Ricardo Oliveira, engenheiro e coach do Atlético-MG

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Ele não entra em campo, mas pode ser tão importante para o seu time sair vencedor de uma partida quanto qualquer outro aspecto que influencie o rendimento dos jogadores em campo.

Ainda desconhecido pela maioria dos torcedores e descriminado por muitos profissionais do futebol, o coach pode ser fundamental dentro de um processo de amadurecimento dos atletas nos clubes e do consequente ganho de confiança para que se atinjam os resultados dentro do âmbito esportivo.

Atenta a esta profissão ‘nova’ no cenário do futebol brasileiro, a diretoria do Atlético-MG trouxe Ricardo Policarpo de Oliveira para trabalhar nos bastidores da equipe durante a boa temporada que fez em 2012.

"O coach busca potencializar as qualidades dos indivíduos. No futebol brasileiro, por exemplo, se não houver um trabalho de coach e de um psicólogo, vamos continuar formando Adrianos, Jóbsons, Brunos, enfim. Estamos perdendo muitos garotos que poderiam se tornar craques por causa do comportamento", disse, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Para Ricardo Oliveira, boa parte da culpa do mau comportamento dos jogadores brasileiros se deve aos treinadores, que não contam com uma formação adequada para o exercício pleno desta função que exige conhecimentos de gestão de pessoas.

"Para mim, este é o grande problema do futebol brasileiro. Os clubes querendo ajudar aos seus ex-atletas em difícil situação financeira, os contratam para serem treinadores das categorias de base. Muitos destes ex-atletas não possuem graduação ou qualquer tipo de curso ou treinamento. Possuem apenas a experiência como ex-atletas, o que é importante. Porém, muitos deles tiveram maus comportamentos como atletas. Com isso, como conseguirão formar cidadãos?", questiona.

"A boa prática do Atlético-MG pode ser seguida. No clube mineiro, todos os treinadores e preparadores físicos das categorias de base possuem graduação em Educação Física, não são ex-jogadores e possuem na sua comissão técnica um auxiliar técnico, que é um ex-jogador profissional do clube", completa.

Nesta entrevista, Ricardo Oliveira, que ainda conta com uma formação em engenharia industrial, fala sobre os conflitos que a sua área tem com treinadores e psicólogos, além de como o trabalho de um coach pode contribuir para a retomada da credibilidade do futebol brasileiro. Confira:

Universidade do Futebol – Qual seria uma formação mínima para um profissional poder iniciar uma carreira como coach dentro do universo esportivo?

Ricardo Oliveira – Há cursos específicos para isso. No Brasil, as mais conhecidos são do IBC (instituto Brasileiro de Coach), em Goiânia, e da Sociedade de Coach em São Paulo. As formações são parecidas. A primeira etapa, chamada de Professional Self Coach, tem oito dias de duração e é voltada para você, primeiramente, se conhecer melhor, pois só assim você pode depois contribuir com os seus clientes. Passando por esta graduação, o profissional fica de uma forma mais fortalecida para ajudar os clientes. Após esta etapa, já se pode atender pessoas físicas. Depois disso, temos a segunda formação, que também dura oito dias, chamada de Business Executive Coach, que é direcionada para se trabalhar com executivos das empresas. Já o Master Coaching é o último estágio do coach. São mais sete dias de formação. Nesta fase, ocorrem aquelas dinâmicas como andar sobre a brasa, quebrar madeira, entre outras. Você sai desta formação muito mais preparado para atender seus clientes e conseguir os resultados. Digamos que ficamos bastante ’empoderados’. Eu fiz todas estas etapas. No entanto, para você fazer um curso de coach não precisa ter nenhuma graduação anterior. Porém, se você for um profissional de alguma área que depois você irá atuar diretamente como coach, com certeza, terá mais conhecimento que alguém que não é. Os resultados virão mais rápidos se você tiver um conhecimento na área em que atua como coaching. No meu caso, por exemplo, sou ex-jogador e atendo agora atletas. Então, isso ajuda, pois tenho a experiência de saber um pouco mais sobre os bastidores. Um profissional com pouca experiência no ramo de atividade que ele atende, tem-se mais dificuldades para se chegar aos resultados. Mas nada impede também deste mesmo profissional de coaching obter sucesso mesmo sem esta experiêcia prévia.

O coach Ricardo Oliveira, ao lado do meia Ronaldinho Gaúcho, durante trabalho que realizou no Atlético-MG nesta temporada

Universidade do Futebol – As técnicas de coaching podem ser aplicadas em qualquer ambiente profissional? Quais são as principais diferenças e semelhanças, neste sentido, entre os mundos corporativo e do futebol?

Ricardo Oliveira – O coaching pode ser aplicado em qualquer ambiente. Porque o foco dele é o resultado. O processo dele é parecido com o de uma terapia com psicólogo, com sessões de 1h30, geralmente. Então, o formato de atendimento é parecido com o de um psicólogo. Mas o coach tem o foco no resultado. Qualquer resultado que seja mensurável, você pode contratar um coach para ajudar tanto em assuntos pessoais quanto em assuntos profissionais. Se a pessoa quer emagrecer, melhorar o relacionamento com a esposa, tudo isso se pode contratar um coach. Só é preciso definir exatamente qual o resultado a ser atingido. O processo de coach é o método mais eficaz para o desenvolvimento humano pessoal ou profissional. Um conceito que gosto muito de dar é o seguinte: ‘o coaching é o personal trainer da mente’. Para mim, o processo de mudança comportamental serve para os dois mundos, corporativo e futebol, pois o grande benefício é o desenvolvimento das pessoas. O coach busca potencializar as qualidades dos indivíduos. No futebol brasileiro, por exemplo, se não houver um trabalho de coach e de um psicólogo, vamos continuar formando Adrianos, Jóbsons, Brunos, enfim. Estamos perdendo muitos garotos que poderiam se tornar craques por causa do comportamento. E na área corporativa, é a mesma coisa. É muita arrogância da chefia ou funcionários faltando no trabalho muitos dias e arrumando atestado. Então, vejo os benefícios comuns a estas duas áreas.

Universidade do Futebol – Como ocorre a integração do seu trabalho com a de um profissional especializado em psicologia do esporte e, propriamente, com a da comissão técnica?

Ricardo Oliveira – Eu tenho uma preocupação grande quando chego a um clube. Primeiramente, o treinador precisa entender o que é coaching e que isso não é para tomar o lugar dele. A n
ossa chegada a uma instituição é para ajudar estes profissionais a melhor entender os atletas, terem mais condições para atingirem melhores resultados. Também sempre procuro me apresentar ao psicólogo, que tem muita restrição ao coaching. Eles acreditam que o coach irá tomar as vagas deles nos clubes, mas não é verdade. Os trabalhos destes profissionais são complementares e não concorrentes. A atuação do psicólogo é analisar o passado para tentar entender o atleta, buscar as causas dos bloqueios e dos comportamentos inadequados na atualidade. Já o coach trabalha com o presente visando o futuro. Já tive casos que os clubes queriam contratar um coach, mas sugerimos a contratação de um psicólogo. Meu trabalho é levar, por exemplo, os garotos das categorias juvenil ou júnior a acreditarem que podem chegar ao profissional. Se o Adriano me contratasse, por exemplo, talvez eu não conseguisse tirá-lo desta situação porque precisaria levantar o passado dele para tentar entender o comportamento atual. Ele viu muita coisa errada no passado, o ambiente em que ele viveu a infância, tudo isso influencia. Então, eu procuro conversar com a psicóloga para explicar que o coach é complementar à psicologia esportiva. Os psicólogos e treinadores têm de ser meus aliados dentro do clube. Mas não é o que acontece. Ainda temos muita vaidade entre os profissionais do futebol.

O especialista afirmou que a sua intenção é de continuar a implantação da cultura de coaching na Cidade do Galo, o centro de treinamento do clube mineiro

Universidade do Futebol – Conte-nos como foi o processo de coaching implantado no Atlético-MG? Quais foram os principais resultados obtidos? Você pode exemplificar quais técnicas foram utilizadas dentro do processo de coaching no clube mineiro e com quais objetivos ou expectativas?

Ricardo Oliveira – Primeiramente, realizei uma avaliação do cenário atual das categorias de base do clube, ou seja, como é a gestão, a estrutura disponibilizada aos garotos, os profissionais que os acompanham, assistente social, psicólogo, nutricionistas, comissões técnicas, como é a educação escolar, o departamento médico, etc. Em seguida, acompanhei alguns treinamentos. Realizei um Coaching Education (Palestra de Coaching) no auditório com quase todos os 107 garotos que moram no CT do Galo, evidenciando principalmente para que eles mantenham o foco em serem jogadores de futebol, porém, sem descuidar dos estudos. A terceira etapa foi um treinamento de ‘líder coach’, de 24 horas no CT, para todos os profissionais das comissões técnicas, gerentes, supervisores, treinadores, preparadores físicos, auxiliares técnicos, observadores técnicos, das categorias de base, mirim, infantil, juvenil e júnior. O supervisor do departamento profissional e o Dadá Maravilha também participaram do treinamento. O objetivo deste treinamento foi a divulgação da essência do coaching orientada para uma liderança mais preparada para a formação de cidadão e, depois de atletas. Lembrando que o processo coaching é levar o cliente de um cenário atual ao cenário desejado, através de vários encontros, utilizando-se de ferramentas e metodologias, onde, o próprio cliente identificará a necessidade de realização de tarefas e a potencialização das suas habilidades e competências, visando melhores resultados e aumento do desempenho dos seus profissionais. A minha intenção é de continuar a implantação da cultura de coaching na Cidade do Galo.

Universidade do Futebol – Qual a abordagem que deve ser dada num trabalho que é direcionado para resolver os problemas de maus comportamentos de atletas?

Ricardo Oliveira – Primeiramente, seria necessário que os profissionais que comandam o futebol fossem pessoas mais preparadas e capacitadas para tal. Isto porque, o comportamento inadequado de um atleta boleiro precisa ser analisado de todos os ângulos. Para se ter uma ideia, as causas destes comportamentos quase sempre vem de uma infância difícil do atleta. Uma competência desconhecida do vocabulário dos profissionais do futebol brasileiro é a inteligência emocional. Precisamos entender os nossos sentimentos e nossas reações emocionais e também das pessoas que estão em nossa volta. A PNL (Programação Neurolinguística) é uma metodologia coadjuvante ao coaching. Dela, sabemos que todo comportamento é resultado do estado mental, ou seja, das representações internas, fisiologia e das crenças das pessoas. Utilizando as suas ferramentas, o profissional coach poderá conseguir resultados ainda mais rápidos com os seus clientes.

É preciso buscar junto aos dirigentes do futebol, comissões técnicas e empresários de jogadores a conscientização sobre a importância da formação dos garotos como atletas e cidadão e não boleiros, aponta o coach

Universidade do futebol – Quais as principais distinções de um trabalho de coaching realizado nas categorias de base de um clube de futebol, em comparação ao seu departamento profissional?

Ricardo Oliveira – Como o Carlos Alberto Parreira disse em uma entrevista, todos os clubes de futebol deveriam ter um profissional de coaching, trabalhando desde as categorias de base. Concordo plenamente com ele. Até porque, um conceito mais adequado do coaching aos esportistas é ‘o coach é um personal trainer da mente’. Desta forma, os garotos das categorias de base seriam acompanhados também por um coach e poderiam atingir os seus objetivos mais rápidos, tornando-se cidadão e atletas profissionais. Ou seja, na base os atletas ainda não atingiram o objetivo de se profissionalizar, precisam de se conscientizar das dificuldades que terão e que, ao longo deste caminho, muitos ficarão para trás. Não podem se descuidar dos estudos e, caso seja necessário, precisam tomar a decisão de escolher outra carreira profissional. Já no departamento profissional, os atletas procuram o coach para ajudarem a escolher o que fazer, ou qual carreira profissional seguir assim que encerrarem a carreira de jogadores profissionais. Os profissionais do futebol são muito conservadores.

Universidade do Futebol – Os treinadores que são apenas ex-atletas e apostam somente na sua experiência prática adquirida para o exercício da profissão são preparados para desenvolver um trabalho de formação de garotos como cidadãos e atletas?

Ricardo Oliveira – Para mim, este é o grande problema do futebol brasileiro. Os clubes querendo ajudar aos seu
s ex-atletas em difícil situação financeira, os contratam para serem treinadores das categorias de base. Muitos destes ex-atletas não possuem graduação ou qualquer tipo de curso ou treinamento. Possuem apenas a experiência como ex-atletas, o que é importante. Porém, muitos deles tiveram maus comportamentos como atletas. Com isso, como conseguirão formar cidadãos? A boa prática do Atlético-MG pode ser seguida. Neste clube, todos os treinadores e preparadores físicos das categorias de base possuem graduação em Educação Física, não são ex-jogadores e possuem na sua comissão técnica um auxiliar técnico, que é um ex-jogador profissional do clube.

Ricardo Oliveira realizou um trabalho com quase todos os 107 garotos que moram no CT do Galo, direcionando-os a manter o foco em serem jogadores de futebol, porém, sem descuidar dos estudo

Universidade do Futebol – Como o trabalho de um coach pode contribuir para a retomada da credibilidade do futebol brasileiro?

Ricardo Oliveira – Em minha opinião, o Brasil era o melhor do mundo no futebol porque possuía jogadores geniosos, sem a necessidade de treinadores conhecedores e estudiosos na gestão de pessoas. Mesmo assim, temos vários exemplos de jogadores geniosos que se perdiam nas noitadas, mulheres e bebidas. Atualmente, estes jogadores geniosos estão escassos e, dependemos de esquemas táticos inexistentes para formarmos boas seleções. Porém, não temos bons treinadores e, principalmente, bons formadores de atletas e cidadãos de caráter. Precisamos buscar junto aos dirigentes do futebol, comissões técnicas e empresários de jogadores a conscientização sobre a importância da formação dos garotos como atletas e cidadão e não boleiros, sobre a preparação e especialização de treinadores adequados para formação dos jovens atletas (treinadores com a filosofia do líder coach), sobre a mudança comportamental de todos os profissionais do esporte através de um novo modelo mental, sobre o desenvolvimento da inteligência emocional para compreensão dos nossos sentimentos, reação emocional e comportamentos, já que, os comportamentos são efeitos das emoções, sobre a identificação e substituição dos valores pessoais e das crenças limitantes por crenças fortalecedoras (modelo mental), e importante: evitar a admissão de ex-jogadores para o cargo de treinadores nas categorias de base. Geralmente, são ex-atletas em dificuldades financeiras, sem condições de ajudar na educação e preparação desses garotos, já que, quase sempre são pessoas problemáticas, que tiveram também uma infância difícil, baixa escolaridade, tiveram comportamentos inadequados enquanto atletas. Torna-se um círculo vicioso, vão conseguir formar boleiros e não atletas. Em contrapartida, caso estes ex-atletas buscassem uma formação e capacitação, poderiam se tornar grandes treinadores. O trabalho da AGAP (Associações de Garantia ao Atleta Profissional) neste sentido é maravilhoso.

Universidade do Futebol Em sua opinião, em qual perfil o futebol brasileiro precisa de mais evolução tanto nos aspectos emocionais quanto nos comportamentais: no jogador, no técnico ou nos gestores? Por quê?

Ricardo Oliveira – Enquanto os clubes brasileiros não investirem na psicologia esportiva e no coaching como processos complementares para serem aplicados na rotina diária de todos os profissionais do futebol, continuaremos a ver o futebol brasileiro nesta queda livre nos resultados e ranking mundial. Logo, como no Brasil ainda existe uma matéria-prima boa de atletas, precisamos agir rápidos na preparação da nossa liderança, ou seja, treinadores mais preparados para ensinar, desenvolver e formar os atletas, primeiramente como bons cidadãos. Esta mudança de comportamento se faz necessário com urgência para a retomada da credibilidade do esporte no país. Os empresários dos atletas também estão contribuindo negativamente para a formação de boleiros e não atletas.

Ricardo Oliveira, ainda atleta, pelo time do Atlético-MG. Em pé: Ailton, Ocimar, Cleber, Mauro e Cláudio; agachados: Juliano, Artur, Rosetti, Ricardo Oliveira, Moacir e Welington

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