Universidade do Futebol

Gepeefe

21/07/2008

Reflexões sobre a estrutura de aula e a compreensão do futebol

Aproveitando os questionamentos do prof. Riller em seu artigo: “O ensino do futebol nas aulas de educação física“, e pensando em coordenar a prática pedagógica à metodologia de ensino do ensino do futebol (principalmente na Educação Física escolar) uma das grandes dificuldades do professor é adequar a estrutura de aula à metodologia ou abordagem que o professor trabalha. Principalmente os que querem romper com situações e modelos que são reproduzidos há muito tempo sem serem discutidos. As dificuldades são muitas e as barreiras culturais, de como os professores de Educação Física (e técnicos de futebol) sempre trabalharam, e como os alunos estão acostumados, e muitas vezes como nós professores não queremos conflito apenas “nos rendemos” ao sistema.

Ainda vemos nas escolas, no treinamento esportivo, e no discurso de muitos professores e alunos do curso de educação física a estrutura de aula baseada em alongamento/aquecimento, parte principal e volta à calma como a única possibilidade de se estruturar uma aula. Esse modelo está adequado às aulas que estão voltadas apenas para o desenvolvimento físico/biológico do aluno. Mas se estamos pensando em formar uma atleta de futebol inteligente, e principalmente se estamos comprometidos com uma Educação Física transformadora e cheia de significado, não podemos deixar de pensar em uma estrutura de aula e treino, que seja adequada aos princípios que defendemos.

O modelo de alongamento/aquecimento, parte principal, e volta à calma tem seus fundamentos no treinamento físico (que é diferente do treinamento esportivo!). Segundo Pugina (2008), por e-mail, explica que esses princípios chegaram ao Brasil por profissionais brasileiros que foram estudar o treinamento no leste europeu na década de 70.

Esse modelo “era baseado no desenvolvimento da aptidão física, para que a população fosse capaz de defender/representar a pátria no campo social e militar”. A manutenção dessa estrutura de aula na educação física, e por muitos atletas ainda hoje, se dá por profissionais que reproduzem o modelo de quando eram atletas e viveram esse modelo; ou aprenderam em um outro momento histórico da educação física.

Uma das dificuldades de escrever esse texto foi a falta de referencias sobre esse modelo tradicional de estrutura de aula. Também Pugina (2008), por e-mail, disse que:

“Com relação ao tema, acredito que a dificuldade de encontrar literatura reside no fato de que essas idéias são provenientes tanto de empirismo como de hábitos que foram sendo passados de geração em geração sem fundamento nem explicação”.

Seus princípios são baseados na necessidade do alongamento e aquecimento para preparar o corpo (músculos, articulações, sistema circulatório, sistema respiratório e etc.) para o esforço físico que se fará em seguida. Mesmo no meio do treinamento físico algumas situações aqui já são discutíveis, como por exemplo, se deve ou não alongar antes da atividade, ou se o alongamento deve ser feito depois. Mas não serei eu quem esclarecerá esse tema.

Sadi (2005) ao observar a prática do professor de educação física identifica e apresenta 3 tendências que qualificam (ou desqualificam) a área. Em primeiro lugar a reprodução e a falta de sistematização permanente na prática do professor; em segundo lugar a pouca criatividade ao lidar com novos conhecimentos; e finalmente a organização de aula baseada em começo (aquecimento e/ou brincadeira) meio (exercícios específicos) e fim (coletivo). Em seguida seu comentário sobre essas tendências:

Os problemas desta estrutura reforçam o tecnicismo/conservadorismo não apresentando elementos do contraditório, da reflexividade e do pensamento crítico (…). Desta forma a chamada cultura corporal passa a ser um compósito abstrato e inexistente na realidade da educação física. (SADI, 2005)

Esse modelo ainda é muito utilizado em muitas aulas, tanto no treinamento como na Educação Física Escolar, que nela chegou com a reprodução dos princípios e modelos do treinamento físico. Mas se os objetivos do treinamento físico não são os mesmos da Educação Física, e se os objetivos do treinamento físico não são suficientes para treinarmos o atleta inteligente que temos pensado e discutido. Não podemos mais simplesmente reproduzir esse modelo de estrutura de aula.

Ensinar exige certa organização, experiência prática, teoria, técnicas, arte, opções por determinados caminhos, enfim, exige método. (…) o professor deve definir seu modo de dar aula. (FREIRE, 2006)

Nós temos hoje pelo menos duas obras consagradas que nos indicam uma estrutura de aula adequada aos princípios pedagógicos que pensamos ser conveniente tanto para as aulas de futebol na Educação Física como para o aperfeiçoamento e treinamento do futebol. Ambas, com pequenas diferenças, nos sugerem que as aulas tenham momentos para a apresentação da aula, para as atividades e para a reflexão (FREIRE; SCAGLIA, 2003; FREIRE, 2006).

Nossa sugestão está em acordo com o que os professores acima citados indicam. A aula deve iniciar com uma roda de conversa, a apresentação dos objetivos e conteúdos que serão vividos por eles na aula faz parte importante da tomada de consciência do que será aprendido na aula. Pogré, Lombardi e Sidarta (2006) discutindo a avaliação diagnóstica nos dizem que é importante que os objetivos sejam expressos de forma clara, para que os alunos saibam exatamente o que se espera deles. Da mesma forma se durante as atividades estaremos avaliando o que o aluno sabe, o que ele está aprendendo, precisamos que eles entendam o que se busca na aula. Sendo o aluno co-responsável pela construção do conhecimento é necessário que ele entenda e tenha os mesmos objetivos da aula.

Na segunda parte da aula as atividades são vivenciadas. Importante lembrar que todas as atividades estarão diretamente relacionadas ao objetivo da aula ou aos conteúdos desenvolvidos na aula anterior. O professor inteligente não proporá a atividade mais intensa da aula na primeira atividade, mas não significa que essa atividade será de aquecimento. As brincadeiras, jogos adaptados ou o próprio jogo de futebol poderão ser intercalados ou interrompidos (e retomados logo em seguida) para que os alunos possam discutir as melhores estratégias para jogar; ou para que o professor ajude os alunos a identificarem o problema correto e/ou auxiliá-los a pensar quais as melhores possibilidades de superar as dificuldades que o jogo está apresentando. Para isso o professore será o provocador da observação tática e auxiliar na interpretação do que foi observado (GRIFFIN; BUTLER, 2005).

As aulas deverão terminar com nova roda de conversa entre professor e alunos para se discutir o que foi feito na aula. Quais foram os problemas e dificuldades? E quais foram as soluções encontradas. Esse momento de reflexão sobre a aula é de fundamental importância para a racionalização ou para tomar consciência do que ele aprendeu na aula. Um dos grandes problemas das aulas de Educação Física Escolar ou do treinamento pedagógico (diferente do modelo tradicional tecnicista) é o aluno sair da aula ou treino achando que só brincou ou só jogou e não aprendeu nada. O brincar e jogar do aluno não pode ficar desvinculado da consciência da aprendizagem.

Para concluir eu gostaria de apresentar as quatro dimensões da compreensão que Pogré, Lombardi e Sidarta (2006) dizem que entram no jogo do processo de compreensão:

1. Conteúdos: compreensão do conhecimento ou conteúdo da área ou disciplina;
2. Método: compreensão de que o conhecimento é uma construção;
3. Propósitos: compreensão de que a produção de conhecimento sempre está vinculada à pratica, com propósito e significado.
4. Comunicação: as diferentes formas de comunicação permitem ao aluno comunicar aquilo que compreende.

Entendemos que o aluno deve ter momentos adequados para desenvolver a compreensão do jogo e que as dimensões acima citadas devem fazer parte tanto dos objetivos como dos desempenhos dos alunos. A estrutura da aula dará a ele ou não a oportunidade de aprender.

Bibliografia

FREIRE, João Batista. Pedagogia do Futebol. 2a edição. Campinas: Autores Associados, 2006. 98 p.
FREIRE, João Batista; SCAGLIA, Alcides José. Educação como prática corporal. São Paulo: Editora Scipione, 2003. 183 p.
GRIFFIN, Linda L.; BUTLER, Joy I.. Teaching Games for Undestanding: Theory, Research and Pratice. Champaign: Human Kinetics, 2005. 238 p.
POGRÉ, Paula; LOMBARDI, Graciela; SIDARTA, Equipe do Colégio. O Ensino para a compreensão: A importância da reflexão e da ação no processo de ensino-aprendizagem. Vila Velha: Hoper, 2006.
PUGINA, Enrico. Re: ajuda pro Beto. [mensagem pessoal] Mensagem recebida por: . em: 07 jun. 2008.
PUGINA, Enrico. Re: ajuda pro Beto. [mensagem pessoal] Mensagem recebida por: . em: 10 jun. 2008.
REVERDITO, Riller Silva. O futebol nas aulas de educação física. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2008.
SADI, Renato Sampaio. Educação Física, Trabalho e Profissão. Campinas: Komedi, 2005. 176 p.

Comentários

  1. estou fazendo um Pre-TCC ” o futebol e a educação fisica escolar” onde quero abordar a real situação em que a frase “rolar o coco” fica mal para o Prof.de ED.Fisica e que o futebol deverá tambem ser tratado como outros esportes(volei,Basquete,)com suas regras,o que é um goleiro,zagueiro tal qual os PCNS…

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