Universidade do Futebol

Entrevistas

02/09/2005

Rinaldo Martorelli, presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais

Rinaldo Martorelli comanda o Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo há 13 anos. Nem o presidente Franklin Delano Roosevelt permaneceu tanto tempo sendo eleito nos Estados Unidos na década de 40. No caso de Martorelli, sua permanência ficou facilitada por um motivo: sempre se elegeu sem chapas concorrentes.

 

“Entendo essa dificuldade do jogador em ingressar no Sindicato e disputar eleições. Trata-se de uma profissão que exige dele o tempo inteiro de dedicação, fica difícil encontrar tempo para esses debates”, diz o ex-goleiro, de 43 anos. Ele admite, entretanto, que pretende continuar no cargo.

 

“Neste período acompanhei de perto uma transformação enorme no futebol, fui um privilegiado e passei a conhecer bem essa área. Não é cair de pára-quedas e assumir tudo isso aqui facilmente”, diz o sindicalista, que também é vice-presidente da Federação Nacional de Jogadores e agora se tornou membro titular do Comitê de Litígios da Fifa, órgão máximo na Justiça Desportiva para sentenciar disputas entre clubes de futebol e jogadores .

 

Cidade do Futebol – Como você foi escolhido para o comitê da Fifa?

Rinaldo Martorelli – Até agora eu já atuava nessa área, mas como membro suplente. Agora me tornei titular, por indicação FIFpro (Federação Internacional dos Futebolistas Profissionais), que é o sindicato mundial da categoria, cuja sede é na Holanda.

 

Cidade do Futebol – Como é essa relação entre os representantes dos jogadores e a Fifa?

Martorelli – Estamos basicamente tentando padronizar os procedimentos em relação a transferências e litígios no mundo todo. Em cada país há uma legislação diferente e é preciso ter uma coerência na análise e resolução dos casos.

 

Cidade do Futebol – De que maneira isso pode ser feito?

Martorelli – Cada país tem uma legislação federal a ser respeitada. A Fifa tem orientado as confederações a terem cuidado para que os casos não sejam encaminhados à Justiça Comum, mas também diz que, caso isso ocorra, que os clubes e confederações acatem as decisões da Justiça Comum em relação a transferências e litígios de atletas. A Fifa recomenda que cada federação nacional tenha uma Câmara Arbitral para resolver problemas entre clubes e atletas, seguindo as diretrizes de do Comitê de Resolução de Litígios da Fifa. Isso ajudaria a padronizar certas soluções básicas, evitando muitos problemas.

 

Cidade do Futebol – A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está nesse caminho?

Martorelli – O que a CBF tem é apenas para inglês ver, não funciona. A CBF tem essa Câmara, mas sem legitimidade, formada por membros indicados por ela.

 

Cidade do Futebol – Como único membro sul-americano neste comitê, qual será sua missão?

Martorelli – Os jogadores sul-americanos e africanos geralmente são mal amparados no comitê. Com um trabalho mais efetivo vou tentar trazer mais proteção para esses jogadores e dar mais informações a clubes e atletas brasileiros antes de certas transferências. Na Tunísia, por exemplo, há indícios de que os clubes estão retendo os passaportes dos jogadores, que se tornam reféns. Isso é inadmissível. Vamos apurar, levar o caso à Fifa – para que esta aplique sanções – e também sugerir que os jogadores evitem se transferir para lá, caso a situação prevaleça em um longo prazo.

 

Cidade do Futebol – Qual a postura do sindicato em relação a essa onda de transferências de jogadores brasileiros para o exterior, em meio ao campeonato brasileiro?

Martorelli – Vemos essa situação com muita cautela. Como representante do sindicato, tenho a opinião de que o jogador deve permanecer o campeonato inteiro no clube. Mas há antecedentes. O jogador tem a segurança de que os contratos serão cumpridos e seus direitos serão garantidos pelo clube? Não. O Atlético-MG, por exemplo, perdeu jogos seguidos e já dispensou uma leva de atletas. Há um caso no clube que não recebe salários e o que tem direito há sete meses. Não tem como falar para um atleta não aceitar uma proposta em uma estrutura tão desarrumada, na qual ele não tem garantias de que será respeitado como profissional.

 

Cidade do Futebol – O que deve ser feito para que os clubes se organizem dentro do campeonato?

Martorelli – Falta o Brasil definir qual o seu modelo de futebol, sem hipocrisia. Se é um modelo para manter seus atletas aqui ou se é um modelo exportador. Os dirigentes falam uma coisa e fazem outra. Dizem que não querem negociar seus jogadores, depois negociam e argumentam que não tinham alternativas. Esse papel regulador deveria ser executado pela CBF.

 

Cidade do Futebol – Qual seria a vantagem de ser exportador?

Martorelli – Acabariam as distorções nos discursos. Nos últimos anos, uma fortuna foi injetada na economia brasileira com a negociação de jogadores. Para a economia é boa essa entrada de recursos, assim como para a balança comercial, para o superávit do país. Há um envolvimento geral do futebol com a economia mundial, e para o Brasil fica difícil concorrer com moedas como o euro. Hoje os jogadores são mal-tratados, não recebem em dia, não têm garantias, como dá para falar para eles não aceitarem propostas?

 

Cidade do Futebol – E se a escolha fosse manter os principais jogadores no Brasil?

Martorelli – Neste caso teria de haver uma reestruturação geral no modelo brasileiro, na relação dos clubes com os jogadores. Os clubes precisariam acima de tudo quebrar resistências contra sanções esportivas em caso de descumprimento de contratos com atletas. Com uma Câmara Arbitral isso é viável. A punição da Justiça Trabalhista é feita por meio da penhora de patrimônio. Muitos clubes nem têm patrimônio, outros camuflam. Então o jeito é tirá-los de jogos e competições, aí sim seria uma punição adequada. Deveria ser tomada uma série de medidas para que o clube fique preso ao cumprimento do contrato, assim como o atleta, para que ele também não tenha interesse de sair.

 

Cidade do Futebol – Na Europa há uma maior estabilidade no vínculo do clube com o jogador?

Martorelli – Sim, gosto do modelo espanhol. Lá há o contrato coletivo de trabalho, que dá garantias e impede que o atleta saia aleatoriamente do clube. Esse contrato coletivo teve origem na convenção coletiva de trabalho, que cria regras e essas se tornam leis, com conceitos gerais que estabelecem a relação entre clube e jogador. Claro que cada um tem seu contrato específico, mas essas linhas gerais não podem ser desobedecidas. Sou um defensor de que a convenção coletiva seja implementada no Brasil, mas há resistência dos dirigentes. Então pergunto: os dirigentes ingleses, espanhóis, argentinos, italianos são burros? Esse procedimento é adotado nos países deles e dá certo.

 

02/09/05

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