos necessários para o sucesso no esporte, mas poucos entendem como usar isso a serviço das necessidades profissionais e como tirar disso uma imagem vencedora.

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O início de Gabriel Jesus no Manchester City tem suscitado exatamente essa reflexão. O jogador revelado pelo Palmeiras tem apenas 19 anos, mas precisou de uma partida inteira e dez minutos de outra para chamar atenção e ganhar espaço na equipe dirigida pelo espanhol Pep Guardiola.

Jesus não tem o maior repertório entre os jovens brasileiros revelados recentemente, mas não houve, desde Neymar, outro representante nacional que tenha brilhado tão rapidamente no Velho Continente. No caso dele, a ascensão ligeira tem a ver com o aproveitamento dos atributos – o atacante entende o que pode oferecer e como tirar disso um melhor pacote para oferecer às equipes que ele defende.

Foi assim no Palmeiras. Jesus não é o melhor jogador que o clube já formou, mas é um dos mais eficientes. Soube reunir as coisas que faz bem e soube como o time poderia aproveitar melhor isso.

A eficiência no clube levou Jesus à seleção. O atacante foi um dos símbolos da nova gestão – a equipe nacional colocou o técnico Tite no lugar de Dunga, e a mudança repercutiu no desempenho. Com o jogador do Palmeiras como camisa 9, o time emplacou seis vitórias em seis partidas.

Jesus chamou atenção especialmente na estreia: assumiu a camisa 9 de uma seleção que vinha em crise de credibilidade e se sentiu confortável no posto de protagonista de uma geração abalada pelo fatídico 7 a 1.

Há vários fatores a serem enaltecidos no desempenho de Jesus. Nenhum, contudo, é mais evidente ou mais forte do que a personalidade. Existe uma tranquilidade que chama atenção no comportamento do jogador: não há deslumbramento ou afetação, e isso é o que dá mais segurança sobre o futuro.

É até natural que um garoto que chega ao futebol profissional e que consegue espaço em um time de expressão tenha sensação de dever cumprido. Essa condição significa que o jogador passou por funis que barram uma parcela gigantesca de meninos que sonham com o estrelato ou com a vida no esporte. A questão é: como manter a motivação depois de ter atingido um ponto altíssimo na carreira ou na projeção de vida?

A ideia aqui não é falar de Gabriel Jesus como um jogador consolidado ou como um astro inevitável. Há uma série de fatores no meio do caminho, e todos eles podem influenciar sobremaneira a sequência da história do atacante. No entanto, os primeiros passos do camisa 33 do Manchester City já oferecem boas lições de comunicação:

– Gabriel Jesus é seguro, e essa é uma característica de quem domina o ambiente em que está inserido;

– Ele sabe aproveitar bem suas potencialidades e sabe como fazer delas um ativo importante para o contexto;

– Ele simplifica o comportamento e as decisões em campo;

– Ele não se contentou com as marcas ou com os patamares que atingiu nos primeiros meses como profissional.

Agora tente jogar essas características para qualquer carreira ou qualquer ambiente. O que Gabriel Jesus comunica e o que transmite para o grande público é o perfil ideal de um profissional batalhador, assertivo e eficiente. Toda empresa gostaria de ter em seu quadro uma pessoa assim.

O que falta a muitos profissionais (e não apenas no esporte) é entendimento de contexto. Para outros jogadores, o fenômeno Gabriel Jesus pode ser visto como uma mistura de sorte, oportunidade e talento. Os que pensarem assim, porém, vão seguir tendo em seu futuro uma margem de erro grande demais.

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