Universidade do Futebol

Mauro Beting

07/09/2011

Rogério Ceni, 1000

Você que ainda não tem 18 anos sabe quanto tempo demooooora para chegar à tal da maioridade.

O mundo hoje é mais rápido. Mas ainda assim demora mais do que deveria para você, na teoria, fazer quase tudo que quer. E saber que nem tudo se pode, nem tudo se quer – e nem tudo é preciso querer e poder. Até os 18, a gente quer ter 18. Quando chega lá, quer ficar eternamente com 18. Vida complicada a nossa.

Agora, essa vida imensa que leva até os 18 anos, imagine ficar jogando pelo clube que você ama e é correspondido. Imagine ganhar quase tudo que você jogou. Imagine defender suas três cores e ainda o verde e amarelo campeão mundial. Imagine ser respeitado por tudo que você defende. E ainda marcar de falta e de pênaltis gols. Mais que qualquer outro goleiro na história. Mais gols até que os companheiros tricolores em duas temporadas. Inclusive naquela que você ganhou São Paulo, a América e o mundo, em 2005.

Sei, garoto, que parece a eternidade chegar aos 18 anos. Mas, para poucos, 18 anos jogando pelo clube desde a estreia, em 1993, é realmente uma eternidade. Ser titular há 14 anos de um colosso desse tamanho, uma honra.

Imagine, então, no clube onde você é atleta há 21 anos, ter a felicidade de entrar em campo com 311 companheiros por mil vezes.

Mil jogos.

Você, garoto são-paulino, já sonhou pelo menos um minuto na vida jogar ao menos um segundo no Morumbi ou em qualquer casa com o seu manto sagrado.

Imagine, então, jogar mil vezes com a mesma paixão, intensidade e profissionalismo. Usando a cabeça e o coração que às vezes até se perdeu em polêmicas. Mas poucas vezes perdeu os jogos mais importantes, os títulos mais impressionantes.

Mil. Mas bastaria um jogo para ser especial. Porque ele é um dos caras que fazem essa arte e esse ofício tão especiais. Um cara que bate tantos recordes nos últimos anos que já não tenhos mais palavras e textos para exaltá-lo. E criticá-lo, também, que faz parte do jogo. Mas na história são-paulina, brasileira e mundial, raros fazem tanta parte do jogo quanto Rogério Ceni. Rogério mil. Rogério 01. O Rogério que você quiser numerar. Porque mil elogios e palavras são poucas. Mil jogos, para ele, ainda menos.

Paro por aqui. Porque ele não vai parar aí. Ele não vai conseguir se contentar com tão pouco, digo, com tão muito. Ele é Ceni. Ele é um cara que amanhã fará todo o ritual de preparação para mais um jogo que seria como outro qualquer. Concentração, aquecimento, uniforme, luvas, preleção, subida ao gramado, bola rolando, uma falta (quem sabe?), um gol (só Ele sabe), o apito final.

E Rogério voltará ao vestiário. E o Morumbi irá aguardar o 1001. O 1002. Sabe lá até quando. Só sei que, depois do último jogo, até quem não quer ver Rogério pela frente (e realmente não é nada bom tê-lo como adversário) vai querer olhar para trás e lembrar os bons tempos de tantos primeiros e segundos tempos. Quando na meta tricolor havia um cara que a defendia como poucos. E atacava a meta rival como nenhum outro.

Ainda bem, garotos, que, pelo visto, ainda vai durar a mesma eternidade que leva para a gente completar 18 anos.

Mil felicidades, Rogério.

O futebol merece.

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

 

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