Universidade do Futebol

Entrevistas

17/08/2012

Ricardo Paraventi, treinador na Academia VA Toppers

Mianmar vive um período de retomada desenvolvimentista. O país que chegou a ostentar um dos celeiros futebolísticos mais sólidos da Ásia, vice-campeão da Copa Asiática de Seleções em 1968 e duas vezes medalhista de ouro nos Jogos Asiáticos, em 1966 e 1970, hoje procura findar o período de jejum que dura aproximadamente quatro décadas.

A nação, antes conhecida como Birmânia, sofreu com os desempenhos mais recentes. A primeira participação em uma competição classificatória à Copa do Mundo, por exemplo, só se tornaria realidade cinco anos atrás. Na ocasião, porém, os birmaneses foram massacrados, tomando 11 gols sem marcar nenhum nas duas partidas contra a China pela primeira fase das eliminatórias para o Mundial da África do Sul.

Desde o ano passado, a Fifa estimulou o projeto Goal no país, que consistiu na construção de uma academia de futebol na cidade de Mandalay, e lançou a pedra fundamental de uma quarta obra do projeto, que irá ampliar o centro de treinamento juvenil da antiga capital Yangon.

Em meio a esse processo, um brasileiro chegou a trocar experiências com os locais, oferecendo conteúdo, e aprendendo muito em termos culturais e sociais: Ricardo Paraventi.

O brasileiro formado em Educação Física e com especialização em Fisiologia do Esforço Físico já havia rodado por diversos clubes brasileiros antes de receber um convite de um compatriota para migrar para o continente asiático. E aprovou.

“Com certeza viver outras culturas como tenho vivido ao longo da minha carreira mesmo que por pouco tempo faz a gente abrir e ampliar os nossos horizontes”, revelou Paraventi, que hoje atua em uma academia de futebol na Holanda, outra escola importantíssima da modalidade no cenário mundial.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, o treinador fala mais sobre as adversidades vividas em Mianmar, como o esporte e os profissionais brasileiros são vistos por lá e de que forma os holandeses entendem a formação de novos talentos.

“Aqui se presa muito a parte mental. Não dá para ser apenas técnico, ou tático, ou físico, ou mental: o atleta profissional de futebol tem que ter todas as capacidades desenvolvidas ao máximo, mesmo que uma se sobressaia à outra”, sintetizou.
 

Universidade do Futebol – Em primeiro lugar, fale um pouco sobre sua formação acadêmica, bem como seu ingresso e a trajetória no futebol profissional.

Ricardo Paraventi – Sou Professor de Educação Física formado pela Universidade Ibirapuera, com Especialização em Fisiologia do Esforço Físico na Universidade de São Paulo.

Iniciei no futebol como estagiário no Centro Esportivo Educacional do Butantã, onde pude dar meus primeiros treinos para crianças e adolescentes. Depois, ainda como estagiário, fui acompanhar o Nacional Atlético Clube na categoria juniores.

Um tempo depois, estava como preparador da categoria juvenil e assim, dentro do próprio clube, pude passar ao longo dos anos por todas as categorias. A oportunidade dentro do profissional apareceu depois que conquistamos um título em Itu, num torneio internacional.

O treinador da equipe à época me deu a oportunidade de auxiliar nos trabalhos do grupo principal.

Aí apareceram convites vindos do próprio treinador que estava no Nacional para outras equipes, como Desportiva Capixaba-ES, Esporte Clube União Suzano-SP, CRB-AL, Barueri–SP e passagens rápidas por Esporte Clube Osasco-SP e Guaratinguetá-SP.

Fora do país, estive em países como Inglaterra estudando junto à Football Association; em Omã, a serviço do treinador da seleção sub 20 e acompanhando o time local; em Mianmar, no Yadanarbon FC, e hoje na Academia de Futebol VA Toppers, na Holanda.

Universidade do Futebol – Como surgiu a oportunidade de trabalhar em Mianmar? Já era algo planejado, ou apareceu realmente como outra possibilidade qualquer?

Ricardo Paraventi – No futebol é assim: quando você menos espera, a oportunidade aparece. E apareceu. Quando eu digo aparece, desde que você busque, claro, e se mostre interessado.

O convite feito pelo treinador brasileiro que assumiu a equipe. Ele foi contratado através de um amigo que indicou os demais.

Tive algumas conversas para definir o acerto e comecei o trabalho na sequência.

Oportunidade surgida para atuar em Mianmar foi aceita por Paraventi, que aprovou a troca de experiência sócio-cultural

 

 

Universidade do Futebol – A sua adaptação ao idioma local aconteceu com facilidade?

Ricardo Paraventi – O idioma local é muito difícil de se aprender. A comunicação era feita em inglês, com um tradutor. Não posso deixar de dizer que quando se está fora do seu país, é sempre bom aprender a língua local ou os costumes: isso cativa o povo.

Palavras básicas, como “bom dia”, “obrigado”, além de alguns comandos, como “corre rápido”, “vamos”, facilitam a adaptação.

Com o tradutor, fica um pouco mais fácil, mas ainda assim acredito muito na demonstração na prática, fazendo entender no campo.

A língua é a mesma no futebol, e todos entendiam as nossas orientações nos treinamentos.
 

 

 

Treinamento intercultural: uma ferramenta para aprimorar o treinamento em campo

 
 
 

Universidade do Futebol – Qual é a importância dessa interação com outras culturas para o desenvolvimento de sua carreira?

Ricardo Paraventi – Com certeza viver outras culturas como tenho vivido ao longo da minha carreira mesmo que por pouco tempo faz a gente abrir e ampliar os nossos horizontes.

Até mesmo no Brasil, quando jogava o campeonato de futebol society da Federação Paulista, vivia isso: nosso time tinha não só católicos, como também judeus. Por isso, não fazíamos uma reza geral, e sim cada qual ao seu tempo determinado, respeitando outras crenças.

Em Mianmar muda muito. O Budismo é levado a sério e é muito respeitado por eles; assim, temos sempre que respeitar mais ainda, principalmente quando não estamos em nosso território. Essas adaptações são necessárias para o andamento do trabalho.

Quando você deixa até mesmo a sua cidade natal dentro do Brasil e vai para outra, como eu fiz, já percebe diferenças na maneira de como surgem e como se trabalha com jogadores de base e profissional.

Nosso país é multicultural e temos influências de todos os continentes. Agora, você sair e morar em outros continentes e países de culturas diferentes e metodologias diferentes só vai somar e agregar ao seu conhecimento: trata-se de uma experiência profissional ótima e uma lição em todos os aspectos, mesmo indo para um lugar onde o futebol está recomeçando ou começando a se desenvolver.

Quando você vive outras culturas e outras metodologias, com o seu conhecimento adquirido, seja ele na universidade ou na vida profissional, você soma o que pode ser utilizado dentro do seu padrão da sua linha de raciocínio. A partir disso, monta a própria metodologia e maneira de trabalho.

Tem uma frase de um cantor já falecido, o Chico Science, de que gosto muito: “Um passo a frente e você já não está no mesmo lugar”. É assim que vejo e é importantíssimo essa experiência nacional e internacional.

 

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Universidade do Futebol – Como você classificaria a estrutura de trabalho (centro de treinamento, departamentos médico e de fisiologia, integração com profissionais ligados às Ciências do Esporte, etc.) nos clubes de Mianmar?

Ricardo Paraventi – No clube em que trabalhei classificaria como nula. Fazíamos tudo e ainda hoje acredito que tudo fica a cargo do treinador, desde observar até tomar as decisões cabíveis. Por isso o time investiu em profissionais estrangeiros, para poder evoluir.

Atualmente são 14 clubes disputando a principal liga nacional, e acredito que quatro ou cinco destes têm uma estrutura razoável. Os demais ainda são amadores nesse aspecto de comissão técnica, fisiologia, médico, preparação física e tudo mais.

Os campos onde acontecem os jogos, em sua maioria, são bons e alguns, excelentes. Como no clube em que trabalhei fazíamos e éramos responsáveis por tudo, não podíamos deixar passar nada.

Os profissionais designados eram amadores, e por isso o trabalho ficava mais difícil. Toda a organização e as questões gerenciais ficavam a cargo da comissão técnica e do treinador.

“Toda a organização e as questões gerenciais ficavam a cargo da comissão técnica e do treinador”, revela Paraventi

 

 

Universidade do Futebol – Mianmar é representada pela seleção birmanesa, que foi uma das melhores da região nas décadas de 1960 e 1970. Os resultados pararam de vir depois disso. Por quê? Há programas de desenvolvimento promovidos para ajudar o país a se reconciliar com o passado glorioso?

Ricardo Paraventi – Essa pergunta é muito interessante, pois em abril fizemos uma viagem à Tailândia onde pudemos constatar esse sucesso da seleção da Birmânia, hoje Mianmar. Na época ainda provavelmente estes representantes faziam parte do exército, então, com uma disciplina e condição física melhores, puderam conquistar vitórias importantes. Acredito que foi isso.

Depois, com o regime fechado, tudo mudou: pouco se fez pelo futebol no país, que não evoluiu, enquanto os outros países asiáticos foram se desenvolvendo e crescendo, investindo na contratação de estrangeiros para contribuir com o crescimento do futebol em seus países.

Tecnicamente em Mianmar eles são bons, em relação a controle de bola, passe e até mesmo finalização. Mas o trabalho está todo no começo ainda.

Sobre a segunda parte da questão, o país está investindo e hoje conta com um centro de formação de jogadores para a seleção de Mianmar, algo completo, que acompanha os garotos e seleciona os melhores.

Por causa disso, houve o ressurgimento do futebol e da liga que tem apenas quatro anos de existência.

Mianmar pode se tornar uma grande nação no futebol asiático, pois conta com jogadores determinados que buscam vencer , treinam muito e jogam com raça e o coração. Com o passar dos anos e a evolução tática, Mianmar vai surpreender muito time na naquele continente, mas ainda precisa trabalhar e investir muito na estrutura de clubes e profissionais que possam contribuir para o crescimento do futebol.
 


 

 

Universidade do Futebol – Vários profissionais brasileiros vão para o exterior não têm sucesso e retornam para o país natal. Como foi a receptividade e como você fez para contornar a resistência até que as pessoas conhecessem o seu trabalho?

Ricardo Paraventi – Olha, a receptividade foi ótima e não tenho do que reclamar. A resistência foi mínima, pois onde não tem nada, o pouco que se faz é tudo e no caso foi assim.

Claro que se questionam algumas coisas, mas como profissional você tem que através do trabalho e, claro, dos resultados, mostrar e provar a importância do que vem sendo feito e realizado na preparação dos atletas e na organização geral do clube. Isso te dá credibilidade.

O trabalho prova e mostra por que você está ali naquele momento: a oportunidade aparece e se você está preparado vai agarrá-la.

O relacionamento interpessoal é importante, respeitar a cultura do outro país também, assim como saber lidar com situações adversas de maneira que o clube saia vencedor e que todos os envolvidos se sintam vencedores e parte do todo.

“O relacionamento interpessoal é importante, respeitar a cultura do outro país também, assim como saber lidar com situações adversas”, crê Paraventi

 

 

Universidade do Futebol – Nos seus cursos de graduação e pós-graduação no Brasil, você conseguiu as ferramentas necessárias para a parte prática das suas funções, ou você precisou adequar-se a algumas situações e aprender outras no exterior?

Ricardo Paraventi – A minha formação acadêmica foi ótima. Contei com ótimos professores, que sempre incentivaram a ler e buscar ferramentas para poder crescer, não me fixei apenas no futebol.

Gosto de esportes em geral, então toda modalidade sempre foi importante para mim e todas as matérias ainda mais: basquete, vôlei, handebol, ginástica, recreação e o judô foram as matérias que me deram subsídios e me ajudaram a formar minha metodologia de trabalho.

Claro que as outras são tão importantes quanto, na parte da fisiologia humana e do treinamento esportivo.

A teoria é importantíssima, mas a prática sempre te mostra diferentes caminhos: você tem que estar sempre se adaptando a diferentes situações, ainda mais quando se fala outra língua, vivendo outra cultura, outros costumes.

Muita coisa muda e não dá para chegar e aplicar tudo como se aprendeu na universidade, ou como se faz no Brasil, por exemplo. O ideal é primeiro aprender e entender como funciona o país e, devagar, aplicar seus métodos.

Por isso você sempre está também aprendendo e se adaptando a situações e adequando o trabalho ao que não pode ser alterado por questões culturais: você tem que entender como funciona a história do clube, as pessoas que ali estão, e estar preparado para mudanças e adaptações ao novo sistema a diferentes culturas.

 

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Universidade do Futebol – Há muitas diferenças em relação à cultura na preparação desportiva dos jogadores de futebol em Mianmar e na Holanda? E em relação às avaliações físicas, como isso é trabalhado?

Ricardo Paraventi – Mianmar está passando por um processo de reconstrução política. O país tem a educação voltada para o sistema inglês e a religião budista e a formação esportiva fica a cargo da rua.

Não vi muito incentivo ao esporte e à iniciação esportiva geral. Posso até dizer que quase como no Brasil, jogadores que têm qualidade surgem nas ruas e nos campos de pelada.

Já na Holanda, tudo é muito diferente: o incentivo ao esporte vem desde o berço, até mesmo porque o desenvolvimento de corpo e mente devem seguir paralelamente.

Aqui, a atividade externa recreativa é introduzida desde a infância, quando as crianças vivenciam várias modalidades esportivas nas escolas e fora dela, para quando atingirem uma idade avançada – e se for detectado um talento ou qualidade física privilegiada já destacado para outro nível – se direcionar para a especialização seja qual for a modalidade.

Em Mianmar, pouco se faz ou se fez com avaliações físicas. Eu realizei algumas que considero importantes, como o Soccer Test, o Rast Test, a antropometria, o salto horizontal, a corrida com mudança de direção, etc.

O importante é você ter referências para comparar dados, como também saber avaliar as condições em que foram realizados cada teste.

Na Holanda, se realizam tais testes. A diferença é que aqui tudo fica a cargo do fisiologista e é tudo eletrônico. Em Mianmar, tudo era realizado por um mesmo profissional e de modo manual.

Treinador brasileiro revela que Mianmar está passando por um processo de reconstrução política e dificuldades se refletem na estrutura esportiva

 

 

Universidade do Futebol – De que maneira definiria sua metodologia de treinamento?

Ricardo Paraventi – Definiria como específica da modalidade. Utilizar outras atividades ou treinamentos que dão suporte ao esporte principal em questão, o futebol no caso. Preparar para o jogo, jogando.

Nas categorias de base se faz ainda mais importante: o jogo e o desenvolvimento geral corporal para um melhor aproveitamento de todas as capacidades físicas que são necessárias para a prática esportiva.

No alto nível, você controla todas as atividades adjacentes, ou seja, é claro que se faz necessário uma base de força para um melhor rendimento, a fim de evitar e prevenir lesões.

A preparação física é necessária e imprescindível no alto nível. Com isso, a metodologia deve ser voltada para o jogo: não jogar por jogar, mas se deve criar objetivos e metas dentro de sua metodologia e através dos jogos atingir as metas e objetivos, sejam eles táticos, técnicos, físicos ou até psicológicos.

Universidade do Futebol – E sua visão sobre a formação de jogadores de futebol?

Ricardo Paraventi – Como comentei, hoje, com a experiência que tive no decorrer dos anos e hoje aqui na Holanda, tenho certeza de que não apenas o jogador de futebol, mas todo e qualquer atleta começa a ser formado nas escolas e centros esportivos, depois se direciona para modalidade especifica, com 10 anos para frente.

Não que não se deva praticar futebol como esporte desde cedo, mas que a vivência geral corporal para crianças dará para todo o atleta uma maior possibilidade de movimentos e tomadas de decisões se tiver uma vivência motora mais ampla.

As categorias de base dos clubes se fazem o momento mais importante na formação não só do jogador de futebol, mas como do homem. Isso não pode ficar de lado: a formação acadêmica tem de estar paralela para que o jogador também consiga acompanhar as palestras e explicações dos treinadores.

Um bom nível escolar ajudará também na adaptação em outros países em outras culturas, e principalmente no entendimento do jogo.

Cada idade ou categoria apresenta uma determinada fase na vida e na formação do jogador de futebol e isso deve ser respeitado e utilizado como ferramenta para o crescimento e evolução do mesmo, sendo que nem todos aqueles que estão ou fazem parte de uma categoria de base de um clube vão se tornar jogadores de futebol profissionais.

Assim sendo, poderão seguir sua vida sem ter perdido tempo, apenas vivendo a cultura das arquibancadas ou alojamentos. A formação do atleta de futebol é a formação do homem também e de sua personalidade. Devemos seguir e acompanhar o crescimento biológico de cada um e respeitar as fases e em cada uma delas aplicar ou inserir o que se vai tirar mais proveito durante a mesma.

A formação de jogador de futebol deve ser geral e específica, sempre respeitando as faixa etárias e de crescimento e desenvolvimento biológico de cada um.

 


 

 

Universidade do Futebol – Qual é a ideia que os habitantes de Mianmar têm sobre os brasileiros como profissionais? E na Holanda?

Ricardo Paraventi – Em Mianmar, eles gostam muito dos brasileiros, embora tenham uma forte influência do futebol inglês.

Os profissionais brasileiros e jogadores que passaram ou estão por lá realizaram um ótimo trabalho. Como eles não tinham uma visão de clube, muita coisa nova e diferente foi implementada e ainda tem que ser modificada.

Já aqui na Holanda a visão é que somos o “país do futebol”, tamanho o número de jogadores e profissionais da área de treinamento que são respeitados e vistos como bons.

Claro que aqui eles têm muito também para ensinar a nós e a troca é constante. Os gestores de campo precisam apresentar um ótimo currículo ou um ótimo trabalho para conseguir espaço no mercado europeu, haja vista que a Europa está em crise.

Universidade do Futebol – Qual a importância de um treinamento que procure integrar as diversas necessidades do jogador, tanto na parte técnica, tática, como no condicionamento físico e no preparo mental?

Ricardo Paraventi – Primordial. Aqui na Holanda se presa muito a parte mental. Como disse, tudo anda junto, e não dá para ser apenas técnico, ou tático, ou físico, ou mental: o atleta profissional de futebol tem que ter todas as capacidades desenvolvidas ao máximo, mesmo que uma se sobressaia à outra.

Quanto mais integradas forem as capacidades, melhor vai ser o rendimento do jogador. Temos muitos exemplos de jogadores que tinham capacidades físicas, técnicas e táticas boas e pecavam na hora de se controlar emocionalmente no grupo.

E assim funciona do outro lado: jogadores que são inteligentes, tomam decisões certas, encurtam espaços, usam muito mais a razão do que a emoção para a tomada de decisão e têm bom relacionamento com o grupo, mas são considerados lentos, não tão bons tecnicamente, etc.

Não que um seja melhor que outro, e sim que todas as áreas devem ser trabalhadas em conjunto e discutidas pela comissão técnica e pelos dirigentes.

 

 

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Universidade do Futebol – Qual é a importância da pedagogia de rua para o desenvolvimento de talentos?

Ricardo Paraventi – A pedagogia de rua para formação de talentos no meu tempo poderia dizer que era correr, pular, brincar, jogar, tudo na rua.

Desenvolvem-se capacidades físicas básicas e forma-se um pouco da personalidade do jogador de futebol naquele ambiente, com criatividade e o ato de fazer o inesperado, surpreender o adversário.

Vejo assim a importância dela, mas acredito que a formação de um atleta de futebol hoje vai muito mais além.

Universidade do Futebol – Para você, qual é o grande papel e o significado de um treinador de categoria de base?

Ricardo Paraventi – O treinador das categorias de base deve passar o maior número de informações necessárias ao futuro jogador, fazer com que ele esteja preparado ao chegar no profissional para todas as situações, principalmente conhecimento do jogo, posicionamento, movimentação, trabalho em equipe, comportamento.

Ele vai prepará-lo como um todo, para que quando chegue o momento ideal, o jogador se sinta preparado e seguro para enfrentar diferentes situações, sejam elas dentro do campo ou fora dele.

O treinador deve ser altamente capacitado e estar rodeado de profissionais de outras áreas. Se isso não for possível , este terá a missão de cuidar de fatores extra campo, como psicológico e social.

Ainda assim, deverá respeitar e seguir o crescimento e desenvolvimento fisiológico de cada atleta, dando a oportunidade na hora certa e fazendo com que nenhuma etapa seja queimada, prejudicando o atleta no futuro. A grande missão é lapidar e preparar o novo jogador de futebol.
 

 

 

Confira especial da Universidade do Futebol sobre trabalho desenvolvido nas categorias de base dos clubes brasileiros
 

 

 

Universidade do Futebol – Xavi Hernández, considerado “um cérebro” do futebol europeu nos últimos tempos, tem uma frase: “No soy fuerte, ni rápido, ni habilidoso, soy un jugador muy de la calle. Simbolizo el juego de equipo, por eso me eligieron el mejor de la Eurocopa”. Que avaliação você faz dela?

Ricardo Paraventi – O Xavi tem uma técnica apurada e uma visão de jogo muito boa, e o que ele diz é muito importante.

Há o ditado “uma andorinha só não faz verão’’: o que difere às vezes o grande jogador do craque é a humildade das suas próprias palavras.

Isso não vale apenas para o Barcelona e para o Xavi. O futebol espanhol de um modo geral vem nos ensinando a importância do trabalho em equipe, do jogo coletivo.

Não se vê uma estrela, e sim uma constelação. Claro que se levarmos para nossa realidade fica um pouco complicado, mas brinco e debato com meus amigos: o Zinho era considerado por muitos um jogador que só enrolava com a bola, o chamavam de “enceradeira”, etc. Tenho certeza de que ele jogaria no Barcelona de hoje, pela capacidade técnica e inteligência que tinha como jogador.

Nós, no Brasil, temos que ampliar nossos horizontes e valorizar o trabalho em conjunto, a equipe. Temos craques que desequilibram, mas nenhum deles ganha jogo sozinho: a bola precisa chegar no ataque de alguma forma e não se pode tomar gol.

O conjunto, a entidade, está na frente de qualquer estrela. O que vai fazê-la brilhar são as outras que a acompanham.

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Sobre Universidade do Futebol

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