Rodrigo Albuquerque, preparador físico do CSA-AL

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“Gostaria que se possível você ressaltasse a minha felicidade em trabalhar em futebol e principalmente ressaltasse o apoio da minha esposa e dos meus filhos, bem como a crença do grupo de atletas em nossos métodos”. Dessa maneira, sintética, Rodrigo Albuquerque finalizou o bate-papo com a Universidade do Futebol. Um sinal da forma como este profissional costuma conduzir suas relações.

Amparado pela família, deu seus primeiros passos no ambiente esportivo. Rodrigo já alimentava o sonho de ser preparador físico, anseio potencializado por volta dos oito anos, quando os outros colegas da mesma faixa etária desejavam marcar gols. O pai deu ânimo, cobrou empenho nos estudos, e o jovem partiu para as salas acadêmicas.

Em 1997, Rodrigo foi aprovado em uma faculdade de Educação Física e no mesmo ano começou a atuar como “preparador físico voluntário” a convite do próprio Seu Casé Albuquerque, que era treinador de uma equipe na qual o irmão também atuava.

“Nesse momento, comecei a me interessar em não fazer apenas o que fazia enquanto atleta, e apenas repetir treino – procurava ler muito, comprar livros de disciplinas que não tinha visto no meu curso, participar de congressos, palestras, simpósios e, principalmente, entrar em contato com os grandes profissionais da área”, relembrou Rodrigo.

Uma das referências é Sandro Sargentim, ex-preparador físico das categorias de base do Corinthians e atual coordenador do curso de pós-graduação em Ciências do Futebol da FMU. Autor de diveras obras, Sargentim costuma analisar as características do futebol a partir dos princípios de individualidade biológica-reversibilidade-sobrecarga e especificidade.

“Entendo que o preparador físico deve realmente estar atualizado quanto à aplicação moderna de métodos de treinamento, porém acredito que o mesmo tenha em sua atuação a ‘especificidade’ como ponto de apoio primordial, evidentemente que seguindo os outros princípios do treinamento desportivo”, justifica Rodrigo, que possui larga experiência no futebol nordestino.

Com passagens por Campinense-PB, Coruripe-AL, Atlética Internacional de Bebedouro-SP, Santo Antônio de Atalaia-AL, CRB-AL, Sociedade Esportiva Sergipe-SE, ASA-AL, Bom Jesus-AL, Maceió-AL e Agrimaq-AL – além de um estágio no Palmeiras-SP e uma experiência na base do Cruzeiro-MG –, Rodrigo crê numa evolução do futebol alagoano, se demonstra gratificado com o fato de consolidar a carreira naquela região e fala sobre aspectos peculiares do trabalho desenvolvido com um clube que não tem um calendário fixo para a temporada.

Universidade do Futebol – Qual a sua formação acadêmica, como ocorreu seu ingresso no ambiente do futebol e a trajetória até chegar ao CSA?

Rodrigo Albuquerque – Sou professor de Educação Física com Licenciatura Plena, graduado no ano de 2001, pela Universidade Federal de Alagoas – UFAL, e pós-graduado em Treinamento Desportivo pelas Faculdades Integradas Jacarepaguá, no ano de 2009.

Meu ingresso no futebol tem uma história muito engraçada. Sempre fui praticante do desporto em categorias menores, e acompanhava junto do meu pai e do meu irmão mais novo os treinamentos das equipes profissionais, já que o saudoso Waldemar Nicolau, preparador físico de referência em meu Estado, era amigo particular da nossa família.

Com 7, 8 anos de idade, acompanhando uns dos trabalhos físicos que o Nicolau fazia, disse: “Pai, quando crescer quero ser preparador físico de futebol”. Percebi que meu pai ficou surpreso, já que nessa idade a maioria das crianças quer ser atleta de futebol. Porém, como sempre me apoiando, o Seu Casé Albuquerque apenas respondeu: “Certo, filho. Estude muito”. Essas palavras nunca foram esquecidas em todo o processo.

Já em uma idade mais avançada, tive que optar em continuar a minha carreira de futebolista ou ingressar na Educação Física de forma acadêmica, querendo realizar meu sonho de criança. Como eu e meu irmão mais novo, Victor Albuquerque, éramos atletas, resolvi no 2° ano de juniores partir para a realização de meu sonho e fazer vestibular para Educação Física.

Em 1997, fui aprovado, e nesse mesmo ano comecei a atuar como “preparador físico voluntário” a convite de meu pai, que era treinador, e ainda tinha meu irmão, que era atleta dessa mesma equipe.

Nesse momento, comecei a me interessar em não fazer apenas o que fazia enquanto atleta, e apenas repetir treino – procurava ler muito, comprar livros de disciplinas que não tinha visto no meu curso, participar de congressos, palestras, simpósios e, principalmente, entrar em contato com os grandes profissionais da área.

Estudava pela manhã, saía da aula, comia uma marmita preparada pela minha mãe Cícera, treinava uma categoria, tinha mais aulas, lanchava e à noite treinava mais duas categorias.

Durante esse processo, conseguimos ganhar algumas competições que historicamente apenas ganhavam os grandes do Estado.

Em 1999, fui convidado pelo treinador Ubirajara Veiga para ser estagiário de preparação física no Centro Sportivo Alagoano, o CSA. Certamente foi o meu primeiro aprendizado em nível de futebol profissional, juntamente com os professores Ivo Secch e Otávio Quadros – naquela temporada o CSA conseguiu ser vice-campeão da Copa Conmebol.

Depois dessa passagem vitoriosa no CSA como estagiário, fui convidado no ano seguinte para coordenar toda a categoria de base e ser preparador físico do sub-20 do Clube de Regatas Brasil, o CRB. Após seis meses no amador e fazendo 3° ano de Educação Física, o presidente do clube me convidou para ser preparador físico principal da equipe que iria disputar a Série B do Campeonato Brasileiro (então Copa João Havelange). Prontamente respondi que sim, e ao chegar em casa, chamei meu pai e minha mãe e disse: “Lembram quando disse que seria preparador físico em futebol? Hoje sou o primeiro preparador do CRB”.

Permaneci no clube até 2001, pedi afastamento, pois precisaria de um período para terminar meu TCC, já que minha prioridade era a formação acadêmica: o calendário do futebol exigia muito e se acompanhasse não conseguiria me formar nesse ano.

Depois de formado, comecei a trabalhar com futebol profissional, conseguindo algumas conquistas importantes em minha caminhada, passando por equipes de várias divisões do país.

 


“Pai, quando crescer quero ser preparador físico de futebol”, disse Rodrigo Albuquerque, logo cedo

 

Universidade do Futebol – O trabalho realizado pelas comissões técnicas do CSA é interdisciplinar? Como se dá a integração entre as diferentes áreas pedagógicas e científicas?

Rodrigo Albuquerque – Sim, apesar de caminhando em passos lentos, estamos procurando exercer em nosso trabalho ações de maneira interdisciplinar, mantendo uma intensidade adequada de permutas de experiências e opiniões calcadas em ciência entre os especialistas e pelo grau de interação real das disciplinas no interior de um mesmo projeto.

Em reuniões semanais, e em conversas diárias, buscamos entrar em um processo de crítica e reflexão, bem como compromisso e responsabilidade nas diversas áreas do saber para melhorar o todo.

Na área científica, além de algumas pesquisas que sempre estamos fazendo em nossa caminhada, após minha chegada no clube, abrimos convênios com as faculdades de Educação Física da região – inserimos estagiários das diversas áreas de atuação, em t
odas as categorias do clube, possibilitando aos mesmos uma interação real entre teoria e prática, além de propiciar a chance de realização de pesquisas cientificas.

Um exemplo é a nossa atuação junto com o departamento médico, na elaboração dos exercícios preventivos de propriocepção e core training a que corriqueiramente os nossos atletas são submetidos.

Estagiários provenientes das faculdades alagoanas foram inseridos em todas as categorias do CSA, possibilitando uma interação real entre teoria e prática

 

Universidade do Futebol – Como você classificaria a estrutura de trabalho (centro de treinamento, departamentos médico e de fisiologia, integração com profissionais ligados às Ciências do Esporte, etc.) no clube? Pode-se dizer que o CSA é uma das grandes forças nordestinas e um emergente em termos nacionais?

Rodrigo Albuquerque – O CSA se tornará um clube centenário ano que vem, possui uma torcida apaixonada e fanática, umas das mais vibrantes do Nordeste, e observo que o clube está se reestruturando.

Fiquei quase 10 anos sem trabalhar aqui, e ao chegar percebi que já há um centro de treinamento que, em se considerando o patamar do Nordeste, está nos padrões dos grandes da região.

Atualmente temos três campos de treinamentos, sendo um oficial e dois menores, alojamentos confortáveis com a possibilidade concentração e moradia para os atletas, nos quais encontramos frigobar, ar condicionado, TV e acesso à internet.

Além disso, há um bom material para treinamento e jogos, uma gama de recursos para a sinalização e execução de treinamentos.

O CSA disponibiliza a seus atletas cinco alimentações por dia e tem convênio com uma das melhores academias do Estado, além de faculdades em que estagiários fazem suas ações práticas e pesquisas calcados em pressupostos teóricos.

Temos um departamento médico atuante e moderno e, como citado anteriormente, trabalhamos de forma interdisciplinar.

Quanto à Fisiologia e à Biomecânica, ainda estamos sem profissionais específicos. Conto com ajuda de especialista da área, como Fedato Filho, Rafael Cavenaghi, Thiago Chinelato e Guilherme Rodrigues, que nos auxiliam quando precisamos de serviços especiais.

O que observamos é uma grande evolução do futebol alagoano e de seus clubes no cenário nacional, e certamente podemos dizer que o CSA está se reestruturando graças a uma ação provida de seu símbolo: união e força.
 


 

Universidade do Futebol – Quais são as peculiaridades de se desenvolver um projeto num clube cujo “ano” é incerto? Digo isso pois a participação na Série D do Campeonato Brasileiro depende de um bom resultado no Campeonato Estadual. Como adequar o planejamento estratégico de suas ações com o grupo de jogadores que deve ser modificado ao longo da temporada?

Rodrigo Albuquerque – Sempre trabalho com o microciclo semestral nesses casos. A nossa competição estadual termina em maio. Depois de 15, 20 dias começa a outra disputa, caso venhamos a nos classificar para a Série D do Nacional – claro que teremos que fazer alguns ajustes no macro, porém não será de tamanho impacto, já que o lastro utilizado durante os meses anteriores nos propicia a adequar cargas, volumes, intensidades e densidades de treinamento, bem como o equilíbrio das capacidades físicas determinantes de acordo com a tabela do torneio.

Sabe-se que é difícil planejar sem saber como será o segundo semestre, diferentemente de equipes que têm o ano “cheio” de competições, mas temos meios e métodos que podem deixar em alto nível a performance dos atletas durante toda a temporada.

Apesar da ausência de um calendário fixo, Rodrigo garante que é possível manter a alta performance dos atletas durante toda a temporada

 

Universidade do Futebol – Como é a sua relação de estruturação de trabalho com o treinador? Como você estrutura o treino?

Rodrigo Albuquerque – Tenho trabalhado com treinadores que têm vários métodos diferentes, uns embasados em algo mais analítico, outros em uma metodologia mais global, alguns de cunho tecnicista, outros integrados, além dos que estão começando a inserir a Periodização Tática como caminho para sua área de atuação. Porém, procuro sempre ter uma relação mútua de respeito com o encaixe da estruturação de trabalho.

Claro que acredito principalmente na aplicação dos princípios científicos do treinamento desportivo. Dentre eles, destaco a especificidade – creio que o treino deve ser o mais específico possível. Acredito em uma linha metodológica de cunho entre o treinamento integrado e a Periodização Tática.
 

 

Bruno Pivetti, preparador físico do Audax São Paulo e autor do livro “Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios”

 

 

Tive em minha carreira grandes mestres em treinamento desportivo, preparação física, fisiologia e futebol. Dentre eles, destaco Anselmo Sbragia, Antônio Carlos Gomes, Sandro Sargentim, Walmir Cruz, Zé Mário Campeiz, Quintiliano Lemos e Fedato Filho. Em cada fase de minha caminhada aprendi muito com esses amigos que sempre estiveram dispostos a tirar dúvidas e possibilitar o meu crescimento e desenvolvimento como profissional e, por consequência, como homem e cidadão.

Assim sendo, venho estruturando meu treino embasado em alguns aspectos, como:

Princípios do Treinamento Desportivo: Individualidade Biológica-Reversibilidade-Sobrecarga e Especificidade (Sargentim, 2010), analisando as características do futebol:

– O futebolista de alto nível realiza um tiro sob intensidade máxima a cada 90 segundos em média;

– Não ultrapassa 2 a 4 segundos, em séries de velocidade (Hoff e Helgerud, 2004);

-Esporte multifatorial, elevado nível em todas as capacidades motoras, principalmente nas envolvidas nas ações decisivas do jogo;

– Força e velocidade apresentam em diversas formas no jogo;

– Esforços decisivos anaeróbio alático com uma pequena participação lática;

– Maior número de ações em velocidade – 5, 10 e 15 metros;

– Aeróbio fundamentalmente nos momentos regenerativos (PEREIRA, 2005);

– Apesar de 85% da energia utilizada no jogo ser oriunda do metabolismo aeróbio, nos momentos mais importantes e decisivos do jogo as ações predominantes ficam sob predominância total do metabolismo anaeróbio (lático e alático) (Margaria e cols, 1996).

Em relação às capacidades físicas determinantes no futebol, acredito que na estruturação do t
reino deve-se conhecer bem os momentos ideais de aplicação dessas capacidades, que são: resistência, força e velocidade, sendo que (Sargentim, 2010) prefere usar as nomenclaturas de resistência específica, força do futebolista com suas manifestações relevantes ao futebol e mobilidade, que seria a união entre velocidade e agilidade.

Sobre os sistemas e fontes energéticas determinantes no futebol, para meio de metodologia, determinamos predominância de sistemas e fontes energéticas a serem aplicadas durante todo o processo de treinamento, respeitando a heterocronismo de recuperação das vias metabólicas e capacidades físicas.

Adotamos (Lambertin F. 2000), autor que subdivide o alático, lático e aeróbio em potência e capacidade, devido a intensidade e tempo do esforço. Assim sendo, adoto uma periodização seguindo esse modelo proposto por Sargentim, 2010:

– Etapa – Básica -PPG – Período Preparatório Geral
– Etapa – Condicionante – PPE – Período Preparatório Específico
– Etapa – Determinante – PC – Período Competitivo
– Prioriza as manifestações de Força com Mobilidade em cada Etapa e Período (Cargas Complexas).
– Volume e Intensidade tem variação a depender dos Períodos e Etapas durante o Macro.
– Resistência Especifica Trabalhada durante todo ano.

Exemplificando uma periodização de ciclo semestral

Utilizando o principio da sobrecarga ou seja, volume, intensidade e densidade dos treinos, usamos em alguns clubes aparelhos como GPS, Controle de Glicemia, Escala de Borg, dentre outros, que nos auxiliam na aplicabilidade coerente das cargas durante os micro-mesos e macrociclos.

Macrociclo – Série D do Campeonato Brasileiro de 2011

 

Exemplificando o controle do volume treinamento de treinos e jogos. Alagoano 2012- CSA

 

Exemplificando o controle e o relatório diário de treinamento individual do atleta. Crédito a Fedato Esportes LTDA


 

Também usamos os parâmetros dos minutos jogados, como forma de controle e aplicação de treinamentos. Brasileiro Série D 2011


 

Exemplificando a programação semanal de treinamento no período competitivo e etapa determinante


 

Claro que não é via de regra. Geralmente existem mudanças na estruturação do microciclo, a depender de vários fatores, como: recuperação dos atletas, tabela de jogos, necessidades do treinador, dentre outros. Porém, pouco mudamos em relação à crença em nosso método e metodologia.

Universidade do Futebol – Pode-se dizer que o método tecnicista, fortemente arraigado no inconsciente coletivo dos profissionais de futebol, tende a ser abolido?

Rodrigo Albuquerque – Acredito que “abolido” seria uma palavra muito radical, mas é sabido que ultimamente o futebol vem sendo objeto de pesquisa das mais diversas áreas da ciência, para que haja uma evolução, bem como uma modernização eficaz e eficiente referente ao desporto. Porém, tenho como praxe respeitar cada método, mesmo os com que não tenho tanta empatia ao aplicar, já que, em seus momentos, os mesmos eram a “verdade” da época.

Desta forma, busco sempre acompanhar as ferramentas e pesquisas mais atuais, lendo autores de propriedade, com pesquisas confiáveis, fidedignas e com validade conceituadas. Para que, assim, tenhamos a possibilidade de criticar, refletir e inserir ou não em nossa prática métodos mais modernos.

Universidade do Futebol –  Há uma grande dificuldade em compreender como é possível ensinar e aperfeiçoar a técnica dentro do contexto de jogo, ou como se teoriza, ensinar a técnica por meio da ação tática?

Rodrigo Albuquerque –
Pergunta interessante. Quando estamos em um âmbito de futebol profissional, principalmente com jogadores mais experientes, existem os que têm uma facilidade e os que não têm essa mesmo facilidade. Creio eu que devido à escola de formação anterior, onde o analítico era mais enfatizado.

Mas alguns atletas que já têm uma experiência em um método mais global ou com tendências na Periodização Tática, certamente têm maior facilidade nesse processo de ensino-aprendizagem.

Ultimamente, tenho trabalhado com treinadores que estão caminhando para uma linha de interação entre o método integrado e a Periodização Tática, dentre eles destaco Estevam Soares, Laelson Lopes, Elenilson Santos, Flavio Barros, Freitas Nascimento, Ubirajara Veiga, Leston Junior e Círio Quadros.

Atualmente, trabalho com um treinador de larga experiência em escola européia, embasado na Periodização Tática: o Lorival Santos. Constantemente, ele usa o método de ensinar e aperfeiçoar a técnica por meio da tática; salvo alguns casos específicos, grande parte do grupo está assimilando bem.

Os atletas com mais dificuldade têm uma atenção mais individualizada no processo, pois alguns fatores como “queimas de etapas” em categorias de base, aspecto cognitivo quanto ao desgaste durante as sessões de treinamento, dentre outros, devem ser considerados nesse processo.

Rodrigo revela que tem trabalhado com treinadores que estão caminhando para uma linha de interação entre o método integrado e a Periodização Tática

 

Universidade do Futebol – Qual o papel dos jogos reduzidos no desenvolvimento do jogar da sua equipe?

Rodrigo Albuquerque – Procuro um linha de consenso entre o método integrado e a Periodização Tática, buscando o que mais acredito ser enfatizado no treinamento desportivo: o principio da especificidade.

Os jogos reduzidos têm papel fundamental no desenvolvimento de jogar em minha equipe. Dependendo da característica do treino e da capacidade física determinante, juntamente com o treinador, elaboro atividades que tenham como objetivo alcançar os aspectos físicos, técnicos e táticos específicos do Modelo de Jogo adotado.

Sempre respeitando variáveis como regras, presença do goleiro, dimensão do campo, duração e modo do exercício, incentivo verbal, princípios e sub-princípios no caso da ação do treinador, etc.

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Universidade do Futebol – Qual a fronteira entre a participação do preparador físico no amparo psicológico aos atletas, e o trabalho propriamente dito de um profissional específico da área? Você aborda conceitos de auto-ajuda e neurolinguística no trabalho diário do CSA?

Rodrigo Albuquerque – O técnico, o tático e o físico vêm sempre sendo enfatizados quando se fala em treinamento em futebol, porém não podemos esquecer o psicológico.

Aqui no CSA ainda não temos um profissional específico efetivo para a aplicação da neurolinguistica no processo diário de treinamento. Porém, segundo o nossa diretoria, o próximo passo será a aquisição de uma profissional que irá atuar desde as categorias de base até a equipe profissional.

No entanto, enquanto preparador físico e professor de Educação Física, estamos sempre atentos, usufruindo da nossa experiência prática e de conhecimentos adquiridos através de literaturas em psicologia desportiva, livros de auto-ajuda, bem como a utilização de palestras e vídeos motivacionais.

Não podemos esquecer que diálogos e a percepção do dia-a-dia, as  ações, os gestos e as palavras verdadeiras de incentivo para cada atleta, fundamentalmente aos suplentes e aos não solicitados para o jogo, provavelmente irão melhorar todo o processo de ensino-aprendizagem, bem como o ambiente do grupo para que eles trabalhem e se relacionem afetivamente..

A aquisição de um psicólogo é de importância fundamental para a melhora, evolução e desenvolvimento dos aspectos que beneficiam uma ação multidisciplinar e interdisciplinar em um clube profissional de futebol.

 


 

Universidade do Futebol – A adaptação fisiológica que o atleta vai ter será específica da posição, ou a própria característica do jogador para o modelo de jogo do treinador o levará a essas particularidades? E como as capacidades do atleta, de uma forma geral, serão relacionadas à forma coletiva, na aplicação do futebol “formal”?

Rodrigo Albuquerque – A individualidade biológica e as características técnico-táticas de cada atleta são fatores que devem ser considerados para o treinador montar seu Modelo de Jogo no meu entendimento.

Porém, creio que atualmente no Brasil, e particularmente em nosso futebol, o preparador físico deve propiciar aos atletas um treinamento que possibilite o equilíbrio de todas as capacidades físicas determinantes, já que a rotatividade de treinadores é constante nos clubes e se um atleta for adaptado apenas a uma predominância de capacidade, provavelmente existindo uma mudança de direção técnico-tática – e por consequência de Modelo de Jogo –, os jogadores fisiologicamente irão demorar algumas partidas para que haja uma adaptação.

Isso pode acarretar em problemas futuros, desde resultados negativos a prováveis altos índices de lesões devido à falta de aptidão a outras capacidades exigidas no padrão atual.


 

Universidade do Futebol – Qual a funcionalidade prática do scout técnico para o desenvolvimento do trabalho de campo com os atletas de futebol? Você se utiliza dessa prática no CSA?

Rodrigo Albuquerque – Sim. Aqui no CSA, o nosso assistente técnico, Rodrigo Fonseca, usa o scout técnico em treinamentos e jogos e a partir dos resultados obtidos, juntamente com o Lorival Santos, elabora e executa treinamentos específicos enfatizando os pontos positivos – aprimorados-os – e negativos – os quais são corrigidos durante os treinamentos.

Universidade do Futebol – Como jogos recreativos e/ou esportes relacionados ao futebol (como o futevôlei e o futsal, por exemplo) podem auxiliar na preparação física do futebol profissional?

Rodrigo Albuquerque – No CSA, utilizamos o futevôlei, o futetênis, o “Dois e Ataca” (jogo recreativo em que os atletas, dispostos em círculo, controlam a bola no ar em dois toques e devem passar para o atleta seguinte no segundo toque; ou seja, um para dominar e outro para passar a bola com qualquer parte do corpo, exceto a mão, sem poder devolver para quem efetuou o passe), futsal, futevôlei de 6 em quadra, dentre outros jogos recreativos.

Claro que tem um aspecto a ser analisado que são as possibilidades de propiciar aos atletas uma gama de experiências motoras e por consequência melhorar a técnica de movimento. Fatores que devem ser mais evidenciados nos treinamentos das primeiras fases/ciclos da categoria de bases.

No futebol profissional, geralmente fazemos esses trabalhos com uma menor intensidade, já que fogem muito da especificidade do desporto.
Porém, quando usados, são como um prévio aquecimento ou em alguns casos isolados em sessão principal em dias regenerativos, objetivando além dos fatores citados anteriormente, enfatizar o lúdico, ou seja, priorizar o aspecto afetivo social do grupo.


 

Universidade do Futebol – Em se considerando a integração dos trabalhos físicos e táticos aplicados, nessa perspectiva, como você vê a inserção do preparador físico na comissão técnica daqui a alguns anos? Você acredita que existe chance de essa função perder sua aplicação?

Rodrigo Albuquerque – Como respondido em questões anteriores, acredito muito no treino integrado caminhando de mãos dadas com algumas ideias da Periodização Tática.

Tecendo um breve histórico, em 2008, ano em que saí do Cruzeiro, onde era responsável pela preparação física da equipe sub-20, bem como coordenador geral da preparação física de toda categoria de base do clube, retornei aqui para um clube profissional em Alagoas, comecei a inserir treinamentos de força em cadeia cinética fechada; implantei trabalhos de propriocepção e core training, levando bolas suíças para o campo, balanços, camas elásticas, mini bands, dentre outros acessórios para a sessão de treinamento preventivo, e muita vezes fui questionado pelo método. Ouvia comentários de que isso não existia no futebol.

Hoje, meu grande amigo e mestre Sandro Sargentim já tem duas publicações que demostram a importância desses trabalhos de força preventiva, bem como um trabalho que proporcione ao futebolista um lastro de rendimento que suporte todo macro competitivo e um equilíbrio muscular.

Quando falo que acredito no método integrado caminhando de mãos dadas com algumas ideias que norteiam a Periodização Tática é porque não acredito que a função do preparador físico venha a perder sua aplicabilidade.

Ainda acredito no controle das cargas de treinamento, aplicação do volume, intensidade e densidade na sessão, ou seja, a aplicação do principio da sobrecarga já citado.

Entendo que o preparador físico deve realmente estar atualizado quanto à aplicação moderna de métodos de treinamento, porém acredito que o mesmo tenh
a em sua atuação a “especificidade” como ponto de apoio primordial, evidentemente que seguindo os outros princípios do treinamento desportivo.

Nada impede que após um treino de força para o futebolista – especificamente de força preventiva, força explosiva e/ou resistência de força explosiva – haja um treinamento técnico e tático abordando o Modelo de Jogo do treinador. Isso irá certamente elevar o nível de força e velocidade (mobilidade específica) do futebolista e transferir de maneira mais específica possível as ações técnico-táticas objetivadas pelo treinador durante esse processo de ensino-aprendizagem.

Portanto, acredito na extinção do preparador físico que apenas repete por repetir, que usa de meios inespecíficos para calcar suas ações, que adotam modelos ortodoxos e radicais que vão na contramão de métodos modernos.

Leia mais:
Periodização tática e futebol

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