Universidade do Futebol

Entrevistas

24/10/2014

Rodrigo Stempniewski, CEO do Bazar Sports

“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendido”. O leilão é uma modalidade de negociação muito difundida em órgãos públicos e empresas privadas. Administradores e servidores necessitam solucionar de maneira simples e rápida a compra ou venda de bens. No Brasil, o futebol passa a mergulhar nesta seara.

O Bazar Sports é o primeiro portal de leilões de artigos esportivos usados por atletas profissionais de diversas modalidades, do mundo todo. Lá, são reunidos vários produtos que dão a chance de o fã se sentir mais próximo do próprio ídolo. A ideia foi do jornalista Gustavo Henrique de Souza e tem, entre 10 sócios, o ex-jogador Deco – a partir da agência Frog.

“Toda nossa estratégia de comunicação é baseada no produto. Não fizemos propaganda institucional até agora. Nossa propaganda investida ocorre nas próprias peças. E a Frog faz um mapeamento muito interessante dos grupos de interesse no mercado digital”, explica Rodrigo Stempniewski, CEO do site.

Peças como as camisas de Neymar na abertura da Copa do Mundo e de Lahm nos 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil moveram a batida do martelo virtual recentemente. O maior valor arrecadado foi pela camisa de Thiago Silva no jogo contra Camarões: R$ 8 mil.

“Tivemos um início positivo, pois captamos muito material durante a Copa do Mundo”, revela Stempniewski, que se aproximou, pela figura do amigo Gustavo, do roupeiro da CBF, Rogelson Barreto.

“Levamos o projeto a ele, e tivemos um aval positivo. Os jogadores sempre o ajudaram, entregando produtos a ele, etc. E ele enxergou nosso projeto como uma forma de maximizar tudo o que arrecadava com os companheiros, desde chuteiras até camisas”, completa o executivo, que teve uma ligação durante uma década com o vôlei.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, ele fala mais sobre as estratégias de comunicação, a responsabilidade social do projeto e quais os próximos passos da empreitada.


 

Universidade do Futebol – Como se deu o início do projeto e o seu ingresso?

Rodrigo Stempniewski – O projeto nasceu de uma idéia de um dos sócios da agencia, o Gustavo, que é assessor de imprensa, e trabalha com jogadores há muito tempo. Desenvolvemos o Bazar Sports, que tem como foco fazer com que artigos usados por ídolos do esporte pudessem chegar aos fãs.

Ele, pela profissão, sempre teve um bom trânsito nesta área, e procuramos viabilizar tudo. Os leilões surgiram como oportunidade, extrapolamos a esfera do futebol, e atingimos hoje outras modalidades.

Levamos o projeto ao ex-jogador Deco, que gostou muito da proposta. Ele é sócio de uma agência de mídia digital, a Frog, e passou a bola aos sócios dele. O Daniel Davidson, um deles, adorou. Conversamos, e chegamos a um formato. Estamos incubados na Frog, onde toda a parte de tecnologia e design foi desenvolvida.

Formamos esta parceria, e hoje somos seis profissionais atuando nisso. Eu toco o dia a dia do Bazar, e um de nossos companheiros está mergulhado em um processo de captação em Lisboa.
 

 

Camisa de Zuñiga foi vendida por R$ 7 mil, bem acima dos R$ 1 mil pedidos inicialmente

 

 

Universidade do Futebol – Qual foi o “ponto de virada” para o projeto avançar?

Rodrigo Stempniewski – Depois que o site foi pro ar e tivemos uma resposta inicial do público, percebemos que se tratava de algo internacional. Não temos como ficar apenas no Brasil.

Toda nossa estratégia de comunicação é baseada no produto. Não fizemos propaganda institucional até agora. Nossa propaganda investida ocorre nas próprias peças. E a Frog faz um mapeamento muito interessante dos grupos de interesse no mercado digital.

Universidade do Futebol – Poderia explicar melhor?

Rodrigo Stempniewski – Uma camisa, por exemplo, que achamos que tem um público na Europa. Passamos, a partir disso, a fazer a divulgação dela para determinados núcleos especiais. E o próprio andamento do site nos últimos três meses mostra que precisamos captar materiais fora.

A maior parte dos consumidores dentro de nosso site está na China, na Europa. A captação externa já começou e queremos continuar gerando interesse neste mercado.

Universidade do Futebol – Os primeiros passos se deram de que maneira?

Rodrigo Stempniewski – Tivemos um início positivo, pois captamos muito material durante a Copa do Mundo realizada aqui. Essa foi uma parceria que fizemos com o Rogelson Barreto, roupeiro da seleção brasileira durante 20 anos. Levamos o projeto a ele, e tivemos um aval positivo. Os jogadores sempre o ajudaram, entregando produtos a ele, etc. E ele enxergou nosso projeto como uma forma de maximizar tudo o que arrecadava com os companheiros, desde chuteiras até camisas.

O Barreto pegou muita coisa, e nós estabelecemos este vínculo. O site foi lançado no dia 14, logo depois do fim da Copa.

 


Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre a estratégia de comunicação utilizada e a divisão dos lucros.

Rodrigo Stempniewski – Nem fizemos tanta campanha, foi mais no boca a boca, e muita gente chegou a nós. O sarrafo da expectativa acabou levantado, mas queremos mais. Entrar no mercado norte-americano, com outras modalidades.

Temos uma parceria com o atleta da seguinte forma: o valor arrecadado é dividido entre instituição de caridades, Bazar Sports e atleta, dependendo do valor que a peça atinge.

Nós que arcamos com todo custo de operação. O Barreto atua como se fosse um atleta. Nossa relação foi intensa durante a Copa, e depois foi finalizada, já que ele saiu da CBF – e ele pediu para que nem fizéssemos tanto alarde.

Não podíamos, porém, legitimar todos os produtos, pois foi efetivamente ele quem nos entregou as peças – ele se tornou o dono do artigo, a partir do momento em que recebeu de presente dos atletas.

Bazar Spors é pioneiro em leilões de peças usadas por atletas, como a camisa de Kramer, campeão do mundo com a Alemanha

 

Universidade do Futebol – O que são os “grupos de interesse” citados por você?

Rodrigo Stempniewski – Monitoramos redes sociais. Quando a gente fala “grupos de interesse”, temos um mercado de colecionadores, que procura pecas usadas em concessão. Há negociantes de produtos usados por atletas profissionais. Até então, não havia um modelo igual ao nosso que levava a leilão estas peças.

Esse pessoal costuma se falar por alguns canais, trocam informações. E conseguimos mapear isso. Há comunidades de torcedores de algum clube, fã-clubes de determinado atleta, etc.

Uma camisa do Cássio, goleiro do Corinthians, por exemplo, tem como grupo de interesse em potencial qualquer torcedor do clube paulista. Alem disso, fãs-clubes dele é outro potencial consumidor. Vamos à procura de torcedores de equipes anteriores dele, também, etc.

O trabalho da Frog passa por entender e tentar segmentar ao máximo o grupo de pessoas para quem a gente vai se comunicar. E os resultados têm sido positivos.

Universidade do Futebol – Você tem conhecimento de outros projetos parecidos aqui no Brasil? Quais foram os principais referenciais estrangeiros?

Rodrigo Stempniewski – Na verdade, o modelo existe. Não que nem o nosso. Não é cultura no Brasil o leilão. Aquele “leilão centavo”causou uma rasura na imagem por aqui, e quisemos fugir desta linha.

Temos um modelo de negócio em que a compra é totalmente emocional. A pessoa que paga caro por uma camisa, por exemplo, tem uma conexão especial com aquilo.

Há um site lá fora, chamado icons.com, que vende muita coisa, tem parcerias com federações de futebol na Europa, compra diversas camisas de determinado atleta para ele próprio assinar, e depois o produto é revendido com aquele valor agregado…

No Brasil, há um modelo parecido, só que com outra forma de arrecadação.

Mas que nem a dinâmica do Bazar Sports, que procura estabelecer uma parceria com o atleta, acredito que somos os pioneiros.

 

 

Universidade do Futebol – Sobre a responsabilidade social, ela é um dos motes do Bazar Sports?

Rodrigo Stempniewski – Esporte e responsabilidade social são duas coisas completamentares. Não dá pra dissociar uma coisa da outro. O esporte é a melhor maneira para ofertar oportunidade a crianças carentes. Queríamos poder ajudar instituições que tivessem como cunho isso, também.

Encontramos no “Instituto da Criança” algo mais próximo da nossa idéia. Nossa parceria no Brasil é com eles. Indicamos eles às doações. Não se trata de uma obrigação, fica a cargo do atleta, que pode doar a quem ele bem entender.

Nossa objetivo é que uma parte do dinheiro gasto com o Bazar chegue a alguma entidade que precise de um suporte.

 

Gustavo e Rodrigo comemoram sucesso; trabalho da Frog é tentar segmentar grupo de pessoas para quem eles irão se comunicar

 

Universidade do Futebol – Sua relação com o futebol e com a gestão aplicada ao esporte surge onde?

Rodrigo Stempniewski – Há algum tempo que trabalho com marketing esportivo. Sou formado em administração de empresas, tenho pós em mkt, e durante dez anos participei do Unilever Vôlei. Fui uma das pessoas à frente do projeto pela Intersports, que fazia toda a ativação.

Além disso, fiz a gestão executiva do “Rei da Praia”, tive uma relação com a Olympikus. Minha experiência sempre foi voltada pra ativação esportiva, principalmente o voleibol.

Trabalhei para a Rede Globo, para a CBV, mas com a modalidade futebol, havia me envolvido apenas em um projeto no Maracanã para comemorar os 60 anos da Rádio Globo, além de uma participação com a escolinha do Zico – algo bem pontual.

O Bazar Sports é meu primeiro contato com a modalidade exclusivamente. Nossa ferramenta tem se mostrado que ele é o esporte do mundo.

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