Universidade do Futebol

Entrevistas

07/02/2014

Roberto Volpato, goleiro da Ponte Preta

A vida escolar de Roberto Volpato Neto não era das mais exemplares. Acordar e ter de ir cumprir com os afazeres a que todos os jovens são submetidos era um fardo para o garoto natural de Orleans, município conhecido como a “capital da cultura” de Santa Catarina. O dom estava nas mãos. De um atleta, ainda amador, que se sentia à vontade para evitar gols: seja nas quadras de futsal, nas aulas de handebol ou defendendo times de campo.

“Quando a gente começa, você traça alguns objetivos, que são os pontos onde você quer chegar. Alguns eu conquistei, outros não. Mas o natural aconteceu devido a muito trabalho. Sempre procurei ser profissional ao extremo”, reitera o hoje goleiro e capitão da Ponte Preta.

Aos 34 anos, Roberto deu os primeiros passos no Estado natal, formado nas categorias de base do Criciúma. A primeira oportunidade no grupo principal foi em 1999, ano em que ele ingressava na faculdade de Educação Física da Unesc, tradicional instituição de ensino superior catarinense. O prazer com que defendia as cores do Tigre, relação que se estendeu até 2002, era semelhante ao compromisso na cadeira universitária.

“Comecei a faculdade em 2000, logo depois do Ensino Médio. Não comecei a cursar antes, porque depois de deixar tudo pronto para me inscrever, estava disputando a Taça BH pelo Criciúma. E uma determinada pessoa não foi fazer a minha inscrição, conforme eu tinha pedido”, relembra Roberto, em um tom, hoje, bem menos indignado.

O jogador cursou algumas disciplinas no Rio de Janeiro, à época em que atuou pelo Vasco da Gama, entre 2005 e 2008, e também à distância, na própria Unesc. Ele veio a se formar depois de oito anos, muito por conta das idas e vindas no mundo da bola.

“Foi muito difícil. Chegava na faculdade atrasado, mas minha vida acadêmica, diferentemente da vida escolar, foi de muito prazer. Ia porque gostava de aprender sobre as matérias e elas me fascinavam”, afirma Roberto, que acumulou algumas recuperações por conta de faltas.

“Eu estudava, mesmo, e fazia as provas com propriedade. Valeu muito a pena e isso me ajuda até hoje. Só não fiz a pós-graduação porque o tempo não permite”, assegura.

Tempo. Algo que Roberto costuma contemplar de maneira direta e precisa. Seja no trabalho árduo na equipe campineira, superando obstáculos, seja construindo uma solidez financeira ao lado de sua esposa Mônica, que o acompanha desde os anos em Portugal – o camisa 1 pontepretano defendeu o Moreirense e o Vitória de Setúbal. Fora das quatro linhas, a atuação também é de um líder.

“Eu procuro, além de defender os interesses do meu clube, voltar o meu olhar para o lado social. Não sofro represália porque quando emito minha opinião, procuro discernir bem as coisas e observar as necessidades da sociedade. Sei o que é bom pra mim e o que é bom para a população. Sou um atleta profissional, mas antes sou um cidadão”, assegura o representante da Ponte Preta no Bom Senso FC.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, o goleiro fala sobre a sua carreira e os conselhos que recebeu ao longo dela. Além disso, faz uma cobrança aos dirigentes brasileiros e revela o que o motiva a seguir atuando no ambiente esportivo depois de pendurar as chuteiras.

“O jogador hoje não gosta muito de conselho. Vi clubes que tentaram oferecer profissionais para dar orientação de carreira, mas poucos usufruíam disso. É uma característica do atleta de futebol, e muitos acabam tendo dificuldades. Mas continuar no futebol para quê? Para tentar mudar e melhorar as coisas com as quais eu não concordo”, finaliza.

 


Universidade do Futebol – Você tem um plano de carreira traçado desde o Criciúma, onde você deu os primeiros passos, até hoje?

Roberto Volpato – Quando a gente começa, você traça alguns objetivos, que são os pontos onde você quer chegar. Alguns eu conquistei, outros não. Mas o natural aconteceu devido a muito trabalho. Sempre procurei ser profissional ao extremo.

Primeiramente, tinha como alvo ser profissional no Criciúma, ser capitão da equipe e campeão. Conquistei. Outro era jogar em um grande clube europeu. Não cheguei a defender uma grande camisa, mas atuei por lá e estive muito próximo disso.

No Brasil, atuei pelo Vasco da Gama, que é um clube no cenário nacional pertencente à elite. Tinha o objetivo de conquistar títulos lá, mas fiquei com um vice-campeonato da Copa do Brasil, apenas.

Tive reconhecimento nacional, não mundial. Mas me sinto recompensado ao fazer um balanço.

Quase cheguei à seleção brasileira em 2005, minha convocação chegou a ser cogitada, mas não concretizei este sonho.

Um título internacional quase veio agora, pela Ponte, com a Copa Sul-Americana, mas vou seguindo em frente.

 

 

Universidade do Futebol – E como foram seus primeiros passos? Passou pelo futsal, chegou a atuar por algum clube amador? Sempre pensou em ser goleiro profissional?

Roberto Volpato – Tenho certeza de que Deus apontou para mim e disse que eu ia ser goleiro. Na época de colégio, fui goleiro de futsal, handebol, e depois em time de futebol de campo. Meu pai trabalhou em um banco, e eu cheguei a jogar pelo time dos amigos dele. Sempre disputei campeonatos deste tipo e nunca me vi longe desta função.

Universidade do Futebol – A metodologia de trabalho desenvolvida pelos grandes clubes portugueses é muito exaltada. Como foi a sua experiência por lá – você esteve em Portugal entre os anos de 2002 e 2004, e depois entre 2010 e 2011 – e o que você agregou para a sua carreira?

Roberto Volpato – O profissionalismo de lá é muito forte. Há uma cultura de se trabalhar no limite, sempre. Lá, o treino é intenso e, ao ser finalizado, não era estendido. A semana era bem trabalhada, com objetivos muito claros, e isso se refletia no jogo.

Atuei no Moreirense, que não tinha muitos recursos, e no Vitória de Setúbal, um pouco maior, e os atletas buscavam sempre melhorar as suas condições, debatendo o método de treino. Isso era possível porque se jogava domingo e domingo, a não ser quando houvesse um outro torneio no meio de semana.

O condicionamento era bem feito e muitas valências eram bem trabalhadas por conta do tempo ideal para isso. Bem diferente do brasil.

For a isso, eles têm um hábito de tabagismo, que aqui não existe.


 

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Universidade do Futebol – E como foi a sua relação com a cultura geral do país?

Roberto Volpato – A primeira vez que fui, tinha 21, 22 anos, namorava a Mônica, que é minha esposa de hoje. Eu por mim estaria morando até hoje lá. Alguns problemas de negociação é que não permitiram que eu ficasse por lá. Tinha contrato com o Criciúma, e o presidente pediu valores exorbitantes para me liberar.

Fui em 2002, retornei ao Brasil em 2003. Em 2004 voltei pro Vitória de Setúbal, por meia temporada – eles tinham interesse em ficar comigo, mas alguns problemas de ordem financeira impediram.

Em 2010, já casado e com uma filha, morei lá de novo. Minha esposa e eu estávamos muito bem ambientados e eu queria criar minha filha por lá. Não pude concretizar isso, mas a comida era boa, a estrutura era boa e a liga, bem organizada.
 


Hoje ídolo da Ponte Preta, Roberto relembra com carinho passagem por Portugal e enaltece as condições de trabalho

 

Universidade do Futebol – Observamos algumas situações conflituosas entre dirigentes e jogadores no Brasil, mas também na Europa. Como você observou o caso do Racing, cujos atletas entraram em greve por conta de um atraso de salários no futebol espanhol?

Roberto Volpato – Na Colômbia, já houve. Na Itália e na Argentina, também. O que o Bom Senso FC está querendo é algo que em outros locais já ocorreu. O mundo do futebol clama por isso.

Existem dirigentes que simplesmente contratam atletas sabendo que não vão pagar. Contratam por três meses, não pagam, o campeonato tem quatro meses, e quando você for reivindicar, o compromisso já acabou e cabe entrar na Justiça.

Li recentemente a declaração do ex-diretor de uma equipe: “quando eu quero limpar o elenco, eu simplesmente atraso o salário”. Isso é grave, muitíssimo grave. Fala-se que o atleta é mercenário, é isso, é aquilo. Se um dirigente revela algo deste tipo, manda o atleta embora, e sabe que ele vai lutar para receber o que é de direito dele daqui a cinco, seis anos, e este dirigente não vai ter de arcar com as consequências, é porque estamos no caminho errado.

A Ponte Preta faz de tudo para pagar o salário em dia. Se ela arrecada um milhão, ela vai fazer de tudo para não ultrapassar esta receita. E, consequentemente, não vai contratar jogadores de uma qualidade maior, que muitas vezes ganham mais, para não estourar o orçamento.

Em contrapartida, outras equipes têm o mesmo milhão de receita, e contratam atletas ganhando uma fortuna. Eventualmente, um título ou um acesso aparecem, mesmo com dívidas. E o torcedor começa a cobrar o dirigente da sua equipe, que procura fazer um trabalho correto.

Eles não querem saber se você está honrando com os compromissos com os funcionários. Eles querem títulos. É uma inversão total de valores, como quase tudo que acontece no Brasil.

Eu tenho ações na Justiça de 2009, e somente agora em 2013 que começaram a ser executadas, para eu entrar na fila de pagamentos e receber daqui a três, quatro anos. O investimento que eu faria para o fim de carreira, há oito anos, com a alta do mercado e o que eu paguei para o advogado, virou nada. É uma perda para o atleta. O mês não pode ter 90 dias.

 

 

Universidade do Futebol – Nos clubes pelos quais você passou, houve algum tipo de amparo, orientação financeira, para você gerir seus rendimentos? Ou isso é algo muito próprio do jogador?

Roberto Volpato – Sempre peguei a experiência de pessoas mais velhas e que me orientaram. “Futebol é mentira. Compra apartamento, carro é ilusão”. Sempre procurei filtrar esse tipo de informação para chegar no fim de carreira em uma situação confortável.

Não consigo entender atletas que jogaram em alto nível por uma década, ganhando em média 100 mil reais por mês, e passando dificuldade hoje, morando em casa de amigo.

O pessoal na Ponte Preta olha o meu carro hoje e pensa que é de funcionário do clube. Não estou nem aí para isso. Alguns até riem, fazem brincadeira. Mas na minha casa tem todo o conforto de que minha família precisa. E é isso que me importa.

O Renato Gaúcho falou certa vez que guardava 50% do salário dele, 30% iam para a família, e 20% para o luxo: festa, carros, etc. Destes 20%, o que sobrava, ele ainda guardava. Gravei isso e fui pelo mesmo rumo.

A verdade é que o jogador hoje não gosta muito de conselho. Vi clubes que tentaram oferecer profissionais para dar orientação de carreira, mas poucos usufruíam disso. É uma característica do atleta de futebol, e muitos acabam tendo dificuldades.
 


"Desapegado", Roberto valoriza planejamento familiar e segurança financeira: "O pessoal na Ponte Preta olha o meu carro hoje e pensa que é de funcionário do clube", diz

 

Universidade do Futebol – O fato de você ser um jogador que se posiciona sobre os mais variados assuntos, e representar a Ponte Preta no movimento Bom Senso FC, te causou algum tipo de prejuízo?

Roberto Volpato – Até agora, não sofri nada. A Ponte apoia, a diretoria apoia, mantenho sempre contato com eles e dialogamos sobre as bandeiras levantadas pelo Bom Senso. A ideia é tentar conseguir alcançar os objetivos conjuntamente.

Eu procuro, além de defender os interesses do meu clube, voltar o meu olhar para o lado social. Não sofro represália porque quando emito minha opinião, procuro discernir bem as coisas e observar as necessidades da sociedade. Sei o que é bom pra mim e o que é bom para a população. Sou um atleta profissional, mas antes sou um cidadão.

É inviável ter jogo de futebol às dez horas da noite. Se o interesse é que as pessoas assistam pela televisão, ok. Mas diante das nossas condições de transporte público e segurança, é inviável, sim, ir a uma partida de futebol neste horário.

Chegar em casa às duas da manhã e ir trabalhar no dia seguinte? Parece que tudo é construído para afastar o torcedor do estádio.

Claro que há uma defesa dos interesses da TV, que financia os campeonatos, mas tenho o relato de gente próxima a mim, que reclama disso: primos, amigos, que vão ao estádio e passam por isso. Como eu vou dizer que eles não estão com a razão?

Procuro sempre observar o lado deste público, também. Não fico em cima do muro, mas apenas emito uma opinião se acredito ter base para isso.
 

 

Questão de Bom Senso
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Universidade do Futebol – E qual é a sua relação com as torcidas organizadas?

Roberto Volpato – Uns falam que têm de acabar com elas, já que se trata de um bando de marginal agrupado. Nem todos são.

O que aconteceu no jogo Vasco x Atlético-PR, por exemplo, não pode acontecer jamais. Mas é necessário se detectar quais daqueles envolvidos são ativos nestas organizadas e puni-los individualmente. É necessário um controle maior.

Prezo pela segurança, pelas famílias que frequentam estes ambientes. No Brasil, a punição começa errado desde cima. O cara que vai ao estádio e comete algum ato de violência, como este, deveria durante um ano, a cada jogo do seu clube, se apresentar na delegacia e permanecer por lá durante o período da partida. Sem ouvir, sem ler, nem escutar, como forma de punição.

Feito isso, ele voltaria a frequentar os estádios. Se voltasse a cometer, a pena aumentaria para dois anos. Seria algo mais ríspido e também mais inteligente.

A pessoa que comete o crime hoje é mais beneficiada do que aquela que busca combatê-lo. Inclusive no futebol. E isso que nós temos de mudar. Como atletas e como cidadãos.

Universidade do Futebol – Voltando a falar sobre sua função, na sua avaliação, qual é a principal característica do bom goleiro no futebol atual?

Roberto Volpato – O que eu procuro fazer e acho importante é me aprimorar na questão tática. Observamos o jogo de um local privilegiado, diferentemente de todos os outros e também do treinador, que fica num plano lateral.

Costumo falar aos meus companheiros: se vocês ouvirem e executarem 70% do que eu falo, dada a minha experiência, os gols diminuiriam muito. Às vezes conseguimos ajustar questões de ordem tática de modo imediato, algo que se sobrepõe a alguma função previamente passada pela comissão técnica. Hoje, os goleiros têm de desenvolver isso.

Particularmente sobre o treinamento, e eu cursei Educação Física para buscar melhorar o meu jogo e entendê-lo, a parte de musculação é fundamental na vida útil do goleiro. Este atleta deve ter velocidade, explosão, força e tempo de reação aprimorado.

O goleiro estando bem nestas valências, ele deve pegar a bola. Sempre procurei fazer a defesa segura, e não rebater. O que aumenta o risco, e muitas vezes acabo tendo algumas falhas em virtude disso.

A vontade de treinar também é fundamental. As bolas estão cada vez piores: menos aderência, mais variação, e nós temos de nos adequar o mais rápido possível a esse contexto.

Sempre fui um amante da minha profissão, busquei trabalhar muito, e deixei muitos goleiros tecnicamente superiores a mim para trás por causa dessa minha postura.
 


 O goleiro Roberto e o presidente Márcio Della Volpe exibem a placa de prata recebida na prefeitura em homenagem ao vice-campeonato da Ponte Preta na Copa Sul-Americana

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua ideia depois que encerrar a carreira como atleta profissional?

Roberto Volpato – Sou formado em Educação Física. Gostaria de fazer uma pós-graduação ainda agora, mas falta tempo, mesmo, e as aulas são sempre de fim de semana, quando estou atuando pela Ponte.

Hoje, também, a minha graduação não serviria para eu atuar na área técnica, por exemplo. Estou um pouco desatualizado e precisaria me qualificar.

Meu trabalho de conclusão de curso abordou um comparativo entre o VO2 máximo de atletas das Séries A e B do Campeonato Brasileiro.

Para atuar como preparador de goleiros, ou preparador físico, e montar um plano para a temporada, eu precisaria da ajuda de pessoas que estão na área. Mas continuar no futebol para quê? Apenas se for para tentar mudar e melhorar as coisas com as quais eu não concordo.

Ser treinador de base é algo que me agradaria, também. Trabalhar com jovens seria uma motivação, ou uma escolinha de goleiros. Algumas pessoas falam que eu tenho perfil para ser dirigente. Mas, hoje, não sei. Leques estão se abrindo para mim, mas ainda penso em jogar por mais um bom tempo.

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