Universidade do Futebol

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20/07/2010

Relação entre qualidade do treinamento e nível de rendimento da equipe

Quando uma equipe não consegue bom índice de aproveitamento dentro de determinada competição, é comum nas searas do futebol, principalmente entre comentaristas e setoristas que têm afeição ao treinador, ouvirmos frases do tipo: “trabalho não tem faltado, a equipe vem se dedicando diuturnamente, sempre em dois períodos”.

Fatos dessa natureza, analisados com um mínimo de inteligência, levantam alguns questionamentos do tipo.

Se não falta trabalho, qual é a causa de tão baixa produtividade?

Será que o trabalho que vem sendo implementado pela comissão técnica possui embasamento metodológico e está fundamentado naquilo que há de mais moderno em termos de pedagogia do esporte, ou os métodos de treinamentos empregados são totalmente ultrapassados?

Ou ainda, será que nossos conceituados treinadores não conseguem sistematizar e criar atividades de treino compatíveis com os seus modelos de jogo?

O que temos observado no futebol de uma forma geral e no futebol brasileiro, em especial, é que “muitos treinadores quando ganham, não sabem exatamente porque ganharam e por isso não conseguem continuar ganhando”. Isso se comprova ao observarmos que, grande parte das equipes não consegue manter um padrão regular de jogo, ou seja, até mesmo durante uma única partida, às vezes apresentam-se razoavelmente bem na primeira etapa e decepcionam na segunda ou vice-versa.

É exatamente aí que se abre espaço para os “achólogos”. O “achólogo” é aquele que se diz entendedor da matéria e tem sempre a justificativa ou a solução ideal para o caso. Nesta categoria podemos relacionar o adepto comum (torcedor), o dirigente, o comentarista, o repórter e até mesmo o treinador.

Cada um desses personagens sabe exatamente qual é o problema da equipe e aqui no Brasil, quando as coisas não vão lá muito bem, o primeiro a ser apontado na mídia como o grande vilão da história é o trabalho da preparação física.

Aqui cabe mais um questionamento.

Será mesmo que a falta de regularidade das nossas equipes tem a ver apenas com a preparação física?

O objetivo aqui não é sair em defesa dos profissionais responsáveis pela preparação física, mesmo porque não somos adeptos da forma tradicional de se treinar futebol, onde o físico é o epicentro de todo o processo. Para nós o problema é muito mais complexo e merece análise criteriosa, senão vejamos.

Quando assistimos aos jogos de equipes como Barcelona, Manchester United, Internazionale de Milão, Bayer de Munique e algumas outras equipes do futebol mundial e presenciamos modelos de jogo altamente definidos, com uma padronização tática qualificada, podemos atribuir essas qualidades a vários fatores, tais como, dinheiro, estrutura, qualidade dos jogadores, permanência dos mesmos jogadores na equipe, etc., etc., etc.

Todos esses fatores são extremamente relevantes, entretanto, um dos aspectos que mais influencia o desempenho de uma equipe de futebol e de seus atletas, durante uma competição, é a qualidade do treinamento.

Não dá para imaginar que seja por obra do acaso que o Barcelona consegue, em média, sessenta e sete por cento (67%) de posse de bola numa competição do nível da Champions League, ou que esse desempenho esteja alicerçado por uma metodologia de treino tecnicista, fragmentada, baseada em exercícios analíticos, totalmente fora da realidade do jogo, como os que estamos acostumados a ver no dia-a-dia dos nossos times de futebol.

Da mesma forma, não dá para imaginar que treinadores que se apegam aos velhos paradigmas do futebol e que trabalham dentro de uma periodização tradicional, sejam capazes de fazer com que suas equipes apresentem um futebol minimamente qualificado.

Para se ter uma ideia da periodização convencional e de como são os treinamentos em grande parte das equipes do futebol brasileiro, vamos a uma historinha de ficção.

Daremos vida a um personagem invisível que irá passar uma semana em cada um dos vinte clubes da Série A do Campeonato Brasileiro que ora se reinicia. Como esse personagem é invisível, ele terá acesso livre a todos os ambientes do clube, desde o banheiro da sala da presidência, até o cantinho mais reservado da cozinha.

Moral da história! Ao final das vinte semanas, o nosso personagem invisível, com certeza, irá concluir que tudo que acontece em nossos clubes de futebol tem uma enorme semelhança, principalmente quando o assunto é treinamento.

Semana após semana trabalham-se coletivos, dois toques, cobranças de faltas, escanteios, rachão, peladas em campo reduzido, condicionamento físico e por aí vai… Portanto, em termos de treinamento, não há um diferencial metodológico no trabalho das equipes.

Ao fazerem uso de uma periodização convencional, nossos técnicos priorizam o trabalho físico em detrimento da parte tática. Isso fica evidenciado nas sessões de treino ao observarmos que na maior parte do tempo os jogadores trabalham sobre o comando dos preparadores físicos e quando o trabalho passa às mãos do treinador, nota-se que são sempre as mesmas atividades, mostrando que um percentual significativo dos técnicos não tem acompanhado a evolução dos estudos científicos, portanto não têm conhecimento do que vem sendo proposto em termos de metodologia de treinamento dos jogos esportivos coletivos.

Portanto, caro leitor, apesar de o Brasil ser um dos principais paises do mundo na produção literária esportiva, pouco do que é produzido nos nossos centros acadêmicos tem aplicação prática nas sessões diárias de treinamento, principalmente quando se trata do trabalho específico dos treinadores de futebol, ou seja, a parte tática das equipes.

*Walério Melo é professor de Educação Física com especialização em Metodologia da Aprendizagem e treinamento do Futebol e Futsal

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