Universidade do Futebol

Entrevistas

24/10/2008

Reinaldo Alves da Silva, preparador físico

Se uma das grandes sensações do início dos anos 2000 dentro do futebol está firmada dentro do cenário nacional até hoje, pelo menos uma pequena contribuição se deve a Reinaldo Alves da Silva. Preparador físico do São Caetano desde 1996, quando os primeiros passos de um projeto de consolidação do pequeno clube do ABC eram dados, ele segue até hoje no Anacleto Campanella.

 

Hoje como assessor da função – posto chefiado pelo não menos experiente Carlos Pacheco, ex-Palmeiras, Portuguesa e Rio Claro -, após um período fora do país, quando trabalhou na LDU, do Equador, dez anos antes do atual título da Copa Libertadores da América, procura atuar dentro das possibilidades no time que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro.

 

“O clube primeiro buscou uma consolidação do nome no mercado, no meio futebolístico, o que conseguiu, e aos poucos está tentando se estruturar na questão administrativa, com a montagem de um centro de treinamento, de todas essas situações mais da área organizacional. A gente sente um pouco isso, pois temos todo nosso QG, nosso centro de trabalho, de aplicação, no Anacleto Campanella, o que promove um pouco o desgaste do local”, avalia Reinaldo.

 

No São Caetano, que ainda sonha com uma vaga na elite do Brasileiro em 2009 e deve disputar torneios em outros formatos paralelos, como o Estadual e a Copa do Brasil, tal qual ocorreu nesta temporada, o planejamento é realizado priorizando-se a proximidade das competições. Algo que, na opinião do professor formado pela Universidade de São Paulo (USP), foi facilitado por conta da “humanização” do calendário.

 

Adepto do trabalho trans e interdisciplinar, Reinaldo estende sua lamentação dentro da agremiação da sua cidade natal para mais um quesito, porém: a ausência de um profissional da psicologia no dia-a-dia, tanto em relação ao departamento profissional, quanto no que tange a base.

 

“Ocorre que, às vezes, por alguns detalhes e seqüência de filosofias das pessoas que trabalham, não se dá o devido valor, e hoje não temos. Quem realiza esse trabalho é o treinador, nós da comissão técnica. Muitas vezes precisamos de um trabalho de motivação, uma palestra, ou um bate-papo, e o clube adota por essa linha de trabalho. Mas pessoalmente acho importantíssima a presença de um psicólogo profissional, não apenas na categoria de cima, e principalmente nas equipes de formação”, complementa Reinaldo, em entrevista à Cidade do Futebol.

 

Cidade do Futebol – Em primeiro lugar, professor Reinaldo, como se deu sua formação acadêmica?

Reinaldo Alves da Silva – Me formei em 1977 na USP e logo em seguida, em 78, fiz um estágio no Palmeiras e a partir de abril fui para o clube. Até 82, permaneci nas categorias de base. Em 83, o professor Medina me chamou para trabalhar com ele, com quem eu fui para Arábia Saudita em 85 e fiquei até 88. Voltei, tive uma passagem pelo Santo André, pelo Goiás, novamente o Palmeiras, e uma rápida pelo São Caetano, até ir para a Arábia novamente.

 

No final de 96 até agora eu estou no são Caetano, com um hiato em 1998, quando passei pela Liga Universitária do Equador.

 

Cidade do Futebol – LDU, que foi campeão da Copa Libertadores da América este ano. Alguma relação e reflexo do trabalho implementado àquela época?

Reinaldo Alves da Silva – Eu não vou dizer que tenha sido um projeto nosso chegar à Libertadores e ser campeões. Iniciamos a passagem de pessoas da nacionalidade brasileira. Trabalhei com o Cabralzinho lá. O Reasco, por exemplo, jogou conosco, na subida dele dos juniores, assim como o Ulisses De La Cruz, e alguns outros que se projetaram. Não acredito que o projeto de chegada à conquista da Libertadores tenha tido nossa participação. De 98 a 2008 são dez anos. Se fazem projetos de planejamento, mas não a esse ponto.

 

Cidade do Futebol – Qual a avaliação que o senhor faz da estrutura dentro do São Caetano?

Reinaldo Alves da Silva – Quando chegamos aqui no final de 1998, o projeto econômico do clube, de planejamento de atividades, visava chegar a um ponto de evolução tanta da agremiação em si, quanto do time, que o levasse ao topo. Quatro, cinco anos depois começamos a colher os frutos.

 

Primeiro buscou-se uma consolidação do nome no mercado, no meio futebolístico, o que conseguiu, e aos poucos está tentando se estruturar na questão administrativa,  na montagem de um centro de treinamento, de todas essas situações mais da área organizacional. A gente sente um pouco isso, pois temos todo nosso QG, nosso centro de trabalho, de aplicação no Anacleto Campanella.

 

Isso promove um pouco o desgaste do local, porque treinar, jogar e fazer todas as atividades ali acaba limitando um pouco, por conta do horário, problemas de espaço, estado do gramado. Muitas vezes acabamos saindo dali pra ir a outras proximidades que não nos permitem aproveitar melhor o tempo de trabalho, e muito do que a gente busca para o desenvolvimento do clube e das categorias de base é o espaço para trabalhar.

 

Cidade do Futebol – O São Caetano disputa a Série B do Campeonato Brasileiro nesta temporada, em que há a presença de um dos principais clubes do Brasil, o Corinthians, que vê o acesso de forma iminente. Há diferenças em se realizar um projeto dentro da área de preparação física na elite e na divisão de acesso?

Reinaldo Alves da Silva – Eu acho que não. Os objetivos são diferentes, óbvio. O campeonato da Série B tem um pouco mais daquele apego, daquele gosto, do futebol jogado com muita vontade, não que não tenha técnica, mas a luta se mostra um pouco maior.

 

Acho que em termos de qualidade, de projeto, de aproveitamento das ocasiões de trabalho, você não vê muita diferença. Até porque vemos nas grandes equipes que a disputam, jogadores técnicos, com preparadores físicos que têm uma vivência grande dentro do futebol.

 

Aqui no São Caetano, trabalhamos em duas pessoas. Além de mim, há o professor Pacheco, e eu atuo como assistente dele. Mas realizamos um projeto que poderia ser estendido a qualquer outra agremiação. Os objetivos são diferentes, lógico, mas a qualidade do trabalho, a exigência do campeonato leva a um aperfeiçoamento científico e a um desenvolvimento independentemente da divisão.

 

Cidade do Futebol – Na próxima temporada, o São Caetano provavelmente disputará a Série B do Campeonato Brasileiro, que é uma competição disputada no formato de pontos corridos, com jogos de ida e volta. Mas antes, encara um Estadual e, provavelmente, uma Copa do Brasil, com duelos mata-mata (assim como foi em 2008). É possível diferenciar o trabalho dentro da preparação física ao longo da temporada, especificando a competição?

Reinaldo Alves da Silva – Nós iniciamos a disputa da Copa do Brasil neste ano num período em que a equipe vinha adquirindo o condicionamento e isso a gente já sabia que iria ocorrer. Você se programa para que não deixe de pensar no Paulista e passe a pensar na outra competição. Mas o próprio método de disputa faz com que focalize: quando for o caso do mata-mata, há uma meta que você tem direcionada.

 

O campeonato de pontos corridos é realizado em um período mais longo e você pode se equilibrar. Mas os mata-matas se dão daquela forma, e, logo nas duas primeiras fases da Copa do Brasil, por exemplo, uma diferença de gols fora de casa exclui a partida de volta. Até entrar num período de afunilamento, a competição pode ser longa.

 

Cidade do Futebol – O São Caetano conta com um psicólogo dentro do departamento de futebol? O senhor usa de conceitos de auto-ajuda e neurolingüística no trabalho diário com os atletas? Como isso tem sido aplicado no clube?

Reinaldo Alves da Silva – Nós tivemos até algum tempo uma pessoa que era voltada especificamente a essa área. Hoje, ela trabalha no Corinthians. Na época, a validade e a necessidade da presença de um psicólogo na comissão técnica eram de extrema importância.

 

Ocorre que, às vezes, por alguns detalhes e seqüencia de filosofias das pessoas que trabalham, não se dá o devido valor, e hoje não temos. Quem realiza esse trabalho é o treinador, nós da comissão técnica. Muitas vezes precisamos de um trabalho de motivação, uma palestra, ou um bate-papo, e o clube adota por essa linha de trabalho.

 

Mas, pessoalmente, acho importantíssima a presença de um psicólogo profissional, não apenas na categoria de cima, e principalmente nas equipes de formação.

 

Cidade do Futebol – Qual é o limite desse tipo de atividade para o preparador físico e quando a presença de um psicólogo começa a ser importante?

Reinaldo Alves da Silva – Eu acredito que não deva ter [esse limite]. E se tem, as pessoas o vêem ou o usam de uma maneira equivocada. O profissional que é formado na área de psicologia e que tem a especifica formação visando trabalhar esse fator, ele é, dentro da área dele, autônomo. Não invade o espaço que o treinador ocupa dentro do papel de liderança da equipe.

 

São trabalhos que devem estar conjugados de maneira profissional, mas o psicólogo realiza o trabalho dele sem ferir muita suscetibilidade.

 

Um dos grandes problemas enfrentados nessa área motivacional é justamente esse: eles têm a forma de trabalho deles e muitas vezes alguns profissionais da comissão técnica vêem esse trabalho invadido por outros profissionais. Mas considero isso uma besteira.

 

Esse relacionamento e essa capacidade de desenvolvimento do psicólogo com o atleta, o treinador, principalmente, tem de ter bom senso e, no momento de dividir as tarefas e aplicar as funções, dar liberdade a essa pessoa.

 

Cidade do Futebol – O senhor realiza um trabalho transdisciplinar nos clubes por onde passa. Como o conceito da motricidade pode ser aplicado ao esporte, e mais especificamente ao futebol?

Reinaldo Alves da Silva – O futebol evoluiu muito. De 78, quando comecei, para cá – são 30 anos -, houve uma evolução, principalmente dos preparadores físicos, dos professores que trabalham na área, dos treinadores, que foram se modernizando, cada vez mais com uma visão nova.

 

Há necessidade de valorizar esse trabalho de motricidade, principalmente nas categorias de base, pois, na minha opinião, quando o atleta sai dessa condição, ele tem de estar pronto para trabalhar na equipe profissional. E todos aqueles erros, equívocos de coordenação, trabalho de propriocepção, têm de estar corrigidos.

 

Cidade do Futebol – Esse é um trabalho em longo prazo, que deve ser iniciado na base, ou pode ser feito diretamente em times profissionais?

Reinaldo Alves da Silva – Na equipe profissional ele será apenas lapidado para desempenhar a função. Se não fizer isso em baixo, vai haver a falta posterior. O atleta com o aparelho motor formado, assim como sua parte de coordenação, fica difícil você corrigir ou com exercícios, ou com técnicas, essas dificuldades que ele possui. Até porque no Brasil não se dá muita importância na escola de formação, principalmente para o desenvolvimento desse tipo de trabalho motricional.

 

Nem todo o aluno da escolinha de formação vai se encaminhar para uma atividade esportiva. Mesmo na vida dele, ele vai sentir falta disso.

 

Cidade do Futebol – Há ainda muita resistência dos clubes em se realizar um projeto desses?

Reinaldo Alves da Silva – Falarei mais pelo São Caetano, mas temos informações de clubes que realizam esse desenvolvimento, por exemplo o São Paulo. É um que tem de ser citado, pois é um exemplo de estruturação, de organização, tem um trabalho voltado pra essa área de formação muito mais desenvolvido que os outros.

 

Acho que tem uma resistência, sim. Um educador motricional, por exemplo, deveria fazer parte do contexto de uma equipe multidisciplinar, onde, dentro do espaço dele, ele construísse essa mentalidade nova, da importância de todos esses aspectos analisados. Se não for feito isso, a gente vai sempre bater na tecla que falta. Mas se ninguém incluir em seu projeto um trabalho como esse, muito dificilmente se

conseguirá os resultados.

 

É muito fácil você dizer que precisa ser feito, mas quando tem oportunidade, não faz. Vamos supor: o São Caetano inicia algo nesse gênero, mas vai demorar muito mais tempo para aparecer, do que se São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Grêmio fizeram e difundirem. Embora clubes de menor expressão tenham muito mais condição, e dêem muito mais importância a esse tipo de coisa, por ouvirem mais e por não terem os resultados numéricos cobrados com tanta ênfase poderem fazer algo nessa linha.

 

Cidade do Futebol – Qual é a importância da longevidade do preparador físico? É coerente o profissional responsável pelo condicionamento dos atletas acompanhar o treinador, ou o ideal é que ele esteja atrelado ao clube?

Reinaldo Alves da Silva – Há as duas linhas. Alguns clubes têm essa pessoa que acompanha essa vida do clube por um longo tempo, e eu me incluo nesse meio. Desde novembro de 1996 estou no São Caetano, com aquele hiato na LDU. Sabemos de outros profissionais que adotam postura semelhante, alguns abnegados que procuram fazer com que se implante uma filosofia de trabalho.

 

Mas o grande problema é saber se o clube vai dar condições para que seja desenvolvido isso. O São Paulo, por exemplo, é um que muito dificilmente troca o preparador físico, até na equipe profissional. E o trabalho que ele vai desenvolvendo cria um padrão de trabalho que todas as pessoas que chegam – seja atleta, ou treinador, por exemplo -, terão de se adequar àquele tipo trabalho.

 

O que sempre defendi é você buscar ao seu clube aquele profissional que se adeqüe à filosofia do local. Não adianta trazer um técnico que joga para não perder, vamos supor, que tenha um sistema de jogo voltado mais à defesa, para um clube que tenha a tradição de jogar para frente, com desenvoltura.

 

A maioria dos clubes quando contrata um profissional, ele sempre quer trazer a equipe de confiança dele. Acho certo. Ele tem que ter uma pessoa mais próxima, com quem ele tenha mais intimidade, pois há certos momentos dentro do ano, em uma competição, em que há necessidade de alguém em quem se confie. Agora, o clube também não pode se desfazer das cabeças pensantes, do trabalho por um longo período em troca de coisas temporais, porque a permanência dessas pessoas é temporária no futebol. Mudando muito a forma de conduta e aplicação, a cada troca de treinadores e preparadores físicos, vai mudar tudo, e isso é errado.

 

Cidade do Futebol – Recentemente, no I Congresso Brasileiro de Ciência e Futebol, realizado no Corinthians, alguns profissionais da área comentaram sobre a funcionalidade do Core Training. Como o senhor avalia esse tipo de trabalho?

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