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18/03/2019

A relação entre torcedor e futebol

Alerrando, 19, foi o personagem principal do futebol brasileiro no último domingo (17). Em seu primeiro jogo como profissional no Mineirão, o atacante do Atlético-MG fez dois gols – um deles aos 45min do segundo tempo – e definiu a vitória por 3 a 2 sobre o América-MG. “Era um sonho. Via muita gente marcando aqui, e em 2014 eu estava na arquibancada quando o Luan brilhou contra o Flamengo [vitória por 4 a 1 na Copa do Brasil]. Por isso eu explodi e fui para a galera”, contou o garoto, que agora tem sete gols e lidera a artilharia do Campeonato Mineiro. Era para ser uma história feliz, emocionante, de superação. Em vez disso, o desempenho tornou mais emblemático o que aconteceu com o garoto Gabriel, de dez anos.

Gabriel estava entre os torcedores do Atlético-MG no Mineirão e ficou frente a frente com Alerrandro quando o jogador deixava o gramado em direção ao vestiário. O atacante tirou a camisa que havia utilizado na partida e atirou na direção do garoto, que segurou o presente. Antes que ele ficasse com a recordação, contudo, outros torcedores intercederam, tentaram tomar o uniforme e acabaram machucando o braço do pequeno torcedor (a gravidade da lesão ainda não foi confirmada).

Seguranças do Mineirão e o pai de Gabriel conseguiram conter os outros torcedores e os impediram de levar a camisa. Além disso, após intermediação da TV Globo, Alerrandro encontrou o garoto e deu a ele um uniforme novo – o que o jogador havia utilizado no sábado, por causa da disputa, acabou todo rasgado. Um desfecho feliz para a relação entre menino e ídolo e para a recordação. No entanto, essa história é suficiente para apagar a tensão que o torcedor viveu quando foi interpelado por outros atleticanos e teve de lutar com eles até machucar o braço?

Ao ver aquela cena, outros pais ficaram mais ou menos interessados em levar seus filhos ao estádio? E afastar crianças do estádio tem um impacto positivo ou negativo para o futebol no médio e no longo prazo? Gabriel pode ter ficado com um sentimento positivo sobre o jogo depois do que aconteceu no Mineirão, mas tem certeza de que isso não vai se repetir no futuro?

O escritor Eric Hobsbawm (1962-2012), em uma discussão sobre economia e futebol, disse que o esporte é perfeito para o capitalismo porque não precisa cultivar paixões. Que empresa, afinal, tem milhões de consumidores absolutamente fiéis, incapazes de comprar produtos de seus concorrentes?

Episódios como o do Mineirão, contudo, não afetam necessariamente a relação entre torcedor e clube; alteram o nível de interesse pelo próprio esporte. Gabriel não vai ser menos atleticano depois de ter enfrentado outros adeptos para ficar com uma camisa, mas essa história pode afetar a relação dele e de seus parentes com o jogo. O Atlético-MG segue não disputando público com América-MG ou Cruzeiro, mas os clubes do Brasil continuam sem entender que brigam com teatros, cinemas, videogames, Amazon Prime, Netflix e tantas outras ferramentas do gênero.

A tecnologia pode potencializar o consumo no esporte e pode ajudar a construir narrativas a partir de bases que não eram usadas antes. Se esperar apenas um crescimento orgânico, contudo, o esporte acabará perdendo a chance de se beneficiar. Em vez disso, será substituído por outras formas de entretenimento.

Entretenimento, vale lembrar, é algo caro. Ainda que a atividade seja gratuita, demanda transporte, alimentação e abre outras frentes de consumo. Ir a um jogo de futebol não é simples para a realidade econômica média do Brasil. Fazer dessa experiência um episódio traumático certamente não contribui para fazer desse um investimento mais viável.

O mesmo vale para o episódio do clássico entre São Paulo e Palmeiras, disputado no sábado (16), válido pelo Campeonato Paulista. A partida contou apenas com torcedores da equipe tricolor no Pacaembu e teve uma discussão nas numeradas depois de um garoto ter supostamente vibrado quando Carlos Eduardo anotou o gol da vitória alviverde por 1 a 0.

Em vídeos gravados por jornalistas que estavam acima das numeradas é possível ver um torcedor acusando o garoto de ser palmeirense, como se isso fosse algum tipo de insulto. O pai do torcedor, de costas para o campo, responde com expressões como “e daí?” e “e se ele for?”. Depois, conclui que “queria ter mais palmeirenses sentados ao lado deles”.

Mais uma vez, uma convicção individual (o torcedor acha que não é admissível um são-paulino vibrar com um lance de efeito de um time rival) acabou afetando a experiência de quem estava no estádio e ainda vivencia a construção de uma relação com o esporte.

Depois do episódio, ainda que o pai tenha sido incisivo na defesa, outros torcedores também passaram a ameaçar o garoto. A família toda acabou deixando o Pacaembu. Que saldo será que eles tiveram da experiência de ver um jogo no estádio?

E se o garoto tiver vibrado apenas porque achou o lance bonito? E se for realmente palmeirense? Qual o problema de um garoto com coração alviverde acompanhar o pai (seja ele são-paulino ou não) em uma partida de futebol? Essa família tinha um grande potencial de consolidar uma relação de consumo com o esporte. Diante de casos como o de sábado, esse potencial é extremamente debelado.

O contraexemplo do fim de semana aconteceu na Espanha, onde o Barcelona venceu o Betis por 4 a 1 em Sevilha, casa do rival. Autor de três gols e de algumas das jogadas mais plásticas do duelo, o argentino Lionel Messi foi aplaudido de pé por grande parte do público presente. Não houve quem tentasse coibir de forma violenta essa manifestação de apoio e valorização do talento.

No Brasil, seguimos pensando que o jogo de futebol é um ambiente em que convicções individuais podem aparecer e ignorar construtos sociais. É uma seara que ainda faz pouco para que preconceitos não reverberem, por exemplo.

Do ponto de vista da comunicação, está mais do que claro que qualquer atitude separatista diminui seu potencial de público. O futebol, esporte mais popular do planeta e paixão de milhões, viveu décadas apenas aproveitando os frutos desse status. Se continuar achando que não precisa cativar seus consumidores, porém, acabará vendo pela TV o sucesso de seus concorrentes.

 

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