Universidade do Futebol

Gepeefe

24/03/2008

Repensando ambientes para a prática e aprendizagem do futebol

Desde sua origem, o futebol mudou e diversificou muito a sua prática. Da prática inicial nos campos gramados foram agregadas outras formas de jogar, por exemplo, em quadras e em campos de areia. Essas novas formas de jogar hoje são consideradas novas modalidades, com organizações, regras e regulamentos próprios e acabam se afastando da modalidade original.

Essa separação tem a sua importância, mas não podemos descartar as possibilidades de aprendizagem e de desenvolvimento do entendimento do jogo, em função da especificidade da modalidade. Fazer uma relação entre modalidades semelhantes e a prática do futebol em espaços diferentes do jogo formal, para desenvolver características ou capacidades físicas, ou ainda desenvolver movimentos semelhantes, não é tão difícil de perceber, aceitar e até utilizar.

Mas estou querendo refletir sobre a utilização de outras modalidades para estimular também o entendimento das situações de jogo, estou querendo propor que esses diferentes jogos, e diferentes espaços/ambientes de jogo provocarão novos problemas, e novos desafios aos alunos/atletas, que para superá-los deverão pensar, propor e colocar em prática novas táticas (tanto individuais como coletivas), diferentes das que ele está acostumado a utilizar.

Nas regras específicas dessas modalidades o campo de jogo tem suas determinações quanto às dimensões do campo, dos gols e das outras marcações que organizam o espaço de jogo. Implicitamente fica também determinado o tipo de piso ou superfície em que o jogo será praticado, se na grama, na areia ou na quadra (neste, pisos diferentes, mas sempre nivelados). A importância da área de jogo fica explicita já que tanto no futebol de campo, como no futsal no futebol de praia e no futevolei esta é a primeira regra a ser apresentada. Mas essa não é a única importância do espaço no jogo, pelo contrário, a importância dessa regra está justamente nas situações que o ambiente lhe proporcionará.

Refletir e repensar os espaços e ambientes do futebol são importantes para a nossa prática como professores. As nossas escolhas como professores influenciarão a aprendizagem dos nossos alunos. As possibilidades de sucesso e de fracasso nas ações do jogo podem estar associadas ao espaço/ambiente de jogo. O Prof. Roberto Rodrigues Paes apresenta o que ele chama de Jogo Possível, como uma forma de adaptação do jogo para o aluno ter sucesso na atividade realizada, motivando-o a continuar jogando e aprendendo.

O Prof. Adriano José de Souza apresenta a possibilidade de adaptação ou alteração das regras para simplificar o jogo, favorecendo a aprendizagem. Mas também é importante o dificultar o jogo, para desafiar o aluno a propor novas possibilidades de solucionar problemas. Algumas das soluções que o aluno já domina são “desconstruídas”, por exemplo, ao se vivenciar a mesma situação em um terreno diferente.

A importância do entendimento da utilização dos espaços de jogo é percebida nos estudos de Garganta, sobre os Jogos Desportivos Coletivos. Ele apresenta os indicadores e fatores de qualidade do jogo. O autor apresenta características que qualificam um jogo de fraco nível, algumas delas se relacionam direta ou indiretamente com a aprendizagem da utilização do espaço de jogo.

Todos juntos à bola;
Querer a bola só para si;
Não procurar espaços para receber o passe;
Não defender;
Estar sempre pedindo a bola ou criticando os companheiros.

Já nos fatores de desenvolvimento do bom jogo todos eles se relacionam de alguma forma com o entendimento a boa utilização dos espaços:

afastar-se do colega que tem a bola,
Passar e não conduzi-la;
Procurar os espaços vazios buscando receber o passe;
Receber a bola e olhar (ler o jogo);
Ação após o passe (se deslocar para criar uma linha de passe);
Procurar o gol (objetivo do jogo).

Outra forma de perceber essa importância é na descrição das características que o autor dá às diferentes fases de aprendizagem do jogo. Garganta apresenta ainda a comunicação na ação, a relação com a bola e a estruturação do espaço como os fatores que vão indicar um desenvolvimento da compreensão do jogo pelos aprendizes. Desde a fase do jogo anárquico, passando pela descentração e pela estruturação até chegar à fase da elaboração o aluno passa pelas etapas de aglutinação (todos em torno da bola), depois para a ocupação dos espaços do jogo dependendo da sua função no jogo, em seguida uma ocupação racional do espaço (tática individual e coletiva) e finalmente a polivalencia funcional e a coordenação das ações táticas coletivas.

Uma forma de definir compreensão como algo mais “profundo” do que entender é pensar na utilização do conteúdo entendido ou aprendido. Uma das dimensões da compreensão está na utilização ou aplicação desse conteúdo, mas de uma forma (ou em uma situação) diferente da que ele foi aprendido (POGRÉ; LOMBARDI; SIDARTA, 2006). Pensando dessa forma a utilização dos diferentes espaços na aprendizagem tem a possibilidade de estimular a aprendizagem de uma situação, num espaço em que ele possa vivenciar as dificuldades e propor as soluções dos problemas construindo um conhecimento.

A mesma atividade, ou desafio em um espaço ou terreno diferentes, podem ser tanto novas vivencias para nova aprendizagem como também uma forma de avaliar a dimensão da compreensão do aluno sobre o conteúdo proposto.

Griffiin, Mitchel e Oslin apontam a abordagem tática para a aprendizagem do futebol, e para propor esses desafios táticos são indicados algumas possibilidades de adaptação do espaço do campo e do tamanho do gol (alvo). Em todas as fases de aprendizagem os autores propõem problemas táticos relacionados com a busca do gol, defender o gol e a recolocação da bola em jogo. Em todas essas situações as diferentes formas de se compreender e utilizar os espaços são utilizadas.

Na busca pelo gol, os desafios são de manter a posse de bola, atacar o gol, criar espaços no ataque e usar os espaços no ataque. Já para defender o gol os desafios são, defender o espaço, defender o gol e ganhar a bola. Na reposição da bola em jogo, os problemas táticos estão em situações de ataque e de defesa nas cobranças de lateral, escanteio e faltas. Diferentes desafios táticos são propostos, mas a compreensão dos espaços é sempre um dos focos de reflexão dos alunos para solucionar os problemas.

Diferentes tamanhos no espaço do jogo podem proporcionar um jogo com defesa por zona ou defesa individual. Mudanças no terreno onde o jogo é realizado podem estimular o atleta a dominar a bola de formas muito diferentes, imagine as diferentes formas de se controlar a bola em um campo gramado, agora imagine essa grama seca e cortada bem baixa, a bola responderá aos pingos de forma diferente.

Agora imagine esse campo com o gramado alto e encharcado: qual a velocidade de deslocamento da bola, e como essa bola irá pingar nesse campo? As mesmas situações de jogo nesses campos diferentes irão proporcionar respostas diferentes para os mesmos problemas. Quais são as diferentes formas de se conduzir a bola em uma quadra de futsal? E no futebol de praia (beach soccer)? As formas de se tocar na bola para fazer um passe são as mesmas? E para receber (dominar) a bola?

Quantas diferenças e diferentes estratégias não são propostas e aplicadas em campos ou quadras diferentes. Imaginem o quanto se pode aprender ao se jogar em gramados diferentes, em quadras abertas ou ginásios, em quadras de areia ou na própria praia, e nos campos de “terrão”, nas ruas (hoje asfaltadas) nas garagens dos prédios, nos portões. Imagine também o quanto se pode aprender ao se ler um bom livro, uma biografia de um jogador, ou de um técnico. E quanto da cultura do futebol já não foi publicado em livros, revistas e na internet. O Prof. Wellington de Oliveira nos instiga a ir alem do habitué: “Essa experiência, virtual e instrumentalizadora, mostra-se crítico-reflexiva, pois possibilita tanto aos usuários quanto a equipe da plataforma que saiam da concha e reinventem maneiras de se fazer o futebol…”

Bibliografia

GARGANTA, Júlio. Para uma teoria dos jogos desportivos coletivos. In: GRAÇA, Amandio; OLIVEIRA, José. O Ensino dos Jogos Desportivos. 2a Porto: Universidade do Porto, 1995. p. 244. Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física.
GRIFFIN, Linda L.; MITCHEL, Stephen A..; OSLIN, Judith L.. Teaching Sport Concepts and Skills: a Tactical Games Approach. Champaign: Human Kinetics, 1997.
OLIVEIRA, Wellington de. Os caminhos para uma formação crítico-reflexiva. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2008.
PAES, R.R. A pedagogia do esporte e os jogos coletivos. In: Rose JR. Dante de (org). Esporte e Atividade Física na Infância e na Adolescência: Uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
POGRÉ, Paula; LOMBARDI, Graciela; SIDARTA, Equipe do Colégio. O Ensino para a compreensão: A importância da reflexão e da ação no processo de ensino-aprendizagem. Vila Velha: Hoper, 2006.
SOUZA, Adriano José de. É Jogando que se Aprende: o caso do voleibol. In: NISTA-PICOLLO, Vilma Leni. Pedagogia dos Esportes. Campinas: Papirus, 1999. Cap. 4, p. 55-78.

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