Universidade do Futebol

Entrevistas

04/04/2014

Rafael Silva, zagueiro e capitão do Nacional-MG

Quando vemos na televisão, nos jornais ou em revistas o sucesso alcançado por jogadores como Neymar, Paulinho ou Daniel Alves, a sensação que nos dá é que o futebol brasileiro possui excelentes estruturas e uma boa organização fora de campo.

Mas, a realidade é bem diferente. Os clubes pequenos, que formam a maioria das equipes profissionais do país, sofrem com a falta de dinheiro. Apesar dos gastos, muitas vezes, serem menores quando comparados aos grandes, é muito difícil obter um patrocinador fixo que possa sustentar as despesas por toda a temporada.

Este cenário faz com que os jogadores de futebol sejam os principais prejudicados, por mais incrível que possa parecer. A falta de pagamento de salários ou benefícios é uma prática comum entre os dirigentes destas agremiações de menor expressão. Muitos profissionais sequer são registrados.

“Tem jogador que chega a jogar em clube que ele sabe que não vai receber só para não ficar parado, manter o condicionamento físico. Em São Paulo, por exemplo, haverá a Copa Paulista no segundo semestre. Nela, tem jogador de futebol que ganha R$ 1 mil por mês. Então, ele acaba jogando só para não perder o ritmo de jogo. A CBF lucra milhões, se ela repassasse para os clubes pequenos uma parte deste valor, a realidade seria outra. Então, vemos que há condições financeiras. Basta querer”, aponta Rafael Silva, zagueiro e capitão do Nacional-MG no Campeonato Mineiro deste ano.

Com 30 anos, o defensor tem uma larga experiência em atuar por times do interior do Brasil. Revelado nas categorias de base do Santos na época de Robinho e Diego, Rafael Silva já jogou no Olímpia, Rio Preto, Guaratinguetá, São Bernardo, Comercial, União Barbarense, entre outros.

E, mesmo com muitas conquistas de acessos no currículo, o jogador precisou montar uma empresa própria em Campinas, no interior de São Paulo, para se manter financeiramente enquanto fica desempregado nos segundos semestres dos anos.

“Criticam que o futebol brasileiro tem uma das piores médias de público do mundo. Mas, esse cenário contribui muito para isso. Qual é a identificação que o torcedor tem com um time que joga 3 meses? Para se criar esse vínculo, é preciso jogar o ano todo. O produto futebol está em decadência aqui no nosso país”, completa.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, Rafael Silva ainda falou sobre a amizade com Paulo André, um dos líderes do movimento Bom Senso F.C., e por que os clubes pequenos sofrem tanto com o atual modelo do calendário nacional. Confira a íntegra:

Universidade do Futebol – Quais as principais dificuldades de se atuar em um clube pequeno? Conte experiências que você viveu ou já ouviu falar de colegas de profissão?

Rafael Silva – Vivi na pele todos esses problemas que o Bom Senso F.C. tem brigado para melhor no futebol brasileiro. Já cheguei a jogar dois, três meses sem receber sequer um pagamento. E essa situação não foi somente em um clube. Tem uns seis ou sete times que joguei sem ter salário.

A CBF não tem a noção do que é jogar em uma equipe do Interior dos Estados do Brasil. É muita dificuldade. Os clubes pequenos sofrem muito com o calendário curto do nosso futebol. Não acham empresas ou patrocinadores interessados em investir apenas 3 meses em uma equipe de futebol. É muito pouco tempo de visibilidade.

Então, por que não se faz um calendário extenso para todo mundo? Com o Nacional, de Minas Gerais, joguei 11 jogos pelo Campeonato Mineiro em 1 mês e 22 dias. E agora, no segundo semestre, o time ficará parado. Isso é ruim até para um clube criar identificação com a torcida local.

Criticam que o futebol brasileiro tem uma das piores médias de público do mundo. Mas, esse cenário contribui muito para isso. Qual é a identificação que o torcedor tem com um time que joga 3 meses? Para se criar esse vínculo, é preciso jogar o ano todo. O produto futebol está em decadência aqui no nosso país.

Eu sofro na pele com essas dificuldades. Estou desempregado. É complicado. Muitos jogadores, inclusive eu, enquanto disputam um campeonato já ficam pensando no outro semestre. Quando você não consegue um clube para jogar, fica com o telefone na mão esperando alguém ligar para jogar no segundo semestre. E ainda quando se tem uma família por trás, a situação fica ainda mais difícil.

Os jogadores da elite do futebol nacional têm um salário gigantesco por merecimento, mas 90% dos atletas ganham um salário bom durante 3 meses e depois mais nada no restante da temporada. Tem jogador que chega a jogar em clube que ele sabe que não vai receber só para não ficar parado, manter o condicionamento físico.

Em São Paulo, por exemplo, tem a Copa Paulista no segundo semestre. Nela, tem jogador de futebol que ganha R$ 1 mil por mês. Então, ele acaba jogando só para não perder o ritmo de jogo. A CBF lucra milhões, se ela repassasse para os clubes pequenos uma parte deste valor, a realidade seria outra. Então, vemos que há condições financeiras. Basta querer.

As crianças, hoje em dia, não vão mais aos estádios. Preferem ir a uma lan house que torcer pelo seu time. Por que isso acontece? Porque o futebol deixou de ser atrativo. Os caras mal pagam salários, alimentação é ruim. Já cheguei a pagar do próprio bolso. Muitas vezes, não temos campos adequados. Então, o atleta é o que mais sofre nesse processo.

Neste ano, no Campeonato Mineiro, o Cruzeiro, mesmo jogando um time reserva, goleou várias equipes, tamanha a diferença entre o clube grande e o pequeno. O Estadual deixou de ser uma competição. Como se pode fazer melhorias no futebol em apenas 3 meses?

O médico, quando se forma, não deixa de fazer cursos. Por que no futebol tem de ser diferente? Devemos nos preparar cada vez mais. Quando eu era mais jovem, via jogador no começo de carreira com dois filhos, por exemplo, e ficava pensando o que seria do meu futuro. Acho que isso me motivou a buscar os estudos, afirma
 

Universidade do Futebol – Como você disse, o Nacional não terá calendário no segundo semestre de 2014. Como você superará as dificuldades financeiras e se manterá em atividade neste período?

Rafael Silva – Eu não sou uma regra entre os jogadores de futebol espalhados pelo país. Eu sou uma exceção. Há alguns anos, vendo a minha situação no futebol, eu me planejei. Fiz um curso e montei uma empresa de segurança em Campinas. Então, consegui gerar uma fonte de receita para mim e para a minha família que independe da minha situação no futebol.

Já até empreguei jogadores que eu conhecia na minha empresa porque não conseguiram contrato com clubes para jogar no segundo semestre. Tenho amigos também que jogam por um time no começo do ano e depois trabalham de caixa de supermercado na segunda metade da temporada.

Então, graças a Deus, eu consegui me planejar e hoje tenho uma renda à parte do futebol. Mas, essa não é a realidade. Muitos ficam em dificuldades financeiras neste período.

O futebol deixou de ser atrativo. Os dirigentes mal pagam salários, alimentação é ruim. Já cheguei a pagar do próprio bolso. Muitas vezes, não temos campos adequados. Então, o atleta é o que mais sofre nesse processo, aponta Rafael Silva

Universidade do Futebol – No começo de temporada, qual o principal objetivo de um clube que disputa um Estadual no país?

Rafael Silva – Isso também é outro problema que acontece muito em clube pequeno. No início do campeonato, o jogador quer se classificar para as fases finais da competição. Tem o objetivo de ficar entre os 4 semifinalistas, por exemplo. Tudo para tentar alavancar a carreira.

Já o clube, não. Para os dirigentes dos clubes pequenos, há metas diferentes. O foco, geralmente, é tentar uma vaga para disputar a Série D do Campeonato Brasileiro, que acontece no segundo semestre. Muitas vezes, o objetivo não é chegar a uma decisão de campeonato, e sim se classificar para a Série D.

Com isso, os clubes conseguem dar um pouco mais de contrato e até vendem esse produto como uma estabilidade de emprego. E, isso é até compreensível, pois os pequenos focam ter o calendário por 1 ano. Assim, facilita até o planejamento do Estadual do ano seguinte, já que geralmente se consegue continuar com o mesmo o elenco, manter os profissionais por mais tempo no clube.

Acredito que a principal virtude do nosso futebol é a grande quantidade de qualidade que temos dentro de campo. E o nosso maior defeito é não saber aproveitar toda essa oferta, compara

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual seria a saída para aumentar o público e o interesse nos jogos das equipes consideradas pequenas pelo Brasil?

Rafael Silva – No meu pensamento, é aumentar o calendário para esses times pequenos, como prega o Bom Senso. E, com a possibilidade de montar equipes para jogar o ano todo, o torcedor terá o prazer de ir a um estádio ver o seu time. Deste modo, você também cria ídolos para estes mesmos torcedores locais.

Além disso, é preciso abaixar os preços dos ingressos. Isso também seria importante para que houvesse uma maior frequência nos nossos estádios. Agora, o que não pode é ficar como está atualmente.

Os clubes grandes montam excelentes elencos, enquanto os pequenos não pagam nem seus jogadores. Com isso, até seus torcedores são penalizados, pois criam uma expectativa com o seu time e depois isso não se mantém.

Então, se o presidente não tem compromisso com o clube, por que o torcedor vai ter? Vejo os clubes pequenos, às vezes, contratar jogadores mais rodados, experientes, para atrair mais o público. Mas, depois não pagam, e o jogador vai embora.

Se todos se unirem, é possível parar um campeonato se for preciso. No entanto, isso não acontece do dia para a noite. É necessário tempo. O Bom Senso ganhou muito espaço no Brasil recentemente e só vai aumentar cada vez mais. Eu acredito muito nisso, afirma o zagueiro

Universidade do Futebol – Existe um senso comum de que o jogador de futebol é pouco inteligente e pouco responsável com sua preparação enquanto esportista. Contudo, a iniciativa do Bom Senso F.C. apresenta exatamente o contraponto a este cenário. Para você, qual é realmente o perfil do jogador brasileiro em relação a estas questões? Como ele poderia ser mais ativo no cenário do futebol?

Rafael Silva – Eu tenho visto que este cenário mudou bastante nos últimos anos. Hoje em dia, nós, jogadores, já discutimos muito esses problemas do futebol brasileiro nas concentrações. Então, vejo que melhorou muito do que era antigamente. Mudou muito.

Atualmente, tem muito jogador que é muito responsável com sua preparação e bastante inteligente. Mas, é claro que ainda existe aquele indivíduo que não está nem aí, que pouco participa dos assuntos que possam beneficiar a sua carreira e o seu futuro. Acredito que em todo segmento de trabalho há esse perfil de profissional.

Outra coisa que precisa melhorar é o fato de a classe dos jogadores ainda não ser tão unida. Mas, o futebol está mudando. Na Espanha, há alguns anos atrás, os jogadores não entraram em campo porque havia uma dívida dos clubes com apenas alguns atletas. Mesmo assim, o Puyol, o Piqué, e outros mais famosos, lideraram uma greve que reivindicava melhorias para todos os jogadores.

Então, vejo que falta isso. Por que quem é o Rafael Silva? Agora, se todos se unirem, é possível parar um campeonato se for preciso. No entanto, isso não acontece do dia para a noite. É necessário tempo. O Bom Senso ganhou muito espaço no Brasil recentemente e só vai aumentar cada vez mais. Eu acredito muito nisso.

Outro exemplo que vejo que é reflexo dessa mudança no perfil é que, antigamente, você falava de investimento na bolsa de valores e nenhum jogador sabia o que era. Hoje em dia, já tem jogador que faz isso.

Se o presidente não tem compromisso com o clube, por que o torcedor vai ter? Vejo os clubes pequenos, às vezes, contratar jogadores mais rodados, experientes, para atrair mais o público. Mas, depois não pagam, e o jogador vai embora, conta

Universidade do Futebol – Você participou do curso Aspectos Táticos da Universidade do Futebol. Porque sentiu a necessidade de estudar enquanto jogador?

Rafael Silva – Sempre que tenho a oportunidade de conversar com os jogadores mais jovens, procuro passar para eles que é muito importante se planejar. Sempre falo isso para eles. Eu tenho 30 anos e, desde que era mais novo, sempre me planejei.

Sempre estudei e estudo futebol quando tenho algum tempo livre. E essa necessidade surgiu desde os tempos que fiz amizade com o Paulo André nas concentrações na época que formávamos a dupla de zaga dos juniores no Guarani, em 2002. Entre um jogo e outro, a gente sempre conversava sobre os problemas do futebol, sobre táticas, etc.

Já teve até técnicos e presidentes que conheci falando para mim que quando eu me aposentar dos gramados, eu vou trabalhar na área técnica. Mas eu ainda não sei. Eu penso o seguinte: o médico, quando se forma, não deixa de fazer cursos. Por que no futebol tem de ser diferente?

Devemos nos preparar cada vez mais. Quando eu era mais jovem, via jogador no começo de carreira com dois filhos, por exemplo, e ficava pensando o que seria do meu futuro. Acho que isso me motivou a buscar os estudos.

Criticam que o futebol brasileiro tem uma das piores médias de público do mundo. Mas, qual é a identificação que o torcedor tem com um time que joga 3 meses? Para se criar esse vínculo, é preciso jogar o ano todo, analisa Rafael Silva

Universidade do Futebol – Em virtude da instabilidade profissional de grande parte dos jogadores de futebol, você tem algum plano de carreira no futebol ou em outro mercado após sua aposentadoria?

Rafael Silva – Eu costumo dizer que estou sempre aberto às novas oportunidades. Fico de olho em novos empreendimentos, leio sobre algumas áreas de atuação. Mas, eu amo muito o futebol. Talvez, penso em começar a trabalhar como dirigente, ou um gerente de futebol, após me aposentar como atleta.

Procuro ser uma pessoa correta, que gosta das coisas certas. E penso que, atuando na parte de gestão, eu consiga consertar mais os problemas do nosso futebol. Além disso, tem muito picareta nesse segmento. É preciso haver uma reciclagem nos profissionais.

 

Universidade do Futebol – Para você, o que é um atleta inteligente?

Rafael Silva – Dentro de campo, um atleta inteligente é um jogador que estuda o seu adversário e sabe exatamente o que vai executar no jogo, seja individualmente seja coletivamente.

Agora, fora de campo, é o jogador que busca informação. É o que se prepara. Antigamente, falava-se muito “ah, eu jogo futebol, não tenho muito tempo”. Isso acabou. Com a internet, já há cursos online e as informações estão todas à disposição.

Sempre estudei e estudo futebol quando tenho algum tempo livre. E essa necessidade surgiu desde os tempos que fiz amizade com o Paulo André nas concentrações na época que formávamos a dupla de zaga dos juniores no Guarani, em 2002. Entre um jogo e outro, a gente sempre conversava sobre os problemas do futebol, sobre táticas, etc, recorda

Universidade do Futebol – Para você, qual é a maior virtude e o principal defeito do futebol brasileiro?

Rafael Silva – Acredito que a principal virtude do nosso futebol é a grande quantidade de qualidade que temos dentro de campo. E o maior defeito é não saber aproveitar toda essa oferta.

Vejo, por exemplo, jovens jogadores sendo lançados no time profissional totalmente despreparados. Infelizmente, o futebol brasileiro é comandado por pessoas que têm pouca paixão pelo futebol.

 

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