Universidade do Futebol

Guilherme Costa

28/07/2014

Responsabilidade

O futebol brasileiro percebeu que está em crise. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha em pleno Mineirão, pior revés da história da seleção canarinho, despejou mensagens que vão muito além dos 90 minutos ou da Copa de 2014. Tudo comunica, e isso inclui o que acontece em campo. Mas será que nós sabemos ouvir?

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reagiu à goleada sofrida na semifinal da Copa. Demitiu toda a comissão técnica, contratou Gilmar Rinaldi para ser coordenador de seleções e traçou o perfil do técnico ideal para conduzir o time: Dunga, que já havia comandado a equipe entre 2006 e 2010.

Apresentado na última terça-feira (22), Dunga disse em vários momentos que a missão atual é totalmente diferente do que ele precisou fazer na primeira passagem pela seleção. Naquela época, o time nacional vinha de uma campanha decepcionante na Copa de 2006 – eliminação para a França nas quartas de final –, trajetória que ficou muito marcada pelos problemas extracampo. Houve jogadores com problemas de peso e uma série de excessos na concentração em Weggis (Suíça) antes do embarque para a Alemanha.

A missão dada a Dunga em 2014 inclui renovação da seleção (ele havia montado o time com a média de idade mais alta da Copa em 2010), integração com a base e busca por um patamar internacional de desempenho. Mas que mensagem isso passa?

Dunga, como revelou a “ESPN”, teve envolvimento com a transferência do jogador Ederson na década passada. Gilmar Rinaldi e Taffarel, que será preparador de goleiros da nova seleção, também têm passado como empresários.

O histórico de Dunga ainda reserva outro ponto nevrálgico: o ex-volante estreou como treinador na seleção. O trabalho de 2006 a 2010, que incluiu títulos da Copa América (2007) e da Copa das Confederações (2009), foi o primeiro dele na função. A imagem que a torcida tem do técnico é a de um time eficiente e competitivo, mas pragmático e com um repertório pobre.

É isso, então: retrospecto complicado, que suscita dúvidas éticas, fracasso em Copa e responsabilidade por um time que está longe do que o torcedor almeja. Esse é o pacote que a CBF comprou quando optou por Dunga. Ele pode até ser a melhor opção, mas é certamente uma das mais complicadas no âmbito da comunicação – sobretudo porque não é uma figura simpática.

Por tudo isso, o Dunga dos primeiros dias de seleção tem sido eficiente em um aspecto que é relevante para a CBF: as atenções se voltaram a ele. O técnico é um escudo para a entidade, assim como era o antecessor Luiz Felipe Scolari. Outros profissionais teriam um poder menor de atrair holofotes.

A discussão sobre o perfil de Dunga criou discussões suficientes para desviar o foco da verdadeira necessidade do futebol brasileiro. A CBF não precisava estruturar uma nova comissão técnica ou contratar um novo técnico, mas pensar em uma nova ordem para o esporte nacional.

Entidade esportiva que mais recebe recursos privados no Brasil, a CBF subsidia a terceira e a quarta divisão do Campeonato Brasileiro. Além disso, oferece benesses aos participantes das duas primeiras esferas da competição nacional e cuida do cotidiano da seleção. E o que ela faz realmente pelo futebol?

E fazer pelo futebol não é necessariamente adotar um modelo como o da Alemanha. A CBF não precisa dominar a formação de atletas, que hoje é controlada totalmente pelos clubes, mas pode estabelecer parâmetros em uma série de áreas. Falta boa vontade e sobra jogo político.

Esse é o diapasão, por exemplo, das discussões sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. O governo federal quer aprovar o projeto até setembro deste ano, e talvez isso seja feito por meio de medida provisória. Um dos impeditivos, contudo, é a lista de contrapartidas para os clubes.

O projeto de lei que está no Congresso propõe o financiamento da dívida dos clubes, atualmente estimadas em R$ 4 bilhões, por um prazo de 25 anos. Questões como punições a clubes inadimplentes e que atrasam salários, contrapartida dos clubes e fatores de correção da dívida ainda seguem em debate.

Na sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff recebeu presentes de alguns dos principais clubes do futebol brasileiro. A conversa serviu para discutir essas contrapartidas, para desespero de alguns dirigentes. Maurício Assumpção, presidente do Botafogo, disse que a equipe não tem mais como conviver com receitas bloqueadas e ameaçou deixar o Campeonato Brasileiro se não receber ajuda.

A avaliação do próprio governo federal é que muitos clubes não conseguirão terminar o ano se o projeto de refinanciamento não for aprovado. O próprio Botafogo é o grande do Brasil que mais aumentou gastos com futebol em 2013.

E o que tudo isso tem a ver com a escolha de Dunga? Mais uma vez, a chance de mudar o futebol está aí. Podemos pensar apenas no problema pontual, que pode ser o técnico ou a incapacidade dos clubes para conviver com suas dívidas. Se o governo federal não for firme e não exigir contrapartidas contundentes, porém, vai ser apenas outro paliativo. O futebol brasileiro não pode mais viver de paliativos.

Passou da hora de o futebol brasileiro ter um projeto global, que inclua atletas, clubes, federações e CBF. Passou da hora de o esporte ser enxergado como o negócio bilionário que é. Há um potencial gigantesco, e o Brasil pode ser o maior mercado consumidor de futebol do planeta – nenhuma nação com população maior tem relação tão umbilical com a modalidade. Mas se os gestores não zelarem pelo produto e não souberem passar as mensagens corretas, os torcedores seguirão adormecidos. Nenhuma goleada vai mudar isso sozinha. 

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