Universidade do Futebol

Entrevistas

12/12/2014

Ricardo Drubscky, treinador de futebol

Os 7 a 1 aplicados pela Alemanha sobre o Brasil na última Copa do Mundo gerou um grande debate e questionamento sobre o futebol que está sendo praticado pelos times brasileiros dentro de campo e até em relação ao modelo de gestão estabelecido fora dele.

Mas, questões como infraestrutura, gestão, administração, calendário, já mostraram, ao longo dos últimos anos, que têm um impacto negativo significativo no nível do jogo apresentado no país. Porém, a goleada vexatória sofrida pela seleção brasileira também gerou uma discussão sobre o quanto as metodologias de treinamento e conceitos táticos e de formação de novos talentos estão ultrapassados quando comparados ao que é realizado em parte da Europa e até, atualmente, nos Estados Unidos.

“O que vejo com muita clareza é que a escola brasileira de futebol está confusa na forma de treinar e conceber o jogo. A ‘escola da habilidade’, aquela que desenvolve o talento individual, continua viva e frutífera. Apesar de ainda produzir talentos em quantidade e qualidade satisfatórias pode ser melhorada. Já na ‘escola do jogo’, cometemos o grande erro de, às vezes, nem sabermos que existe. Andando pelo Brasil, trabalhando com o futebol, costumamos nos assustar com a falta de discernimento sobre os princípios do jogo. Continuamos achando que os noventa minutos de uma partida de futebol são fruto exclusivamente da soma das individualidades em campo. Não conseguimos ver o poder do coletivo que transcende a soma das individualidades”, afirma Ricardo Drubscky.

Treinador do Goiás no Campeonato Brasileiro deste ano, Drubscky tem uma trajetória sólida no futebol brasileiro iniciada em 1983. Formado em Educação Física pela UFMG, angariou experiências em várias funções no esporte, como preparador físico, auxiliar técnico e gerente de futebol, além do atual cargo de técnico, profissão que já exerce há mais de 18 anos.

Com passagens vitoriosas pelos três grandes clubes de Minas Gerais (Cruzeiro, Atlético-MG e América-MG), além do Atlético-PR, e trabalhos no exterior (Equador, Japão e Portugal), Drubscky aponta a falta de integração entre as diferentes áreas pedagógicas e científicas como um dos grandes problemas encontrados nos clubes brasileiros.

“No Brasil, ainda somos mais multi e interdisciplinar que transdisciplinar. Existe uma diferença grande na interpretação e utilização destes conceitos. A metodologia sistêmica requer uma atuação transdisciplinar de todas as ciências que interferem na construção do trabalho de campo”, completa.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, Ricardo Drubscky ainda fala sobre quais seriam os caminhos para mudar este cenário e os desafios ainda existentes para os treinadores que atuam no futebol brasileiro. Confira:

 

Universidade do Futebol – Como você pensou e sistematizou a forma de jogar do Goiás, seu último trabalho? Há uma linha metodológica semelhante à realizada por você em seus outros clubes do futebol brasileiro?

Ricardo Drubscky – Os últimos quatro anos da minha carreira de treinador foram norteados por um novo formato de trabalho. Hoje sou adepto, cada vez mais convicto e consciente, da metodologia sistêmica de treinos. Venho percebendo coincidências positivas nas respostas de campo dos meus últimos trabalhos.

O que vi o Goiás fazer em várias partidas do Campeonato Brasileiro deste ano foi o mesmo que vi nas outras equipes anteriormente dirigidas por mim. Todas sob a mesma orientação metodológica.

Nós, treinadores, ainda somos autodidatas por força das necessidades. Há trinta e dois anos militando no futebol, sempre procurei oportunidades de formação para a minha carreira de treinador de futebol, mas não encontrava o que me atendia. Isso não é sem motivo. Se ainda somos trabalhadores sem “reconhecimento profissional”, como haveríamos de ter cursos que nos formassem para o mercado?, questiona

Universidade do Futebol – O trabalho realizado pelas comissões técnicas do Goiás era interdisciplinar? Como se dava a integração entre as diferentes áreas pedagógicas e científicas?

Ricardo Drubscky – No Brasil, ainda somos mais multi e interdisciplinar que transdisciplinar. Existe uma diferença grande na interpretação e utilização destes conceitos. A metodologia sistêmica requer uma atuação transdisciplinar de todas as ciências que interferem na construção do trabalho de campo.

No Goiás, assim como deve acontecer na maioria dos clubes brasileiros, estávamos aprendendo a viver este momento de novas ideias. Enquanto isso, procuramos interferir no espaço que nos cabe procurando o entendimento da nossa comunidade. Acho que isso é um processo que deve obedecer alguns passos para chegar aos objetivos conclusivos.

Por tudo que aconteceu no futebol brasileiro nos últimos dois ou três anos, estamos perdendo a oportunidade de promover um grande fórum de debates para discutirmos as verdadeiras necessidades do nosso esporte predileto, afirma Ricardo Drubscky

Universidade do Futebol – Alguns clubes investem nas categorias de base para a formação de jogadores para a equipe profissional ou para transferência a outros clubes. Outros têm esse discurso, mas na prática mantêm todas as energias para vencer as competições que disputam, muitas vezes mascarando a intenção através desse discurso. Como isso funcionava no Goiás?

Ricardo Drubscky – Para falar a verdade, sofremos no Goiás os mesmos problemas que outros clubes brasileiros. Somos uma mescla de formadores de atletas e conquistadores de títulos [nas categorias de base].

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Universidade do Futebol – Em se pensando o futebol no aspecto humano e social, você acredita que a influência da cultura condiciona um determinado tipo de comportamento? Ainda é possível se falar em escolas regionais de futebol no Brasil?

Ricardo Drubscky – Isso já foi mais evidente no passado do futebol brasileiro. Hoje vemos traços de cultura regional no jogo de determinadas equipes ou na atuação de alguns jogadores. A região Sul do Brasil está cheia de nordestinos e o Nordeste está cheio de sulistas, só para citar um exemplo.

Os treinadores também estão migrando de todas as regiões em busca do trabalho. Além do mais, os conceitos que movem o futebol moderno se globalizaram e estão mais ou menos espalhados pelo mundo.

Para o treinador, as questões estruturais e organizacionais do futebol brasileiro (infraestrutura, gestão, administração, calendário, etc.) têm um impacto negativo significativo no nível do jogo apresentado no país

Universidade do Futebol – Como detectar aspectos de liderança nos seus jogadores? Você procura executar exercícios específicos para potencializar essa capacidade em determinados atletas? Como você trabalha essa questão?

Ricardo Drubscky – Estar atento ao comportamento dos jogadores em várias situações do dia a dia de trabalho é um fator importante para detectar potencialidades. Exerço uma liderança democrática, o que acredito ser um fator que contribui para o despertar dos talentos no grupo.

Na medida em que todos os componentes da equipe são bem orientados e com oportunidade de participarem das decisões, se sentem confortáveis e confiantes para se manifestarem. Isto cria um ambiente de autoconfiança coletiva e individual. O ser humano se transforma nestas circunstâncias.

Por tudo que aconteceu no futebol brasileiro nos últimos dois ou três anos, estamos perdendo a oportunidade de promover um grande fórum de debates para discutirmos as verdadeiras necessidades do nosso esporte predileto, afirma Ricardo Drubscky

Universidade do Futebol – O tempo que se tem para mostrar resultado no futebol brasileiro é extremamente escasso. Como você vê a sua atuação profissional diante desta questão que, aparentemente, não irá mudar?

Ricardo Drubscky – Com muita indignação. O grande problema do jogo brasileiro está na sua falta de identidade tática. Isto é consequência direta da falta do trabalho longo e sistematizado. O treinador que consegue este tempo é aquele que passa pelo período crítico inicial sem grandes tropeços. Se tiver competência, acaba levando adiante o projeto de construção do jogo e conquista títulos.

Em complemento a esta resposta, costumo dizer que no futebol brasileiro só perdura o treinador de vitórias. Aquele que tem derrotas em seu período inicial de trabalho, ainda que competentes em suas atribuições, não permanecem devido à “pressão burra” que move grande parte das atitudes no futebol brasileiro.

Em curto prazo, parece que estamos dando soluções aos problemas, mas só fazemos enraizar sequelas crônicas difíceis de sarar mesmo no longo prazo. O jogo brasileiro está padecendo.

Os últimos quatro anos da minha carreira de treinador foram norteados por um novo formato de trabalho. Hoje sou adepto, cada vez mais convicto e consciente, da metodologia sistêmica de treinos. Venho percebendo coincidências positivas nas respostas de campo dos meus últimos trabalhos, analisa o profissional

Universidade do Futebol – Fala-se muito que os treinadores e os jogadores brasileiros são atrasados taticamente em relação ao futebol europeu, mas pouco se discute quais são estes atrasos. Em sua opinião, quais as principais diferenças na organização do jogo em nível tático? Seja ele individual, de pequenos grupos ou coletivo?

Ricardo Drubscky – Não quero discriminar conteúdos que estão sendo mal trabalhados no futebol brasileiro. Seria muito pouco para responder uma pergunta de cunho filosófico como esta. O que vejo com muita clareza é que a escola brasileira de futebol está confusa na forma de treinar e conceber o jogo.

A “escola da habilidade”, aquela que desenvolve o talento individual, continua viva e frutífera. Apesar de ainda produzir talentos em quantidade e qualidade satisfatórias pode ser melhorada. Já na “escola do jogo”, cometemos o grande erro de, às vezes, nem sabermos que existe. Andando pelo Brasil, trabalhando com o futebol, costumamos nos assustar com a falta de discernimento sobre os princípios do jogo. Continuamos achando que os noventa minutos de uma partida de futebol são fruto exclusivamente da soma das individualidades em campo. Não conseguimos ver o poder do coletivo que transcende a soma das individualidades.

Nós, treinadores brasileiros, estamos inseridos nesta “cultura míope” de leitura e concepção do jogo e incorremos no mesmo erro. Quando começarmos a enxergar o jogo com outros olhos, tudo, mas tudo mesmo, passará a mudar para melhor no ambiente das quatro linhas.

Sofremos no Goiás os mesmos problemas que outros clubes brasileiros. Somos uma mescla de formadores de atletas e conquistadores de títulos nas categorias de base, diz o técnico Ricardo Drubscky

Universidade do Futebol – Você acredita que as questões estruturais e organizacionais do futebol brasileiro (infraestrutura, gestão, administração, calendário, etc.) têm um impacto significativo no nível do jogo apresentado no país?

Ricardo Drubscky – Claro. A partir do momento que um clube joga às quartas e aos domingos durante meses e num país de dimensões continentais, como treinar e recuperar os jogadores e a equipe para os jogos? Com tantas competições no ano, o jogo ficou banalizado. Os campeonatos estaduais só valem pelos jogos finais que apresentam.

Mesmo assim, em todos os estados, os últimos jogos tiram o brilho do início da competição mais importante do calendário – o Campeonato Brasileiro. É preciso pensar muito seriamente o calendário brasileiro. Aliás, quem pensa tecnicamente o futebol brasileiro? Esta frase é do técnico Enderson Moreira e eu não sei se ele me permitiria expressá-la. Se não, fico devendo uma para ele.

No Brasil, ainda somos mais multi e interdisciplinar que transdisciplinar. Existe uma diferença grande na interpretação e utilização destes conceitos. A metodologia sistêmica requer uma atuação transdisciplinar de todas as ciências que interferem na construção do trabalho de campo, explica Drubscky

Universidade do Futebol – Em sua opinião, quais seriam os caminhos para mudar este cenário?

Ricardo Drubscky – Algumas coisas já têm sido feitas, mas em pequena escala. Um grande problema que acomete as decisões no Brasil é não sairmos do “politicamente correto”. Para não ferir vícios políticos vigentes e ou interesses, costumamos contornar várias de nossas atitudes para não confrontar o sistema vigente.

Por tudo que aconteceu no futebol brasileiro nos últimos dois ou três anos, estamos perdendo a oportunidade de promover um grande fórum de debates para discutirmos as verdadeiras necessidades do nosso esporte predileto.

Uma “carta de intenções”, ou coisa parecida, poderia sair de uma discussão ampla de vários setores do futebol, quando os problemas e possíveis soluções seriam apresentados. Tenho certeza que teríamos saídas dignas ao crescimento do nosso futebol.

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Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre a formação do treinador de futebol no Brasil? Quais os principais desafios e perspectivas?

Ricardo Drubscky – Nós, treinadores, ainda somos autodidatas por força das necessidades. Há trinta e dois anos militando no futebol, sempre procurei oportunidades de formação para a minha carreira de treinador de futebol, mas não encontrava o que me atendia. Isso não é sem motivo. Se ainda somos trabalhadores sem “reconhecimento profissional”, como haveríamos de ter cursos que nos formassem para o mercado?

Existem muitas iniciativas louváveis por todo o Brasil. Confesso que nos últimos anos têm aparecido bons cursos para serem frequentados. Todos, produção independente e bem intencionada.

A CBF, há cinco anos, vem disponibilizando um curso de formação de treinadores que tem sido dos melhores que eu já vi no Brasil em todos estes meus anos de futebol. Faço parte dele como um dos idealizadores e professores e vejo neste projeto a solução mais viável à capacitação dos treinadores e futura regulamentação da profissão no cenário brasileiro.

Gostaria que as autoridades competentes do nosso país o vissem com o respeito que merece e não com os olhos de quem acha que podiam ter chegado primeiro para tomar o lugar e fazer. Muita gente boa está à frente deste projeto que tem tudo para ser a solução em curto espaço de tempo para muitos dos problemas do futebol brasileiro.

Há alguns anos, a Universidade do Futebol também vem fazendo um trabalho em alto nível desenvolvendo o conhecimento científico do futebol. Também é parceiro do curso de treinadores da CBF, o que me faz acreditar que vamos caminhar com mais firmeza para o sucesso desse projeto.

 

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Comentários

  1. João Lucas disse:

    Artigo muito bom e informativo, gostei! Parabéns!

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